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Sunday, 2 November 2014

Leopoldo da Rocha - Caminhos de Luz por Alberto de Menezes Rodrigues (1963)

O autor, nosso distinto conterrâneo, publicou em 1958, em aprazível edição pela Tipografia Rangel, o livro acima intitulado, que mereceu louváveis referências do douto crítico Agostinho Veloso. Três novelas perfazem o livro e têm elas por título: “Almas plenas de sol”, “Vinde a mim” e “Audácia Vitoriosa”.

Numa época como a nossa, de sensibilidade muito esquisita, afeita a padrões de Hemingway, à análise introvertida de um Proust, à poesia em estado bruto que o realismo social como um Jorge Amado e, entre nós, Orlando da Costa tão bem exploraram, o género convencional de ‘bonitas’ histórias, simples, ingénuas, edificantes, muito bem construídas, são de molde a desagradar a certa casta de leitor.

Outros, como nós, amariam experiências ocasionais que este último tipo de leitura proporciona. Ao lermos livros como “Caminhos de Luz”, muita vez nos sentimos melhor, como que respirando um ar puro, da inocência dos campos, após uma alucinada digressão pela moderna cidade.

Saturday, 21 June 2014

N. B. Sar Dessai - Bhisma (1966)

Tu tens de casar comigo – disse o célebre Rei Xantanú à Deusa Gargá, quando esta se lhe apresentou em forma humana, intoxicando-lhe os sentidos com a sua ternura super-humana.

O Rei oferece-lhe em troco do seu amor, o reino, a riqueza e tudo o resto, ainda mesmo a sua vida.

Gargá respondeu-lhe:

Ó Rei, eu posso tomar-te por consorte, mas mediante as seguintes condições: nem tu, nem ninguém me preguntará quem eu sou, nem donde venho; também não me impedirás de fazer o que entender fazer, quer seja o bem, quer seja o mal; nem zangar-te-ás comigo seja por que for; nada de desagradável e recriminatório tu dirás. No momento em que tu violares qualquer destas condições, eu abandonar-te-ei. Concordas?

O Rei concordou impaciente e a deusa tornou-se sua mulher e passou a viver com ele.

O coração do rei estava captivo da modéstia, da graça e do resoluto amor que ela lhe nutria.

Xantanú e Gangá viviam uma vida de perfeita concórdia, sem mesmo se lembrarem da passagem do tempo. Ela deu à luz muitas crianças; de cada vez que lhe nascesse um bebé ela levava-o ao Ganges e deitava-o ao rio, depois do que voltava para o Rei com a cara sorridente.

Xantanú horrorizava-se com esta conduta diabólica mas sofria-a em silêncio, lembrado da promessa feita. Muitas vezes ficava ele a pensar quem seria ela donde vinha e porque agia como uma bruxa sanguinária. E, não obstante, não proferiu sequer uma palavra de recriminação. Desta feita, chegou ela a matar sete crianças. Quando nasceu a oitava, e esteve ela prestes a deitá-lo ao Ganges, Xantanú, não mais podendo suportar, gritou:

“Espera, espera, porque estás tu resolvida a dar esta horrível e desnatural morte às tuas próprias crianças?” – com este grito de alarme, o Rei impediu-a de executar o seu desígnio.

Ó grande Rei, disse ela, tu estás esquecido da promessa feita, o teu coração está agora mais votado às crianças do que a mim, tu já não precisas de mim, e por isso eu vou-me embora. Eu já não mato esta criança, mas ouve (4a pagina) a minha história antes que me julgues:

Eu que me vejo obrigada a desempenhar este odioso papel por virtude das imprecações proferidas por Vassista, sou a Deusa Ganga, adorada dos deuses e dos homens. Vassieta praguejou os oito Vassús desejando-lhes um nascimento no mundo dos homens, e, comovido pelas súplicas deles, determinou que seria eu a mãe deles no mundo dos homens. É de ti que eles nasceram, e ficou-te bem que assim tivesse sucedido, pois tu irás às regiões mais elevadas, em recompensa dos serviços que prestaste aos oito Vassús. Eu cuidarei desta tua última criança por algum tempo, depois do que devolver-ta-ei como meu presente.

Dito isto, a Deusa desapareceu com a criança. Foi esta a criança que mais tarde se notabilizou como Bhisma.

Monday, 23 December 2013

Walfrido Antão - Diálogo: A Morte e a Vida ou um Bilhete a uma Maria Enfermeira (1967)

Vai tarde este bilhetinho. Devia ir pelo Natal. Mas antes tarde do que nunca. O problema importante é o do sentimento, de verdade, de gratidão. E assim ele lá vai com votos por que 1968 lhe traga alguma justiça nos direitos que lhe assistem na sua nobre e humanitaríssima missão, menos pesadelos e coragem para lutar. E rosas. Muitas rosas para tornar a vida alegre.

Vive hora alta de glória a Escola Médica de Goa onde meu saudoso pai ganharia ciência e luz para lutar em Cabo Verde e no Brasil contra a malária e outras epidemias e nesta hora de saudosas evocações ninguém melhor do que a Enfermeira sabe o segredo dessa escola – médicos que com vencimentos modestos não regatearam sacrifícios para salvar vidas, a ciência e competência desses heróis anónimos da Dor que não papagueiam fórmulas importadas do anglo-saxão em naus coloniais, a intuição, enfim o que em certa gíria se chama “faro clínico”. Todo o mundo de ciência desde Clínica até Cirurgia.

E tu, boa e carinhosa Enfermeira, lá ficasta a veste alva, as mãos desinfectadas, um certo carinho no olhar, o compromisso da Dor, uma picadela sem vontade e mais que uma palavra, muitas palavras de consolação. Por vezes soro, outras vezes comprimido, às vezes uma noite de vigília à cabeceira de quem vive a catalepsia (segue na 2a pagina) de uma difteria ou o coma de um trombose, enfim trabalhos de uma parturiente.

A vida corria lá fora, sorria-te quem sabe um convite de uma amiga. Porque ficavas? Qual a razão da tua permanência junto à cama No.43 ou No.27? Não podias como é moda agora misturar dois caolinos? Não podias arranjar uma saída com um soporífero? Não. Era outra tua formação, outra a Escola onde havias formado, outros valores, outra ética profissional.

Haviam-te ensinado mestres como Froilano de Melo e outras que ser Enfermeira é ser Irmã de Dor. E por isso lá ficavas lutando contra a Morte tão absurda enquanto a Vida florai lá fora sem pecado e sem peias.

Tinhas uma missão e cumpriste-a com zelo de uma missionária, devoção de uma crente e a graça de Mulher.

Missão, qual missão agora? E as promoções que tardam, as escalas denegadas, os horários para certas privilegiadas, diz alguém na mesa ao lado (ai, a minha mesa do café como eu gosto dela – tão agreste tão irregular como um sonho desbastado ao luar). O vizinho ao lado fala como num monologo e as palavras sabem a verdade.

A história que vou contar é antiga. Éramos estudantes e quase com um pé na Europa. Amadeu escrevia uma crónica para o Natal com a pena criando à cabeceira do seu filho doente no Hospital. E se não me falha a memoria, ele falava também de ti, Enfermeira ou Irmã da Dor.

Passaram anos, o mundo alterou as coordenadas geográficas e éticas e a Escola Médica de Goa que tantos heróis da Dor criou vai completar 125 anos. Heróis não do “Digest”, das súmulas da Anatomia ou da pílula da Psicologia (o que saberão eles de um Freud, de um Jung, de um Charcot, de um Negrão Pardo nosso amigo do Brasil de quem tive a honra de fazer uma crónica?) mas do Homem Integral situado na doença ou na terapêutica.

Vai esta já longa. Que continuas a tua missão seja qual for a posição do catavento, são votos do Ano Novo de Antão.

Monday, 18 March 2013

Alfredo Bragança - Uma Lenda do Ganesh (1962)

Se Lacxmi é a deusa de fortuna e prosperidade, Saraswati é o deus de sabedoria e inteligência, a quem os intelectuais imploram inspiração e auxílio no momento de escrever seus poemas ou prosas, fazendo-os preceder do seguinte tributo de homenagem “Om Shri Ganesha namah” (Reverência a Ganesh). Assim Jayadeva, um dos famosos poetas de Pancharantnas (cinco jóias) invocou-o no seu poema lírico-dramático Gita Govinda sendo nisto imitado pelo próprio poeta inglês Sir Edwin Arnold no seu “The Indian Song of Songs”.

Diz uma lenda religiosa que estando ausente Sivá, o terceiro deus da Trindade, também conhecido sob outros nomes nas diversas seitas, o qual fora de peregrinação às brancas regiões celestes dos flocos nevados dos Himalaias, a sua esposa Parvati teve um belo dia a ideia de moldar de barro uma figura, com auxílio da água lustral que deslizava do seu corpo a banhar-se segundo os ritos religiosos, Parvati incutiu-lhe espírito, assim nasceu Ganesh. Ora esta figura, transformada acto contínuo, num robusto jovem, todo cheio de vida, uma bela estampa de rapaz afinal foi incumbido pela ‘mãe’ Parvati da missão de guardar fielmente, os aposentos e a sua residência, opondo-se à entrada de quem quer que fosse.

Volvidos doze anos, volta Sivá da sua peregrinação aos Himalaias: mas encontrando à porta o fiel guardião Ganesh que o não conhece e assim não o permite entrar segundo as ordens da “mãe” Parvati, Shivá, com a sua adaga faiscante, vibra-lhe um único golpe cintilante e a cabeça do pobre Ganesh, rola pelo chão numa arrepiante poça de sangue. Aos ruidosos, sinais de encontro dual, sai para fora a deusa Parvati que, com olhos naturalmente rasos de lágrimas e contando ao seu esposo Shivá como ti (segue na 2a pagina) nha criado Ganesh, suplica-lhe que o ressuscita. Shivá, porém não querendo trazer a cabeça doutro individuo, decepa a cabeça ao melhor elefante e coloca-a no corpo acéfalo do Ganesh – razão por que ele é representado agora com a cabeça elefantina, tendo nas quatro mãos que significam o poder, um machadinho, um dente, um ladú e um certo tridente.

A par desta lenda, há outras – como a que diz respeito às fases da lua – acerca de Ganesh, inspirador dos bardos e dos intelectuais, deus das artes e... amigo da guloseima.

O Escritor Orlando Costa (1975)

Este escritor apresentou ao I Congresso dos Escritores Portugueses a seguinte comunicação intitulada “Reflexões sobre a Liberdade de Criação, Condicionamentos e Liberdades Concretas”:

1 – Ao abordar o tema proposto “Criação Literária, Sua Especificidade ou Instrumentalidade”, apontaria desde já uma pequena mas significante correcção. “Criação Literária, Sua Especificidade e/ou Instrumentalidade”.

Esta correcção assenta no facto de a alternativa criar uma falsa proposta de problema e por isso – mesmo admitindo-se a situação de alternativa – não se pode admitir a formula copulativa. Se a especificidade de criação literária pertence ao domínio da própria definição e expressão da criatividade do escritor, a sua instrumentalidade é uma característica, um valor, decorrente dela.

Assim, penso que abordar o problema da especificidade da criação literária é ter que chegar, necessariamente aos domínios da sua instrumentalidade, considerando que a actividade criadora do escritor envolve dois sujeitos e dois tempos necessários do conhecimento e da transmissão: e eu e o outro, o a seguir, o necessário e o urgente.

2 – A criação literária, no âmbito da sua originalidade, é um acto privado, não deixando de ser um facto social.

Um acto privado depende da consciência de um homem – neste caso do escritor – e esta consciência, por sua vez, depende de uma vida real, da sua vida quotidiana.

Ora, a vida quotidiana traduz uma “condição” subjacente: condição humana, condição social, não obstante factores específicos temperamentais de índole e carácter que são, sem dúvida, intervenientes na criação e porventura dos mais importantes e que dão o “tonus” àquilo que poderíamos chamar correctamente “a individualidade da criação na liberdade de criação.”

Todos têm a sua “condição”. Os escritores também. A sua criação literária depende da consciência privada – dos seus limites – e da sua “condição” – contexto básico em que interferem factores mutáveis sócio-económicos e políticos. Na antimonia entre estas duas realidades, definem-se, efectivamente, as fronteiras mais ou menos estáveis do campo onde, com maior ou menor exercício de liberdade, se exprime a capacidade criadora do escritor, como homem “situado” que é.

E aqui convém frisar que esta capacidade do escritor e o seu conhecimento das necessidades apontadas pela sua “condição” são, além de tudo o mais, dentro do âmbito das condições de criação literária, responsáveis pela conquista incessante da liberdade – a liberdade daquilo que escreve e como escreve, das opções temáticas e dos modos de comunicação.

Todos têm a sua “condição”. Os escritores também. A sua criação literária depende da consciência privada – dos seus limites – e da sua “condição” – contexto básico em que interferem factores mutáveis sócio-economicos e políticos. Na antimonia entre estas duas realidades, definem-se, efectivamente, as fronteiras mais ou menos estáveis do campo onde, com maior ou menor exercício de liberdade, se exprime a capacidade criadora do escritor, como homem “situado” que é.

E aqui convém frisar que esta capacidade do escritor e o seu conhecimento das necessidades apontadas pela sua “condição” são, além de tudo o mais, dentro do âmbito das condições de criação literária, responsáveis pela conquista incessante da liberdade – a liberdade daquilo que escreve e como escreve das opções temáticas e dos modos de comunicação.

A especificidade da criação literária radica-se nessa liberdade de opções e capacidades individuais e, ao exprimir-se, essa criação passa de um nível de acto de responsabilidade privada a um nível de facto de responsabilidade social, tanto quanto provoca uma participação do publico com que comunica.

A especificidade da criação literária radica-se nessa liberdade de opções e capacidades individuais e, ao exprimir-se, essa criação passa de um nível de acto de responsabilidade privada a um nível de facto de responsabilidade social, tanto quanto provoca uma participação do público com que comunica.

3 – Mas a liberdade que a criação literária reclama e que um escritor a todo o momento tem de conquistar como é que é assumida? Isoladamente? Individualmente? Isoladamente, não. Individualmente, sim, mas não apenas, porquanto a sua perspectiva – com todo o respeito pela sinceridade, coragem e coerência do escritor consigo próprio – está comprometida no exercício de uma liberdade que, quer queira ou não, o ultrapassa como sujeito individual. A liberdade de criação não é mais do que a consciência e conhecimento da própria necessidade de criar e comunicar, que, por sua vez, ao transformar-se em actividade participa de um conjunto social.

E a necessidade de criar contém em si os gérmenes combináveis de observação e da participação. Quando reflectimos e imaginamos não estaremos já a ser mais participantes do que apenas espectadores? Sem dúvida. Um escritor é, por natureza, um “espectador observador”. A sua capacidade criadora, porém (de descobridor, de recriador – que é afinal toda a sua possibilidade inventiva de perspectivar a realidade), acaba por se revelar um instrumento mais ou menos activo na transformação do conhecimento do real humano.

Entenda se por real humano o mundo interior que todos temos e carregamos ao longo dos dias e dos anos e o mundo exterior, que aquele reflecte, e em que inseridos, marginalizados ou não, mas sempre “situados”, nós atravessamos ao longo dos mesmos dias e dos mesmos anos.

4 – No plano da criação literária esse real humano poderá ser definido como o convívio entre a consciência privada do escritor e as motivações e solicitações da realidade circundante – física e social, sensível, inteligível e transformável.

Ao falar em realidade social convém salientar o que anteriormente já se apontou como sendo a “condição” do escritor numa dada sociedade. Não se está a referir ao escritor como classe profissional, mas como homem social, isto é, como “parte de um processo social”. Da sua inevitável inserção numa dada estrutura em que relações sociais de um certo tipo dominam os fluxos da história, resulta que a sua actividade criadora acarreta inevitavelmente consigo aquilo a que poderíamos chamar uma provocação de instrumentalidade no seio da sociedade, na medida em que não se pode abstrair a criação literária das vias de comunicação. A criação literária envolve indissociavelmente “aquilo que se comunica, a quem e como se comunica.”

Todo este processo propõe, efectivamente, ao escritor a saída da sua consciência privada, o transpor para um encontro de identificação da sua necessidade criadora com uma determinada ideologia. Projecta-o para uma possível consciência colectiva, para uma aferição constante entre a sua necessária liberdade de criação e as liberdades concretas a que num dado momento histórico o ser social tem acesso activo, dentro das raízes culturais e dos problemas do povo que o integra, dentro da sua própria nacionalidade – única via profunda para a universalidade.

E na afeição constante entre a liberdade de criação literária – que se exprime por uma linguagem que é um instrumento colectivo vivo – por linguagens novas que só se criam e fecundam em situações novas ou em vias de renovação e as liberdades concretas que se situam em toda a sua extensão a inegavelmente instrumentalidade da criação literária.

Essa instrumentalidade é, pois, técnica e ideológica. Enquanto técnica, sempre necessária e porventura urgente por ser ideológica.

Nas capacidades criativas e expressivas de cada escritor, reside a especificidade da criação literária, ao mesmo tempo que é no conhecimento dinâmico da sua condição social no mundo e da responsabilidade oficinal que assume ao recorrer a uma via de comunicação que é a escrita, que se reconhece a sua instrumentalidade, a um tempo linguística e social.

Thursday, 15 March 2012

Pedro Correia-Afonso - A Cor Local na Obra de Orlando da Costa (1961)

A favor do impulso que a minha curiosidade recebeu das opiniões contrárias que ouvi sobre o livro, sem dúvida empolgante, de Orlando da Costa – “O Signo da Ira” – acabei de o ler em poucas horas. Li-o também cativado logo de princípio, pelo aviso prévio do autor:

“A narrativa que se segue trata de pessoas e factos imaginados. Nela apenas a terra pretende ser verdadeira e a natureza em que ela se integra e se exprime. Tudo o mais é pura obra de ficcionista, em que à evocação, por um lado, e à imaginação, por outro, se aliou um destino de tragédia, subitamente revelado a cada um dos personagens que neste romance morrem ou sobrevivem. É neste encontro com o sentido trágico, o desespero humano na salvação e na destruição, a trajectória secreta, os pólos tangíveis do signo da ira”


Quando cheguei ao fim do livro facilmente acreditei que pessoas e factos sejam imaginados. O hediondo Bab-Ligôr tinha de ser inventado, Rumão, o taverneiro receptador de furtos parece retrato apanhado ao vivo mas pode sem dificuldade dar-se por imaginado em certos traços. Porque é que Orlando da Costa acharia prazer em gerar mostroengos deste calibre é para mim um mistério. Pelo menos a saudade poderia tê-lo levado a encarreirar o romance por veredas mais aprazíveis, sob o signo do amor. Mas de gustibus, diz o ditado, non est disputandum.

Seja como for, o que após a leitura do livro e em face dos copiosos apontamentos que tomei à sua margem, posso afirmar sem hesitação que, precisamente, é a “terra” e “a natureza em que ela se integra e se exprime” que são neste romance o traço mais falso e inventado.

É bastante estreito o horizonte em que este episódio se desenrola. O povoado onde os curumbins e as curumbinas de sua invenção vivem a sua vida de tragédia e sofrimento, sem, pelos modos, uma nota sequer, uma tonalidade sequer de alegria e de vivacidade, deve ficar situado algures atrás da capela de S. Joaquim de Bordá, no bairro de Marlém. No curto espaço de tempo em que a novela se desenolve e atinge o seu desenlace, nenhum ser vivo – homens, búfalos e cães – se move para além dos sítios de Gogola dum lado, Torçanzori para outro e o largo onde se reúne, defronte da cadeia civil, a feira anual da Conceição. O horripilante Bab-Ligôr, gancar de Margão e confrade, deve viver nas proximidades da Redação de “A Vida”.

Mas a leitura do livro francamente não desperta em mim o menor sentido de ambiência familiar. Gastei muita sola de sapato calcurriando pelos sítios de Gogola, Fatordá, Marida, Agally, até para alem de Arlém. As pedreiras são-me tão íntimas como as morodas e as vanganas. Mas francamente nunca me ocorreu que “a laterite exposta ao sol estonteante” faça “lembrar carne viva”. Talvez recordada à distancia de algumas décadas de anos e de milhares de quilómetros. Vista de perto, não. A coisa mais rebuscada e forçada que se encontra nestas imagens que o valor constrói para, a seu modo, dar vida e cor ao seu estilo e ao seu tema. Muito interessante, muito agradável talvez aos olhos de quem o leia em Lisboa mas muito artificial para quem o leia colocado no centro mesmo da sua paisagem local. Em um sítio tem Orlando da Costa esta estupenda comparação: “as várzeas de cômoro e cômoro ficarão entumecidas e dóceis como uma fêmea cercada pelo desejo e pela saciedade”.

Esta impressão de artificialidade, este sentido de arbitrário começa-se a sentir logo de entrada porque a própria sinfonia de abertura com que, entre vibrações de arcos a rufar de tambores, Orlando introduz o seu espectáculo soa a falso aos ouvidos dos conhecedores. Se não vejamos:

“Quando chegam as monções de nordeste, diz-se que chegaram os terrais. Mal sentem esse cheiro a terra que todos os anos desce dos contrafortes dos Gates e percorre o mesmo caminho dos rios e pequenas cordilheiras até chegar às planícies mais baixas, os búfalos sabem que novamente a terra os espera.

Soprando as copas verdejantes dos cajueiros e das mangueiras e espanejando docemente as olas no alto dos coqueiros, os terrais vão deixando um rasto de fertilidade até encontrarem o mar. À sua passagem, a cacimba cai lentamente e vai ensopando a superfície das terras lavradias e humedecendo o capim das encostas e caminhos.”

Quando eu pretendi classificar no meu íntimo este romance de Orlando da Costa, no seu conjunto de situações imaginadas, de comparações outrées, de posições forçadas e suspeitando que o jovem autor pretende, no fundo, insinuar no espírito qualquer tese ou teoria peculiar, ocorreu-me – desculpe Orlando o dizê-lo com franqueza – o termo de nefelibata. O dicionário deu-me esta definição em sentido extensivo e depreciativo: ‘Indivíduo que dominado por um suposto ideal, não atende aos factos da vida positiva, nem às lições da experiência”.

Francamente falando, aqui até a metereologia de Orlando da Costa é nefelibata.

A monção (não as monções) do nordeste é a que sopra sobre nós a partir de Novembro (o episódio abre-se realmente a fins de Novembro). Ela traz o terral (não os terrais). A monção do nordeste é a nossa estação fria e seca e portanto os caudais que Orlando vê com os seus olhos de saudade descerem dos Gates e percorrem os mesmos caminhos que os rios etc. não existem senão na sua imaginação. Os terrais não deixam atrás de si nenhum rasto de fertilidade se por isto o autor que falar dos nateiros que as águas correntes largam no seu percurso. Só trazem prosaicamente constipações, recrudências de situações asmáticas e, em velhos que se descuidem, a congestão cerebral. A cacimba é um fenómeno real mas ela, não vai ensopando as terras lavradias. A pior coisa que a cacimba faz é molher as copas das mangueiras e fazer, segundo a expressão vulgar, “crescer a floração”. Neste ambiente de meteorologia descompassada, é francamente ridícula a definição que no seu breve glossário Orlanda dá da vangana “vangana é a semeação que aproveita os terrais.” Donde se verifica que Orlando se acha persuadido de que terrais são realmente cursos de água. Erra também quando, no mesmo glossário, chama serôdio à cultura do arroz que se faz no período de monção do sudoeste. Serôdio é um adjectivo português que, tratando-se de frutos, significa “o que aparece no fim da estação própria”. O termo que Orlando quer é soródio, peculiaridade de Goa, derivado do concani sorodd.

Mais uma confusão de Orlando: em fins de Novembro nem homens nem búfalos sentimos “esse cheiro à terra” nem o tal cheiro é trazido pelas águas descendo dos contrafortes dos Gates; sentimos este cheiro, uns com agrado – os agricultores, outros com repugnância – os que tem propensão para espirros e constipações, as primeiras chuvas de Abril ou de Maio, quando as pancadas de água em batendo na terra seca fazem saltar a fina poeira que nos fere as pituitárias.

Tudo isto é evidentemente uma série de gaffes, produto da sua condição de pessoa dominada por um ideal que não atende aos factos da vida positiva nem às lições de experiências, contanto que possa tirar efeitos literários. Há muitas dessas espalhadas pelo livro. Diz por exemplo às pp.15: ‘Todos os anos, por duas vezes, se cultiva o arroz. Somente nas casanas, terras baixas paludosas, que marginam os rios, a cultura interrompe de oito em oito anos, e os campos são utilizados para a salgação de peixe, deixando-se inundar de água e retemperando, assim, a força produtiva.”

Tendo guardado ainda uma reminiscência das coisas de Goa. Orlando tem dos seus tempos de infância algumas ideias vagas. Sabe que de algum modo as palavras salgação e peixe estão ligadas com as casanas, mas as duas palavras não estão ligadas entre si. O que se faz é a salgação das casanas com a introdução das águas salgadas dos rics e aproveita-se a ocasião para a criação e pesca de peixe. Também quanto às várzeas retemperaram as suas forças com a tal alagação, Orlando não deve sair do âmbito da sua missão de romancista constatando tais detalhes porquanto os agrónomos estão, aqui há anos, a clamar que a alagação dos campos só concorre para a sua deterioração e os únicos que aproveitam com a situação são os pescadores de água turva. Na verdade, provocam-se tais alagações porque o peixe rende mais que o arroz. Mas isto é outro assunto que de resto devia interessar ao criador do tipo “Bab Ligor”. Se o seu herói não fosse de Bordá de Margão mas de qualquer dessas aldeias marginais do Zuari, aposto que se ocuparia, no intervalo da sua faina de desinquietar as filhas dos mundcares, na rendosa campanha de... salgação de peixe.

Agora uma pergunta: merece ou não o género literário de que me estou ocupando a classificação de nefelibata?

Para responder cabalmente a esta pergunta, há que estudá-lo sob o ponto de vista da sua ambientação sociológica e religiosa. Será ou não esta igual ou semelhante à ambientação metereológica e agronómica?

Procuremos estudá-lo.

Friday, 24 February 2012

Orlando da Costa - “Ao Escrever “O Signo da ira” paguei uma dívida para com a minha terra e a minha gente” (1962)

Com numerosoa assistência, mas sem desnecessários formalismos, o que veio sem dúvida propiciar o alegre convívio e a excelente camaradagem reinantes no jantar na “Cozinha Alentejana”, realizou-se a anunciada homenagem ao escritor dr. Orlando da Costa, recentemente distinguido com o Prémio Ricardo Malheiros, atribuído pela Academia das Ciências ao seu livro “O Signo da Ira”.

À direita e à esquerda do homenageado sentara-se, respectivamente, a senhora de Massaud Moisés, o professor catedrático e escritor de origem brasileira em visita ao nosso pais e especialmente convidado a participar deste jantar, e a escritora Lília da Fonseca.

Entre os assistentes, encontravam-se alguns destacados vultos das letras e artes portuguesas, além dos amigos e admiradores de Orlando da Costa, que lhe promoveram esta tão simpática quanto merecida prova de apreço.

No final, o escritor Urbano Tavares Rodrigues, que em belo improviso traçou o perfil psicológico e criador de Orlando da Costa disse calorosamente: “O Signo da Ira é um livro forte e puro onde se verificam indissociáveis a qualidade literária e a qualidade humana do seu autor; porque seja qual for o modelo estético ou a concepção sociológica adoptada pelo escritor, através do realismo critico, do realismo socialista ou do “nouveau roman”, o essencial para se conseguir um bom romance é ter talento. Mas –acentuou – algumas obras transcendem esse acabamento artístico, na medida em que se tornam, palpitantes documentos de comunicação humana – é o caso de “O Signo da Ira” que, paradoxalmente, apesar do seu título, se revela um livro de comunhão entre os homens, um livro do amor”.

Concluiu afirmando que a Academia das Ciências, ao honrar com o prémio “Ricardo Malheiros” “O Signo da Ira”, se honrara a si própria, assumindo uma nobre função reveladora dos valores do espírito nem sempre respeitados entre nós.

Falou, a seguir, o homenageado: “penso que incondicionalmente devo e posso repartir a minha alegria, a intocável serenidade interior deste momento com todos os presentes e com muitos ausentes”.

Referindo-se, depois, às suas ligações com o “Cancioneiro Geral”, prosseguiu: “No entendimento da confusão achei a clareza e na coragem a única virtude combativa. Nos meus tempos de juventude, dei tudo quanto podia dar em provas de atitude e em provas de testemunho e guardo para sempre a consciência serena de não ter mentido e de não me ter traído”.

Continuando a falar sobre o neo-realismo, disse ter-lhe ficado a dever a sua maturidade de escritor. Mais adiante, observou: “Tal como nas genealogias das famílias, os movimentos não se repetem; nenhuma aquisição sua se repete. Tudo se repercute. Tal como alguns outros autores e livros ultimamente publicados, considero-me e ao meu romance “O Signo da Ira”, uma repercussão actual, directa e conscientemente, do neo-realismo, na literatura de língua portuguesa”.

Aludindo, seguidamente, à liberdade de expressão, Orlando da Costa declarou: “Desejaria prestar a minha admiração aos intelectuais e escritores portugueses aqui presentes e aos ausentes que têm incansavelmente defendido, como algo de sagrado e indiscutível, o direito à livre expressão e à livre criação artística”.

Tuesday, 21 February 2012

Leopoldo da Rocha - O Signo da Ira de Orlando da Costa (1961)

Sensibilidade altamente poética, vibrando às angústias da situação humana presente e expressando-me em cânones modernos, Orlando da Costa, nosso jovem conterrâneo, foi, há coisa de dois anos ou menos, saudado por um grande diário de Lisboa como o valor mais representativo no actual panorama literário de Goa.

Pela sua formação intelectual (é licenciado em História e Filosofia), e uma sensibilidade estética esquisita, determinada pela circunstância de ser filho da terra, Orlando da Costa oferecia a mais forte esperança de vir a apresentar-se um raro intérprete da alma goesa. E de facto, pouco tempo passou, e precisamente em Fevereiro de 1961, Orlando da Costa brindou as letras portuguesas com um novo livro, desta feita um romance, “O Signo da Ira”, todo ele ambientado em Goa e que, sem favor algum, basta para firmar os seus créditos como um romancista de garra, perfeitamente a ombrear-se com os contemporâneos de maior vulto, na moderna literatura portuguesa.

“O Signo da Ira” tecnicamente filia-se na corrente do romance social. Popularizado por um John Steinbeck, um Caldwell, um Jorge Amado (em Portugal tem seguidores em Fernando Namora, Redol, etc), o romance social quadra admiravelmente para veículo de expressão das ideologias sociais mais variadas, pelo recurso a um inesgotável material humano, susceptível de transfiguração artística.

Da terra que lhe dera berço, lembra Orlando da Costa, um dia, aos 18 anos, quando dela se separara, junto com a saudade amorosa, um travo de angústia pela miséria que via à roda, uma revolta por uma condição humana que um código social implacável e multissecular canonizara, votando a um destino negro sem saída, um classe de seres, que assim vive a sua humilhação e opróbrio, à beira da prepotência e desmandos de uns poucos. “O Signo da Ira” materializa dramaticamente esta “condição humana”

Num pequeno povoado, vive um punhado de famílias curumbins, manducares do sinistro Bab-Ligôr, na preoccupação obsediante da colheita da vagana. Mundo baço este, pobre, de uma pobreza que toda a mais abjecta miséria, de um primitivismo chocante. Mas quanta humanidade ali, quanta verdade naquelas almas labregas e rudes: Natel nascendo às surpresas inquietas do amor; Bostião sonhando o seu lar após a colheita da vangana; Quitrú vivendo dia a dia, hora a hora, a alegria do seu primeiro filho que tem no ventre; Coinção, de alma grande e bela, sacrificando num gesto heróico a sua felicidade e vida; Jaqui, Pedru, Rumão... Que painel de figuras humaníssimas e magistrais!

Sobre esse fundo, que se afiguraria pobre estofo, Orlando da Costa construiu uma trama admirável, que se lê de um fôlego, com um cescendo de interesse até o fim.

Mas o que faz a grandeza de “O Signo da Ira” não é tanto o equilíbrio da carpintaria romanesca – raro num que se estreia no género – como o sopro de um lirismo ímpar que perpassa pelas páginas deste livro, misturado a uma profunda melancolia que nos comove até o fundo. Indubitavelmente Orlando da Costa ama esta terra com todas as fibras da sua grande alma. Este seu amor, aliado a uma sensibilidade poética das mais puras, faz-lhe descortinar belezas virgens nesta terra onde menos imagináramos, recorrer a imagens de sabor regionalíssimo e, por isso mesmo, de recorte admiravelmente fino e impecável, tudo na magia de um estilo sóbrio e de uma harmonia surpreendente.

Eis numas amostras respigadas à toa, como ele casualmente se refere a Natel virand ao Amor:

Quase ausente da terra, Natalparece ter os sentidos mais atentos e sensíveis, como se fosse capaz de ouvir o próprio capim a crescer... A sua pele esticada e escura está luzidia, como as folhas da jaqueira lavadas pela chuva (p.29)

E só um poeta podia ter colhido num instantâneo maravilhoso a imagem de beleza e ternura que Pedrú bêbado, inconscientemente gravou, naquele dia em que passeava despreocupadamente a sua folga, e brutalmente se viu açoitado por um expedicionário “pacló”, não menos bêbedo que ele:

Rumão era o responsável pelo fim que tivera a filha, não tinha dúvidas – pensa Pedrú – mas o outro, o outro, gozando de uma revoltante impunidade, amesquinhara-o até onde se pode, agredindo-o e lançando-o à terra num dia em que, no meio de uma alegria imperfeita mas Sabrosa, gozava com os outros um dia de descanso, bebendo fenin e comendo grão assado (p.263)

O que caracteriza a arte de “O Signo da Ira” é esta poesia funda, que bebe as raízes numa visão telúrica da paisagem dos homens e coisas. Por isso, os conflitos que Orlando da Cosa descreve, se desenrolam sempre contra o fundo duma natureza cruel e cega; homens em briga ou diálogo com a terra. Ainda a psicologia das reacções se determina por uma instintiva comunhão da natureza, que empresta à sua arte uma luz vivíssima. Veja-se o episódio em que o soldado expedicionário às furtivas no bambual espreita o banho de Natel ao poço:

“... E resolvera espiá-la, de longe. Aí a tinha. Nunca o seu coração se alvoraçara daquela maneira (...) Talvez fosse do sol que os iluminava a ambos, do ar transparentes e livre, do verde que cresce no chão para ir acabar no alto dos cajueiros da encosta. Como se ela estivesse inteiramente só – pensou ainda – tudo fosse dela.. só dela (p.129-130).

E que dizer do desfecho, após a confissão inesperada de Natel ao Padre Antú? É toda uma página de um lirismo arrebatador, sim senhor!

Terminemos.

Quando só contava 18 anos, deixara Orlando da Costa esta sua terra. Levara consigo então, na sua alma ardente, todo um poema de luz e melancólica tristeza. No gemido da opressão, no olhar dorido de tanto sofrer ele suspeitara um grito de revolta, uma faísca incontida. Quantos anos passaram desde que Orlando da Costa nos deixou! Por isso, a versão que ele nos oferece, a ser verdadeira, é válida também para os dias de agora. A gangrena deve continuar, túmida de bichos, prestes a rebentar. Mas processar-se-á necessariamente a evolução das instituições do passado por uma viragem brutal, sob o signo da ira?

Um decidido pendor para uma certa “visão da vida” é propícia a falsear a realidade sobretudo num artista, tentando-o a carregar os tons nos aspectos sombrios. Como resultado imediato, a criação dos personagens ressente-se na verosimilhança, pecando naquela “lógica interior” de que nos fala algures Fialho.

Verdade, as crianções de “O Signo da Ira” são terrivelmente perfeitas, nem Orlando da Costa lhes empresta uma interioridade psicológica, absurda naquelas almas simples. Mas poder-se-á outrotanto dizer do Bab Ligôr?

Que ferocidade, injustiça e cinismo naquela figura sinistra! Pretenderá Orlando da Costa apresentá-lo como tipo do batcará goês?!

Era tão bom que Orlando da Costa, afim de vencer incertezas, contactasse de parto, esta nossa realidade, de novo. De certo lhe surgiriam, então, novas luzes e nos daria mais depoimentos da sua pena brilhante, que nos fizessem vibrar às nossas belezas ignoradas, amar a nossa querida terra, chorar a miséria do nosso povo.

Friday, 4 March 2011

Manuel Ferreira - O apoio de que necessitam os literatos (1954)

Já há tempos, ao de cima da rama, nos referimos ao assunto e hoje apetece-nos, uma outra vez, bordejar o siso, um nadinha só mais amplamente, porque, estamos na nossa, de que o assunto merece os esmeros e os mimos paternais de quem cuida e manda. De quem cuida e de quem manda e, mais que tudo, responde pela manutenção dos valores intelectuais. Afinal, aqueles valores que perduram e se perpetuam nos caminhos ásperos e heróicos do Tempo e do Espaço.

Seja esta a primeira pergunta, se me dão licença. Há ou não há valores goeses actuais? Há ou não há valores goeses em nossos dias, uns entrados na idade e amadurecidos pelo estudo e ainda não minados pela desilusão, outros tenros de anos, irrompendo para a vida com o entusiasmo remoçado de quem se sente talhado pelos fados para as coisas da Literatura?

Cremos que sim, pelo menos em maior ou menor grau.

Deixemos os mais velhos que pelos anos fora têm rompido a vencer dificuldades de toda a espécie, e falemos hoje de novos. Entre estes há, pelo menos, jovens poetas, já que a poesia é a forma artística mais pronunciada nas primeiras idades literárias, porque em seus inícios ela é toda lírica, emoção pura e primitiva, e nada, ou pouquíssimo, racional, intelectualizada.

E aqui temos de lançar uma outra pergunta. E onde encontram esses jovens poetas, na floração do seu talento, os estímulos para continuarem os seus exercisios literários estímulos para continuarem os seus exercísios literários, para darem volume definido e humano aos seus sonhos poéticos, às suas ambições de homens que vêem na Arte a sua audaciosa e mais querida razão de ser? Melhor, talvez: como poderão esses nóveis literatos vazar os seus versos ou os seus ensaios literários? Como poderão comunicar eles com o público, se não alcançam nada através de que? E não nos esqueçamos de que a comunicação com o público, que é lograda especialmente através de publicações e da critica, é dos factos mais decisivos para a evolução do artista. Já porque o artista encontra nesse como que diálogo entre si e a massa o remate de tarefa realizada e cumprida ainda que momentaneamente.

Eis porque ousamos avantar aquilo que uma vez sugerimos: criarem-se as possibilidades de algum organismo lançar mãos dos originais dos poetas (ou de contistas ou romancistas, se eles vierem a sugir em Goa) e dá-los a conhecer ao público, por intermédio de publicações gratuitas ou compradas aos autores.

A Imprensa Nacional, parece-nos, não encontraria dificuldades que não fossem ultrapassáveis, para levar adiante iniciativa tão generosa e útil, se os poderes constituintes assim o entendessem e o determinassem.

E se a tudo isto, ajuntássemos antologias de prosadores e poetas goeses que ergueram alto o seu nome através dos anos e edições de valores actuais bem definidos, prestava-se um belo serviço à Cultura Portuguesa e satisfazia-se assim uma necessidade que, de uma assentada aprazia a autores, ao público e a todos quantos têm para si que uma coisa nunca poderá ser destruída e sempre fica como padrão perpétuo e reduto indestrutível: a Cultura.

Evidente mente que esta sugestão despretensiosa, mas sincera, para se tornar numa realidade invejável requeria uma pequena secção que poderia ficar adstrita à Imprensa Nacional e com latitude suficientemente elástica de modo a que pontos de vista menos largos ou menos convenientes não viessem apear os vôoes poéticos ou os rasgos humanos dos prosadores com direito de mérito a serem publicados.

Este facto o reputamos de muita importância e antolha-se-nos que para se levar que para se levar adiante a obra que referimos é absolutamente necessário tê-lo bem presente e bem vivo na memória, senão tudo ficará sujeito a proporções de obra maninha.

Thursday, 3 March 2011

Frei Manuel Cristo - As Letras em Goa (1954)

Faz poucos meses, um escritor metropolitano que viveu algum tempo nesta terra e se interessou com vivo carinho pela actividade cultural do nosso pais, registava em tom magoado, que Goa, sem embargo de ser reputada como centro de cultura lusíada no Oriente, contribuísse com escassa produção, no campo literário.

Por nossa vez, não hesitamos em subscrever o amargo reparo contanto que se limite somente ao presente. De feito, mercê de factores que longo e também delicado se esmiuçar neste lugar, as Letras em Goa vegetam presentemente numa estagnação.

Talvez a um espírito superficial se afigure esta opinião pouco exacta à vista de abundância de periódicos que entre nós pululum. É certo que aumentou, nos nossos dias, o número de jornais; mas doutro lado não se pode deixar de admitir que cresceu concomitantemente a onde de desmazelo com que é tratada a língua na qual estas folhas vêm a lume.

Consola, todavia, verificar que nem sempre o goês, integrado na cultura portuguesa, fez pouco do idioma.

De posse duma sólida formação humanística e lidando com quase toda a literatura portuguesa e sobretudo com a clássica, os nossos escritores de antanho manejavam a língua de Vieira com tal domínio, apesar de não a terem aprendido desde a infância, que causavam espanto nos próprios meios cultos da metrópole.

Dr. Júlio Gonçalves, insigne professor e escritor do século passado, se lê que usava com tal pureza a língua que em Portugal era tido por esse facto como um reinol e não como um puro goês.

Oferecemos, nesta página, trechos escolhidos de dois dos nossos escritores que ganharam loiros, no manejo do idioma português. São eles Floriano Barreto e Wolfango da Silva.

O primeiro anti-sazão arrebatado pela Morte ao cultivo das boas letras distinguiu-se como filho dilecto das musas e como tal deixou uma coletânea de vários poemas intitulada Falenos e de que extraímos a poesia que vai publicada em outro lugar.

O outro escritor é e Dr. F.X. Wolfango da Silva, personalidade multifacetada em que sobrepujava talvez o seu peregrino talento literário. Chefe dos Serviços de Saúde, mestre cujos lições sobre medicina eram escutadas com acatamento e admiração pelas gerações de estudantes que frequentaram a nossa Escola Médica, orador da palavra enfeitiçante graças à qual os temas da ciência se despojavam da natural aridez e ganhavam vida e interesse, o Dr. Wolfango da Silva possuía o raro condão de imprimir a beleza a qualquer produção que saísse do seu privilegiado espírito.