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Thursday, 15 March 2012

Pedro Correia-Afonso - A Cor Local na Obra de Orlando da Costa (1961)

A favor do impulso que a minha curiosidade recebeu das opiniões contrárias que ouvi sobre o livro, sem dúvida empolgante, de Orlando da Costa – “O Signo da Ira” – acabei de o ler em poucas horas. Li-o também cativado logo de princípio, pelo aviso prévio do autor:

“A narrativa que se segue trata de pessoas e factos imaginados. Nela apenas a terra pretende ser verdadeira e a natureza em que ela se integra e se exprime. Tudo o mais é pura obra de ficcionista, em que à evocação, por um lado, e à imaginação, por outro, se aliou um destino de tragédia, subitamente revelado a cada um dos personagens que neste romance morrem ou sobrevivem. É neste encontro com o sentido trágico, o desespero humano na salvação e na destruição, a trajectória secreta, os pólos tangíveis do signo da ira”


Quando cheguei ao fim do livro facilmente acreditei que pessoas e factos sejam imaginados. O hediondo Bab-Ligôr tinha de ser inventado, Rumão, o taverneiro receptador de furtos parece retrato apanhado ao vivo mas pode sem dificuldade dar-se por imaginado em certos traços. Porque é que Orlando da Costa acharia prazer em gerar mostroengos deste calibre é para mim um mistério. Pelo menos a saudade poderia tê-lo levado a encarreirar o romance por veredas mais aprazíveis, sob o signo do amor. Mas de gustibus, diz o ditado, non est disputandum.

Seja como for, o que após a leitura do livro e em face dos copiosos apontamentos que tomei à sua margem, posso afirmar sem hesitação que, precisamente, é a “terra” e “a natureza em que ela se integra e se exprime” que são neste romance o traço mais falso e inventado.

É bastante estreito o horizonte em que este episódio se desenrola. O povoado onde os curumbins e as curumbinas de sua invenção vivem a sua vida de tragédia e sofrimento, sem, pelos modos, uma nota sequer, uma tonalidade sequer de alegria e de vivacidade, deve ficar situado algures atrás da capela de S. Joaquim de Bordá, no bairro de Marlém. No curto espaço de tempo em que a novela se desenolve e atinge o seu desenlace, nenhum ser vivo – homens, búfalos e cães – se move para além dos sítios de Gogola dum lado, Torçanzori para outro e o largo onde se reúne, defronte da cadeia civil, a feira anual da Conceição. O horripilante Bab-Ligôr, gancar de Margão e confrade, deve viver nas proximidades da Redação de “A Vida”.

Mas a leitura do livro francamente não desperta em mim o menor sentido de ambiência familiar. Gastei muita sola de sapato calcurriando pelos sítios de Gogola, Fatordá, Marida, Agally, até para alem de Arlém. As pedreiras são-me tão íntimas como as morodas e as vanganas. Mas francamente nunca me ocorreu que “a laterite exposta ao sol estonteante” faça “lembrar carne viva”. Talvez recordada à distancia de algumas décadas de anos e de milhares de quilómetros. Vista de perto, não. A coisa mais rebuscada e forçada que se encontra nestas imagens que o valor constrói para, a seu modo, dar vida e cor ao seu estilo e ao seu tema. Muito interessante, muito agradável talvez aos olhos de quem o leia em Lisboa mas muito artificial para quem o leia colocado no centro mesmo da sua paisagem local. Em um sítio tem Orlando da Costa esta estupenda comparação: “as várzeas de cômoro e cômoro ficarão entumecidas e dóceis como uma fêmea cercada pelo desejo e pela saciedade”.

Esta impressão de artificialidade, este sentido de arbitrário começa-se a sentir logo de entrada porque a própria sinfonia de abertura com que, entre vibrações de arcos a rufar de tambores, Orlando introduz o seu espectáculo soa a falso aos ouvidos dos conhecedores. Se não vejamos:

“Quando chegam as monções de nordeste, diz-se que chegaram os terrais. Mal sentem esse cheiro a terra que todos os anos desce dos contrafortes dos Gates e percorre o mesmo caminho dos rios e pequenas cordilheiras até chegar às planícies mais baixas, os búfalos sabem que novamente a terra os espera.

Soprando as copas verdejantes dos cajueiros e das mangueiras e espanejando docemente as olas no alto dos coqueiros, os terrais vão deixando um rasto de fertilidade até encontrarem o mar. À sua passagem, a cacimba cai lentamente e vai ensopando a superfície das terras lavradias e humedecendo o capim das encostas e caminhos.”

Quando eu pretendi classificar no meu íntimo este romance de Orlando da Costa, no seu conjunto de situações imaginadas, de comparações outrées, de posições forçadas e suspeitando que o jovem autor pretende, no fundo, insinuar no espírito qualquer tese ou teoria peculiar, ocorreu-me – desculpe Orlando o dizê-lo com franqueza – o termo de nefelibata. O dicionário deu-me esta definição em sentido extensivo e depreciativo: ‘Indivíduo que dominado por um suposto ideal, não atende aos factos da vida positiva, nem às lições da experiência”.

Francamente falando, aqui até a metereologia de Orlando da Costa é nefelibata.

A monção (não as monções) do nordeste é a que sopra sobre nós a partir de Novembro (o episódio abre-se realmente a fins de Novembro). Ela traz o terral (não os terrais). A monção do nordeste é a nossa estação fria e seca e portanto os caudais que Orlando vê com os seus olhos de saudade descerem dos Gates e percorrem os mesmos caminhos que os rios etc. não existem senão na sua imaginação. Os terrais não deixam atrás de si nenhum rasto de fertilidade se por isto o autor que falar dos nateiros que as águas correntes largam no seu percurso. Só trazem prosaicamente constipações, recrudências de situações asmáticas e, em velhos que se descuidem, a congestão cerebral. A cacimba é um fenómeno real mas ela, não vai ensopando as terras lavradias. A pior coisa que a cacimba faz é molher as copas das mangueiras e fazer, segundo a expressão vulgar, “crescer a floração”. Neste ambiente de meteorologia descompassada, é francamente ridícula a definição que no seu breve glossário Orlanda dá da vangana “vangana é a semeação que aproveita os terrais.” Donde se verifica que Orlando se acha persuadido de que terrais são realmente cursos de água. Erra também quando, no mesmo glossário, chama serôdio à cultura do arroz que se faz no período de monção do sudoeste. Serôdio é um adjectivo português que, tratando-se de frutos, significa “o que aparece no fim da estação própria”. O termo que Orlando quer é soródio, peculiaridade de Goa, derivado do concani sorodd.

Mais uma confusão de Orlando: em fins de Novembro nem homens nem búfalos sentimos “esse cheiro à terra” nem o tal cheiro é trazido pelas águas descendo dos contrafortes dos Gates; sentimos este cheiro, uns com agrado – os agricultores, outros com repugnância – os que tem propensão para espirros e constipações, as primeiras chuvas de Abril ou de Maio, quando as pancadas de água em batendo na terra seca fazem saltar a fina poeira que nos fere as pituitárias.

Tudo isto é evidentemente uma série de gaffes, produto da sua condição de pessoa dominada por um ideal que não atende aos factos da vida positiva nem às lições de experiências, contanto que possa tirar efeitos literários. Há muitas dessas espalhadas pelo livro. Diz por exemplo às pp.15: ‘Todos os anos, por duas vezes, se cultiva o arroz. Somente nas casanas, terras baixas paludosas, que marginam os rios, a cultura interrompe de oito em oito anos, e os campos são utilizados para a salgação de peixe, deixando-se inundar de água e retemperando, assim, a força produtiva.”

Tendo guardado ainda uma reminiscência das coisas de Goa. Orlando tem dos seus tempos de infância algumas ideias vagas. Sabe que de algum modo as palavras salgação e peixe estão ligadas com as casanas, mas as duas palavras não estão ligadas entre si. O que se faz é a salgação das casanas com a introdução das águas salgadas dos rics e aproveita-se a ocasião para a criação e pesca de peixe. Também quanto às várzeas retemperaram as suas forças com a tal alagação, Orlando não deve sair do âmbito da sua missão de romancista constatando tais detalhes porquanto os agrónomos estão, aqui há anos, a clamar que a alagação dos campos só concorre para a sua deterioração e os únicos que aproveitam com a situação são os pescadores de água turva. Na verdade, provocam-se tais alagações porque o peixe rende mais que o arroz. Mas isto é outro assunto que de resto devia interessar ao criador do tipo “Bab Ligor”. Se o seu herói não fosse de Bordá de Margão mas de qualquer dessas aldeias marginais do Zuari, aposto que se ocuparia, no intervalo da sua faina de desinquietar as filhas dos mundcares, na rendosa campanha de... salgação de peixe.

Agora uma pergunta: merece ou não o género literário de que me estou ocupando a classificação de nefelibata?

Para responder cabalmente a esta pergunta, há que estudá-lo sob o ponto de vista da sua ambientação sociológica e religiosa. Será ou não esta igual ou semelhante à ambientação metereológica e agronómica?

Procuremos estudá-lo.

Friday, 24 February 2012

Orlando da Costa - “Ao Escrever “O Signo da ira” paguei uma dívida para com a minha terra e a minha gente” (1962)

Com numerosoa assistência, mas sem desnecessários formalismos, o que veio sem dúvida propiciar o alegre convívio e a excelente camaradagem reinantes no jantar na “Cozinha Alentejana”, realizou-se a anunciada homenagem ao escritor dr. Orlando da Costa, recentemente distinguido com o Prémio Ricardo Malheiros, atribuído pela Academia das Ciências ao seu livro “O Signo da Ira”.

À direita e à esquerda do homenageado sentara-se, respectivamente, a senhora de Massaud Moisés, o professor catedrático e escritor de origem brasileira em visita ao nosso pais e especialmente convidado a participar deste jantar, e a escritora Lília da Fonseca.

Entre os assistentes, encontravam-se alguns destacados vultos das letras e artes portuguesas, além dos amigos e admiradores de Orlando da Costa, que lhe promoveram esta tão simpática quanto merecida prova de apreço.

No final, o escritor Urbano Tavares Rodrigues, que em belo improviso traçou o perfil psicológico e criador de Orlando da Costa disse calorosamente: “O Signo da Ira é um livro forte e puro onde se verificam indissociáveis a qualidade literária e a qualidade humana do seu autor; porque seja qual for o modelo estético ou a concepção sociológica adoptada pelo escritor, através do realismo critico, do realismo socialista ou do “nouveau roman”, o essencial para se conseguir um bom romance é ter talento. Mas –acentuou – algumas obras transcendem esse acabamento artístico, na medida em que se tornam, palpitantes documentos de comunicação humana – é o caso de “O Signo da Ira” que, paradoxalmente, apesar do seu título, se revela um livro de comunhão entre os homens, um livro do amor”.

Concluiu afirmando que a Academia das Ciências, ao honrar com o prémio “Ricardo Malheiros” “O Signo da Ira”, se honrara a si própria, assumindo uma nobre função reveladora dos valores do espírito nem sempre respeitados entre nós.

Falou, a seguir, o homenageado: “penso que incondicionalmente devo e posso repartir a minha alegria, a intocável serenidade interior deste momento com todos os presentes e com muitos ausentes”.

Referindo-se, depois, às suas ligações com o “Cancioneiro Geral”, prosseguiu: “No entendimento da confusão achei a clareza e na coragem a única virtude combativa. Nos meus tempos de juventude, dei tudo quanto podia dar em provas de atitude e em provas de testemunho e guardo para sempre a consciência serena de não ter mentido e de não me ter traído”.

Continuando a falar sobre o neo-realismo, disse ter-lhe ficado a dever a sua maturidade de escritor. Mais adiante, observou: “Tal como nas genealogias das famílias, os movimentos não se repetem; nenhuma aquisição sua se repete. Tudo se repercute. Tal como alguns outros autores e livros ultimamente publicados, considero-me e ao meu romance “O Signo da Ira”, uma repercussão actual, directa e conscientemente, do neo-realismo, na literatura de língua portuguesa”.

Aludindo, seguidamente, à liberdade de expressão, Orlando da Costa declarou: “Desejaria prestar a minha admiração aos intelectuais e escritores portugueses aqui presentes e aos ausentes que têm incansavelmente defendido, como algo de sagrado e indiscutível, o direito à livre expressão e à livre criação artística”.

Tuesday, 21 February 2012

Leopoldo da Rocha - O Signo da Ira de Orlando da Costa (1961)

Sensibilidade altamente poética, vibrando às angústias da situação humana presente e expressando-me em cânones modernos, Orlando da Costa, nosso jovem conterrâneo, foi, há coisa de dois anos ou menos, saudado por um grande diário de Lisboa como o valor mais representativo no actual panorama literário de Goa.

Pela sua formação intelectual (é licenciado em História e Filosofia), e uma sensibilidade estética esquisita, determinada pela circunstância de ser filho da terra, Orlando da Costa oferecia a mais forte esperança de vir a apresentar-se um raro intérprete da alma goesa. E de facto, pouco tempo passou, e precisamente em Fevereiro de 1961, Orlando da Costa brindou as letras portuguesas com um novo livro, desta feita um romance, “O Signo da Ira”, todo ele ambientado em Goa e que, sem favor algum, basta para firmar os seus créditos como um romancista de garra, perfeitamente a ombrear-se com os contemporâneos de maior vulto, na moderna literatura portuguesa.

“O Signo da Ira” tecnicamente filia-se na corrente do romance social. Popularizado por um John Steinbeck, um Caldwell, um Jorge Amado (em Portugal tem seguidores em Fernando Namora, Redol, etc), o romance social quadra admiravelmente para veículo de expressão das ideologias sociais mais variadas, pelo recurso a um inesgotável material humano, susceptível de transfiguração artística.

Da terra que lhe dera berço, lembra Orlando da Costa, um dia, aos 18 anos, quando dela se separara, junto com a saudade amorosa, um travo de angústia pela miséria que via à roda, uma revolta por uma condição humana que um código social implacável e multissecular canonizara, votando a um destino negro sem saída, um classe de seres, que assim vive a sua humilhação e opróbrio, à beira da prepotência e desmandos de uns poucos. “O Signo da Ira” materializa dramaticamente esta “condição humana”

Num pequeno povoado, vive um punhado de famílias curumbins, manducares do sinistro Bab-Ligôr, na preoccupação obsediante da colheita da vagana. Mundo baço este, pobre, de uma pobreza que toda a mais abjecta miséria, de um primitivismo chocante. Mas quanta humanidade ali, quanta verdade naquelas almas labregas e rudes: Natel nascendo às surpresas inquietas do amor; Bostião sonhando o seu lar após a colheita da vangana; Quitrú vivendo dia a dia, hora a hora, a alegria do seu primeiro filho que tem no ventre; Coinção, de alma grande e bela, sacrificando num gesto heróico a sua felicidade e vida; Jaqui, Pedru, Rumão... Que painel de figuras humaníssimas e magistrais!

Sobre esse fundo, que se afiguraria pobre estofo, Orlando da Costa construiu uma trama admirável, que se lê de um fôlego, com um cescendo de interesse até o fim.

Mas o que faz a grandeza de “O Signo da Ira” não é tanto o equilíbrio da carpintaria romanesca – raro num que se estreia no género – como o sopro de um lirismo ímpar que perpassa pelas páginas deste livro, misturado a uma profunda melancolia que nos comove até o fundo. Indubitavelmente Orlando da Costa ama esta terra com todas as fibras da sua grande alma. Este seu amor, aliado a uma sensibilidade poética das mais puras, faz-lhe descortinar belezas virgens nesta terra onde menos imagináramos, recorrer a imagens de sabor regionalíssimo e, por isso mesmo, de recorte admiravelmente fino e impecável, tudo na magia de um estilo sóbrio e de uma harmonia surpreendente.

Eis numas amostras respigadas à toa, como ele casualmente se refere a Natel virand ao Amor:

Quase ausente da terra, Natalparece ter os sentidos mais atentos e sensíveis, como se fosse capaz de ouvir o próprio capim a crescer... A sua pele esticada e escura está luzidia, como as folhas da jaqueira lavadas pela chuva (p.29)

E só um poeta podia ter colhido num instantâneo maravilhoso a imagem de beleza e ternura que Pedrú bêbado, inconscientemente gravou, naquele dia em que passeava despreocupadamente a sua folga, e brutalmente se viu açoitado por um expedicionário “pacló”, não menos bêbedo que ele:

Rumão era o responsável pelo fim que tivera a filha, não tinha dúvidas – pensa Pedrú – mas o outro, o outro, gozando de uma revoltante impunidade, amesquinhara-o até onde se pode, agredindo-o e lançando-o à terra num dia em que, no meio de uma alegria imperfeita mas Sabrosa, gozava com os outros um dia de descanso, bebendo fenin e comendo grão assado (p.263)

O que caracteriza a arte de “O Signo da Ira” é esta poesia funda, que bebe as raízes numa visão telúrica da paisagem dos homens e coisas. Por isso, os conflitos que Orlando da Cosa descreve, se desenrolam sempre contra o fundo duma natureza cruel e cega; homens em briga ou diálogo com a terra. Ainda a psicologia das reacções se determina por uma instintiva comunhão da natureza, que empresta à sua arte uma luz vivíssima. Veja-se o episódio em que o soldado expedicionário às furtivas no bambual espreita o banho de Natel ao poço:

“... E resolvera espiá-la, de longe. Aí a tinha. Nunca o seu coração se alvoraçara daquela maneira (...) Talvez fosse do sol que os iluminava a ambos, do ar transparentes e livre, do verde que cresce no chão para ir acabar no alto dos cajueiros da encosta. Como se ela estivesse inteiramente só – pensou ainda – tudo fosse dela.. só dela (p.129-130).

E que dizer do desfecho, após a confissão inesperada de Natel ao Padre Antú? É toda uma página de um lirismo arrebatador, sim senhor!

Terminemos.

Quando só contava 18 anos, deixara Orlando da Costa esta sua terra. Levara consigo então, na sua alma ardente, todo um poema de luz e melancólica tristeza. No gemido da opressão, no olhar dorido de tanto sofrer ele suspeitara um grito de revolta, uma faísca incontida. Quantos anos passaram desde que Orlando da Costa nos deixou! Por isso, a versão que ele nos oferece, a ser verdadeira, é válida também para os dias de agora. A gangrena deve continuar, túmida de bichos, prestes a rebentar. Mas processar-se-á necessariamente a evolução das instituições do passado por uma viragem brutal, sob o signo da ira?

Um decidido pendor para uma certa “visão da vida” é propícia a falsear a realidade sobretudo num artista, tentando-o a carregar os tons nos aspectos sombrios. Como resultado imediato, a criação dos personagens ressente-se na verosimilhança, pecando naquela “lógica interior” de que nos fala algures Fialho.

Verdade, as crianções de “O Signo da Ira” são terrivelmente perfeitas, nem Orlando da Costa lhes empresta uma interioridade psicológica, absurda naquelas almas simples. Mas poder-se-á outrotanto dizer do Bab Ligôr?

Que ferocidade, injustiça e cinismo naquela figura sinistra! Pretenderá Orlando da Costa apresentá-lo como tipo do batcará goês?!

Era tão bom que Orlando da Costa, afim de vencer incertezas, contactasse de parto, esta nossa realidade, de novo. De certo lhe surgiriam, então, novas luzes e nos daria mais depoimentos da sua pena brilhante, que nos fizessem vibrar às nossas belezas ignoradas, amar a nossa querida terra, chorar a miséria do nosso povo.

Saturday, 5 November 2011

José Rangel - Sob o Signo da Calma (1961)

“... por fatalidade deste signo do escritor que nos obriga a fertilizar a obra que edificamos com a seiva amarga do nosso próprio sofrimento” – Joaquim Paços d’Arcos.

Não creio que, por esses últimos tempos, livro algum tenha despertado tão grande interesse e entusiasmo entre nós, mormente na academia, como O Signo da Ira de Orlando da Costa.

Nas minhas andanças pela capital, em encontros fugidios e em demoradas conversas, aparte um ou outro comento enraivecido ou enojado à volta da “Grande Porca” de Bordalo, tivo ensejo de o ver debatido, em díspares comentário, mas todos a uma, de acordo num ponto: sentiram mais amor à sua terra, por terem entrado em mais íntimo contacto com ela...

Se os sentidos se inflamaram ante o descritivo colorido do aspecto, digamos material do homem e os corações se condoeram com o duro circunstâncias que enquadra e movimenta as personagens, tornando agro o seu viver, a isso se sobrepôs, na admiração pela obra, o sortilégio do perfeito recorte de figuras de carne e osso, plenas de intensidade emocional e riqueza humana, sofre um fundo paisagístico pletórico de cor e de verdade, enternecendo-os até o âmago do seu ser...

Antes de entrarmos de analisar, pela rama embora, a estrutura do romance, adentro das coordenadas em que se move, falemos um pedaço do autor, sem receio de incorrermos em erro, tomando para base, além duns ligeiros apontamentos pessoais, no próprio romance e o meio que o condiciona.

Moço ainda, com 18 anos apenas, deixa a sua terra, numa idade em que impera a emoção, e o espírito, pouco analítico, propende para generalizações de casos isolados que álacre ou dolorosamente o vincaram, levando na retina fundamental, um estado de coisas algo degradante.

No espírito medularmente lírico (já revelado em obra poética marcante), e por conseguinte altamente vibrátil e ressoante a todas as gradações do sentimento, sazonado pela experiência vivida e trabalhado pela cultura, essa reminência do passado se retesa e se corporiza, entra-lhe no sangue e nos nervos, toma-lhe o coração e o cérebro, em suma, se faz vivência.

Esboça-se nele um “monólogo interior”, sem o qual não há obra de arte que valha, e elabora-se a urdidura romanesca, em que a falta duma observação directa e perspicaz da realidade, a milhentas léguas da vista mas não do espírito é suprida pela intuição.

E ele o põe no papel (tinha que o pôr para evitar a frustração), levado, a cima de tudo, pela sua vocação de escritor (já manifestada), que só realizando desmistificadamente a sua missão de homem e de artista, plenamente se realiza.

“Transfigurar em beleza a própria miséria, a própria desgraça, a própria descrença, é afirmar uma crença do destino da alegria, uma esperança de vitória (...) O artista é um humilde instrumento a realizar um valor que o supera. Porque a Arte é do homem: do que cria e do que espera por essa criação”, escreveu o grande romancista Virgílio Ferreira.

Vamos agora ao romance.

O romance, para ser apreciado na sua verdadeira contextura, é mister encará-lo à luz dum critério que englobe todos os aspectos que constituem a sua trama: “o encadeamento da efabulação, a descrição dos cenários sociais ou da natureza, a doutrina, a própria linguagem, o predomínio da razão ou do sentimento” (Cruz Malpique) tendo o critico (para Sainte-Beuve, todo o leitor é um critico) de se colocar numa atitude de vigilante equanimidade e receptividade.

Como já se frisou, O Signo da Ira entronca no Neo-Realismo que, alargando e modificando as perspectivas humanas e sociais rasgadas pelo Realismo que Eça definira como “larga e poderosa Arte, fazendo um profundo e subtil inquérito a toda a sociedade e a toda a vida contemporânea”, cria uma nova estética que bebe a seiva de inesgotável riqueza, do húmus local, em que tem as raízes, mas clarificada e depurada pelo filtro do humano, na sua dimensão psicológico-social.

“Uma nova consciência se impôs” - escreve Armando Bacelar em “Vértice” – “um sentido de descoberta do humano nas realidades nacionais e regionais (...) porque a preocupação da cor local e da descrição dos particularismos regionais se sobrepõe um acentuado amor do humano, numa tentativa absorvente de extracção do resíduo universal e do sentido vivo das relações e dos quadros.”

Sem queremos entrar no cerne do romance, para lhe fazer uma real critica judicativa, a que nos falta competência, e que já se fez, em artigos lúcidos e brilhantes, não podemos negar, sem sermos estreitos de critério, que O Signo da Ira é uma obra que possui valência artística e humana.

Técnica romanesca bem cuidada, em que o autor, tendo insuflado vida às suas personagens com hálito próprio, erguidas com um forte poder evocador e de penetração psicológica, intencionalmente se apaga, para se meter na vida deles, com os seus instintos e sentimentos, reacções e conflitos, numa harmoniosa unidade de acção, sem intromissões forçadas e de doutrina que lhe quebrem o ritmo e o natural e lógico desenvolvimento, servida por um estilo vivo e cálido, justamente moldável à “situação”, enriquecida de uma pujante vegetação de imagens, no geral felizes, nas quais o homem, e a Natureza, dada em soberbas pinceladas, se articulam e se fundem, tudo integrado num “clima” fundamentalmente poético com laivos de dramatismo

(continua na 6a página)

No tocante a cenários sociais, já frisámos como é que Orlando da Costa forjou a textura do seu romance, mais pela intuitiva, pois na idade cronológica e mental em que a semente peneirou não lhe teria sido possível mergulhar no problema para o abarcar na totalidade.

Se se critica, e com razão, que à “nova estética” se sobrepõe, por vezes, a “nova mística social”, conferindo ao romance neo-realista um carácter panfletário e roubando-lhe o conteúdo humano, temos para nós, após leitura do livro, que o autor quis consciencializar não uma tese em si (criando o soi disante “romance de educação”) mas a sua atitude de espírito, duramente temperado, frente ao homem, engrenado numa estrutura social, para ele incompatível social, para ele incompatível para a sua dignificação como ser individual social.

Analizando o contexto social do romance, escreve o Dr. João Gaspar Simões, um dos mais brilhantes críticos literários da actualidade portuguesa: “”O Signo da Ira” é, assim, um romance neo-realista no sentido mais rigoroso da expressão, embora sem falsas interpretações doutrinárias da luta de classes, mas sujeição ao atavismo das castas e à fatalidade das secas, um romance, neo-realista como se nos antolha o neo-realismo quando praticado da sua estrita doutrina de escola humanista ou de ampla compreensão das desgraças sociais.”

Se é necessário que o romancistas não evada do que o rondeia, a fim da sua obra ter a crédibilité como queria Bourget, para ela ser “uma coisa viva, um pedaço de carne palpitante arrancado ao corpo da realidade”, será ela pobre de fôlego e permanência, se for apenas mera pastiche da vida real.

Pois, a verdadeira arte romanesca consiste na transposição literária ou melhor na recriação, que é filha da imaginação e da sensibilidade, sendo a verosimilhança literária muito diferente da realidade em si.

“O romancista” – di-lo Joaquim Paço d’Arcos – “do mundo real leva, para o seu reminiscência das figuras que viu, dos seres que conheceu, das coisas com que lidou. Mas não as aproveita integralmente. Esmaga essas figuras, dilui esses seres, destrói essas coisas. Umas e outras comprime e amalgama, num esforço de trituração mental.”

Com essas lembranças de vultos que passaram, de lágrimas que tombaram, de vidas ou objectos perdidos, de pequenos nadas e de grandes coisas, de momentos banalíssimos e de horas altíssimas – com tudo isso romancista forma o barro donde em seguida, arranca novas figuras, por seu cérebro e suas mãos desenhadas, ergue novos cenários e cria novos sentimentos. E nessas figuras nada há, das que a sua observação fixou para que depois o cérebro as triturasse e ao vil barro as reduzisse. Nada há, porque não reproduzem uma única das figuras anteriormente enxergadas; e tudo há, porque foram erguidas com a carne e o sangue, os sentimentos e as baixezas destas, tal como do húmus igual do solo nasce a flor ou o canto disforme.”

E Fernando Namora assevera: “A verdade da literatura nada tem que ver com a veracidade dos acontecimentos, tal como a vida os forjou. A vida troça da coerência – mas nem por isso consegue impedir-nos que, ao recriá-la, lhe imponhamos uma disciplina.”

Por outro lado, nunca me seduziu transcrever fielmente a realidade. A realidade deve ser apenas uma sugestão. Daí em diante, quanto mais nos afastamos dela, maior será o nosso poder de autenticidade”

E Adolfo Casais Monteiro escreve:

“Os romancistas não são “exemplos”; só o homem inteiramente destituído de senso artístico e de “amor” de arte lê romances para saber como se deve comportar – ou até para saber como comportou o autor. Nem se deve buscar na sua leitura o “retrato” da sociedade. Talvez aquele que tenha lido todos os romances que jamais se escreveram tenha o direito de supor e só de supor, que ficou a conhecer a sociedade universal como um todo. Não, cada romance é uma “amostra”, não é padrão. Não é uma lição, é uma tentativa de penetrar no segredo do homem, de comunicar um dos muitos sentidos em que a vida e as coisas se nos podem manifestar.”

Três notáveis e profundos depoimentos, em longa citação, para esclarecer o problema, de criação literária.

E, para finalizar esses ligeiros considerações que nos acodem ao bico da pena, e que só agora trazemos dados os nossos afazeres do dia-a-dia cheio, abordemos, ao de leve, o problema do realismo, com atitude pictórica, de ex- (continua na 5a página) pressão físico-material do homem.

Um escritor pornográfico é aquele que descreve cruamente a realidade, demorando-se especificadamente no aspecto sexual, apenas com a finalidade de “especular com o vício.”

São os romances fotográficos do sórdido bas-fond, mesquinhas na intenção, tessitura e implicação humana, animados de um sopro de erotismo e animalidade, que em pocket-books andam espalhados aos milhares neste mundo.

O realismo tem outra intenção: transpor a realidade, na sua expressão psico-social, para o plano da criação literária, sem lhe desvirtuar o verdadeiro sentido: o homem tem de ser encarado, não apenas no seu aspecto religioso, nem somente como “Homem Político” de Aristóteles nem “Homem Económico” de Karl Marx, nem “Super Homem” de Nietzsche, mas como “Homem de Carne e Osso” de Unamuno.

Pergunta-se: poder-se-á criar uma arte real que apenas se cifre no aspecto psicológico e sociológico e esqueça o material?

Responde por nós, com a sua alta autoridade de romancista consagrado...[missing] zão; na prática, porém, exigem do romancista uma visão universal acautelada por tantos filtros mortais, que terminam por dar razão aos estetas.”

E depois de afirmar que não é possível evitar a “impureza irremediável” em “arte tão profana” como é a do romance, cuja matéria é “toda a massa humana”, cita os ossos de Bernanos que, da descrição “da diabólica Mouchette”, e de Graham Greene, ao descrever “a hipersexuada Sara”, não conseguiram “apresentar o mal sem o mostrar”.

E remata:

“O Pe. João Mendes, ao julgar possível o aprofundamento do mal sem descrição exterior, mantém-se na esfera dos princípios e fala da “empresa como tal.”

Mas eu, que me encontro na triste esfera, da coisa concreta a executar, atrevo-me a pensar que a “empresa como tal”, é, mais, uma vez, aquele “óptimo possível de que se ri o razoável existente”, como eu disse há tempo a universitários de Coimbra. E assim caímos, concretamente na tal “impureza irremediável” de toda a arte profana (...)

Perante esta conclusão prática, o romancista católico de duas uma: ou escreve o que tem para escrever por confiar na sua consciência e na misericórdia do seu Deus ou desconfia da consciência e portanto da misericórdia, e, doente de escrúpulo, deixa de escrever, pura e simplesmente, repetindo a renúncia de Racine. No século XVII, o facto podia não parecer grave; mas agora, quando todos procuram reparar as desastrosas consequências da demissão dos cristãos no plano do social, haverá ainda alguns que, por amor aos princípios, não queiram ver as tristes consequências práticas que resultariam de igual demissão no plano da literatura?”

Muito mais haveria a dizer do romance O Signo da Ira, se quiséssemos trazer à luz da análise muita sombra que paira agoirenta sobre o destino dos comparsas do romance.

Incontestavelmente, Orlando da Costa, senhor duma vigorosa voz e altivamente firme na estrada que trilha, desenvolve vertical e horizontalmente um problema de feição tipicamente local, mas com os olhos sem fronteira, enriquecendo o património cultural goês, feito mais de academismo e de conformismo intelectual (salvo honrosas excepções), com o poema em prosa do “canto comum”, que com os seus claros-escuros, ficará a pesar como o sinal dos tempos...