Showing posts with label Goan Poetry in Portuguese. Show all posts
Showing posts with label Goan Poetry in Portuguese. Show all posts

Friday, 17 April 2015

Laxmanrao Sardessai - Sou Teu Filho (1966)

Disse-me ontem uma velha,
Gaudi encarquilhada,
Afagando a minha cabeça:
“Filho, tu não és brâmane”.
“Sim, mãe - respondi enternecido –
Nasci brâmane, mas sou gaudó,
Como teu Vassu, escuro e forte,
Durmo no chão raso
Por ti artisticamente embostado.
Como do ‘ambil’ que me dás,
Em companhia de teus netinhos.
Extasiado fico a contemplar
As esbeltas arequeiras
Que as tuas filhas regam,
Acaricio com admiração,
Os caules alabastrinos das bananeiras
E, às vezes, enfio um langotim
E lavo-me contente
Na água pura da fonte
E, depois, como o mais feliz dos entes,
Estendo-me na relva
A absorver a ternura
A carícia e o conforto
Dos raios do sol nascente
E, quando durmo, o meu espírito
Estende a sua asa
Sobre os teus miúdos
Que trabalham de dia
E dormem de noite
O sono dos santos.
E tu, às vezes, de madrugada,
Enquanto lá fora
Os galos cantam
E o orvalho desce dos céus
E o vento sopra frígido
Vens para fora, de mansinho,
E estendes sobre o meu corpo estirado
O teu velho ‘cambol’.
Sim, mãe, sou gaudó
E sou teu filho!



Wednesday, 4 March 2015

Laxmanrao Sardessai - Avante, Goeses, Avante! (1966)

Avante, goeses, avante!
Que está próxima a batalha
Que decidirá a vossa sorte.
Estão do vosso lado
A Verdade e a Justíça,
A Honra e a Dignidade
E, doutro lado,
A ambição do mando,
A cupidez nojenta,
Indignidades sem conta,
A mentira e a doblez,
A traição e a maquinação.
É a luta entre dois princípios
O princípio do bem
E o princípio do mal.
Depende de vós a vitória
Dessa batalha imposta
Ao vosso povo pacato
Em nome da Democracia
Que entre nós está moribunda.
Na sua nudez a pergunta é esta:
Que quereis?
Viver na vossa terra
Ou lançar-vos ao mar?
A que miséria a Democracia
Vos lançou, santo Deus!?
Viver ou morrer?
Morrer é, de certo, diluir-se
Um povo na mole heterogénia doutro.
Vós, através da longa história,
Prezastes a honra e a dignidade.
Proclama ao mundo
Que sois um povo distinto.
A vossa língua e os vossos costumes
O vosso temperamento
E a vossa cultura,
A vossa humanidade
E o vosso intelecto
Não são para serem
Apagados ou suprimidos
Da face da terra.
Não! Não!
Cave-vos, goeses,
Repelir a afronta
Esquecer por amor
Dos vossos avoengos,
Vossas rixas e ódios,
E as vaidades que vos minam,
Provar que os goeses têm um único partido,
Partido duma Goa una e livre,
Arrojai aos ventos
As diferenças que vos dividem,
Que mesquinhas ambições alimentais
Quando o povo é arrastado para o abismo!
Em que miseráveis partidos
Vos entretendes
Quando o inimigo procura
Calcar-vos, reduzir-vos à poeira,
Que criminosa negligência a vossa,
Quando as fileiras do inimgo
Se cerram
Para os fins da peleja.
Amigos! Sacudi, sem demora,
A letargia e a modorra!
Abraçai os ignorantes e os pobres
Preparai-os com sacrifícios
Para a luta.
Levei a cada casa
A mensagem da guerra –
Guerra contra ambições do mando - !
Sacrificai tudo!
Para salvar a terra,
Terra de vossos pais
E de vossos filhos.
Terra que está
Em iminente perigo
Por culpa dos vossos.
Avante, goeses, avante
E a vitória será vossa!

Tuesday, 17 February 2015

Remígio Botelho - De Profundis (1968)

E o Dia veio
Levar-lhe ao seio
Da terra amada,
E lá foi ela –
A doce estrela
Da madrugada.

Lá foi ela –
A alma bela
De sonhador
Ungida
E possuída
De luz e cor.

Alma tão plena
De poesia
A alegria
Da morena
Que apanha
Lírios brancos
Pelos flancos
Da montanha;
A mansidão
Da lua cheia
Que vagueia
Na amplidão
E o fervor
Dos rishis
Ardendo de amor
Em lâmpadas rubis.

Ardendo ainda
De saudade
Da ilha linda
Onde passara
A mocidade –
A seara

Que ondeia
Pela aldeia
Casas de Deus
Que se elevam
Até os céus;
E os oiteiro
Onde rezam
Os cajueiros.

Lá foi ela
Para o além...
Mas dela
Inda nos vem
Um ardor
Abrasador
E risonho –
A flama
Que o proclama
Veleiro do sonho
E do luar,
No altar
Da História



E da Gl

Wednesday, 4 February 2015

Laxmanrao Sardessai - A Minha Velhice (1966)

- Estás velho, amigo –
Duvido. Mas tenho sessenta, sim –
- Não basta para ser velho?
- Não! Tenho a fescura da relva
E o vigor da palmeira
Tenho o fulgor do sol
E a ligeireza do vento
Tenho a esperança da alvorada
E o ideal do sonho
Tenho a clareza da fonte
E a firmeza do monte
Tenho a ternura do santo
E o fogo do raio
- Mas donde lhe vêm esses raros dons?
- Da tua bondade, amigo.
E da tua vasta simpatia
Que, como tu, milhares me dispensam.

Tuesday, 3 February 2015

Alberto de Menezes Rodrigues - Falam os Terrenos Incultos (1972)

Séculos e milénios decorreram
Desde que começamos a existir
E ninguém se importou de nós
Nenhum homem nos veio arrotear
Para aproveitar
A nossa força criadora
Nós somos em grande número situados
Em várias partes desta linda Goa
E não poucos de nós fomos beneficiados
Com um solo muito rico,
Que pode produzir searas luxuriantes!
Nós ansiamos por vos levar, ó goeses,
A meta da prosperidade.

Cresce erva, crescem plantas inúteis,
Extraindo do nosso seio
Os alimentos que necessitam
Todos nos abandonaram!
Todos nos abandonaram!

Quando, anualmente, o ribombar do trovão
Anuncia a chegada do Inverno
Para a fecundação
Da terra,
A nossa ansiedade atinge o auge.
Depois, sentimos as carícias,
O frescor,
Das águas que se despenham do céu,
Cantando,
- Magnífica dádiva do Senhor
Ao povo goês! –
Mas nunca lobrigamos ninguém,
Nenhum ser humano.

Que venha operar
Segundo o divino plano,
Desbravando-nos,
Lavrando-nos,
Semeando-nos,
Para que tenhamos a ventura
De nos desentranhamos
Em messes e verdura.

Agora que uma nova era raiou
Para este pedaço do Concão,
Nós recorremos a vós,
Senhores governantes
Pedimos vos digneis volver
Os vossos olhos para nós
E satisfazer
O nosso anhelo.
Desejamos a nossa inclusão
Na reforma agrária que foi anunciada,
A fim de sermos cultivados.
E, se o conseguimos,
Nós vos ajudaremos, com prazer,
A resolver,
O grande problema,
Concernante a Goa,
Em que estamos a cogitar:
A auto-suficiência alimentar.

Telo de Mascarenhas - Ganesh Chaturthi (1971)

Raiou o dia
Alegre e festivo
Com foguetes a estralejar
Em todos os lares
Na manhã de sol esquivo,
Para festejar
Ganesh Chaturthi,
O Divino Ganapoti,
Guloso de bons manjares,
Deus protector e soberano
Das searas já espigadas
Nesta quadra do ano.

Ganesh é festejado
Neste dia
Propiciador,
E invocado
Como Deus inspirador
Da Arte e Poesia.

Com cabeça de elefante
E ventre abaulado
De guloso e tunante,
Percorre a terra montado
No rato,
Temível ‘assura’,
Implacável roedor
De todo o género
De cultura.

A imagem da Divindade
É conduzida em procissão
Em vistosos andores
Pelas ruas da aldeia
E da cidade,
Ao som de címbalos e tambores,

Para o mergulho ritual
Nas águas do rio ou do mar,
Onde ficam a vogar
Grinaldas votivas
De flores.

Na noite delirante
Fogos de Bengala
Incendeam o ar;

O cheiro do agarvati
Deleita e regala.

Finda a festividade
Fulgurante
De luzes e ouropéis,
Ficam a ressoar
Os cânticos dos fiéis:
“a Ganesh namaskar!
Vinde para o ano, Ganapoti,
Para abençoar a próxima Novidade”

Tuesday, 6 January 2015

Laxmanrao Sardessai - A Arequeira (1965)

Franzina e bela
És da aldeia a pérola!
Pareces uma virgem
Pura e graciosa
Mas também ansiosa
Por oferecer ao teu adorado
A tua alma amorosa
Pareces uma juvem,
Clara e sorridente
Que encerra no seu seio
O tesouro de emoções!
Aos teus pés, salta a fonte
E gauddi inocente
De carícias te cerca
E cresces em encantos.
E moves em cadência
O teu corpo gentil e belo,
À brisa ligeira
Que sopra na véspera
A quatro passos está
Erecto e firme e sereno
O teu amado, o coqueirom
E mira contente os teus meneios,
Languidos e eloquentes
E os fluidos imponderáveis
Que saem do seu seio
Envolvem-me, noite e dia,
E dão-lhe vigor e vida!
E ele, o teu amado,
Está ali tão perto
Firme e sereno,
Alto e forte,
A mirar e admirar
A tua beleza!
Mas, quase sempre
Frio e imóvel,
Como uma coluna!
E tu, inquieta e nervosa,
Em vista da sua firme postura,
Amimada pelo sopro do vento,
Em um gesto forte
Procuras abordá-lo,
Tocá-lo com as tuas folhasm
Comunicar-lhe o teu amor,
E então ondulas sacudida,
Pela paixão intensa,
Num contínuo vai-vem,
Até que, num esforço supremo,
Roça o teu corpo franzino e belo,
Pelo seu corpo forte e vigoroso,
E, em um instante,
O beijas em um frenesi,
Suspirando, satisfeita!

Sunday, 14 December 2014

Leopoldo Garcez Menezes - Jardim de Allah (1952)

No lindo jardim de Allah
De mil noites e de fadas,
Dançam moiras encantadas
Sob um luar e opala.

Os seus olhos são punhais
Através do lindo véu,
E os seus corpos sensuais
São das huris lá do céu.

Vem comigo, meu amor,
Que m’estás a enfeitiçar,
A acalma-me esta dor
Com a luz do teu olhar.

Paraiso oriental
Que encanta e enebria,
Jardim de luz e magia
Como não há outro igual.

Deixou-me extasiado
Nem sei minh’alma que sente,
Quero viver ao teu lado
No jardim eternamente.

No teu regaço, ó flor,
Peço-te p’ra m’embalar,
Que este meu sonho de amor
Só contigo há-de findar.

Eduardo Monteiro - O Velho Mar (1961)

... O Mar vinha cansado e bramia...
Enrolada num calmo entardecer,
A praia ouvia-lhe os gemidos amodorrados
Num suave estremecer de colorações de anil...
Escutava, serena, os ralhos de um pai já velho,
Que a roda dos tempos tornara rabujento,
Num gesto condescendente de filha submissa.
Eram os soluços de sempre!

... A lassidão de um monstro que, enganado correu mundo.
Soçobrou embarcações e náufragos,
Enraivecido flagelou rochedos
E arrancou do seio escaldante dos desertos
Maldições terríveis e segredos;
A confissão sincera de um penitente
Que, manso, vai pedir durante a noite
O perdão álgido de remotas areias e paragens;

A alegria infantil, a ingenuidade
De um colosso poderoso
Que brincava com as árvores da beira-mar
E as arrancava
Julgando inocente o seu brincar;

Em suma, o grito de revolta de um ser ludibriado
Que, depois de correr todo o mundo, cai em si,
E encontra corpo seu onde tinha começado...

... É noite alta. A praia escuta. Os búzios repetem,
Fiéis trombetas à ordem do Mar. Só as palmeiras vizinhas,
De cabeleira desgrenhada, parecem discordar,
As suas palmas dançando na aragem
Assobiam mansinho, numa pateada surda,

Os feitos do Velho Mar!

Thursday, 11 December 2014

Laxmanrao Sardessai - O Socialista (1965)

Proclamas incessante o teu socialism –
Que para ti não é mais que uma arma
Para angariar votos dos parvos e lorpas
Cuja ignorância o astuto brâmane
Explorou durante séculos
Em seu proveito.
Mas tu és mais astuto que o brâmane.
O brâmane ignorava então o socialismo
Que tu sabes utilizar ardilosamente
E misturando-o com a democracia
Logra produzir uma alquimia
Que o brâmane astuto poude imaginar nunca
Ele explorava sim, mas dezenas.
Tu exploras milhares de operários,
Que suam ou tiritam para acumularem
Montes de minério de que tu, sentado
No palácio recebes laques em ouro!
Eles pobres vivem ainda em cabanas
E merecem tratos de galés!
Só os teus lábios proferem o socialismo.
Mas os teus actos proclamam
Que tu és mais opulento e insaciável
Do que os antigos monarcas
Que em si viam
O povo, a nação e o mundo!

Thursday, 20 November 2014

Laxmanrao Sardessai - Gaudó (1965)

Tu és o filho do areal,
Filho dilecto da terra
Filho genuíno das eras pristinas,
Que a viram desbravada
Por teus antepassados
Que, pela vez primeira,
Cortaram as florestas
Aplainaram os acidentes
E a colonizaram para ta legar,
Glorioso legado que, como filho dedicado,
Sabes preservar dando-lhe
O amor que só tu podes guardar
Na tua alma simples e abençoada.
E abnegado és porque o teu coração
Não conhece a recompensa monetária,
Para ti o arecal é o amor
Florido e frutificado
E ele, por sua vez, oferece-te
Todo o tesouro enterrado.
As arequeiras, quais virgens delicadas,
Abrem sobre a tua cabeça
Inúmeros guarda-sóis para te resguardar
Contra os rigores do sol.
E as árvores de chanfas,
Brancas ou amarelas,
Perfumam o ambiente da tua herdade
E as correntes da água,
Serpenteando por toda a parte,
Beijam com veneração os teus pés.
Tu cavas e regas
E nunca no teu espírito
Dás guarida aos cálculos materiais,
És frugal nos teus hábitos,
Como os rishis, teus avoengos,
O teu corpo quase nu,
Simboliza o esplendor da natureza
Que, à maneira duma mãe,
É para ti generosa,
Ó irmão! Quem me dera
A ventura de, em tua companhia,
Ir cavar!

Sunday, 2 November 2014

Ventura Pereira - Mulher! (1960)

(Da conferência do autor sobre sobre ‘Terra Bendita’ de Pearl Buck)

Não é no infrene rodopio de danças
E no ruído e frenesi de folganças;
Não é ao ritmo cadenciado de tangos vaporosos
Nem nos teatros à ribalta de camarotes luxuosos,

Que tu és bela, ó Mulher deste século de enganos
Não é nos salões doirados que tu brilhas e irradias,
Nem com figurinos exóticos e cosméticos ufanos,
Que a tua beleza e elegância evidencias;

Mas és bela quando o perfume e fulgores da Virtude
Espalhas alegria qual anjo do lar em plena magnitude.

És grande quando amparas do pai e da mãe a velhice
E quando acodes na pobreza os infelizes;
És sublime quando velas à cabeceira de enfermos as crises
E sempre que o teu coração ao pronto alheio se abrisse.

Então, sim, és realmente bela, grande e sublime,
Cantando a Canção do Trabalho e a alegria do Lar,
Atenuando o infortúnio e aliviando o penar
Suavizando o sofrimento e a dor que oprime;

E cuidando o teu espírito e minimizando de outros os ais,
Avocas em abundância as bênçãos divinas,
E elevando as almas a DEUS, te sublimas
E te elevas a ti as alturas celestiais.

Laxmanrao Sardessai - Suspiros (1966)

A brisa da noite
Traz-me suspiros,
Longos e profundos,
De entes desconhecidos
Dispersos pelas aldeias
Em cabanas tristes.
Carpindo misério,
Ao lado dos pais velhos
Que saudaram largamente
O dia da Independência
E sorriram largamente,
Esqueceram as horas pungentes
Que passaram no terror,
Semeado pelas armas portuguesas.
Suspiros longos e profundos
De entes abandonados,
De meios de vida destituídos
Que, durante longos anos,
Vegetaram nas prisões
Ou erraram pelos ermos e florestas
Comunicando aos seus irmãos
A mensagem da liberdade
Abandonaram os lares
Aos acasos da sorte
Correndo perigos tremendos
Lavando vida de misérias.
Raiou, enfim, a nova era
Mas suspiros profundos
Ainda saem de corações doridos!
Suspiros que anelam
O bem dos pais velhos
E dos irmãos e filhos,
Votados à miséria
Pela indiferença dos cegos
Que florescam na glória do poder.



Friday, 17 October 2014

Laxmanrao Sardessai - Prazer (1966)

O meu prazer é puro e infinito
Porque é absoluto.
Para fruir o prazer
A mãe precisa do filho,
O avarento do dinheiro,
O folgazão do vinho
Mas eu desfruto o prazer
Do prazer de todos eles
Quando vejo os brincos das crianças
O deslizar duma vela,
Pelo mar ou rio
O murmúrio duma fonte,
O vôo duma ave,
Pelo azul celeste
Ou duma nuvem ligeira,
A queda da água
Das alturas dum monte,
Os balouços da arequeira
Aos caprichos do vento
O romper da alva
Num incêndio de cores,
Quando vejo tudo isto
Um prazer puro e absoluto
Inunda o meu ser.



Monday, 13 October 2014

Hipólito de Menezes Rodrigues - Histabílis (Poemeto) (1968)

Rosa que estás na roseira,
Sorrindo à minha desgraça
Lembra-te que neste mundo
“Tudo muda, tudo passa”

Passa a desgraça mais crua,
Morre a ventura mais linda,
Surge o que menos se espera,
O que mais se estima finda.

Escuta: eu também fui belo
Fresco como os laranjais,
Robusto como os coqueiros,
Alegre como os pardais.

Também no meu pobre peito,
Vi uma roseira florir,
E sob o sol de amarguras,
Seca e triste se sumir.

***

E vê, minha ingénua rosa,
Tu que me estás a sorrir,
Como neste eterno enigma
Ninguém sabe o que há de vir

Vê, como passa a ventura...
Vê, como surge a desgraça...
Neste mundo, minha flor
“Tudo muda, tudo passa”

Clara de Menezes - Anseio (1976)

Amar-vos, como é doce, meu Jesus,
Mormente, nesta Quadra do Natal!
A manjedoura dura do curral
Viste irradiar fulgente luz.

Teu olhar de Menino me reduz,
Apoquenta-te o frio, ó Príncipe Real?
Mas por mim, bicho vil, sofres o mal
Ensina-me a aguentar a minha cruz.

Aumenta mais e mais a provação
Guiando-me pela tua divina mao,
Descobre-me os segredos da crua dor.

Imolar-me na ara p’lo inimigo,
Acabando assim meus dias contigo

É o meu anseio de louca pelo Amor

Luís Furtado - A Um Herói (1980)

Na verde aldeia de Velção,
Situada à beira mar
Veio ao mundo um herói
Que brilhou aqui e em além mar

Foi uma alma multifaceta,
Um primoroso poeta,
Um veterano jornalista,
Era brilhante a sua caneta

Um grande herói patriota,
Que sempre ao perigo fez frente,
“Ao inimigo nunca voltou a cara”
Até um dia da sua vida poente

Um homem de rija fibra,
De antes quebrar que torcer,
Por essas suas convicções,
Teve muito nesta vida que sofrer.

Esses versos são dedicados a memoria do saudoso Dr Telo Mascarenhas por um dos seus admiradores e amigos no 1o aniversário do seu falecimento.

Bicaji Ganecar - A Fábrica da Literatura (1971)

Tomei um quilo
De inspiração
Meio grama
De rima
Quatro quilos
De ritmo,
Dez quilos
De beleza.
Cinco onças
De piada
E fiz uma
Poesia!
E ela saiu
Da era atómica!

Saturday, 21 June 2014

Laxmanrao Sardessai - O Brâmane (1965)

- Quem és, ó passante,
Que vais cabisbaixo e triste
Qual farrapo humano!
És algum fidalgo?
- Não! Não!
- Quem és, ó passante,
Que tens as faces cavadas
E a expressão desolada?
És algum exilado?
- Não! Não!
- Quem és, ó passante
Que andas trémulo
Sem força nas pernas?
És vitima de alguma enfermidade?
- Não! Não!
- Quem és, ó passante
Que pareces um ente miserável
Sem luz nos olhos?
Teria algum importuno ceifado
A vida dalgum ente querido?
- Não! Não!
- Quem és, ó passante
Que pareces um avarento
A quem em um instante
Tivessem os criminosos
Roubado o espólio acumulado?
- Não! Não!
- Quem és tu, ó passante
- Que pareces um ente desprezado
- Qual sofredor politico.
A mendigar depois de, por longo tempo,
Oferecer à sua pátria
O suor e o sangue?
Não! Não!
- Então quem és tu, ó passante?
Serás um espectro?
- Sou brâmane.
- Então que brâmane és?
Sou daqueles brâmanes
Que na dominação estrangeira
Procuraram força e poder
Para o engrandecimento pessoal.
Vejo agora tudo mudado!
Nem direitos nem poder!
- Direitos e poder,
Assentes na injustiça e tirania?
Estamos na democracia, Brâmane.
Ela precisa de teus serviços!
Olha para ti o ignorante e o doente,
Cada aldeia é terra virgem,
Ela te acena.
Tens inteligência, força e dinheiro
Vai e trabalha solitário
Nas aldeias onde medra a ignorância,
Direito e poder virão depois!
Serve teus irmãos
Sê pequeno e humilde,
Trabalha na escuridão,
Durante meses e anos
E um dia serás forte e grande!
- Quem és tu, ó desconhecido
Que me guiaste nesta escuridão?
-Sou hoje Gaudó,
Outrora Brâmane!
Vem amigo, vem trabalhar,
Que a cabeça do Brâmane
E o braço do Gaudó
Têm de se juntar
Para esta terra se levantar!

Laxmanrao Sardessai - Inferno (1965)

Os teus olhos são um inferno,
Não te zangues – dizem os outros,
Mas, se o são,
Eu vejo nesse inferno
Só o Paraíso…
Porquê? Perguntar-me-ás,
Pois te digo. Vejo nele –
No inferno dos seus olhos –
A vastidão dos Céus
A profundeza dos mares
E a majestade dos Himalaias.
Que mais queres?
E, para mais, vejo neles
Retratando o meu ingénuo ser!