Wednesday, 29 August 2012

Laxmanrao Sardessai - Esperava, Esperava

Eu esperava, esperava ver
Surgir diante dos olhos esfaimados
O prato abundante
E ante os lábios sequiosos
Correr o fio perene
Do leite vitalizante
E cores novas sorrirem
Na face do infante!

Eu esperava, esperava
O pão em fartura ver
Na arca daqueles abençoados
Que venderam os seus ricos quintais
Para alimentaram os desgraçados!

Eu esperava, esperava ver
Os novos se curvarem reverentes
Perante aqueles abnegados
Que ofereceram em holocausto
O conforto dos seus lares

E queimaram nas masmorras
O viço dos seus anos
E sujeitaram às torturas
Os seus corpos delicados
Para conservarem puras
E cintilantes as suas almas
Quando a liberdade raisse!

Resignado, sofri o açoite do dominador
Mas soltei gritos dilacerantes
Quando vi os irmãos de sangue
Dançarem alvoroçados
No palco da escravidão!

Eu esperava, esperava
Que um dia com juros pagariam
Os seus ciúmes os celerados,
Entretidos em encher
A algibeira do graúdo
E reduzir a miséria do mundo!

Eu esperava, esperava
Que um dia pagariam o frango
Os criminosos que à custa do mercado negro
Da sua vida fizeram um deleite
E o mate vermelho humedecido
Com o suor do operário
Converteram em oiro
E arrasando as cabanas
Ornaram de diamantes
Dos lares as deusas!

Eu esperava, esperava
Que punidos seriam
Os malfeitores que com o frio metal
Desfrutaram o calor das belezas alheias
E com a graça orvalhada do Governo
Sazonaram as suas searas
E, cego da opulência,
Tripudiaram sobre a humanidade
E com artes de berloques
Espezinharam os simples!

Derramamos o sangue das nossa veias
Para dar à terra-mãe a cor da vida!
Era sangue vivo ou água incolor
O que se derramou?
Pergunto eu.

Como poderei, com essas mãos
Que tentaram, um dia, derrubar
As muralhas de Aguada
Limpar hoje o calçado nojento
Do governante actual
Com o execrável fito de me locupletar?

O meu verbo cintilante
Desafiou o fio cortante da espada
Que pendia sobre a minha cabeça,
Como poderei com o mesmo verbo
Adular o poder assente
Na glória emprestada?
São de escravos as vossas mãos
Habituadas durante séculos
Às algemas metálicas!
As vossas almas engaioladas
Temem, senhores, ventos livres!
Infelizes, como podereis beber
A fortes goles o azul dos céus?


Um noite de trevas densas,
À luz ofuscante do relâmpago
Eu vi tremeluzir
A imagem do nosso futuro...

Eu esperava, esperava
Que essa visão, tornando-se realidade,
Sorriria, qual querubim célestem
Nos olhos e nos lares,
Nas alfaias do camponês
Nas coroas das palmeiras
E nas ondas do Oceano.



Esperava enfim,

Que a minha Goa

Despertara para a vidam

Acalentando o mesmo sonho

E enfiando as asas do futuro

E bebendo os raios do sol

E penetrando as nuvens da loucura,

Voaria altiva no céu azul

Qual águia vitoriosa.



Thursday, 23 August 2012

Augusto do Rosário Rodrigues - A Lâmpada da Democracia na Ásia (1965)

No âmago das florestas, nas ravinas e desfiladeiros
Os filhos da Índia Mártir, os lídimos pioneiros
Da paz lutam para defender esta pulcra terra
Dos tentáculos peçonhentos do polvo da guerra
Desta brutal agressão acre e dolorosa
Por provir duma nossa própria irmã um tanto maldosa...
Paquistão, quem és tu afinal pobre desvairado
Tu és simplesmente um índio desnacionalizado
Aos caprichos dos nossos últimos dominantes
Que, mais subtis que os pristinos quiromantes
Esfarraparam esta milenária terra secular
Transformando-a num caos estrambótico singular
Onde doces maciças do torpe comunalismo
Deram como resultante o presente cataclismo.
A Índia escrava fiel do seu antigo ideal
Vê tudo por um prisma que abstrai o mal
Arauto da Paz, construtora de jovens nacionalidades
A Pátria de Bharat lutou sempre pelo Bem em todas as idades
Ela que corria célebre apagar lutas de vários povos e gentes
Desgostosa vê na tortura das batalhas seus queridos entes
Lutando como leões numa unidade homogénea de irmãos
Sejam eles hindus, sikhs, budistas, moslems, parses ou cristãos
Pertencendo a raças díspares, credos diversos e língua diferente
Tudo constituiu um amalgama plurifacetado constituindo única frente?
Oh berço dos deuses o teu solo sagrado
É um poema primorosamente ilustrado
Onde cada página deleita o leitor mais caprichoso
Que se enamora loucamente do teu passado donairoso
Tu nunca foste amiga das guerras ó terra idolatrada
Quase sempre trocaste pela paz a gume da espada
Mas quando te afrontam e ferem sem motivo
Nenhum dos teus filhos quer continuar a ser vivo
E engolir uma afronta tamanha. Clamando pela vingança
Ergue-se numa massa o forte, o fraco, o jovem, o velho, a criança!
Camuflando ambições mesquinhas e triviais
Cavaram-se, entre irmãos, ódios sangrentos, fatais
Irmãos porque o sangue ancestralmente indiano.
E contudo no Cutch, Rajastan, e Lahore
Lutas fracticidas semearam o ódio e pavor
Destruindo sem dó nem piedade
As choupanas da aldeia e os Palácios da Cidade.
Hospitais, pontes, estradas e templos religiosos
São o pasto cotidiano desta horda de raivosos
Que em nome de Alah, único e sempiterno
Transformam a vida do próximo num inferno
Descendo como os hunos em famintas alcateias
Para pilhar, matar e estruprar em mansas aldeias
Onde o suave e fraternal credo gandiano
Proíbe a violenta efusão de sangue, a mentira, o engano
E é nestes sítios ermos e mal guarnecidos
Onde os habitantes modestos aldeões esquecidos
Das velhas perfídias, que este nosso irmão esquisito
Na embriaguez dum ódio ciumento de proscrito
Ao abrigo enigmático, doloso do cessar do fogo
Vai consolidando o seu sinistro jogo de aproveitar da nossa cândida seriedade
De acatar ordens e aumentar a velocidade
Os seus ataques tendo sempre em mira
A conquista do velo de oiro o paraíso de Caxemira.
Nesta pretensão injusta não vê que arrasta
O mundo inteiro a uma crise perigosa, nefasta
Em que ódios recalcados com hipocrisia
Mostram a calva ignóbil a luz crua do dia
E a patita dos índios este subcontinente tentador
Cimentado com tanto sangue, lágrimas e dor
Será o palco onde nações de continentes diversos
Mal avindos entre si e professando ideais adversos
Virão cevar seus ódios em território alheio
Que é afinal das contas o profícuo meio
De guardar longe das bélicas calamidades
O seu povo, as suas aldeias, as suas cidades
Mas esta miragem tentadora embriagante
Da Paquistão, que era promessa abiciante
Para nossos falsos amigos das bandas ocidentais
Foi uma das lições que não se olvidam nunca mais
Pois a Índia velho gigante que outrora tem vencido
Nas florestas insondáveis do seu torrão natal
Onde hunos, mongóis, e europeus tiveram um declínio fatal
Sacudiu seus membros possantes anquilosados
Por inúteis austeridades e ruinosos tratados
E com uma fé ardente nos destinos da sua pátria
Ergue-se arrogante, digno como o lendário Chatria
Para defender não somente seu património ancestral,
Mas numa luta sagrada do Bem contra o Mal,
Salvaguardar esta nobre e secular democracia
Contra uma nefasta e ditatorial teocracia
Que tenta arrasar para sempre da Sociedade
Este último Bastião Asiático da Liberdade!

Wednesday, 22 August 2012

RV Pandit - Casa, Minha Casa! (1963)

Que é uma casa?
A casa é...
Um caixão de quatro paredes,
Onde o homem,
Desde que nasceu
Até o último estertor da morte,
Enclausurado fica.

É casa isto?
Não. É uma gaiola...

Um papagaio,
Atreito à sua gaiola,
Não voando em liberdade...

Não voando de ramo a ramo,
De árvore a árvore
De mato a mato...
Não voando para parte alguma,
Girando em volta da gaiola...
Palrando...

Mesmo assim,
Seria
Somente
Um papagaio na gaiola.

Mas... o papagaio
Voa em liberdade
O passado esquecendo,
Se, por acaso, encontra
Aberta a portinha da gaiola...

Mas, o homem...
Desde que nasceu
Até a morte,
Gira somente
Dentro das quatro paredes
Da sua gaiola
Palrando
“Casa... minha casa...”

Até a morte.

Laxmanrao Sardessai - Delícias do Paraíso (1965)

Sou bem-aventurado!
Porque em menos de um ano e meio
Está cumprida a promessa do paraíso!
E agora eu estou a nadar
Nas suas delícias!
O Ministro, coitado, não come arroz
Faz três dias e eu, felizardo,
Faz três meses!
No nosso bairro de vinte casas,
Os beneméritos assaltam cinco
Em três dias!
O B.D.O abre dois poços
Que custam três mil rupias
E da água nem uma gota!
O Mamlatdar assina documentos
E não compreende uma letra sequer!
O mestre da escola abandona as aulas
E visita as casas da aldeia
A ensinar aos pais
“Jajach Pahijê!”
Como, às vezes,
No hotel da cidade
E pago rupia e meia
E quando saio
Vejo que a minha pança
Está ainda vazia!
Um telegrama do meu velho tio
Expedido de Canácona
Em dois de Janeiro,
Chega-me em três de Fevereiro!
(E ironia do Destino!)
Quando chego ao mau destino
Estava o tio transferido
Para o céu!
A minha terra abunda
Em cocos – dizem
Mas eu compro dois
Por uma rupia!
E, às vezes, saem ocos
Na lauta boda que lá vai,
Migalhas cabem ao vizinho,
Sofredor político
Que deu seu sangue
Para elevar uns boçais
Às cadeiras dos governantes!

**
Estou a boiar
Nas delícias do paraíso!

Maria Flávia Xavier - Recordando (1965)

Meu lenço todo branco, de cambraia,
Comprado, um dia, aos vendilhões da feira!
Lindo presente que a minha pobre aia
M’ofereceu, p’los anos, prazenteira;

Como crianças que são da minha laia,
Fui de mil precipícios caminheira;
E aquela mulher, sempre de atalaia,
Amaparou-me, só eu sei, de que maneira!

Dia dos mortos! Sinto, na minha alma, o tédio
De a não ver, a nostalgia sem remédio,
Duma dedicação, como não há igual;

E, evocando aquele tempo tão remoto,
Trago, ainda, nas mãos, o lenço já roto,
Ao desfolhar rosas no seu coval!

Luís Furtado - Do Monte de Margão (1979)

Sentando num banco da encosta
Do monte da cidade de Margão
Admiro a linda vista que desfruta,
E que consola a minha solidão.

É digna dum pincel de artista,
A linda paisagem que desenrola,
Vista dos degraus da ermida
Dedicada de Piedade, à Nossa Senhora.

Lindas edifícios dessa Antenas Goesa,
E o comboio que qual serpente chega,
Verdes arrozais a perder da vista,
Selam no meu espírito a sua magia.

Se pudesse ficar aqui ficaria,
Como gostariam os discípulos em Tabor,
Admirando esse conjunto de simfonia
Que é um bálsamo a minha dor.

Tuesday, 21 August 2012

Bicaji Ganecar - A Ponte do Mandovi (1970)

Sentado sobre a ponte
Do Mandovi, já completa
Quero cantar o mandó
Que no coração palpita.

O mandó é da espuma
Que aparece sobre a onda
E desaparece por si
Como o segredo da vida.

O palmeiral acompanhará
Esta minha cantiga
Dançando no ar
Com a ventania amiga.

O Mandovi sonhará
Ouvindo a minha canção
A sua lenda de Águada,
Dos tempos que já lá vão.

As duas irmãs sagradas
Que são Betim e Pangim
Acompanharão em coro
Esta canção sem fim.

O céu azul de Goa
É de todo risonho
Está a espera de
Se realizar esse meu sonho.