Showing posts with label Walfrido Antão. Show all posts
Showing posts with label Walfrido Antão. Show all posts

Friday, 17 April 2015

Walfrido Antão - De praias que vão de Cavelossim a Cola: A extração de areia e o estudo científico de Urbano Lobo (1975)

Tradução e comentário de Walfrido Antão

‘V. tem de publicar isso porque ama Goa. Nós lutamos juntos em Velção, logo temos de lutar pelas praias dos nossos ancestros”
- de uma carta de Urbano Lobo, Chartered Civil Engineer (Londres e América)

Por motivos pessoais não gosto de visitar praias do sul de Salsete (de Cola a Cavelossim) ou escrever sobre o que se passa. Mas o Engenheiro Urbano Lobo foi meu camarada, meu guia científico na tragédia da terra calcinada e peixe morto em Velção e os goeses jamais podem esquecer este homem fidalgo de um Bardez fidalgo que veio ajudar as crianças de Velção numa época quando até os biologistas eram comprados a preço de oiro. Como recusar? Ou não seria eu jornalista atento ao que vai suceder no litoral daqui a uns anos e o povo de humildados já não terá nem várzeas para cultivar nem casas para morar: a terra atrasada como em Andhra Pradesh de 1977 ou Kerala.

Como jornalista tenho de esquecer agravos pessoais até esquecer que algumas das concessões (as ‘mining leases’ não precisam de autorização) para extração de areia ficam em terra dos meus ancestros que fiéis à agricultura deixaram lugares de Juiz de Calangute, ou Pandá ou de Consul do Brasil para plantar cajueiros e levantar um coqueiral, tudo porque ao jornalista cabe avisar o povo, e o governo do que virá a acontecer. Foi-se a terra e a areia.

Ao jornalista não interessa entrar em confronto com o Governo Local, apenas levar ao conhecimento dos leitores o estudo científico dum grande homem de Goa, o Engenheiro Lobo que gastando do seu bolso está a defender desde Velção a Cavelossim as dunas de areia por que elas são o contraforte, a muralha de defesa contra ciclone e os ventos que sopram do mar. Aos cuidados de Goa, especialmente à juventude do Chowgule College e Carmel College, fazemos este apelo para que não se abra mais um desastre em Goa. Não se trata de uma agitação popular ou populista mas da própria existência a sobrevivência das populações do litoral de Salsete num futuro não muito longínquo.

Visitei em companhia do meu amigo, o Engenheiro Civil Vicente Correia-Afonso a longa península de Mabor em Cavelossim e oferecemos juntos satyagraha em simpatia e solidariedade com os membros, simpatizantes do Anti-Sand Extraction Committee em Cavelossim.

Correia-Afonso foi meu companheira da primeira e única adolescência e vibra em não ser anti, ele é sempre do pró positivo e construtivo, uma atitude na vida. Mas juntamente com os satyagrahas sentimos a grandeza moral da ação não violenta, o exemplo de Mahatma Gandhi pairando alto no coreto onde nós sentimos a imoralidade das concessões de extração da areia, a humilhação dos ofendidos pelos tractores que levam o baluarte da ecologia e da defesa que a natureza criou. Quando os ramponkares me contaram que até as redes sentiam a variaçãoo do seabed devido à extração da areia, a humilhação dos ofendidos pelos tractores que levam o baluarte da ecologia e da defesa que a natureza criou. Quando os ramponkares me contaram que até as redes sentiam a variação do seabed devido à extração da areia fiquei a pensar se Mathany Saldanha, dos homens do mar, ele próprio filho e neto do litoral não estaria interessado neste movimento em defesa da terra sagrada de Goa.

O litoral, desde a baía de Cola junto a Velção até Mabor é um longo panorama de coqueirais levantados por filhos e netos de antigos batecares. Não seria sua responsabilidade defender a terra da erosão ou pensam talvez que isto é para agitadores profissionais? Triste será o destino dos pais com filhos estabelecidos no litoral de Salsete se não clamarem hoje, nesta hora, pela salvação da sua Terra.

O egoísmo, o cada um para si e Deus para todos deve ser letra morta hoje.

Passo a traduzir agora excertos importantes do trabalho do Eng. Urbano Lobo e estamos contratando o Lok Nayak Jayapracash Naraia no sentido de intervir junto do Governo Local para salvar as nossas praias.

‘A Ecologia de dunas de areia ao longo das praias de Salsete’

1 – As dunas de areia das praias de Salsete entre Velção, Cansaulim e Arossim no norte e Cavelossim Mabor no sul são uma paisagem familiar como uma endeixa virgem de areia branca e luminosa. Para todos os fins geológicos a inteira costa de Salcete pode se considerar como parte do antigo ‘sea bed’

2 - As dunas de areia são um sinal, um aviso do equilíbrio ecológico entre as poderosas forças do oceano – ondas, ventos e correntes, de um lado, e a resistência natural da terra forme de outro lado. Uma praia estável no sentido geológico tem duas linhas de dunas de areia a duna do mar paralela às praias molhadas e a duna da terra também paralela ao mar a uma distância que varia entre 100 e 500 metros do mar. Entre estas duas filas de dunas, fica um deserto de areia com pequenas elevações cá e lá onde as crianças costumam brincar e os antigos proprietários plantavam conqueirais.

3 – A duna do mar forma-se pela ação violenta das ondas que lançam areia até uma altura de cinco metros e assim se constituía a primeira linha de defesa que contém as furiosas ondas das monções que ameaçam desde junho a setembro o litoral de Salsete. A Natureza, sempre a natureza protegendo o povo de Goa.

A segunda linha de defesa das dunas de área na terra firme forma-se devido aos ventos do vernao que vão arrastando a areia já seca até onde houver vegetação e acumulando-se a uma duna de 10 metros de altitude como em Cavelossim. Estas dunas de areia na terra firme que concessionários de Mining Lease sem escrúpulos cavavam até a uma profundidade de cinco metros criando poças de água das monções viveiro de mosquitos era o sítio de antigos coqueirais e cajueirais e Urbano Lobo.

Tuesday, 17 February 2015

Walfrido Antão - A Telefonia e a Língua Portuguesa: Uma Contribuição Válida ou de um Programa da ‘Peoples High School’ (1982)

“O Indiano é individualista e por isso o sistema democrático dá-se bem na Índia”- Indira Gandhi falando recentemente em Londres

“Vamos abrir uma janela sobre a cultura ocidental” – Mahatma Gandhi

“É bom, é saudável, cada um orgulhar-se da sua língua mãe, mas odiar uma outra língua é fanatismo de pior espécie

“Minha pátria é a língua portuguesa!” – do poeta António Barahona, referenciado num artigo por Dr. Carmo Azevedo.

Martinho Noronha, sacerdote e intelectual que conhece como raros em Goa ao lado de Carmo Azevedo, Mário Cabral e Sá, o segredo, o mistério da Palavra Portuguesa, teve um dia esta resposta realista quando lhe foram pedir para fazer uma conferência sobre o “Futuro da Língua Portuguesa em Goa”: “Olha, primeiro não sou um astrólogo para predizer o futuro e depois, de momento, o que me interessa é fortalecer a minha língua - o konkani”. Não sei até que ponto o cultivo da língua portuguesa pode afectar o desenvolvimento da literatura konkani, mas estou convencido da verdade das palavras do Mahatma – “É preciso abrir uma janela sobre a cultura ocidental...”

Entre as instituições de ensino secundário na língua inglesa que tomaram o risco e a coragem de introduzir o português como língua secundária encontra-se a prestigiosa e coroada de louros “People’s High School” do Prof. Surlakar em Fontainhas. A professora encarregada de ensinar o português em casa nem por assim dizer tem contacto algum com a cultura portuguesa é uma jovem senhora da cidade, Celina Velho e Almeida, que começou a sua vida académica no velho Liceu tendo passado o 7o ano de letras grupo C e mais tarde feito o BA e Master of Education na Universidade de Bombaim.

Como me notou o Pe. Filinto Cristo Dias a quem referi estes casos de devoção à língua portuguesa – é um verdadeiro apóstolo. Sem alarde, na rotina do dia a dia por entre bancos escolares e a palmatória ausente, a palavra portuguesa volta a ecoar a mensagem de um Humanismo que chegou à Índia em 1498...

Nestas condições foi um acto de Reconhecimento e justiça a apresentação no programa Renascença de um acto de variedades dos alunas da escola People’s High School sob a direcção da sua Profa. Celina Velho e Almeida.

A abrir o Programa, Ninfa Fernandes declamou uma bem substanciosa poesia que talvez não ficasse muito a calhar num programa de meninos, mas senões desses não desfeiam a beleza do esforço humano. Sulana Costa revela-se como um voz para a canção popular portuguesa e a sua participação é digna de nota. Mas Sadhna Mahtme impôs-se-me como a expressão da adaptabilidade do gênio hindu a uma cultura estrangeira, a louçania fresca da inocência usando da palavra portuguesa como um meio de comunicação com os rádio-ouvintes, a voz da Índa falando de uma outra Pátria onde há meninas também que sonham e amam a Índia na caminhada para a Pátria Universal de um ‘horizonte sem fronteiras’ como queria o nosso poeta Orlando Costa.

Nesta época de aproximação de culturas, Indiana e Portuguesa, e quando a Gulbenkian pretende patrocinar a ida a Portugal de 3 jovens goeses, levamos ao conhecimento do Público e em especial, da sociedade da Língua Portuguesa, cujo Coordenador Local, Dr. Carmo Azevedo, com certeza deve estar a processar as sugestões sob o critério na escolha dos representantes indianos.

Felicitamos sinceramente a Profa. Celina Velho e Almeida que não obstante as preocupações do ensino da língua portuguesa toma cuidado em amorosamente transmitir toda a Poética ou Palavra Portuguesa, talvez contribuindo para o ideal da Pátria Universal.

Tuesday, 3 February 2015

Walfrido Antão - Escrever, porque e para quem? Ou, o silêncio fala melhor nas tardes de calor (1968)

A minha casa não é minha/é de vós todos/As palavras que escrevo não são minhas/São de vós também – poeta brasileiro

Perguntaram-me outro dia se eu sabia o que era a Vida. Desde a ovulação até a inseminação artificial. Ou as suas manifestações como a velhice de cabelos de prata na noite de prata de destinos cruéis de sofrimento e de ternura. “Teasingly”, afirmaram-me que na filosofia da goanidade, viver era beijar a mão que não se podia cortar. Ou quem não herdou, tinha de m..... Cônscio como sou de que o protesto rebelde é válido e actual, fiquei a lembrar páginas antigas de Nietzsche – uma das grandes benesses do Cristianismo é tornar-nos cordeiros, pois aliás, até os servente e os criados davam cabo de nós. Quanto à Vida, não soube que responder. Ainda penso galgar Sancoale para pedir uma resposta aos heróis da tragi-comédia.

Sim, este fado de escrever a horas mortas quando os capitalistas pensam no ‘net profit’, ‘net figures’ e ‘net amount’ (tudo net mas não neat) e o pequeno burguês sorve na inconsistência de cama do casal lonçanias gastas no duro ofício de dactilógrafa, Oficial (oficial sem espada, claro, femino e moderno, tipo 75), o que a esposa burguesa traz além do dote. Escrever com a música da agonia na alma palavras de agonia. Mas porque? Porque não se escolhe o fado, o destino das letras, quem tem olhos de ver que leia.

Não haveria outras opções? A luta, a acção directa junta com camaradas que no silêncio heroico de suas vidas constroem um barco, máquinas, arroz e tantos bens de utilidade social? Cada homem leva ao túmulo o que trouxe do berço, e o homem de letras não podia ser excepção. No nosso arsenal, só a pena nos resta. E o agravo de uns quantos ofendidos orgulhosos da sua vitória intitulada “saber viver”. Ou aceitar a horizontalidade de Cristo? Quem sabe, uma das opções?

Eu não aceito a afirmação de Cabral e Sá de que a literatura se estagnou com Eça. Se é certo que o nosso Amadeu trazia transparente na sua ironia, as “Farpas” de Ramalho, também é verdade que alguns de nós buscam o autêntico na Arte – que o digam aliás, eles próprios, Mário e Martinho Noronha. Mas compreendo a sua dúvida potente quando afirmou no Simpósio sobre “Goanidade- Mito ou Realidade”. Sim, resta-nos “O Heraldo” mas com o preço do papel quem nos vai ler (cito de memória, não tenho o texto à mão)?

Escrever para quem? Eis a dúvida para aquela Jane símbolo e não nome verdadeiro da juventude goesa que lê Nick Carte e se empenha decidadmente com “calças stretch” balão ou bandeira do seu modernismo e desprezar ou ignorar por condição factual a língua e literatura portuguesa num alongamento goês, típico congraçar de duas raízes, duas autenticidades? Para aqueles poucos da velha guarda que vivem e sentem o que sofremos na hora difícil da criação?

Desistir não está no meu calendário existencial. Escrever, ainda que seja para uns poucos eleitos e logo vos conto o que se passou em Lisboa nos anos 50. Estavamos à saída do Teatro, lá na Avenida da Liberdade, eu e um jovem do Porto, José Luís de Costa (segue na 3a página) Dias fresco de uma prisão no Peniche por ter assinado um Comunicado de Protesto da M.U.D. ao lado de Rui Cabeçadas, Luís Monjardino. Era uma noite de invernia e a calor da emoçnao com que Eunice Muñoz e Rogério Paulo haviam representado o “Gebo e a Sombra” de Raul Brandão disseminava no espaço confluente as dúvidas da adolescência. E foi então que o Poeta brasileiro nos surgiu, anónimo como “Pedro, o Vagabundo” de Manuel Mendes que pouco antes estivera conosco no Teatro. Vinha de Paris, do Sud Expresso, gostaria conhecer os intelectuais não comprometidos. E dizia versos (ou seria algo de real, penso hoje?) que rezavam assim “Tinha uma casa, lá no Morro, com crioula mulata Pulquéria ou coisa que valha, havia retratos na sala de Generais e Comendadores e uma suposta tia velha parte do recheio. A tia era uma espécie de Símbolo de coragem, e havia negros no Morro [os negros e os curumbins, que estranha identidade pensava eu, goês e indiano?]. Um dia de sol parti à busca de aventura. Mordendo, piscando, esgravatando o solo e por toda a parte, encontrei a comunhão dos homens.

“A minha casa não é minha
É de vós também!
As palavras que escrevo não são minhas,
São de vós também!”

Esquecer e lembrar é parte da condição humana.

Sunday, 14 December 2014

Walfrido Antão - De Mobor a Agonda (Canácona) ou Desenvolvimento, Para Quem? (1982)

“O problema hoje não é de ECOLOGIA ou de extração da AREIA das praias de MOBOR, mas o de Desenvolvimento, para quem? E à custa de quem? 200 famílias, milhares de pescadores e lavradores de palmeiras não vão gozar de um hotel de cinco estrelas com piscinas e aeródromos...

Mas não sei, às vezes é tão difícil escolher numa situação existencial: seria melhor a excavação na Praia para levar a AREIA ou um hotel?”

Era uma noite magoada de 76 ou 77. Vieram contar-me a mãe proletária de Francisco Rodrigues, o grande idealista pioneiro dos movimentos ecológicos em Goa, havia sido presa em Margão porque mãe e filho lutavam contra a excavação da areia em Mobor. Ao longo dos anos, desde Cavelossim a Utordá, fizeram greves de fome, comícios, até arrancamos promessas ao Congresso em 77 e 80 que lutariam para acabar com a Extracção da Areia. Na década dos 0, como as lembranças acorrem ao calor do reencontro com a terra alienada em Sancoale, o Arquitecto Urbano Lobo e Mathany Saldanha levantavam o problema da mortandade de peixe em Velsão devido aos efluentes do Reservatório Bhiase e o exczema das crianças. Outra década, outro ânimo de luta, porém, o mesmo idealismo frente aos salafrários Relações públicas, como diria Jorge Amado.

As notícias vêm filtradas em rumores. De Agonda em Canacona falam os peixes e as praias, um Hotel de cinco estrelas, quem sabe um casino, um aeródromo, loucas recepcionistas-secretárias para todo o serviço, como exige um projecto de tão grande valor. Mas esse desenvolvimento da região extrema do Sul de Goa, a quem vai favorecer? Certamente, os pescadores e os lavradores de palmeira não poderão frequentar ambiente de tanto luxo, nem necessitam tal luxo na carestia em que vivem, aliás todos os goeses. Mas dirão os tais salafrários: a terra tem de ser desenvolvida e entre as opções de uma Hidroelectrica, uma estação nuclear, minas de areia e um Hotel, o Hotel salvará a ecologia da região e será um benefício a longo prazo. Um outro argumento aduzido é o de que a lavra de palmeira não é uma industria e os filhos dos lavradores com a democratização do ensino acham muito mais proveitoso ir ao Golfo como mecânicos contabilistas, etc do que subir a descer a palmeira duas vezes ao dia e usar um alambique antigo com a lenha tão cara.

Profissões tradicionais, herdadas dos pais a filhos quase sempre na mesma família às de Ramponkares e lavradores de palmeira à sura, a dúvida que se impõe nesta época febril de desenvolvimento é a da continuação destas profissões frente a mecanização dos barcos de pesca, portos piscatórios, armazéns-frigoríficos nas praias e fábricas de aguardentes regionais como o Feni e o Caju. São dúvidas dolorosas e angustiantes para quem pensa o decorrer do processo de desenvolvimento com súbitas notificações na Gazeta Oficial expropriando terrenos e teimosamente recusa-se a aceitar que daqui a cinco ou dez anos os goeses serão como os East Indians (os tais norteiros) de Bombaim. Neste contexto de conta-corrente do desenvolvimento vale a pena lembrar o sistema de Prioridades e lamentar na ausência de um Plano sistemático organizado por uma equipe de especialistas e de um Governo capaz (na voz do líder da oposição, Adv. Ramakant Khalap, temos um Governo que abdicou dos seus poderes perante o Administrador deste Território), toda a espécie de salafrários tipo Relações Públicas pode levar avante quaisquer projectos desde que esteja pronto a pagar comissões e tenha contactos... no topo da pirâmide dos poder.

Nestas condições, urge aos homens de liderança e quantos são ouvidos e amados pelas massas, desde Morgim até Agonda (ambas aldeias de pescadores) decidir se para além do negativismo da agitação pura e simples e dentro dos parâmetros do amor à Terra – defesa das profissões tradicionais e do habitat – tradição e progresso para salvar a ecologia – mudança e desenvolvimento, há possibilidades de aceitar o menor mal como é o caso de um hotel versus uma fábrica de, por exemplo, ácido sulfúrico, desde que esse mal menor trate de reabilitar quantos vão perder o lar, o tecto e o habitat. No caso de Mobor, como me explicou o ex MLA e distinto advogado Ferdino Rebelo, o que se objecta é a extensão da área expropriada – 15 laques de metros quadrados e não o projecto que tem as suas vantagens. E naturalmente há que defender o aspecto humano das famílias de Mobor – 135 famílias que vão ficar sem texto e outros tantos lavradores de palmeiras. Em Agonda também, o homem tem de ser defendido.

A terra e o homem e que se não repita o crime de Sancoale, onde o camarão desapareceu para todo o sempre e o Arsénico e o Ácido sulfúrico são os ingredientes da fauna marítima... Que haja flexibilidade e tolerância e em nome do Desenvolvimento, salafrários das relações públicas não acabem com as nossas profissões tradicionais e o direito ao habitat. Que Goa continue.

Monday, 13 October 2014

Walfrido Antão - De poetas, um que outro ganhiano ou as fronteiras de Vishal Gomantak (1977)

Um poeta que tem fronteiras definiu-se si próprio: escreve para um fim.
Dom Moraes é um poeta quase da minha geração que se tornou subitamente conhecido do grande público leitor de jornais não porque era filho de Frank Moraes ou detentor do Prémio Jovem Precoce da Pesia mas por um acidente da sorte (ele nega agora que I am born lucky) – o de ter espalhafatosamente renunciado à Cidadania Indiana como protesto contra a entrada de tropas indianas na manhã de 18 de Dezembro de 1961 em Goa, terra de seus ancestros com certa apologia ou genealogia de casta de que se ufana numa biografia comercial de um grande industrial goês que cheguei a ler numa das escapadas a Bombaim. E foi mau que assim se desse a conhecer um bom poeta de língua inglesa que o “born lucky” com meios e contactos na Europa e no mundo conseguiu anichar para si um dos primeiros lugares da Imprensa mundial. Um poeta deve ser conhecido pela qualidade do seu verso, não pelo escândalo de decisões playboxianas que o Capital e o Monopólio Internacional tem tanto prazer em publicitar.

Devoto de seus versos que me falam à sensibilidade mas não contêm mensagem, apelo de ideais que superassem a vulgaridade dos “drinks nos bares de Algiers ou Hong Kong” que qualquer Playbox capitalista pode servir-se como e quando quiser, uma estranha dúvida, dúvida sobre o carácter da validade de uma literatura de espalhafato, de escândalo topo “oh, deve ser bom livro, foi escrito por Dom” me persegue desde que li alguns dos seus livros em prosa como Autobiografia onde as suas justificações de não ser GAY já sabem o que é não deviam ser incluídas. “People that Matter” etc. Procuro ao longo de tantas lindas páginas que me falam à sensibilidade, um motivo ideológico, alguma preocupação do homano, uma Utopia ao menos e só vejo longas tiradas como foi recebido no Brasil onde esteve em missão da ONU para estudar o problema de explosão populacional, como um poeta surrealista sangrou-se a si próprio por influência do ALCOOL e DROGAS, passagens lindamente trabalhadas mas percorridas por um frio gélido de vazio interior, de movimento dramático de vivências superadas, de apelos ao Desconhecido da Utopia que como bom poeta devia trazer em cada palavra ou ao menos na sequencia de imagens. Mas o que encontrei foi BOOZE, DRINKS, sangue e uma que outra mulher como gratificação ou compensação de um eu por se definir. E foi pena porque anos seguidos andava a rezar seus versos com uma prece à Musa. O seu último trabalho, aliás primeiro no “Illustrated Weekly” intitulado “Of Time and Place” fala dos 40 anos na vida do escritor frente ao problema da Morte (assunto aliás tão bem estudado desde Balzac a Malraux e Júlio Dantas) mas pena é que de novo à banalidade do drink do bar e das lágrimas, sem um gesto sequer de Absurdo ou Revolta ou então definição da Aceitação de um Poder superior. Só palavras como Stench, to be impotent, not to wine and dine, como se a Vida de um Poeta fosse isso.

Às vezes penso em como a tradição latino-americana em que se baseiam as literaturas francesa, espanhola, portuguesa e brasileira obriga ao escritor a ter umas ideias junto com PALAVRAS. É a diferença que vai de uma literatura séria somando o HOMEM como DIMENSÃO à outra de vendas espectaculares, de rendimentos fabulosos. Esta agonia de ver o vazio interior em literatura.

***

Não sou político mas homem de Letras e como tal cheguei a conhecer na declamação de Madhu Manguesh Kunk e tradução de Deshmukh num flat da Junta House há anos a Poesia do nosso celebrado vate Bakibab Borkar e confesso que minha alma virou adepta da sua Poesia. Nos meus encontros em Bombaim com literatos em marata fiquei a conhecer mais da sua obra e foi assim, mais magoado que revoltado, li uma sua recente declaraçãoo ao “Free Press” (página interior) que apoiava a ideia de Vishal Gomantak porque restabeleceria as fronteiras da tradição de Goa, por muito tempo separadas do núcleo mãe goesa. Para que um poeta como Bakibab Borkar que foi presidente do Instituto Menezes Bragança e parecia aceitar a definição da Índia de Gandhi como janela aberta e todas as correntes de Cultura volta agora à paróquia de uma Vishal Gomantak, para que um Poeta fazer um volta-face à própria POESIA que deve ser geografia da alma sem fronteiras? Será que o Poeta anda a viver o “drama de Jean Barois” de Roger Martin du Gard em outro plano, a religião sectária, será? No cansaço da velhice? Será possível tão grande regresso ao paroquial? Outro, já não poeta que eu saiba, mas gandhiano, Ravindra Quelecar cujas notas sobre Ahimsa me traziam alívio à luta de classes que os intelectuais marxistas consideram como a única SALVAÇÃO até para eliminar o Castismo do Poeta da Casta, armou à fala no Navhind para defender a ideia da Vishal Gomantak e exortando a Comunidade católica a não ter MEDO. Porque MEDO, não sabemos, nem tão pouco compreendermos esta atitude paternal quando todos somos indianos e distinções da Religião e Constituição não alberga. Ou será que a senilidade traz a Religião à mente quando a hora presente é da luta pessoal à base de mérito. Porque MEDO?

Ai como nesta mal-aventurada Goa os políticos metem a Religião de permeio. Como Gandhi os absolverá do comunalismo Não são eles que...

Walfrido Antão - Dialogo: Aquele Suspiro Malandro ou o “naturismo” de António Ataide (1980)

Perguntaste-me outro dia, leitor amigo, o que significava aquela palestra do venerando ancião de Goa Barónio Monteiro que à falta de um alti-falante deixo na margem deixo na margem da classe dos “reservados” ou “primeira classe” como se faz com bilhetes da comédia popularuncha de um M. Boyer (o dinheiro, o vil metal, as contas correntes dos Clubes são muito para quem até queira conseguir companheira, não é assim leitor amigo?). Conheço o intelectual mas não ouvi.

Conheço António José Ataíde há anos. 61, creio. Vinha da Europa onde havia conhecido um Roque Machado divulgador da teoria hindu das “Descobertas” como diz Carmo Azavedo. Trazia um sonho a cura pela Natureza. Aqueles banhos ao sol, aquela carícia ao luar, aquele entusiasmo do Desporto. O sexo vinha mais logo.

Para quantos de nós vivemos na Europa não a ambição, de um diploma que pudesse arredondar as contas correntes de Bancos de juro fortíssimo mas sim a angústia do descalabro de valores, o existencialismo era a única saída. Como afirmava Vergílio Ferreira, aliás escritor de mérito, “nós não escolhemos a existência. Foi um desejo de “autrui”. Cabe a nós escolher.”

Referindo-se à hipótese de Alberto Camus de que o único problema verdadeiramente filosófico era o do suicídio, Virgílio Ferreira opinava que dada a certeza fundamental da Morte valia a pena viver a lonjura da solidão da vida. No desespero, na angustia e revolta. A Morte e o presente ou seja a vida como diz Teles. Para Amadeu engolfado no atrito da lógica racional e do materialismo “possorcar” de caixa de fósforos, o problema é diferente.

E neste ínterim surgiu António José Ataíde. Não um marido ou senhor de cheques. Apenas um divulgador do que a Natureza ensina para preservar a pela ou tecido fibroso. Esposo fiel de uma portuguesíssima senhora, António José Ataíde quer reaver o débito das gerações transmontanas de “linguiça” e de copos de três como método de higiene alimentar.

Lembro-me que um dia li na Revista “Natura” alguns artigos sobre o regresso às raízes. Não raízes de “palha” ou coisa que valha mas algo diferente. Um retorno não à propriedade privada de bens materiais mas um encontro com o destino.

Que António José Ataíde traga com a sua revolução alimentar higiene – saúde um sopro de via nova sem bacalhoeiras de malfado.

Bacalhau como o fado tem o seu destino...

Thursday, 9 October 2014

Walfrido Antão - Aquele Suspiro Malando ou o 'Naturismo' de António Ataíde (1968)

Perguntaste-me outro dia, leitor amigo, o que significava aquela palestra do venerando ancião de Goa Barónio Monteiro que à falta de um alti-falante deixo na margem deixo na margem da classe dos “reservados” ou “primeira classe” como se faz com bilhetes da comédia popularuncha de um M. Boyer (o dinheiro, o vil metal, as contas correntes dos Clubes são muito para quem até queira conseguir companheira, não é assim leitor amigo?). Conheço o intelectual mas não ouvi.

Conheço António José Ataíde há anos. 61, creio. Vinha da Europa onde havia conhecido um Roque Machado divulgador da teoria hindu das “Descobertas” como diz Carmo Azavedo. Trazia um sonho a cura pela Natureza. Aqueles banhos ao sol, aquela carícia ao luar, aquele entusiasmo do Desporto. O sexo vinha mais logo.

Para quantos de nós vivemos na Europa não a ambição, de um diploma que pudesse arredondar as contas correntes de Bancos de juro fortíssimo mas sim a angústia do descalabro de valores, o existencialismo era a única saída. Como afirmava Vergílio Ferreira, aliás escritor de mérito, “nós não escolhemos a existência. Foi um desejo de “autrui”. Cabe a nós escolher.”

Referindo-se à hipótese de Alberto Camus de que o único problema verdadeiramente filosófico era o do suicídio, Virgílio Ferreira opinava que dada a certeza fundamental da Morte valia a pena viver a lonjura da solidão da vida. No desespero, na angustia e revolta. A Morte e o presente ou seja a vida como diz Teles. Para Amadeu engolfado no atrito da lógica racional e do materialismo “possorcar” de caixa de fósforos, o problema é diferente.

E neste ínterim surgiu António José Ataíde. Não um marido ou senhor de cheques. Apenas um divulgador do que a Natureza ensina para preservar a pela ou tecido fibroso. Esposo fiel de uma portuguesíssima senhora, António José Ataíde quer reaver o débito das gerações transmontanas de “linguiça” e de copos de três como método de higiene alimentar.

Lembro-me que um dia li na Revista “Natura” alguns artigos sobre o regresso às raízes. Não raízes de “palha” ou coisa que valha mas algo diferente. Um retorno não à propriedade privada de bens materiais mas um encontro com o destino.

Que António José Ataíde traga com a sua revolução alimentar higiene – saúde um sopro de via nova sem bacalhoeiras de malfado.

Bacalhau como o fado tem o seu destino...

Monday, 23 December 2013

Walfrido Antão - Cartas de Goa para o Brasil: Meu Irmão Brasileiro (1968)


Eu não te conhecia ainda. É certo que havia lido alguma coisa sobre o outro lado do Atlântico, do Corcovado onde se não me engano o Cardeal Gonçalves Cerejeira aliás douto homem de letras inaugurou há anos um monumento a Cristo. Gertúlio Vargas e a sua revolução era tema de conversa entre estudantes do Liceu dos anos 1950 ávidos de folhear o “Cruzeiro” e a última página de Raquel de Queiroz. Porém foi mais tarde que a realidade brasileira se anunciou ou revelou duma forma trágica, grandiosa e humana. A Selva de Ferreira de Castro com toda a sua pujança deu-nos a imagem naturalíssima dos Seringueiros, das plantações de borracha, de homens e animais em cio igualados pelo mais raso condicionalismo factual da Natureza e das condições da vida. José Lins do Rego do romance São Bernardo de Pureza levou-nos até o Nordeste onde os mesmos problemas universais como os do trabalho, pio, sangue, sexo e lágrimas recebem uma nova dimensão, um novo estilo literário. O grande Jorge Amado da Gabriela, Cravo e Canela, do Jubiabá herói negro de noivas negras e mulatas amando livremente no areal e junto às docas onde marinheiros louros compravam em moeda estrangeira corpos virgens de noivas virgens, veio mais tarde. Manuel Bandeira, o maior poeta do Brasil moderno trouxe-nos aqueles versos que nunca mais esquecem: “Amanhã que é dia de finados/Vai ao cemitério/Leva três rosas bem bonitas/Ajoelha e reza uma oração/Não pelo pai/Mas pelo filho/Que o filho tem precisão/O que resta de mim na vida é a amargura do que sofri.”
Eu sei, meu irmão brasileiro, que o Atlântico é imenso e pesado como um sonho (segue na 4a página) poético de duas pátrias. A mesma natureza tropical, até as mesmas variedades de frutas como a manga ou o caju. Foi no Brasil que ficou a descansar na mão direita de Deus como diz o Santo Antero uma das maiores inteligências de Goa, sua voz mais eloquente, seu perfil mais romântico, sua ânsia de cientista e microbiologista de renome internacional Froilano de Melo. Froilano de Melo, que após a morte de Gandhi afirmou na Assembleia Nacional que “era um herói que havia elevado o culto da revolução até a culminância da santidade”, jaz esquecido hoje nesta terra que segundo o dizer do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage será “ingrata madrasta de poetas”. Os medíocres há-os bastantes. Ah! É verdade, já me ia esquecendo desse prosador intimo, lírico, confessional de A Volta do Gato Preto: Érico Veríssimo, Veríssimo que nos entusiasmou quando da sua visita a Lisboa em busca de raízes do seu próprio passado, explicou-nos no Teatro D. Maria o problema dos modernos da literatura brasileira: “Nós não queremos imitar o modelo europeu da ficção. Porém, isso não quer dizer que as correntes modernas do surrealismo e do antiromance não tenham adeptos.”
Muita e variada é a vida, dizia D. Francisco Manuel de Melo. A vida é feita de mudanças. Mais do que nunca é necessário hoje o diálogo. Quem sabe, camarada existencial, se a tua pátria não seria um elo de um viver universal sem limitações da geografia e de dados políticos? Por enquanto, meu irmão brasileiro, apertemos as mãos sobre o Atlântico como um símbolo desesperado de compreensão e solidariedade humanas.

Walfrido Antão - Diálogo: A Morte e a Vida ou um Bilhete a uma Maria Enfermeira (1967)

Vai tarde este bilhetinho. Devia ir pelo Natal. Mas antes tarde do que nunca. O problema importante é o do sentimento, de verdade, de gratidão. E assim ele lá vai com votos por que 1968 lhe traga alguma justiça nos direitos que lhe assistem na sua nobre e humanitaríssima missão, menos pesadelos e coragem para lutar. E rosas. Muitas rosas para tornar a vida alegre.

Vive hora alta de glória a Escola Médica de Goa onde meu saudoso pai ganharia ciência e luz para lutar em Cabo Verde e no Brasil contra a malária e outras epidemias e nesta hora de saudosas evocações ninguém melhor do que a Enfermeira sabe o segredo dessa escola – médicos que com vencimentos modestos não regatearam sacrifícios para salvar vidas, a ciência e competência desses heróis anónimos da Dor que não papagueiam fórmulas importadas do anglo-saxão em naus coloniais, a intuição, enfim o que em certa gíria se chama “faro clínico”. Todo o mundo de ciência desde Clínica até Cirurgia.

E tu, boa e carinhosa Enfermeira, lá ficasta a veste alva, as mãos desinfectadas, um certo carinho no olhar, o compromisso da Dor, uma picadela sem vontade e mais que uma palavra, muitas palavras de consolação. Por vezes soro, outras vezes comprimido, às vezes uma noite de vigília à cabeceira de quem vive a catalepsia (segue na 2a pagina) de uma difteria ou o coma de um trombose, enfim trabalhos de uma parturiente.

A vida corria lá fora, sorria-te quem sabe um convite de uma amiga. Porque ficavas? Qual a razão da tua permanência junto à cama No.43 ou No.27? Não podias como é moda agora misturar dois caolinos? Não podias arranjar uma saída com um soporífero? Não. Era outra tua formação, outra a Escola onde havias formado, outros valores, outra ética profissional.

Haviam-te ensinado mestres como Froilano de Melo e outras que ser Enfermeira é ser Irmã de Dor. E por isso lá ficavas lutando contra a Morte tão absurda enquanto a Vida florai lá fora sem pecado e sem peias.

Tinhas uma missão e cumpriste-a com zelo de uma missionária, devoção de uma crente e a graça de Mulher.

Missão, qual missão agora? E as promoções que tardam, as escalas denegadas, os horários para certas privilegiadas, diz alguém na mesa ao lado (ai, a minha mesa do café como eu gosto dela – tão agreste tão irregular como um sonho desbastado ao luar). O vizinho ao lado fala como num monologo e as palavras sabem a verdade.

A história que vou contar é antiga. Éramos estudantes e quase com um pé na Europa. Amadeu escrevia uma crónica para o Natal com a pena criando à cabeceira do seu filho doente no Hospital. E se não me falha a memoria, ele falava também de ti, Enfermeira ou Irmã da Dor.

Passaram anos, o mundo alterou as coordenadas geográficas e éticas e a Escola Médica de Goa que tantos heróis da Dor criou vai completar 125 anos. Heróis não do “Digest”, das súmulas da Anatomia ou da pílula da Psicologia (o que saberão eles de um Freud, de um Jung, de um Charcot, de um Negrão Pardo nosso amigo do Brasil de quem tive a honra de fazer uma crónica?) mas do Homem Integral situado na doença ou na terapêutica.

Vai esta já longa. Que continuas a tua missão seja qual for a posição do catavento, são votos do Ano Novo de Antão.

Sunday, 11 August 2013

Walfrido Antão - Páginas Íntimas (de um diário por escrever): Meu claustro de Angústia ou Vida a partir da Morte (1981)

À Memória do Meu Irmão Celso Antão

Ao longo de Creta (1965) – Grécia

“Meditar sobre a Vida – a Vida em relação à Morte, é talvez nada mais do que intensificar a sua própria busca.

Mas a Morte, tal como se manifesta em tudo quanto está alem do controle do homem, acima de tudo o Irremediável, o sentido de que você nunca sabe o que aquilo é. O homem torna-se objecto de uma Busca e não de Revelação. Assim o Homem que irão encontrar neste Livro de Memória é o Homem desperto às Perguntas que a Morte levanta sob o sentido do Mundo.

André Malraux (Anti-Memoires)

“Mon ame vers d’affreux naufrages appareille”

Claudel

“Rage, Rage against the dying of the Light”

Dylan Thomas (da Idade do Ultraje)

“A Morte é a Opção final, o encontro com a interioridade, a realização pessoal em Cristo como Caminho, Verdade e única vida”

de Teólogos moderados editados por Michael J Taylor.

Não gostaria publicar estas páginas intimas mas eu e o leitor do “O Heraldo” conhecemo-nos mutuamente há já vinte anos e na Autenticidade e Sinceridade do depoimento pessoal crio páginas de Intimidade. Foi aos 25 de de Julho de 1951 que morreu o meu Pai e o leitor dirá “quê tenho a ver com isso?” mas nada no mundo acontece, especialmente no domínio da vida e Literatura, que não tenha um sentido, um simbolismo de Prece. Eu vi na morte do meu Pai o primeiro desengano da Permanência, a luz vibrante do coqueiral esmorecendo na sombra do velório, a primeira pergunta, a primeira Busca que as velas, o abraço apertado, o dobre a finados, até mesmo as lágrimas, não podiam cumprir, satisfazer. Magos, dor, Desengano da separação tudo me cobria na negra noite funeral, mas a Busca, essa havia começado. Sem a Busca de uma Ideia que se me não definia por ser confusa, seria a Busca de um distracção com um curso, um Diploma, um emprego capital e Exploração da mais valia, segurança social para anos meus ou a Busca de mim próprio “esse esperança em busca de vida”, como me declamava uma noite o grande poeta negro de mães e filhos negros Agostinho Neto. Uma noite em Lisboa, Costa Dias deu-me a ler o Manifesto de Marx – era aí que estava a ideia, a Utopia, o antídoto do Desengano, da Magoa e da Dor. Passaram anos, a longa noite de opressão e da revolta e em Alfama Berta Cardoso e Tristão da Silva cantavam na “Nau Catarineta” a opção da Liberdade. Com Sartre e Albert Camus não havia que esperar muito – o mundo e a linguagem eram Absurdos. Camus morrendo absurdamente num desastre de automóvel havia deixado incompleto o itinerário da Morte. A pergunta continuava.

Voltei à Índia, o espaço aberto da Competição “homem lobo do homem”, o quebrar de amarras de um sentir e de um viver plácido sim, mas digno e humano, a vida aos baldões da Sorte do “cais de pedra” de todas as solicitações, apelos e convites – mas a Morte, vista, vivida, sofrida até o desespero sem lágrimas, cântico lúgubre do Fim, esssa não esperava me colhesse a Afeição mais cara que a Vida me havia oferecido. Porque, meu Deus, tão cedo?

Ao cair da tarde de 31 de Janeiro de 81, da minha janela virada para o mar, janela que mais não uso porque nem o Mar nem a longa duna de AREIA tem hoje qualquer apelo, senti o carro avançar como um ladrão na noite escura. A mangueira sem flor sob a cacimba era como um último baluarte de gerações que ao longo de séculos haviam criado filhos missionários devotos da Imaculada Conceição, juristas e jornalistas, médicos e homens de lavoura – HOMENS COM RAÍZES. No aparelho, a cassete “não me pergunteis o Nome ou a Hora”, o carro avança, uma duas pancadas leves, um JOVEM e mais logo um homem de meia idade. “Notícias? Sim – não mais existe”.

Sob a fotografia, a Marte fala da Vida – não choro porque não posso.

Morreu algo dentro de mim de novo, após 30 anos. Em 1951, a Busca, em 1981, o encontro com Higher Power, um Deus que não sei definir, mas viveu comigo na noite integral a queda, a solidão a vida de um irmão “que podia ser e não foi” (José Régio).

Passaram já quatro meses e não voltei à minha janela virada para o mar. Talvez não voltarei mais. Moças guapas em saias de cambraia desnudando a coxa em manhas de Pesca ainda vão às dunas de Areia até o mar, tractores levam AREIA populares pedem-me que volte à causa da Justiça da OPRESSÃO dos MINING LEASES não registados e não completos. MAS a vida matou em mim essa esperança de Permanência. Situada aquém do coval enxuto de lágrimas e de flores, eu vejo da janela estreita do cemitério a ilusão desfeita, a vida interrompida, o nome riscado do rol dos vivos, o pó primevo de retorno às raízes da aldeia.

Sou homem, sinto como um humano, mas quando penso em Cristo eu vejo a única Vida de Luz e de Glória. Quem morre com Cristo, quem vive todos os dias a obrigatoriedade de um ofício ou de querer bem aos outros, esse não morre – vive uma nova dimensão de energia transformada “meu Pai tem muitas mansões” (Cristo). O Absurdo ficou em mim, fui e a perder, mas em Cristo a Vida renovou-se, tornou-se parte da Resurreição, “não choreis por ele, mas por quem fica, eles tem mais precisão” (adaptado de Manuel Bandeira, Brasil).

As chuvas voltaram como a primeira bênção de um Deus Natureza a um povo maltratante por políticos que mais pensam na cadeira do PODER do que em fornecer fertilizantes e sementes aos agricultores em devido tempo, a vida em busca de satisfação das necessidades mais básicas. Vida e energia, uma oferenda de Deus retribuída em 30 anos de trabalho e devoção à Família e Vida intuída mas não realizada no sentido essencial. Mas a Morte é final. Volto a ler Rig VEDA – “And I am Death...”

“I am Death that snatches all. And the source of all that shall be born; And the silence of things secret”

A vida vivida, sofrida até exaustão face a Morte. Recuso o Absurdo, opto, escolho, digo Não logo existo. Aceito a vontade de Deus e creio que há muitas mansões na casa do senhor. Talvez amanhã, da janela do Cemitério da aldeia, a vida volte a renascer das cinzas. Talvez amanhã eu conheça a vontado do meu Higher Power.

Walfrido Antão - Diário de um Poeta em Férias: O Sonho e a Nausea (1968)

Esta noite choveu granizo na aldeia. Será? Não. Deve ser cacimba mas a aldeia traz um ar levado, fresco, loução como o de certa mulher ainda inocente. Lembra-me certas sequencias do filme “La notti bianchi” (Noites brancas) de Dino de Laurentes. “Noites Brancas” era se não me engano o título dum romance de Dostoiewsky que Dino de Laurentis usou para fazer ciente ao mundo o talento e a Arte da atriz Maria Scholl.

Leio um poema de Jagadish intitulado “Ek Git Morta”. Há música, sensibilidade, intuição artística no seu verso. “Kavi” é poeta em Concanim. Será Jagadish poeta? Nem por sombras pensar o contrário. O caso do “Kavi” ou poeta lembra-me uma noite na Casa de Fados em Alfama. Berta Cardoso cantava “Aquele amor foi à Índia”. Tristão da Silva apresenta-me um escolar de Coimbra – Pinheiro ou Torres, não me lembra já. Alto, espadúado, “machakaz” como se dizia lá. Grosso como diria uma certa Nur Jehan que eu conheçø. A poesia e o físico. E acrescentava Tristão da Silva que ele era poeta. E ele sabia o que dizia porque era Artista também. Ser artista é ter coração, sangue, alma, nervos, sensibilidade e um grande amor ao homem condenado à Morte.

A Morte, essa sim é a única certeza existencial. Daí o absurdo, o desespero, a angústia e o “l’homme revolté” de que fala Albert Camus. A escolha vem depois. O “choisir” de que difere um Sartre. Como “Camus” diz ao abrir tragicamente “Le Mythe de Sysiphe” – “o único problema verdadeiramente filosófico é o do suicídio”. Como dizia uma vez Camus no Café Deux Magots, se o homem tem de morrer após uma vida inteira de trabalho, de estudo de cultura, então já não existem valores. Vale vazar até à náusea a existência condenada ao não valor ou seja o silêncio da “funérea Beatriz de mão gelada”. E a Esperança de que falam os neo-existencialista com os “Beatles” ou os “Hippies” que falam da meditação transcendental da Índia? Aquela Corrente, aquela Voz? Qual é o significado do “Thee” de que rezam os escritos de Swami Vivekananda? E Cristo esse Herói do Amor que perguntado se era Deus respondeu “tu o disseste”.

Está uma madrugada nevoenta agora. Mulheres vão a caminho do verzedo. Uma Quitéria, uma Rosa, uma Letícia, quem sabe: a pimenta cujo cheiro atraía caravelas do século quinhentista como diria Oliveira Martins, o arroz provisão e celeiro da fome de um ano, uma melancia, vegetais quem sabe.

Sim, tenho de ler o que Amadeu escreve sobre o arroz. O arroz, suor e sangue de todo um povo que os açambarcadores resolve em notas e ofícios ou em termos de agiotagem e lucros. Para resolver os problemas do povo seria bom que os grão-senhores descessem de suas majestades gabinetes até o povo para ver o sacrifício dessas Quitérias anónimas que sustentam a Cidade e os mercados.

Sim, tenho de deixar este diário. Aquela personagem “Sunita” pede-me que componha a sua história ou seu drama no meu conto: um amor proibido, a casta, a diferença de religião, um matrimónio arranjado, a África, a solidão, a ternura esfarrapada. Mas o jornal para quem escreve é como se fosse um primeiro amor que se não esquece. Como diz o Teles quando a gente entre para a Rádio é a mesma coisa.

O burguês acorda agora. Sorri para a mulher. Há qualquer coisa de glutão no seu olhar. O toucinho se calhar me lembra a música dos versos de Jagadish “Ek Git Morta”. Kavi, qual é seu fado?

Monday, 15 July 2013

Walfrido Antão - Setembro e as Alegrias Campesinas (1955)

Setembro, mês encantador por excelência, é para o goês o período de tempo em que as espigas louras, que madeixas queridas de alguma Madalena, ondeiam ao sabor dos ventos e amadurecem lentamente sob a acção benéfica dos raios solares.

Quando a colheita se aproxima, o agricultor exulta de alegria, pois já não há de sofrer privações nem fome.

A seara apresenta bom aspecto e eis tudo para ele. Manhã cedo, quando rubra aurora ainda se esconde no horizonte, hesitante e prometedor, alguns homens musculados de troncos espadaúdos, cor de azeviche/azevinho, a que o vulgo chama begarins, acompanhados de uma fila de mulheres e raparigas, um rancho de Evas roliças, dirigem-se para a várzea. Lá, foices na mão por entre o canto harmonioso e terno de mandós e dulpodas, ceifam, isto é cortam as espigas que montoados num lugar serão transportadas pelos homens até a eira, onde segue a debulha por um grupo de bois andando sempre à roda e a espiga deixa cair o doirado bate que é levado em cestos para casa do agricultor.

A ceifa, de índole nativa tão original, tão pitoresca, foi cantada por Floriano Barreto em estrofes maviosas que lembram o murmúrio doce e acariciante das manilhas nos punhos das encantadoras ceifeiras.

Natureza bravia, viço, encanto, poesia, tudo se junta nas várzeas. Ali brotam os primeiros anseios de amor. “O amor ao ar livre, na solidão imensa do campo”, de que nos fala Júlio Diniz nas “Pupilas” e Walter Scott na “Dama do Lago” tem a dignificá-lo a sinceridade, franqueza, nobreza de conduta do carácter e ainda o modo de sofrer. É aí que o amor – esta palavra mágica cantada pelos poetas e prosadores de todos os tempos como faísca electrizante da vida – tem a sua mais elevada expressão.

Em noites luarentas, enquanto o grilo com o seu zumbido estridente irrita o agricultor, rapazes e raparigas, cestos à cabeça, em franca conversa, alicerçam sob bases sólidas o seu futuro lar sem convencionalismos nem enredos caprichosos a entorpecer a beleza do seu sonho...

No conhego remansoso do seu “Lar”, ele, o agricultor em simples e modesta festinha, reúne toda a sua família e expande-se de alegria. E por meses fora, ele renova a sua intensa labuta, com um sorriso franco a bailar nos lábios e um celeiro farto na sua modesta casinha.

Depois de labuta insana e pesada de três meses, a maior parte dos jovens, goza as férias de Setembro na inebriante poesia das suas aldeias. Aproveitamos estes poucos dias em que os livros se espreguiçam languidamente nas pastas e aproximemo-nos com ele que, no esquecimento longínquo da várzea, Grangeia o suficiente para o seu viver e doutros, e ergue preces clamorosas ao Senhor pela bendita dádiva de Setembro.

Tuesday, 9 July 2013

Walfrido Antão - Telo de Mascarenhas, ou Um Padrão Ocidental na Situação Indiana (1979)

“Mal com os homens por amor à terra; mal com El Rei por amor à terra”

Cada homem tem direito a um sonho ou posto burocrático e não há que assacar culpas à grandeza imensa do Sonho como tal ou a limitação dos mangas-de-alpaca sim senhor El Rei dos Algarves, Yes Sir Milord of Wheat Fields of Punjab, o colonialismo é uma antítese do self-government com todo o seu manto de CORRUPÇÃO. No caso da Burocracia ou do self-employed man de negócios a ascensão ou declínio depende de um certo numero de constantes entre os quais conta a habildade de adorar o sol nascente e a intriga palaciana o problema do sonho é um caso diferente. O sonho de um homem letrado afasta-o das massas como numa contradição infeliz, essas mesmas massas humanas em cujo benefício o sonho visita o Homem. Tal foi o caso trágico do sonho de Telo de Mascarenhas. Nascido na aldeia de Velção, quase meu coaldeano, o Dr. Telo de Mascaranhas teve de ir a Coimbra como escolar de Direito para reconhecer as suas raízes indianas e juntamente com Adeodato Barreto, o grande e infeliz poeta que morreu até a consumação do ideário marxista numa aldeia de Portugal, com José Paulo Teles e outros (conforme leio num dos exemplares da “Índia Nova”) fundou o Instituto Indiano anexo a Biblioteca da Faculdade de Letras. Eram os anos 1920, a literatura portuguesa dividia-se entre o Surrrealismo de Almada Negreiros e a poesia épica decantada no ocultismo de Fernando Pessoa ou a trágico desespero de Mário de Sá Carneiro. O liberalismo democrático de António José de Almeida vivia horas de agonia e o MONGE de Coimbra preparava-se para tomar de assalto a velha Lisboa das naus que tinham vindo à Índia e marinheiros de Alfama. A longa noite da Ditadura com seus mitos glorificadores do Imperador Máximo de Aquém e Além Mar ia espalhando seu véu de sombras por sobre esse tão belo povo português, um povo capaz de uma cultura humanista como provam António Sérgio e Jaime Cortesão. Não se ouve falar mais do Instituto Indiano em Coimbra. “A Índia Nova” que chega a publicar uma mensagem de Tagore vê os seus redactores já formados e com família bem portuguesa. Adeodato Barreto recusa-se a burocratizar o pensamento em tacho oportunista que lhe podia dar pão e vinho e mantém-se firme a um ideário de redenção económica que lhe nega suficientes para se tratar e tratar dos seus, morrendo quase em penúria. São dos anos 1940 algumas traduções de obras de Tagore que aparecem em Lisboa da lavra de Telo Mascarenhas e que, muito embora venham via língua francesa, constituem uma bela introdução da alma indiana ao povo português. Anos 1949 e Telo Mascarenhas surge-nos aqui em casa fresco de Lisboa e Porto para convidar meu pai que ao tempo era presidente da câmara de Mormugão para presidir uma conferência no Casino de Vasco da Gama sobre “Primavera e os Poetas de Amor”, conferência esta que não se chegou a realizar por a polícia portuguesa ter cheirado o indianismo do autor. Tinha eu 13 anos de idade e admirava-o de improvisar versos às flores, às plantas, ao palmeiral tudo com invocações aos deuses indianos. É um poeta, pensava eu e por lá o teria esquecido, quando embrulhado entre revistas femininas de Bombaim começou a enviar-nos cópias do “Ressurge, Goa” do exílio. Há idealismo na sua Invocação quando rezava alto “edificaremos sobre o mar, sobre a terra, sobre as estrelas, a glória da nossa Terra Imortal”. Quem poderá negar que ele amava Goa?

Poeta do campestre, do rural como se diria agora, com profundas influências de Gil Vicente e Rodrigues Lobo, Telo de Mascarenhas provou-se um misfit, quem sabe um inconveniente que não sabia Konkani e Marata aos grupos políticos de Bombaim que trabalhavam pela libertação de Goa.

A política indiana não é para poetas ou idealistas e o exemplo mártir de um Tristão Bragança Cunha ou um Jaypracasha Narain (a este claram o grito de Revolução total com uma bolsa de um crore de rupias) chega-nos para não alimentarmos quaisquer dúvidas a este respeito. No caso de Tristão Bragança Cunha e tantos outros heróis esquecidos como Polly da Silva que foi a morrer aos 30 e poucos anos num curral basta-nos o facto de o Sonho de alguns ter sobejado para os mineiros, em especial uma família, continuarem a gozar do Poder. Uns sofreram para os mineiros continuarem a gozar os privilégios.

Como disse atrás, o Sonho de um homem letrado afasta-o das massas. No caso de Telo de Mascarenhas que depois de sofrer dez longos anos de prisão havia tentado entrar na politica, o resultado foi constrangedor. As massas não vão pelos sacrifícios, vão sim pelos símbolos comunalistas, daí a tragédia da democracia dos analfabetos com seu corolário de self-government is always better than alien rule. É ainda cedo demais para se pronunciar sobre a validade de um sonho, só a História poderá abarcar o Juízo final. Entretanto fica-nos a morte de um homem de letras portuguesas, um cativo do teatro vincentino e um devoto nem sempre regular das canções de escárnio e mal-dizer de que nos deu provas no Ressurge Goa dos anos de exílio.

Amigo da minha família, Telo de Mascarenhas impôs-se-me sobretudo pelo amor à Terra regado com anos de cárcere no exílio. Pena foi que educado mentalmente nos padrões da cultura jurídica do mundo latino não pudesse ajustar-se ao calão da Terra de que tanto se orgulhava. Dele se podia dizer “mal com os homens por amor à Terra, mal com El-Rei por amor à Terra”.

Como homem de Letras, Telo de Mascarenhas merece ser notado como poeta da tradição vicentina, das canções de escárnio e mal-dizer, um improvisador à velha moda portuguesa das desgarradas, um antigo que não chegou a alcançar os movimentos modernos da poesia e prosa portuguesa. Sendo assim, um poeta da língua lusa, era natural que até o sonho do Nacionalismo ficasse a mercê de suspeição e dúvida porque o local só aceita, porque compreende, unicamente o que se lhe diga em vernáculo ou no colonial mas ganha-pão inglês.

Curvando-nos reverentes perante a grandeza do sonho que permitiu aos Capitalistas maior mobilização de Depósitos e Investimentos em construções, alta de preços de terrenos e melhores facilidades de ensino para os filhos de mães goesas embora com um self-government corrupto, pedimos a Higher Power que nos tolha a mão antes de atirarmos a primeira acusação de Telo de Mascarenhas a paz do silêncio e da verdade junto da campa do grande esquecido Nascimento Mendonça.

Sunday, 25 December 2011

Walfrido Antão - Flores Campestres Review (1968)

Alberto Menezes Rodrigues que me honra com sua amizade há anos acaba de me oferecer com uma amável dedicatória seu último livro de contos e que leva o sugestivo título de Flor Campestre. Li-os. Gostei. Tornei a ler e nas suas páginas ainda húmidas do prelo e da imprimissão como diria Jaime Rangel fui encontrar Goa Velha, a antiga capital do Reino dos Kadamba. O ar, o clima dos contos, e telúrico, igual às raízes, ao varzedo verde, à graça fresca e louçã das suas raparigas e mulheres que enfeitam os mercados de Pangim e Margão com o refolho das suas saias de chita e “choli” que revela mais do que esconde.

Quem conhece Goa Velha sabe que esse pequeno rincão da alma goesa tem a genealógica aristocrática de velhos proprietários Menezes, um dos quais deixou pelo seu amor à agricultura um importante tratado sobre a “Arte Palmarica”. Um Plácido Menezes se não me engano que no contexto da nossa economia deixou uma tradição e novos métodos. É assim a terra, a posição geográfica onde se movem os personagens dos contos de Flor Campestre. Alberto Menezes Rodrigues é essencialmente um poeta de sentido lírico como se referiu o crítico literário do jornal O Século de Lisboa ao apreciar seu li

ro de poemas. Rico de imaginação, o autor de Flor Campestre foi buscar ao povo seus personagens. O “conflito” ou seja o “drama” dos contos de Alberto Menezes Rodrigues não tem no entanto a dimensão do “moderno”, “realista”. Falta-lhe a economia das palavras. Vai longe no pormenor e no detalhe. Não deixa ao leitor a margem da “escolha” de ele ser um dos personagens. Como um poeta que é, arranca os personagens à sua fantasia. Vejamos por exemplo o conto “Flor Campestre”. O personagem principal ou o herói é um médico recém formado, que se apaixona por uma Mariana que vinha buscar água ao seu poço. Ela era filha do povo que nunca podia sonhar com um doutor e Alberto Menezes Rodrigues aproveita desta situação para nos dar uma imagem rósea e optimista da vida ‘tout est bien que finit bien”. Depois do “moruoni”, esta passagem “Aproximando-se da noiva ainda mais, e em cujos lábios de rosa, bailava um lindo sorriso de graça e de sonho, e poisando as duas mãos sobre o ombro dela Daniel do Rego depôs na fronte ebúrnea um beijo puríssimo de amor.”

Sejam quais forem as nossas ideias sobre a literatura e muito embora nos custe compremeter o sentido existencial da literatura que papa hóstias de má catadura pouco entendem, convém reconhecer que Alberto Menezes Rodrigues tem contribuído imenso para alargar a dimensão de literatura em Goa. Ele traz influências profundas dos românticos, Júlio Diniz em especial. Até a escolha dos nomes das personagens, como Daniel, parece obedecer a esse comando instintivo. Que Alberto Menezes Rodrigues continue a criar.

Wednesday, 1 June 2011

Walfrido Antão - A nostalgia na obra de Vimala Devi (1966)

Vamos tentar uma breve resenha de um acontecimento literário único e original dos últimos 10 anos: a bela colectânea de poemas “Súria” e o livro de contos “Monção” de autoria de uma jovem e lúcida escritora Vimala Devi, maviosa pseudónimo literário de Terezinha Almeida.

Segundo rezam biografias, Vimala Devi nasceu em Britona beijado pelo Mandovi duma família que conta alguns nomes ilustres. Após se ter estreado no jornalismo com colaboração dispersa pelos diários de Pangim, Vimala Devi abalou um dia para os horizontes largos da cultura na Europa. Em Lisboa onde casou e criou lar, publicou este pequeno e delicioso ramalhete de poemas breves como o Amor intitulado “Súria” e mais tarde o livro de contos “Monção”, obras essas de que nos vamos ocupar hoje. Residindo actualmente em Londres donde nos tem escrito pedindo notícias literárias de Goa, Vimala Devi espera publicar em breve um valioso trabalho de informação e critica da literatura goesa.

“Falar de sua obra poética ou melhor do seu “Súria” é falar do moderno na poesia, do génio poético liberto de escolas e de correntes, do “acento fundo de sensualidade mística, de pureza conturbada pela tentação que um Deus é capaz de suscitar na carne de pétalas de uma mulher”, como se lhe referiu João Gaspar Simões. De facto o verso de Vimala Devi é um “estranho, um sério caso poético” pois há nele intimidade quente e confessional, aspiração, lutas, sonho e lirismo. Como exemplo do que dissemos, ouçamos esse momento alto de poesia moderna que leva o título de “Tentação”:

Não ponhas as tuas mãos duras
No meu corpo de pétalas
Como um Deus mudo e fundo
Fulho de dois sóis ardentes
Não, meu Deus, não toques
Esta pele macia e pura!
Esconde a sua ânsia
Cala a tua fúria impotente
Pois a minha carne estremece de fraqueza
Ao contemplar o teu sorriso vasto

Mas o que caracteriza fundamentalmente a poesia de Vimala Devi é a nostalgia, nostalgia de alguém que lembra nos paramos da Poesia de Deus Durga, dos Vedas, do Guita, dos Vénus Drávidas dos xiuntens do Mandovi, de Goa, enfim.

Moderno e autêntico, Suryá é um dos mais belos livros de poesia escritos por uma goesa nos últimos 10 anos e ficará como contribuição válida e autentica.

Ao contrário de “Súria” e talvez porque excelentes poetas dão maus prosadores, Monção é humilde demais como promessa no género “conto”. Embora desbravando o vasto e rico manancial de tipos e situações humanas como a do batcar e mundkar, genro-comensal e exilado, falta à “Monção” aquela transposição ou transcendência de que fala João Gaspar Simões. Tirante esse pequeno defeito literário, Monção e Súria ficarão como obras válidas e definitivas de Vimala Devi.

Irmã no génio poético e na imagem lírica de altos e grandes poetas como Florbela Espanca, Natércia Freire, Orlando Costa, Vimala Devi é no entanto diferente e original pois seu canto é o trinar do moruoni nos espaços da poesia.