Showing posts with label Telo de Mascarenhas. Show all posts
Showing posts with label Telo de Mascarenhas. Show all posts

Tuesday, 3 February 2015

Telo de Mascarenhas - Ganesh Chaturthi (1971)

Raiou o dia
Alegre e festivo
Com foguetes a estralejar
Em todos os lares
Na manhã de sol esquivo,
Para festejar
Ganesh Chaturthi,
O Divino Ganapoti,
Guloso de bons manjares,
Deus protector e soberano
Das searas já espigadas
Nesta quadra do ano.

Ganesh é festejado
Neste dia
Propiciador,
E invocado
Como Deus inspirador
Da Arte e Poesia.

Com cabeça de elefante
E ventre abaulado
De guloso e tunante,
Percorre a terra montado
No rato,
Temível ‘assura’,
Implacável roedor
De todo o género
De cultura.

A imagem da Divindade
É conduzida em procissão
Em vistosos andores
Pelas ruas da aldeia
E da cidade,
Ao som de címbalos e tambores,

Para o mergulho ritual
Nas águas do rio ou do mar,
Onde ficam a vogar
Grinaldas votivas
De flores.

Na noite delirante
Fogos de Bengala
Incendeam o ar;

O cheiro do agarvati
Deleita e regala.

Finda a festividade
Fulgurante
De luzes e ouropéis,
Ficam a ressoar
Os cânticos dos fiéis:
“a Ganesh namaskar!
Vinde para o ano, Ganapoti,
Para abençoar a próxima Novidade”

Monday, 13 October 2014

Luís Furtado - A Um Herói (1980)

Na verde aldeia de Velção,
Situada à beira mar
Veio ao mundo um herói
Que brilhou aqui e em além mar

Foi uma alma multifaceta,
Um primoroso poeta,
Um veterano jornalista,
Era brilhante a sua caneta

Um grande herói patriota,
Que sempre ao perigo fez frente,
“Ao inimigo nunca voltou a cara”
Até um dia da sua vida poente

Um homem de rija fibra,
De antes quebrar que torcer,
Por essas suas convicções,
Teve muito nesta vida que sofrer.

Esses versos são dedicados a memoria do saudoso Dr Telo Mascarenhas por um dos seus admiradores e amigos no 1o aniversário do seu falecimento.

Tuesday, 9 July 2013

Walfrido Antão - Telo de Mascarenhas, ou Um Padrão Ocidental na Situação Indiana (1979)

“Mal com os homens por amor à terra; mal com El Rei por amor à terra”

Cada homem tem direito a um sonho ou posto burocrático e não há que assacar culpas à grandeza imensa do Sonho como tal ou a limitação dos mangas-de-alpaca sim senhor El Rei dos Algarves, Yes Sir Milord of Wheat Fields of Punjab, o colonialismo é uma antítese do self-government com todo o seu manto de CORRUPÇÃO. No caso da Burocracia ou do self-employed man de negócios a ascensão ou declínio depende de um certo numero de constantes entre os quais conta a habildade de adorar o sol nascente e a intriga palaciana o problema do sonho é um caso diferente. O sonho de um homem letrado afasta-o das massas como numa contradição infeliz, essas mesmas massas humanas em cujo benefício o sonho visita o Homem. Tal foi o caso trágico do sonho de Telo de Mascarenhas. Nascido na aldeia de Velção, quase meu coaldeano, o Dr. Telo de Mascaranhas teve de ir a Coimbra como escolar de Direito para reconhecer as suas raízes indianas e juntamente com Adeodato Barreto, o grande e infeliz poeta que morreu até a consumação do ideário marxista numa aldeia de Portugal, com José Paulo Teles e outros (conforme leio num dos exemplares da “Índia Nova”) fundou o Instituto Indiano anexo a Biblioteca da Faculdade de Letras. Eram os anos 1920, a literatura portuguesa dividia-se entre o Surrrealismo de Almada Negreiros e a poesia épica decantada no ocultismo de Fernando Pessoa ou a trágico desespero de Mário de Sá Carneiro. O liberalismo democrático de António José de Almeida vivia horas de agonia e o MONGE de Coimbra preparava-se para tomar de assalto a velha Lisboa das naus que tinham vindo à Índia e marinheiros de Alfama. A longa noite da Ditadura com seus mitos glorificadores do Imperador Máximo de Aquém e Além Mar ia espalhando seu véu de sombras por sobre esse tão belo povo português, um povo capaz de uma cultura humanista como provam António Sérgio e Jaime Cortesão. Não se ouve falar mais do Instituto Indiano em Coimbra. “A Índia Nova” que chega a publicar uma mensagem de Tagore vê os seus redactores já formados e com família bem portuguesa. Adeodato Barreto recusa-se a burocratizar o pensamento em tacho oportunista que lhe podia dar pão e vinho e mantém-se firme a um ideário de redenção económica que lhe nega suficientes para se tratar e tratar dos seus, morrendo quase em penúria. São dos anos 1940 algumas traduções de obras de Tagore que aparecem em Lisboa da lavra de Telo Mascarenhas e que, muito embora venham via língua francesa, constituem uma bela introdução da alma indiana ao povo português. Anos 1949 e Telo Mascarenhas surge-nos aqui em casa fresco de Lisboa e Porto para convidar meu pai que ao tempo era presidente da câmara de Mormugão para presidir uma conferência no Casino de Vasco da Gama sobre “Primavera e os Poetas de Amor”, conferência esta que não se chegou a realizar por a polícia portuguesa ter cheirado o indianismo do autor. Tinha eu 13 anos de idade e admirava-o de improvisar versos às flores, às plantas, ao palmeiral tudo com invocações aos deuses indianos. É um poeta, pensava eu e por lá o teria esquecido, quando embrulhado entre revistas femininas de Bombaim começou a enviar-nos cópias do “Ressurge, Goa” do exílio. Há idealismo na sua Invocação quando rezava alto “edificaremos sobre o mar, sobre a terra, sobre as estrelas, a glória da nossa Terra Imortal”. Quem poderá negar que ele amava Goa?

Poeta do campestre, do rural como se diria agora, com profundas influências de Gil Vicente e Rodrigues Lobo, Telo de Mascarenhas provou-se um misfit, quem sabe um inconveniente que não sabia Konkani e Marata aos grupos políticos de Bombaim que trabalhavam pela libertação de Goa.

A política indiana não é para poetas ou idealistas e o exemplo mártir de um Tristão Bragança Cunha ou um Jaypracasha Narain (a este claram o grito de Revolução total com uma bolsa de um crore de rupias) chega-nos para não alimentarmos quaisquer dúvidas a este respeito. No caso de Tristão Bragança Cunha e tantos outros heróis esquecidos como Polly da Silva que foi a morrer aos 30 e poucos anos num curral basta-nos o facto de o Sonho de alguns ter sobejado para os mineiros, em especial uma família, continuarem a gozar do Poder. Uns sofreram para os mineiros continuarem a gozar os privilégios.

Como disse atrás, o Sonho de um homem letrado afasta-o das massas. No caso de Telo de Mascarenhas que depois de sofrer dez longos anos de prisão havia tentado entrar na politica, o resultado foi constrangedor. As massas não vão pelos sacrifícios, vão sim pelos símbolos comunalistas, daí a tragédia da democracia dos analfabetos com seu corolário de self-government is always better than alien rule. É ainda cedo demais para se pronunciar sobre a validade de um sonho, só a História poderá abarcar o Juízo final. Entretanto fica-nos a morte de um homem de letras portuguesas, um cativo do teatro vincentino e um devoto nem sempre regular das canções de escárnio e mal-dizer de que nos deu provas no Ressurge Goa dos anos de exílio.

Amigo da minha família, Telo de Mascarenhas impôs-se-me sobretudo pelo amor à Terra regado com anos de cárcere no exílio. Pena foi que educado mentalmente nos padrões da cultura jurídica do mundo latino não pudesse ajustar-se ao calão da Terra de que tanto se orgulhava. Dele se podia dizer “mal com os homens por amor à Terra, mal com El-Rei por amor à Terra”.

Como homem de Letras, Telo de Mascarenhas merece ser notado como poeta da tradição vicentina, das canções de escárnio e mal-dizer, um improvisador à velha moda portuguesa das desgarradas, um antigo que não chegou a alcançar os movimentos modernos da poesia e prosa portuguesa. Sendo assim, um poeta da língua lusa, era natural que até o sonho do Nacionalismo ficasse a mercê de suspeição e dúvida porque o local só aceita, porque compreende, unicamente o que se lhe diga em vernáculo ou no colonial mas ganha-pão inglês.

Curvando-nos reverentes perante a grandeza do sonho que permitiu aos Capitalistas maior mobilização de Depósitos e Investimentos em construções, alta de preços de terrenos e melhores facilidades de ensino para os filhos de mães goesas embora com um self-government corrupto, pedimos a Higher Power que nos tolha a mão antes de atirarmos a primeira acusação de Telo de Mascarenhas a paz do silêncio e da verdade junto da campa do grande esquecido Nascimento Mendonça.

Monday, 29 October 2012

Telo de Mascarenhas - O Tesouro Oculto (1975)

Findo o curso do Liceu, nas férias grandes, Dona Leocádia foi com o filho visitar a família de Luís Bernardo, parentes afastados que Carlos Manuel não conhecia ainda. E ao ver Rosália, de rosto oval de madona, dum moreno doirado, emoldurado de bandós negros, olhos vivos e expressivos, airosa e grácil, exuberante, sorridente e vibrante como uma corda tensa de violino, um doce enleio se apoderou do seu coração. Sentiu-se diante dela confuso e acanhado como um colegial. E os olhares furtivos de Carlos Manuel foram mais expressivos do que o mais belo poema lírico.

Quando estudante do Liceu Carlos Manuel fora um romântico impenitente; mas os primeiros rebates sentimentais da sua adolescência não tinham deixado vestígios nem causado danos ao seu coração.

Naquele primeiro encontro ele manteve-se distante e discreto sem deixar transparente o sentimento que lhe agitava a alma. Mas ela que, com o seu sexto sentido de mulher, adivinhara ter causado nele certo alvoroço, não se deu por achada e tratou-o com calma deferência e simulada indiferença, como se trata um parente de cerimónia.

Havia muito que as duas famílias não se visitavam. Mas agora que Carlos Manuel estava quase um homem, com dezoito anos feitos, precisava de conviver, de conhecer a parentela, de sair da concha em que sempre tinha vivido, e impunha-se à Dona Leocádia o dever de o apresentar aos parentes, e não fazer dele um ser esquivo e insociável como um animal bravio.

“Que curso vais fazer, Carlos Manuel? Com certeza não vais ficar só com o Liceu”, perguntou Dona Ubélia.

“Nesta terra onde não há muito por onde escolher, minha tia, só se pode ser Médico-Cirurgião ou então Adv., quero dizer, advogado provisionário, como toda a gente. Eu optei pela medicina, que para chicana não tenho jeito”, disse Carlos Manuel.

“É uma bela profissão para minorar o mal alheio”, observou Dona Ubélia.

“Eu estou a precisar dum médico na parentela para me curar dos meus achaques”, gracejou Luís Bernardo.

Rosália descera ao jardim, como era seu costume todas as manhãs, para colher flores de jasmim que, como minúsculos flocos de neve, salpicavam as moitas de jasmineiros junto do muro. Enfiava-as em grinalda com que enfeitava o cabelo apartado ao meio e apanhado atrás em carapito frouxo descaído na nuca, que lhe dava um ar langoroso e sonhador das heroínas dos contos de amor.

Carlos Manuel lhe dissera quando, no dia anterior, ela lhe aparecera com aquele penteado gracioso, circundado da enfiada de jasmina, como uma aureola: “Fica-lhe admiravelmente, bem esse penteado, Rosália. Por momentos tive a impressão de que eras uma figura animada dos frescos de Ajanta, caminhando para mim”.

Rosália sorrira e agradecera-lha, lisonjeada o galanteio.

Carlos Manuel desceu atrás dela ao jardim e disse-lhe: “Shakuntalá, no ermitério da floresta, devia ser como Rosália, amiga das flores e da natureza. E foi breve o seu idílio com o rei Dachanta. Também para mim chegou o momento de partir. O rei dera à filha adoptiva do eremita, como recordação, um anel com o seu nome gravado. E o quê me vais dar, Rosália, para eu me lembrar de si?”, perguntou-lhe Carlos Manuel.

“Nada mais lhe posso dar que valha tanto para mim como esta rosa, símbolo do meu nome e da minha afeição por si. Mas as rosas tem a vida efémera duma manhã e a sua lembrança morrerá com ela, certamente, e se esquecera de mim”, disse Rosália, pesarosa.

“Creia que, longe ou perto a sua imagem viverá sempre no meu coração e no meu pensamento”, asseverou Carlos Manuel.

“Com tempo veremos”, disse Rosália, com lágrimas na voz.

Dona Leocádia assomou à varanda e lembrou ao filho que eram horas de se porem a caminho. E a iminência da separação veio angustiar ainda mais os dois corações e interromper o breve idílio junto do jasmineiro.

Foi dolorosa a separação para os dois corações que mal preludiavam a eterna canção de amor. E Rosália sentiu pela primeira vez na sua vida, uma imensa dor no coração como se um punhal de indizível saudade o tivesse trespassado, traiçoeiramente. Perdera a habitual alegria de viver e andava triste e suspirosa, alheada e distante, gemendo em solilóquio: “Quando viras tu, quando?”.

A mãe perguntou-lhe um dia: “O que tens tu, menina, que andas a suspirar pelos cantos, como uma viúva?”.

“Não tenho nada, mãe. Então, o que é que eu havia de ter?”.

“Parece que ficaste com pena de não teres ido com a prima Leocádia”, disse Isabel, a irmã mais nova, em tom malicioso, olhando-a de soslaio, enquanto bordavam.

“Cala-te, minha pateta. Tu, que pareces que não partes um prato, sais-te com cada uma!” repreendeu Rosália com um sorriso triste.

Telo de Mascarenhas - O Tesouro Oculto

Bensaulim é uma aldeia de beira-mar, acolhedora e remansosa, aninhada sob as frondes das palmeiras, que o vento da tarde faz fremir como harpas encantadas.

As figueiras da Índia de porte majestoso e ramaria em umbela, são como naves silenciosas de catedrais, dando sombra e frescura à beira dos caminhos. Antigamente, aquelas árvores seculares, que a tradição santificara eram as guardiãs da aldeia. Sob a sua copa frondosa reuniam-se os aldeões, à tarde, finda a labuta do dia e, sentados em volta da peanha circular de pedra, assistiam à representações cénicas dos episódios heróicos e líricos das grandes epopeias, entoavam hinos a Hari, ou ouviam narrar os contos e as fábulas do “Panchachantra”. Agora, porém, perdido o seu carácter de ‘ficus religiosa’ e de centro social da aldeia, aquelas árvores acoitam na sua ramaria bandos de gralhas bulhentas e crocitantes e nos ocos dos seus troncos cobras de capelo oscilante e coruscante, com o tiara incrustada de pedrarias.

Em volta, várzeas e valados, cômoros e lagoas floridas de nenúfares, dão àquela aldeia o aspecto bucólico duma écloga pastoril. Para além das várzeas e palmares estendem-se as dunas e a praia de areias fulvas onde o mar espraia as suas ondas soluçantes, franjadas de alva espuma rendilhada.

Sobranceiro a uma grande lagoa fica o velho solar, bastante danificado pelo tempo, de Luís Bernardo, representante duma das mais antigas famílias daquela aldeia. Como quase todas as casas dos grandes propriedades rurais, a casa de Luís Bernardo havia decaído, devido não só ao grande estadão de vida que os seus antepassados levaram para honrar a tradição, com banquetes e bailes de espavento, mas também porque as suas terras, em parte hipotecadas ou alienadas, e cultivadas com métodos rotineiros, através de gerações, haviam empobrecido.

Com a sua estatura avantajada, olhar inteligente e nariz proeminente, Luís Bernardo, se em vez do seu democrático boné, bigode e mosca, arvorasse turbante rutilante de seda e pedrarias e barba frondosa, seria a imagem viva de guerreiro rajput das pinturas murais dos palácios principescos de Udeipur.

Luís Bernando tinha o ar afidalgado, maneiras requintadas e hábitos hospitaleiros. E não obstante a sua idade avançada, possuía espírito jovem e encarava a vida com optimismo e bom humor.

D. Ubélia, sua esposa e companheira de muitos anos, dera-lhe um filho e duas filhas. O rapaz, José Manoel, feita a instrução primária e aprendios os rudimentos de solfejo e violino, andara a estudar inglês com o fito de ir para África ganhar a vida. A filha mais velha, Rosália, era uma rapariga azougada e espirituosa, de olhos negros e sorriso gracioso. A outra, Isabel, sorridente e esquiva, parecia viver desprendida do mundo, como se tivesse feito o voto de renúncia e sacríficio. A mãe adestrara-se nos trabalhos de agulha e lavores, e elas com as suas mãos de prata, bordando e tecendo, supriam o magro orçamento doméstico.

A preocupação constante de Luís Bernardo era desencantar o tesouro oculto da família que, segundo a tradição, devia estar enterrado no quintal ou nos baixos da casa, como era uso nos tempos distantes de frequentes incursões das hordas de Bijapur e outros invasores, empenhados no saque e rapina. Com aquele tesouro dos seus antepassados contava Luís Bernardo restaurar o seu velho solar escalavrado e melhorar as condições económicas da família. E obcecado por aquela ideia fazia pesquisas diárias, dirigindo os trabalhos de escavação, revolvendo o quintal e os baixos da casa. Andava naquela faina havia anos, na ânsia de ver surgir à luz do sol o decantado tesouro. Tinham sido, porém, até então, baldados todos os seus esforços. Estava, por isso, pesaroso e decepcionado.

Uma tarde, findas as pesquisas do dia, dirigiu-se Luís Bernardo, extenuado e descoroçoado, para a sala de costura onde D. Ubélia e as filhas estavam atarefadas a bordar uma colcha a matiz, e, atirando-se para cima duma cadeira de espreguiçar, desafabou: ‘E não há meio de dar com ele. Maldita sorte a minha”.

“Com quê, meu pai?”, inquiriu Rosália, simulando curiosidade, embora ela soubesse muito bem a que queria referir.

“Ora, com que havia de ser?! Com aquilo que eu procuro. Com o tesouro da nossa família”, disse ele mal humorado.

“O pai espera ainda desencatá-lo?”, tornou ela com cepticismo.

“Porquê não, menina? A perseverança tudo alcança” disse Luís Bernardo com teimosia.

O pai já revolveu quase tudo. Por esse andar é bem capaz de deitar a casa abaixo. E se o tesouro não passa duma lenda, meu pai?” tornou ela a perguntar.

“Impossível, menina!”, disse ele com energia, quase agastado. “O teu avô sempre falava nele. Mas, grande politicão como era, mais interessado com as lutas eleiçoeiras e festanças do que com o bem estar da família, nunca se importou com isso. Dizia ele que tinha achado na livraria um pergaminho manuscrito entre as folhas dum velho códice, especificando as preciosidades que o tesouro continha: ricos “mohurs” de oiro do tempo dos mongóis, jóias e aljôfares, cintas e braceletes incrustadas de pedrarias. Uma verdadeira fortuna, capaz de tentar Genghis Khan”.

“Não teria Rauji Rane, aquando da incursão à nossa aldeia, desenterrado e levado o tesouro? Diz o povo que Rauji Rane levou um grande despojo da nossa aldeia”, observou Rosália com uma pontinha de malícia.

“Rauji Rane, ainda aparentado à nossa família, foi grande amigo do teu avô”, disse Luís Bernardo, com orgulho. “Ele foi um guerreiro que lutou para reivindicar os justos direitos do nosso povo. Não era um vulgar bandoleiro, e incapaz de uma acção dessas. Foram os outros, com certeza, que roubaram e saquearam à sombra do seu nome”.

“Deus o ajude a achá-lo, pai. Já é tempo de sairmos desta mediania”, disse, por fim, Rosália, conformada.

“Mesmo na nossa mediania temos sido felizes. Para que cobiçar grandes riquezas? Até Deus podia levar a mal”, observou D. Ubélia, com a sua resignação cristã.

“Ora, cantigas, mulher; Deus importa-se lá com as nossas necessidades?” volveu Luís Bernardo.

“Não sejas herege, homem, nem ambicioso”, censurou D. Ubélia.

“Não sou herege nem ambicioso, criatura de Deus! Apenas desejo reaver o que é nosso. E aquilo que foi dos nossos antepassados de direito nos pertence. Nem Deus pode levar a mal que assim seja”, replicou ele mal-humorado.

“E não vês que isso te tira o sossego do espírito?”, disse D. Ubélia para o aplacar. “Pois, sim! O maior desassossego é uma pessoa andar a tinir. E nem o céu se ganha sem trabalhos e canseiras”, disse Luís Bernardo, como que se quisesse pôr termo ao assunto.

Levantou-se e saiu resmugando, arrastando os chinelos para se ir refastelar no balcão e fumar, descansado, o seu cigarro.

Nisto, viu vir subindo os

(segue na 5a pagina)

degraus do balcão, com ares misteriosos e modos mesureiros, Manoel João, o casamenteiro. O ofício de casamenteiro é muito antigo nas aldeias de Goa, tão antigo como a própria instituição do casamento. Não há aldeia que não tenha o seu casamenteiro que, incumbido pelos pais com filhas casadoiras, leva a proposta à algum jovem, herdeiro rico, ou lançado na vida como funcionário público, por mais modesta que seja a sua categoria, porque um emprego público é aspiração máxima numa terra sem grandes horizontes nem perspectivas, como é a nossa. Ou então são os pais de filhos que voltam da África ou de Bombaim, com algum pecúlio, e os querem casar nas famílias de alto nível social, mas decaídas de fortuna.

Manoel João era o casamenteiro da aldeia. Pequeno proprietário, lançara mão daquela missão benfazeja que lhe dava o direito a uma percentagem sobre o dote, e comia a dois carrilhos – da família da noiva e do noivo.

Luís Bernardo, pressentindo ao que ele vinha, acolheu-o com o seu hábil ar galhofeiro: “Então, Manoel João, que bons ares o trazem a esta sua casa!”

Há muito tencionava fazer uma visita ao batcará, para saber da sua saúde”, disse Manoel João com a sua manha habitual.

“Bom, bom, não há razão para sustos. Sente-se, Manoel João, e conte como lhe corre a vida”.

“Se o batcará dá licença”, disse ele e sentou-se na extremidade de um banco. “A vida vai mal, batcará, muito mal. A minha profissão está a dar pouco. Uma crise pavorosa. Cada vez recorrem menos aos meus bons ofícios”.

“Então, que quer Manoel João? O preceito “crescei e multiplicai-vos” não se coaduna com estes tempos de vacas magras. No entanto, não me consta que alguém tenha feito voto de celibato”, disse Luís Bernardo.

“O mundo está perdido, batcará”, tornou Manoel João. “A gente nova faz pouco caso dos nossos bons e moralizadores costumes. Pegam em namoriscar e as duas por três estão casados sem se importarem com o futuro, quer dizer, com o dote nem com os conselhos dos pais”

“Mas isso é óptimo, Manoel João. Porque, afinal, quem se casa são os filhos e não os pais”.

“Vejo que está demasiadamente moralizador e pessimista, Manoel João. Então, assim, pela hora da morte, os seus bons ofícios de casamenteiro?”

“É como diz, batcará. O meu ofício não dá para mandar cantar um cego”.

“O meu amigo já fez uma razoável fortuna. Podia agora descansar e gozar o que ganhou casando os outros”.

“São mais vozes de que as nozes, batcará. Eu ando nisto devido a extrema necessidade que tenho de ganhar a vida. A propósito. Trago a proposta de filho de Manoel da Anastácia que, como sabe, voltou há pouco da África. É muito bom trabalhador, e deve dar um bom marido”.

O filho de Manoel da Anastácia que abalou há anos, quase descalço, para África? E como chegou ele a fazer fortuna, homem?”, perguntou Luís Bernardo.

“A África, como o batcará sabe, é um El-Dorado para quem tenha expediente e habildade. Dizem que o rapaz andou no mato a vender aos pretos riscado pelo preço do brocado e fez fortuna.”

“Magnifico, Manoel João! Esta proposta pode fazer a sua fortuna. Não o poupe. Ele que andou a esfolar o negro, pode enchê-lo de oiro.”

“Eu tinha pensado numa dessas filhas do batecará. É um belo partido. E a sua filha seria tratada como uma rainha.”

“Deus me livre falar-lhe nisso. Eu conheço bem as minhas filhas. O oiro nunca as tentou. Veio bater a má porta, Manoel João.”

“Para falar verdade batecará realmente a diferença de famílias é um grade empecilho. Contudo, há precedente. Como sabe, o filho de Gertrudes piladeira, que tem grandes estabelecimentos em Mombaça, onde ele é vice-consul de Portugal, casou com a filha do batcará da Casa Grande”.

“Cada um sabe as linhas com que se cose, meu amigo”, disse Luís Bernardo, causticante.

“O batcará não leve a mal o meu atrevimento. Pensei que talvez chegássemos a um entendimento e o casamento se fizesse. Visto isso, retiro-me, se me dá licença”.

“Pois bem, Manoel João. Estimei vê-lo”, disse Luís Bernardo, despedindo-o.

Manoel João levantou-se, limpou ao lenço encanado as bagas de suor que lhe perlava o rosto e, vendo goradas as suas diligências, foi descendo os degraus do balcão, arreliado com a sua vida, cabisbaixo e vexado, como um cão batido, murmurando entre dentes: “Pobres mas soberbos”.

Ao jantar, Luís Bernardo deu a novidade à família: “Sabem quem esteve cá esta tarde?”

“Quem foi”, perguntou D. Ubélia.

“Manoel João”, disse ele.

“Manoel João, casamenteiro? E o que é que ele queria pois? Quis saber Rosália, ardendo de curiosidade.”

“Vinha com a proposta do filho de Manoel da Anastácia para uma de vocês”.

“Do filho de Manoel de Anastácia que chegou há dias da África?” perguntou D. Ubélia.

“Esse mesmo. Mas eu tirei-lhe as ilusões”, disse Luís Bernardo, autoritárian.

“Deus me livre de casar com o filho de Manoel de Anastácia; nem que ele fosse pintado a oiro. Prefiro ficar solteira toda a vida”, foi o comentário tempestuoso de Rosália.

“E tu, Isabel, o que dizes?”, perguntou Luís Bernardo à filha mais nova, para a arreliar.

“Eu não quero casar. Quero ficar a fazer companhia aos meus pais”, disse Isabel, corando.

“Nesse caso terei que arranjar um ghor-zaoim, um genro estabelecido”, disse Luís Bernardo, divertido, o que a fez arreliar ainda mais.

“Não digo com o filho de Manoel de Anastácia; mas porque não hás-de casar, Isabel? Queres ficar para tia?”, disse Rosália com o seu ar chistoso, e acrescentou: “Já estou a ver a nossa Isabel de pano-baju como as tias clássicas das famílias antigas, devotas e beatas”.

E Isabel, ante a observação da irmã, conservou-se calada e cabisbaixa, e ficou a remoer o seu amuo e a sua timidez.

Telo de Mascarenhas - O Emigrante (1975)

Luís Bernardo era regedor de aldeia. Com o seu saber e experiência de vida, administrava Justiça nos limitados domínios da sua jurisdição, com raro tacto e rectidão. Era, por isso, respeitado e acatado; e os seus concelhos tinham força da lei para a pobre gente da aldeia.

Todas as manhãs, de fato branco, o casaco abotoado até ao queixo, o boné encafuado na cabeça e a bengala que era o seu bastão de mando, dava o seu passeio habitual para se inteirar da vida do burgo, ouvir as queixas e reclamações e dar-lhes pronta solução.

A vida de regedor da aldeia não é um mar de rosas. Contudo, a par de trabalhos, arrelias e canseiras, tem também as suas compensações. Todo o africanista ou bombaísta que regresse após longos anos de labuta no Continente Negro, em Bombaim, ou como embarcadiço nos grandes transatlânticos, é ao regedor-batcará que faz a sua primeira visita com alguma lembrança, e pinta-lhe com cores vivas e até com cores por sua conta e risco, as coisas maravilhosas que viu na Grande Índia e na estranja, no que, não raro, leva a palma ao famoso Marco Pólo.

João António era filho de gente modesta. Inteligente e empreendedor, com o seu sonho de transpor mares e ver terras novas, estudara a algumas classes de inglês na escola de Jackson e fora para Bombaim para se empregar a bordo. E era agora dispenseiro dum dos barcos da P&O, que faz carreiras para Europa.

“Pode crer, batcará”, disse João António a Luís Bernando, “aquilo é que são terras ricas e progressivas. Grandes cidades, grandes e florescentes centros industriais.. E nós aqui a foassar nestas aldeias atrasadas em tudo.”

“O que é que tu queres, João António? Se todos vocês, emigrantes, estivessem de acordo podíamos fazer grandes melhoramentos na nossa aldeia”, disse Luís Bernando.

“E sabe, batcará, como ‘elas’ lá fora, identificam os goeses?”

“Hum, - como é?”

“Eu conto. Uma noite, em Marseilles, fui, com mais dois companheiros meus, visitar uma daquelas casas de luxo das professional beauties, por mera curiosidade, para ver como aquilo era por dentro e se correspondia à realidade aquilo que me tinham contado. Veio sentar-se ao meu lado uma rapariga muito loura, muito pintada, e perguntou-me: “Êtes-vous Goannais, mon chéri?”. “Oui, mademoiselle”, respondi-lhe.

Vai ela, então, sem mais cerimónias, mete a mão pelo peitilho da minha camisa para ver se eu trazia ao pescoço a corrente de oiro com a cruz.

“Com que, então, os goeses lá fora são conhecidos por trazerem ao pescoço a corrente de oiro com a cruz?”, disse Luís Bernardo soltando uma das suas estrondosas e divertidas gargalhadas. “Essa é de primeira ordem. Hei-de contar isso ao nosso vigário para ver com que cor ele fica”.

“Deus nos livre, batcará. É capaz de barafustar no púlpito e chamar imoralões aos emigrantes”

“E o que pensas fazer agora, João António?”, perguntou Luís Bernando.

O ghor-mand é o terreno em volta da casa que sendo pertença do dono da propriedade, este impõe aos seus moradores ou mundcars, obrigações verdadeiramente onerosas: e as várzeas das Comunidades são os grandes proprietários que as tomam de arrendamento em haste pública ou gaun-pon, disputando os lanços em lutas renhidas e as sub-arrendam aos pequenos cultivadores sem terras, mediante rendas exorbitantes, explorando-os sem comiseração. Por isso, ser dono da casa com uma nesga de terreno em volta para servir de logradouro, e uma pequena várzea onde possa semear arroz no tempo das chuvas e, em tempo seco pimenteiras, legumes e batata doce para consumo doméstico, abrindo um poço quando se não tem serventia da lagoa para aguar a plantação, é o maior sonho do mundcar o que lhe dá o desafogo e a satisfação de ser um pequeno proprietário e o liberta das condições onerosas do sistema de mundcarato.

Outra compensação para a vida de regedor de aldeia são os ‘brincos’ goeses e vem de longe aquele costume, de quando os jograis iam de aldeia em aldeia, de corte, representar os episódios heróicos e líricos das nossas grandes epopeias e lendas doiradas.

Música estridente de flautas e tambores anuncia a aproximação de ‘brinco’. E a gente da aldeia acorre; pressurosa e exultante, para se juntar à volta dos cantadores e bailarinos que, nos seus trajes de fantasia, adornos e coroas auriflamantes de papel doirado, cantam, mimam e dançam as façanhas bélicas de Ramá e Ravon, dos Pandavas e Kauravas, os jeitos de audácia e bravura de Shivaji e Custobá (um herói local) ou comentam, com graça e chiste, malícia e bom humor, a vida da gente da aldeia, numa espécie de revista do ano, para gláudio do auditório.

Telo de Mascarenhas - Advogados e Solicitadores (1975)

Todas as tardes, por volta das seis, José Gregório fazia o caminho da estação para casa, de regresso de Margão, e costumava parar no balcão de Carlos Manoel para dar dois dedos de conversa ao amigo, com novidades frescas colhidas no botequim de David Camilo ou na sala de espera da gare do caminho de ferro e, às vezes, quando dispunha de tempo, para uma partida de xadrez.

José Gregório era vizinho de Carlos Manoel, e ambos, quase da mesma idade, tinham cursado o Liceu juntos. Feito o exame para advogado, e obtida a provisão, José Gregório abrira banca em Margão. Todos os dias ia ele com a pasta atulhada de papeis de demandista, tomar o comboio, na sua via-sacra quotidiana, para o escritório e para o tribunal. Arguto e hábil, de olhos vivos armados de óculos de grossas lentes faiscantes, tinha criado uma razoável clientela, alem da que herdara do pai, que fora um advogado consciencioso e honesto. Jogando habilmente os artigos do Código como jogava as pedras do xadrez, engrolava os juízes, novatos na profissão e desconhecedores das tricas e dos costumes forenses da terra, e conseguia fazer vingar as causas que lhe eram confiadas.

“Imagina tu, Carlos Manoel”, dizia ele uma tarde ao seu parceiro do xadrez, referindo-se aos Licenciados, oficiais do mesmo ofício, “aqueles senhores, lá por terem cursado Direito na Universidade fazem alarde do seu título de Doutor e pretendem saber mais do que nós, com o nosso simples exame de advogado”

“Não admira que assim seja, José Gregório”, observou Carlos Manoel. “Também nós, os médicos, com o nosso curso da Escola Médica de Goa, de via reduzida, no dizer do Dr. Brito Camacho, não podemos competir com os diplomados pelas Faculdades de Medicina”.

“Ora, bolas! Eu só queria ver a figura que fariam esses senhores togados, de enorme prosápia, perante os nossos grandes advogados doutros tempos, com o mesmo exame que nós, como o Avertano, Bruto da Costa, Lourencinho e outros, que mereceram louvores dos grandes mestres do Direito.”

“Esses, sim. Foram grandes advogados e podiam ombrear com os luminares do foro, em qualquer parte. Mas hoje em dia, sem desprimor para si, José Gregório, não temos nem grandes advogados nem grandes causas”

“Tens razão, Carlos Manoel. Concordo, plenamente, contigo. Infelizmente assim é. Nós, agora, vivemos de migalhas e não passamos de cepa torta. É sina nossa”

Rosália veio servir o chá, e José Gregório levantou-se muito cerimoniosamente, para a cumprimentar. Continuaram a jogar, até que Carlos Manoel, movimentando a rainha, deu cheque-mate no rei do parceiro, e disse: “Por hoje, basta. Já tens a tua conta, José Gregório”.

“Ora veja, minha senhora”, disse José Gregório, dirigindo-se à Rosália, “Veja como um médico descamba um advogado no xadrez e dizem que nós é que somos chicaneiros”.

“Bem dizem os ingleses – Lawyer is liar. Na língua que nós falamos não rima; mas deve ser verdade. A vossa chicana é mais de temer, porque pode levar à ruina os litigantes. Enquanto que a nossa, se chicana se pode chamar, é no inofensivo xadrez”.

Passaram a beber o chá louro e perfumado, que Rosália deitara nas chávenas.

“Na verdade, não há como mão de mulher para preparar um bom chá. Nós, os homens, somos desajeitados e sem gosto”, disse José Gregório, continuando a saborear a aromática bebida.

“Obrigada pelo elogio Sr. José Gregório”, disse Rosália, agradecendo.

Tomando o chá, José Gregório levantou-se para retirar, dizendo: “Agradecido pelo seu excelente chá, sra. D. Rosália. E agora, deixem-me ir, que devo ter gente em casa à minha espera. Não calculas, Carlos Manoel, como é espinhosa a profissão de advogado”.

“Espinhosa, sobretudo, para os teus clientes a quem tiras coiro e cabelo”.

“És dum sarcasmo mordaz, Carlos Manoel. O que vale é que não passa de boca”, disse ele sorrindo para o amigo e despediu-se; “Bem, até amanhã, à hora do costume”.

E lá se foi gingando, ajoujado, com a pasta atulhada de papeis de demandista.

Esperava-o, sentado no balcão, o procurador Belmiro, com dois clientes, para recorrer aos seus serviços para uma composição amigável numa disputa de limites, que o próprio solicitador suscitara e alentara com os seus conselhos tortuosos, esperando fazer disso uma mina de inconfessáveis proventos.

José Gregório era para o procurador Belmiro um advogado de recurso, de quem se valia para casos urgentes e embaraçosos, que não sabia solucionar, como aprendiz de feiticeiro que era, e por trabalhar por conta dum advogado de Margão.

“Então, Sr. Belmiro, que bico de obra temos nós hoje?” perguntou-lhe o advogado.

“Coisa de nada, Sr. José Gregório. Estes meus clientes querem ouvir a sua opinião para se resolver uma disputa sobre limites”.

“A minha opinião em casos desses só posso dá-la após prévia vistoria ao local. Mas a hora é imprópria”, disse José Gregório.

“Se o Sr. José Gregório não se importasse, podíamos ir lá agora, que é muito pertinho daqui. É que, um dos meus clientes retira-se amanhã para Bombaim”.


E como o caso de esbulho era patente, a disputa foi prontamente solucionada, comprometendo-se o esbulhador a corrigir a extrema.





O procurador Belmiro para se dar ares de pessoa atarefada, sentado sob alpendre de olas entrelaçados da sua casa, que fazia de escritório e servindo-se duma velha Remington, quase desconjuntada, desatava a escrever a toda a gente aquilo que lha dava na real gana – as autoridades civis, reclamando a destituição do regedor que não lhe fazia bom pêlo, dificultando-lhe as manigâncias: as autoridades eclesiásticas, suplicando-lhes a transferência do vigário, por denunciar nas suas práticas dominicais, os que não observavam o décimo mandamento: aos prováveis compradores de algum prédio à venda em hasta pública, apoucando-lhe o valor e o rendimento, para os afastar da concorrência, com o seu espírito de cambão inveterado, para compra-lo por tuta-e-mais.

O procurador Belmiro era uma espécie de gestor de negócios de defuntos e ausentes, mas mau prestador de contas. Para se furtar ao pagamento da renda de prédios que arrendava, desculpava-se alegando o desaparecimento do negociante do coco, sem lhe ter pago. Deixava relaxar as contribuições que eram de sua conta, para descontar na renda e procuradoria pelos serviços prestados para evitar a execução.

Ia assim aumentando a sua fazenda por artes de tricas e baldrocas, e engordando como um bom burguês, porque o seu sonho era ser também um batcará, como todos os grandes batcarás da terra e fazer-lhes sombra. Homem de poucas letras e algumas classes de inglês, metera ombros à vida com o fim de fazer rapidamente fortuna.

Um dia, um aldeão foi procurá-lo no seu “escritório” sob o alpendre, para lhe pedir um conselho. E como ele o tratasse por ‘Sr. Belmiro’, o solicitador abespinhou-se e disse-lhe:

“Dobre a língua, seu begarim, e trate-me por Sr. Doutor, porque eu sei muito mais de leis do que muitos advogados que por aí pululam, quase tanto como os Licenciados – esses senhores de grande prosápia que, quando peroram nos tribunais, vestem túnica negra, como se lhes tivesse morrido a avó torta. Forte danação! Sem aqueles charlatães, que bem que eu teria governado a vida! Não tenho grandes estudos, é certo; mas a manha e a chicana são o meu segredo:.

O pobre homem ouviu em silêncio e a pé firme a longa objurgatória do procurador Belmiro, sem lhe atinar o sentido. Mas quando compreendeu o sentido da expressão “governado a vida”, fez meia-volta e safou-se, apressadamente, com receio de que o solicitador mal-humorado o despojasse das úncias duas rupias que levava atadas na ponta do lenço, sob o pretexto de lhe ter dado um bom conselho.

Aljube, Janeiro de 1961

Monday, 11 June 2012

Telo de Mascarenhas - Um Tema Mitológico (1977)

O Sr. Xavier conta-nos a história de Kuvera, em “O Heraldo” de 11 de Novembro firmada na versão védica, que achamos um tanto fantasiosa, por nunca termos deparado com ela em nenhuma antologia védica, mas com isso não queremos dizer que ela não seja verídica. Aquela história contada pelo Sr. Xavier, quase macabra, veio abalar tudo quanto de encantador e belo havia criado no nosso espírito permeável à ficção poética, como é a de Kalidasa, no seu enleante poema Kumaraswambha ou o Nascimento de Kubera, o Deus da Riqueza em cujo parque, interdito a mulheres (onde Urvaci se refugiara, ardendo de ciúmes do seu rei bem-amado, por ele possuir mais esposas), decorre o entrecho do drama todo mimado, cantado e dançado, de Kalidasa, intitulado Wikramaurvaci.

Não conhecíamos o aspecto tétrico do “chefe dos espíritos”, que viveu no Naraka ou no Nimbo, mas como um ente nascido da união de Shiva e Parvati. Inspirados na lenda do nascimento de Kuvera, escrevemos, há anos, o seguinte conto:

“Himavat, o Rei das Montanhas do Himalaia, e Ménaka, já Rainha, tinham uma filha encantadora como a estrela da manhã e graciosa como a estrela da tarde. O Rei chamava-lhe Parvati, que quer dizer, filha da Montanha; mas a Rainha Ménaka dava-lhe um nome mais doce, todo carinho, todo ternura – chama-lhe Uma, que quer dizer Mãe.”

“Um dia Shiva, o Deus omnipotente, o Deus misericordioso, o Deus misericordioso, piedoso e mendicante, chegou ao Himalaia e sentado na pele de tigre estendida no chão, quedou-se nas suas meditações longas e calmas como os picos alterosos e nevados das montanhas. Parvati, a graciosa filha da Rainha Ménaka, pôs-se ao serviço do Deus Shiva e, todas as manhãs, enfiava em contas grãos de lótus orvalhados, em que Shiva rezava as suas orações. Parvati amava Shiva, o Deus de cabeleira coroada do crescente da Lua e de flores de acácia, em que aparava o impetuoso caudal do sagrado rio Ganges prestes a engolfar o Mundo no abismo. Para cativar o coração do Shiva, Parvati pintou as unhas de laca, os olhos de kajol, e pôs no seu coração virgem um fundo de desejo de unir a Ele, que era todo bondade, todo pureza, todo virtude.”

“A Primavera aflorou as montanhas doirando as neves eternas e vestindo de galas a natureza, e o aroma das flores de deodaras, os cedros do Himalaia, à cuja sombra Shiva meditava, segredou-lhe o amor de Parvati. Quando as suas longas e calmas meditações findaram. Shiva entreabriu os olhos, e os seus olhos poisaram sobre Parvati sentada aos seus pés, humilde e submissa, virgem e núbil como uma oferenda de sacrifício. E sob o véu lilás de neblina dum dia florido de Primavera, Shiva e Parvati trocaram o primeiro olhar de bom agouro, todo impregnado de carinho, amor e ternura conjugal. E desse conúbio nasceu Kuvera.”

Devíamos revestir de roupagens encantadoras e poéticas, como fez Kalidasa com o seu génio imortal, os temas mitológicos, os contos e as lendas doiradas que formam e enredo das nossas velhas Epopeias e Puranas.

Thursday, 17 May 2012

Telo de Mascarenhas - Em Defesa da sua Dama? (1975)

O Sempre-Fixe (este nome traz-nos sempre à ideia o título do jornal, irmão gémeo de “Os Ridículos”, fundado em Lisboa, por Amarelho), cronista das quintas-feiras de “O Heraldo”, querendo talvez competir com a Ala dos Namorados, saiu a estacada em defesa da sua dama – o grupinho que apodamos, com inteira razão, de Obstrucionistas, por terem querido passar-nos rasteira e palmar os frutos da actividades do Círculo de Amizade Indo-Portuguesa, sabemos bem com que intuitos.

Se o Sempre-Fixe tivesse lido o número especial do “Ressurge, Goa!” dedicado à Amizade Indo-Portuguesa e se conhecesse o nosso passado de anti-colonialista, mas defensor acérrimo da difusão e manutenção da Língua e Cultura portuguesas em Goa, ficaria elucidada acerca de Ideologia e Actividades do Círculo e não cairia no dislate de afirmar, equivocamente, que “Um dos seus pilares começou a amizade anunciando que de deviam acabar por completo todos os vestígios dos Portugueses não se compreende como passou a ser amigo”.

Ora, o que nós sugerimos, logo após a nossa chegada à Goa, liberto das masmorras dos colonialistas, foi que fossem varridos todos os estigmas do colonialismo (que era um opróbrio para a Nossa Terra e para nós) o que é diferente dos vestígios dos portugueses. Mas esta diferença subtil os espíritos obscurecidos pelo culto do colonialismo não podem compreender. Do mesmo modo, logo após o triunfo da Revolução de 25 de Abril, os seus mentores apagaram todos os vestígios de Salazar – a grandiosa ponte sobre o Tejo mandada construir pelo Ditador para perpetuar a sua memória, deixou de ser Ponte Salazar para passar a ser Ponte 25 de Abril; e todos os nomes dos apaniguados do homem de Santa Comba Dão, como Américo Tomás e outros foram varridos inexoravelmente da face da terra. E ninguém, em Portugal, ousou chamar-lhes iconoclastas, porque eles, os portugueses, de todas as escolas sociais são mais politizadas, do que nós, os ex-colonizados goeses. Ficam, pois, o Sempre-Fixe o os da sua grei elucidados, de uma vez para sempre, quanto a este assunto, para não virem lançar, volta e meia, aquela suspeição própria de cabeças obtusas, ou como quem faz girar o moinho de orações sem intenção nem devoção.

A Crónica que publicamos acerca dos Obstrucionistas não foi de animo leve, mas depois de termos estudado bem os intuitos e as intenções daquele grupinho, e foi um test necessário para extremar os campos, porque, como Cristo ensinou “quem não é por nós é contra nós”. E como disse São Pedro, o mais ardoroso discípulo e propagandista das Doutrinas do Mestre, calejando na dura faina de lançar a rede e pelos ventos desabridos do Tiberia – de, e que com uma espadeirada, decepara a orelha ao servo dum Rabino – “Quem o inimigo poupa nas mãos lhe morre”. E não somos dos que, quando nos esbofeteiam uma face oferecem a outra (um ensinamento hipócrita atribuído a Cristo que, como Revolucionário que era, deveria ser brioso e não um pusilânime, como querem os hipócritas para fazer das suas ovelhas cordeirinhos mansos).

No nosso artigo não procuramos fazer passar pelas ruas de amargura os obstrucionistas, como pretende o Sempre-Fixe, nem depois de eles discordarem de nós (quem os convidou não sabemos), mas na primeira reunião começaram logo por propor a representação da “Barca Sem Pescador” (julgando talvez brilhar no palco), proposta que rejeitamos por a peça não ser do autor português e justificando que do repertório do Círculo só podiam fazer parte originais portugueses e indianos, em português, ou adaptação de peças indianas. E aquela sua proposta ficou prejudicada, o que os amargurou deveras.

Um amigo comum que assistiu à Conferência de Imprensa do Círculo, mostrou-se muito interessado pelo programa delineado e compremeteu-se a arranjar elementos para se formar o elenco. E na reunião seguinte comparecerem os mesmo elementos com quem lá tínhamos travado conhecimento na reunião anterior. Como a sua proposta não tinha sido aceite, torceram o nariz para as peças originais propostas pelo Conselho de Leitura do Circulo a apresentaram na reunião seguinte uma proposta para uma espécie da sociedade de Coca-Cola, pelo que revelaram o seu interesse não pela arte, mas em saborear o precioso líquido de origem americana. Seria fastidioso esmiuçar este assunto de modo que os obstrucionistas chegaram a sugestionar o tal amigo comum que, depois disso se desinteressou completamente. Mas não há elementos insubstituíveis nesta Nossa Terra, graças a Deus – insubstituíveis e desinteressados.

A critica à peça “Barca sem Pescador” foi feita em “O Heraldo” a seu devido tempo, quase nos mesmos termos que nós, por alguém que não é verde na matéria. Só agora se nos ofereceu ensejo de nos referimos a ela para desmascarar abertamente, e não à socapa, o grupo dos obstrucionistas.

Nós ocupamos o posto de “pilar” como impropriamente diz o Sempre-Fixe, não por o ambicionarmos, mas no-lo ter sido imposto. E, cônscios da nossa responsabilidade, estamos empenhados em realizar uma obra válida, não nos poupando ao esforço para produzir peças originais adequadas aos intuitos do Cículo, indo a Pangeim sempre que é necessário galgando distancias, com sacrifícios de vária ordem. Tomamos o compromisso de bem servir a causa do Círculo. Esse compromisso estamos decididos a honrá-lo mesmo que tenhamos de pôr o pé no inferno, como soe dizer-se.

Gastamos toda esta cera para edificar o espírito do Sempre Fixe, para que os seus leitores não se deixem embair com histórias parciais e fantasiadas. No entanto estamos-lhe gratos pelos votos que faz no fim do seu artigo (“O Heraldo” de 30 de Outubro último, cremos que com boas e sinceras intenções) pelo “florescimento do Círculo de Amizade Indo-Portuguesa que receberá de braços abertos e coração exultante de alegria (há mais alegria no Céu por um pecador convertido do que por mil santos que nunca pecaram como disse Cristo. Apesar de nos apodarem de ímpio, conhecemos alguma coisa dos ensinamentos do doce Nazareno e os praticamos). Receberá de braços abertos, dizíamos nós, todos quantos, sem reserve mental, nele queiram ingressar.

Thursday, 15 March 2012

Telo de Mascarenhas - Jawaharlal Nehru, Homem de Boa Vontade (1975)

Em meados de Setembro de 1948 haviamos chegado a Nova Delhi, de regresso a Portugal, deslumbrados e curiosos de conhecer a vida da Índia Independent. Setembro é um mês ameno, com maciezas de veludo no ar, pronúncias do Outono, que é a estação mais deleitável do ano.

A um motorista do carro estacionado no parque de Hotel, um Sickh, de barbas façanhudas de Ali Baba, dou o endereço: “Panditji Ghar” (casa do Pandit). Em Nova Delhi todo o mundo conhece a casa do Primeiro Ministro Pandit Jawaharlal Nehru. Era como o “Abre-te, Sésamo!”. Uma palavra mágica que criava boa vontade e obtinha todas as facilidades.

A residência do Primeiro Ministro Nehru, no Teen Murti, rodeada de um vasto parque e jardins em plena floração, na manhã em que lá chegaremos, estavam cheios de sol e aromas. Canteiros de rosas vermelhas, amarelas e da cor de púrpura, flores favoritas de Nehru (talvez porque o seu nome, Jawaharlal, quer dizer rosa vemelha dedicada à Deusa Kali). Ele trazia sempre a florir na botoeira do seu Sherwani um botão de rosa.

Uma vez, volvidos anos, sobre a nossa entrevista e quando vivíamos em Nova Delhi, Nehru presidiu às cerimonias do Dia de Independência, no Forte Vermelho, com uma rosa amarela na botoeira do seu Sherwani. Como estivéssemos próximo, perguntamos-lhe:

“Desespero, Excelência?”

“De modo nenhum. Felicidade,” disse Nehru, sorrindo, talvez regozijado da nossa ignorância acerca do significado das cores na Índia. Segundo a convenção ocidental, amarelo significa desespero e desolação.

Naquele tempo, logo após Independência, havia grande escassez de géneros alimentícios em toda a Índia. Nehru, então, não só aconselhou o povo a cultivar hortaliça, cereais, como ele próprio os nos largos talhões do seu parque para suplementar sua mesa com tais géneros.

Quando Nehru acabou de conversar com um grupo de pobres refugiados, vítimas da partilha da Índia, na sala de espera, eu declinei a minha identidade e apresentei-lhe as credenciais (cartas que recebera em Portugal), e ele, prontamente, conduziu-me para a sala de visitas, ampla, confortável e soalheira, deitando sobre o jardim em flor, com as paredes ornamentadas com os retratos de quase todos os líderes asiáticos.

Após a conversa convencional entre duas pessoas que se conhecem pela primeira vez, o Primeiro Ministro perguntou-nos pelas novidades de Portugal e falou-nos em tom amargurado sobre a situação e do totalitarismo de Salazar e disse: “faremos todo o possível para libertar Goa das garras do colonialismo”. E acrescentou: “Valer-nos-emos primeiramente de meios diplomáticos e como ultima ratio , doutros meios aconselháveis pelas circunstâncias.”

“Após a Libertação que futuro de Goa, Excelência?”

“Goa será um estado autónomo dentro da Índia, preservando a sua língua e cultura e, até a língua e cultura portuguesas, seus usos e costumes, para que Goa e Pondicherri sejam duas janelas na Índia abertas sobre o Ocidente. Não queremos que Goa perca a sua identidade, as suas crenças e o seu modo de vida” asseverou Nehru.

O Primeiro Ministro Nehru era uma pessoa bastante azafamada, com mil problemas a solver no limiar da Libertação. Era também pessoa cheia de vida e dinamismo. Não quisemos abusar da sua bondade e cortszia com que nos recebera apesar de andar atarefado. Autógrafos numa fotografia sua e no “The Discovery of Índia”, duas lembranças suas, põem ponto final a nossa tão desejada entrevista.

Thursday, 28 July 2011

Jeremias Carvalho - Telo de Mascarenhas (1979)

Duas palavras só, que nem a míngua de tempo nem o abalo de espírito causado pela muita brusca notícia nos permitem mais neste momento.

Ó alma forte do Dr. Telo!, quão longo estaríamos de por sombra imaginar sequer, quando mal completam dois dias, nos encontrámos no passeio rente as oficinas d’O Heraldo e tivemos uma amigável cavaco casual, que tão de chofre desaparecias para sempre deste mundo de tribulações...
Decerto a morte jamais te poderia amedrontar, embora o surpreendesse, como a nós, o vir ela tão traiçoeira, pois além de habituado às coisas que aterram como o vulgar de Lineu , eras serenamente altivo, de rijo tempero, sem vacilações – numa palavras, eras um forte, eras um autêntico d’A Grei do teu soneto:

“Corre nas minhas veias o sangue dos Kshatriyás,
(Eu abomino as castas mas venero a Grei),
Os meus ancestros aguerridos criaram Pátrias
Talharam reinos, firmaram pactos, ditaram Lei.

Da Rajaputana, terra desértica e adusta,
Abandonado seus fortes e seus castelos,
Seus feudos e cidades de grandeza vetusta,
Vieram fixar-se nestes plainos e vales belos.

Esforçados guerreiros, com o seu código antigo
De honra e orgulho, de altivez e pundonor,
Não sabiam voltar a cara na hora dura de perigo.

As donas airosas, ante o bárbaro invasor,
Quando os homens eram vencidos pelo inimgo
Lançavam-se às piras do fogo purificador”
- Telo de Mascarenhas, A Grei, in Goa – Terra Minha Amada, p.21

Não pode o país deixar de lamentar o silenciar-se da brilhante pena do Dr. Telo cuja verve culta e exuberante em prosa e verso tão assiduamente se fazia apreciada pelos amigos e inimigos, pelo saber e arte.

Deus prodigalize à tua alma, a paz eterna, em que o mundo pouco generoso foi para com o teu
corpo.

Sunday, 19 June 2011

Telo de Mascarenhas - A carta de Rendição (1974)

Haviam decorrido muitos anos e meses de vida monótona de prisão quando Dezembro chegou com seus frios e névoas e notícias vagas nos jornais relatando alguns incidentes em Goa.

Os jornais de Lisboa do dia seguinte davam, com fundo ressentimento e raiva incontida, a notícia de concentração das tropas indianas junto da fronteira de Goa, o que fez criar no meu coração a esperança de que havia chegado o princípio do fim. Soube-se também que os oficiais superiores e os comandantes do exército tinham fugido, tomados de pânico, para Mormugão, à aproximação das tropas indianas, destruindo as pontes e minando as estradas. Soube-se mais que a fragata “Afonso de Albuquerque”, quando uma canhoneira indiana abriu fogo fizera marcha à ré e fora varar na praia rochosa de Dona Paula.

No entanto, Salazar, fremindo de raiva, mandava constantes ordens pela rádio ao Governador Geral de Goa para resistir até ao último homem. Mas o Governador-Geral e o Comandante Militar não obedeceram às ordens do seu patrão Salazar, e renderam-se ao Comandante das tropas indianas para evitar o holocausto de inocentes vidas humanas, tanto dos militares portugueses como dos civis goeses para poupar Goa de ser reduzida a destroços e a terra queimada como Salazar sempre ameaçara nos seus discursos, caso os portugueses tivessem de sair de Goa.

Foi o Mgr. Gregório Magno Antão, um estrénuo nacionalista que, desprezando todos os perigos, atrevessou o rio Mandovi às 8 horas de noite de 18 de Dezembro de 1961 e entregou ao comandante das tropas indianas que haviam entrado em Goa, Major Shivdev Singh Sidhu, a Carta de Rendição do comandante do exercito português, Major Acácio Tenreiro.

Foi o pai do malogrado Major Shivdev Singh Sidhi (morte à traição após a rendição das tropas portuguesas, na noite de 18 de Dezembro, pela guarnição do Forte de Agoada, quando ia libertar os 35 presos nacionalistas na iminência de serem chacinados segundo a ordem dada pelo comandante do forte ao seu imediato, alferes Pinto), quem me mandou a fotocópia da Carta de Rendição, logo após o meu regresso do degredo, redigida nos seguintes termos:

“Cidade de Goa, 18/12/61

O Comandante Militar da Cidade de Goa declara que deseja parlamentar com o Comandante do exército da União Indiana com respeito à rendição.

Nestas condições, as tropas portuguesas devem, imediatamente, cessar fogo e as tropas indianas proceder de igual modo com o fim de evitar a chacina da população e a destruição da cidade. O Comandante; (as.) Acácio Tenreiro (Major)”

Quando a notícia da rendição iminente de Goa chegou a Lisboa, foi convocada com urgência a Assembleia Nacional e um Adv. Goês escolhido para Deputado pela União Nacional, o Partido único durante o regime de Salazar, preferiu um longo discurso cheio de jargons, convencido de que falava uma linguagem correcta e parlamentar e disse que “Nehru queria fazer fita”, pelo que ficou sendo conhecido entre os presos de Caxias por “Dr. Fita”. E reeditando a “His Master’s Voice”, acrescentou: “Qualquer de nós pode vir a ser Presidente da República. Todos nós – Hindus, Cristãos e Muçulmanos somos a favor da soberania portuguesa em Goa”, e outras bojardas de igual calibre.

Naquele dia, eu e Mohan Ranade saudamo-nos, mutuamente, no recreo com dois dedos em “V” significando Vitória.

Passados dois dias os jornais e a Rádio davam notícas, ansiosamente esperadas, de que as tropas portuguesas se tinham rendido em Goa. Senti-me exultante de alegria, de igual modo os meus companheiros que me felicitaram calorosamente. Logo depois daquela notícia, que se espalhara pelo Forte como um rastilho de pólvora, eu e alguns companheiros fomos transferidos para a sala onde se econtrava Mohan Ranade. Abraçamo-nos cheios de exaltação. E foram mais felicitações dos meus novos companheiros da sala.

Na tarde nevoenta de fins de Dezembro eu observo da janela da nossa sala as folhas amarelecidas, de que o Outono se esquecera, caindo dos árvores. E eu penso que, de mesma maneira, o poder colonial retrógrado, obsoleto e corroído tinha caído em Goa, nesta era de emancipação dos povos e de autodeterminação – o mais sagrado direito do homem.

(extraído de Quando as mangueiras floriram, quase-memórias)

Thursday, 17 March 2011

Telo de Mascarenhas - O Nosso Passado Político (1952)

Não obstante termos desempenhado várias funções oficiais na Metrópole e termos vivido durante um longo período em Portugal, nunca renegamos o nosso ideal nacionalista e nunca fizemos segredo das nossas ideais.

O ideal nacionalista nasceu em nós, num grupo de goeses que faziam os seus estudos em Portugal, mercê do conhecimento da História da Índia e da nossa própria história, das nossas tradições e do nosso glorioso passado. Em Goa tinham-nos ensinado a História de Portugal, como sendo a nossa História e a venerar os reais guerreiros e os “heróis” portugueses. Em Portugal, porém libertamo-nos dessas falsas ideias e dos ídolos alheios, e aprendemos a amar a Índia e os seus grandes vultos, do passado e do presente – o Rei Açoca, Pritiviraj, Sivaji Tagore e Gandhi.

Só se ama melhor a nossa terra quando estamos longe dela. E nós amamo-la e cultivamo-la com um sentimento misto de devoção e orgulho. Durante as férias escolares, em Portugal, quando não nos embrenhávamos nas magníficas matas de Sintra ou Bucaço ou quando não repousávamos nas areias douradas, que são as praias de Portugal, refugiávamo-nos na Biblioteca Nacional de Lisboa, onde nós familiarizámos com o multimilionário repositório dos Hinos de Harivança, com as obras dos historiadores que nos falavam da Índia, tais como as de Max Muller, Gustave Le Bon, Jacoilliot, obras que nos deslumbravam, e com as dos nossos próprios escritores como Francisco Luís Gomes. Foram eles os iniciadores do nosso nacionalismo. Em 1923, Romain Rolland publicava, em tradução francesa, os escritos e as cartas de Mahatma Gandhi, com o título de “La Jeune Inde”, que para nós foi um deslumbramento e a revelação da alma do nosso maior Apóstolo do Nacionalismo Indiano. Levados pelo nosso ardor nacionalista, fundávamos em Lisboa, em 27 de Janeiro de 1926, o Centro Nacionalista Hindu, em cuja sessão inaugural foi saudada a Índia com discursos inflamados de puro patriotismo, que o “Bharat” de Hegdó Dessai publicou em número especial. Dos iniciadores deste movimeno só um, infelizmente, se encontra entre nós lutando pelo nosso velho ideal – o Dr. António Furtado. O artigo que nessa altura publicámos no “Bharat” intitulado “A Morte dos Ídolos” foi o primeiro grito de rebelião contra os falsos ídolos que haviam imposto à Nossa Terra e às nossas almas, com o fim de extirpar delas a nossa qualidade de indianos. E este primeiro acto de rebelião deu lugar a uma violenta reacção por parte das autoridades imperialistas de Goa, secundadas por alguns goeses, que arrastaram o “Bharat” à barra do tribunal como responsável pela publicação daquele nosso artigo.

Seguiu-se depois em Coimbra, em 1927, a era de renovação literária com fundo sentido nacionalista com o jornal “Índia Nova” (Órgão dos Estudantes Goeses das Universidades de Portugal) e do qual foi alma dinâmica, entre outros, o malogrado Adeodato Barreto.

Este nosso velho idealismo não quebramos através de anos, bem pelo contrário, manteve-se sempre aceso a ponto de nos ter dado forças e alento para abandonando a nossa vida profissional em Portugal, regressarmos à Índia e nos lançarmos nesta “mêlée” feita de incertezas, de renúncia e de sacrifícios, que é a luta pela emancipação da Nossa Terra, porque achamos que era do nosso dever, e dos mais sagrados, ser coerentes com nossas ideiais. E a quem luta sem ambições, com o único intuito de ver realizado um nobre ideal, a Providência não abandona. E o nosso olho da Providência é a obra a que lançamos ombros com trabalhos insanos e sacrifícios sem conta – o “Ressurge, Goa!” – alimentado com o melhor do nosso esforço com o sangue arrancado do nosso próprio peito, como os pelicanos, e mercê disso ele tem hoje uma larga expansão e é tido como uma nova aurora anunciadora da breve redenção do Povo Goês.

Sunday, 6 March 2011

Telo de Mascarenhas Obituary 1979

Já não é dos vivos o Dr. Telo de Mascarenhas

A sua figura imponente de lutador sem treguas, para alguns dos seus amigos era figura controvertida, mas ninguem foi capaz de por em duvida o seu indefectível nacionalismo, o seu amor à Pátria que mereceu o reconhecimento do Governo da Índia que o galardoou com Padma Shree, como combatente de liberdade.

A sua folha de serviço como combatente de liberdade foi multiflora. Na All-India Rádio, de Nova-Deli, e na Imprensa a sua acção se desdobrou de uma forma admirável. No Ressurge Goa, primeiro publicado em Bombaim, e depois da reintegração deste território na Índia dos seus sonhos, em Pangim, onde a sua pena cintilante versou assuntos, palpitantes de interesses da sua terra natal e na Coluna de Pilatos vergastou sem dó nem piedade muita hipocrisia e desmando do Governo local.

Acérrimo imimigo do Governo da ditadura Salazarista, contava amigos dedicados entre portugueses e, ultimamente, o seu decidido empenho foi ver convertido em realidade o seu sonho de um “Círculo de Amizade Indo-Portuguesa” que tinha sido a preoccupação dos últimos anos.

Ainda, recentemente enviara para O Heraldo a reportagem a uma representação levada ao palco na Kala Academi e à qual assitira o embaixador designado da Índia junto do Governo de Portugal, sr. Auduta Cacodcar, reportagem que daremos na edição de amanhã como a sua última contribuição e preito da nossa enternecida saudade.

Fulminado por um súbito colapso cardíaco nas primeiras horas da manhã de anteontem rendeu a sua alma ao Criador, nas suas casa de Camorlim, este nosso prezado amigo e colaborador, que contava setenta e oito anos de idade.

Poeta, escritor e jornalista, tem à seu crédito várias publicações e colaborou assiduamente na imprensa, tanto local bem como na estrangeira.

Combatente de Liberdade, agraciado com a comenda de Padma Shri em 1976, fundador do Ressurge Goa, cujo tema oi sempre batalhar contra a ditadura de Salazar, de quem, por ironia de destino, fora seu aluno predelicto, Dr. Telo de Mascarenhas, quando regressou ao seu torrão natal ao 9 de Agosto de 1970, foi recebido com as máximas honras, em geral, dispensadas a um herói e fundou logo o “Círculo de Amizade Indo-Portuguesa” do qual tornou-se o seu primeiro presidente.

Depondo um punhado de goivos sobre a sua campa fria erguemos uma prece fervente pela sua alma e enviamos as nossas sentidas condolências a sua viúva, sra D. Elsa Mendonça e Mascarenhas e demais família.

Friday, 18 February 2011

Telo de Mascarenhas - As Sementeiras (1971)

As chuvas vieram
Os homens e os bois
Jungidos ao tosco arado,
Abrem sulcos na terra
Ensopada e clemente,
Rara em seguida
Lançar a semente,
Com gestos sacudidos.

Os gritos de incitamento:
“Arre! Hoi! Hoi!”,
Ao boi pachorrento,
Lembram as apostrofes
Dos carreiros,
Alegres e chocarreiros,
Do “carrinho de barro”,
Do Rei Shudraka.

Os pobres “royts”
Com seus métodos rotineiros
E sem vanglória,
São legítimos herdeiros
Do Rei Jánaka,
Rei Lavrador
Da Nossa História.

Quando as sementes grelaram
E a terra reverdecer
Como uma alcatifa de veludo,
E as loiras messes ondularem
Com uma bênção da Fortuna
Sobre a terra de dor
Onde a fome abunda
Florirá a esperança
Duma vida melhor.

Saturday, 12 February 2011

Telo de Mascarenhas - Dois Poemas (1975)

Canto de Vitória

Grande ou pequena,
rica ou pobre,
esta Terra é nossa,
uma herança ancestral;
nós lutámos e sofremos
para a LIBERTAR.

Único anseio nos guiou
na nossa luta insane
sem tréguas e sem quartel,
na alegria e na dor:
fazer ressurgir Goa
com o seu prestino esplendor;

Fazer da Nossa Terra
um manancial
de leite e mel:
dar um palmo de terra
a todos, para cultivar;
um tecto para abrigar
os deserdados sem lar

Esta Terra é nossa,
legitimamente nossa,
uma herança ancestral;
nós lutámos e sofremos
para a RESGATAR.

Não consentiremos
que politicos sem escrúpulos
façam da Nossa Terra
um tabuleiro de xadrez
para o jogo dos seus interesses
sujeitando-nos ao revês
de perder o que ganhamaos.

Esta Terra é nossa,
legitimamente nossa,
uma herança ancestral;
nós lutamos e sofremos
para a LIBERTAR.

No seio da Mãe-Índia
nós queremos viver
como seus legítimos filhos que somos;
mas em nome da UNIDADE
não venham subverter
a nossa IDENTIDADE.

Do mesmo modo que lutamos
com os nossos dominadores
nós lutaremos
com os nossos exploradores.

Esta terra é nossa,
legitimamente nossa,
uma herança ancestral;
nós lutámos e sofremos para a RESGATAR.

Grande ou pequena,
rica ou pobre,
esta Terra é nossa,
orgulhamo-nos dela.

Num solar ou num tugúrio
nós sabemos viver
com altivez e orgulho,
porque esta Terra é nossa,
legitimamente nossa;
uma herança ancestral
nós lutámos e sofremos
para a LIBERTAR.

A Unidade
Balkrishna, dá-me a tua mão.
Somos filhos da mesma mãe,
gerados no mesmo ventre,
tu Hindu e eu Cristão.

Manuel António, meu irmão,
nós demos o corpo ao manifesto
com coragem e decisão;
mas são os dúbios que colhem
os frutos da LIBERTAÇÃO.

Por Allah, eu juro;
soa o traço de união
entre o Hindu e o Cristão,
no passado, no presente, no futuro.

A nossa raiz é a mesma,
somos três elos
da mesma geração.

Por isso nós demos a mão,
na luta da Libertação.