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Monday, 18 March 2013

Alfredo Bragança - Uma Lenda do Ganesh (1962)

Se Lacxmi é a deusa de fortuna e prosperidade, Saraswati é o deus de sabedoria e inteligência, a quem os intelectuais imploram inspiração e auxílio no momento de escrever seus poemas ou prosas, fazendo-os preceder do seguinte tributo de homenagem “Om Shri Ganesha namah” (Reverência a Ganesh). Assim Jayadeva, um dos famosos poetas de Pancharantnas (cinco jóias) invocou-o no seu poema lírico-dramático Gita Govinda sendo nisto imitado pelo próprio poeta inglês Sir Edwin Arnold no seu “The Indian Song of Songs”.

Diz uma lenda religiosa que estando ausente Sivá, o terceiro deus da Trindade, também conhecido sob outros nomes nas diversas seitas, o qual fora de peregrinação às brancas regiões celestes dos flocos nevados dos Himalaias, a sua esposa Parvati teve um belo dia a ideia de moldar de barro uma figura, com auxílio da água lustral que deslizava do seu corpo a banhar-se segundo os ritos religiosos, Parvati incutiu-lhe espírito, assim nasceu Ganesh. Ora esta figura, transformada acto contínuo, num robusto jovem, todo cheio de vida, uma bela estampa de rapaz afinal foi incumbido pela ‘mãe’ Parvati da missão de guardar fielmente, os aposentos e a sua residência, opondo-se à entrada de quem quer que fosse.

Volvidos doze anos, volta Sivá da sua peregrinação aos Himalaias: mas encontrando à porta o fiel guardião Ganesh que o não conhece e assim não o permite entrar segundo as ordens da “mãe” Parvati, Shivá, com a sua adaga faiscante, vibra-lhe um único golpe cintilante e a cabeça do pobre Ganesh, rola pelo chão numa arrepiante poça de sangue. Aos ruidosos, sinais de encontro dual, sai para fora a deusa Parvati que, com olhos naturalmente rasos de lágrimas e contando ao seu esposo Shivá como ti (segue na 2a pagina) nha criado Ganesh, suplica-lhe que o ressuscita. Shivá, porém não querendo trazer a cabeça doutro individuo, decepa a cabeça ao melhor elefante e coloca-a no corpo acéfalo do Ganesh – razão por que ele é representado agora com a cabeça elefantina, tendo nas quatro mãos que significam o poder, um machadinho, um dente, um ladú e um certo tridente.

A par desta lenda, há outras – como a que diz respeito às fases da lua – acerca de Ganesh, inspirador dos bardos e dos intelectuais, deus das artes e... amigo da guloseima.

Saturday, 19 May 2012

Alfredo Bragança - As Noites Desejadas (1963)

O agricultor e o Bhattkará
A Deus pedem chuva e mais chuva
Para a sua várzea e coqueiros
Fecundar.
E lá vêm as noites desejadas,
Noites de Inverno,
Noites negras e cerradas...
O céu se reveste de luto,
Ziguezagueia no espaço o raio,
Sibila o vento, brame o vendaval;
Ronca sinistro o oceano, ribomba furioso o trovão,
As árvores açoitam sem dó as paredes...
Cobre-se tudo de escuridões medonhas
Sem lua, sem estrelas;
A chuva cai em fúria impetuosa, horrenda
Sobre o telhado... e em grossos cordões
Rola para o chão,
Abre carcavões, forma enxurradas:
Despenham-se com terrível furor
Os pedregulhos, rochas e penhascos;
O frio ríspido penetra pelas frinchas da casa,
Açoitadas pelo vendaval, choram de medo as vidraças
Geme lúgubre a natureza toda.
E perante esse quadro tétrico,
Qual o Ser-pensante que se lembra
Dos pobrezinhos... ossudos, esqueléticos,
Sem pão, sem vestuário, sem abrigo,
E sempre a tiritar de frio, tremer de pavor?

Friday, 13 January 2012

Alfredo Bragança - Sonho Desfeito (1963)

Em grandes vagalhões de triste dor,
Arrancando, até, o enorme mar gemia;
Ao longo, majestoso o Sol morria
Numa apoteose de lânguida cor.

Nas praias, todo nós a este sol-pôr,
Quando tudo ao redor era agonia,
Brincávamos, irradiando alegria,
Como lírios difundem o seu olor.

Foi então que escreveste derepente,
Com sorriso magoado e doce pranto,
Na areia branda: eu te amo loucamente.

Mas ai! Que dor! Veio o espumoso manto,
E tudo apagou, só deixando mente
Do teu Poema cheio de doloso encanto.

Wednesday, 14 September 2011

Alfredo Bragança - Desilusão (1968)

É tudo desilusão,
Nem arroz, nem pão.
É língua a arder Troas
Na Índia...
A Índia em pedaços,
A língua é tudo,
Pois não!
Muita politica,
Estômagos vazios,
Enquanto uns poucos tubarões
Se desfazem
Em gargalhadas satânicas.

As cinzas de Nehru e Shastri
Recusam-se
A comisturar com a terra,
E alimentar a seara
Que gera o pão.
Pão que não há.
Açúcar também não.

Viva a Liberdade
Apertando o cinturão.
Jesus Cristo
Não desceu da Cruz,
Não, não,
Pobre da Humanidade
Suspensa sem luz,
Em perene incerteza.

Tudo isto,
Sem cor, sem luz,
Sem arroz, sem pão,
É desilusão.

Alfredo Bragança - O grande poeta RV Pandit (1968)

Alguns dias depois da estrondosa aclamação que R.V. Pandit, o poeta festejado de Goa, recebeu com uma condecoração honorífica das Filipinas, passo a falar dele no que mais me impressionou na sua poesia de alto recorte literário.

R.V. Pandit, autor de quatro livros em inglês e sete em Konkani, tendo também deixado gravados os seus pensamentos em artigos em marata e inglês focando temas de actualidade social e cultural. Redigiu com proficiência a revista marata Bharati em 1953. Obteve o grau de Bacharelato, e apesar de ser estudante de ciências, bem cedo revelou o seu pendor pelas letras. Já versejava em inglês aos 15 anos. Divulgou ao depois os seus poemas em marata. Porém, só mais tarde sob a mais profunda influência dos grandes pensadores como Tagore e Kakasaheb Kalelkar é que Pandit descobriu-se, e em 1954 principiou a dar expressão plástica aos sentimentos, pensamentos e anseios de grande poeta que é na nossa língua-mãe Konkani.

RV Pandit é, sem sombra de dúvida, um “grande” poeta. É grande porque é autor de muitas obras? Não. É grande porque os seus poemas foram vertidos para hindi, kanada, inglês e português ou porque escreveu em algumas delas? Não. Pandit é grande porque é pequeno. E ser pequeno é inteirar-se dos sentimentos e anseios dos pequenos, amá-los a pugnar pelos mesmos.

A paz que o “Gauddó” procura em vão através das longínquas Nações Unidas, como se patenteia no seu poemeto “Hanv Ek Ihan Munis” (Sou um Homem Pequeno) ou a tranquilidade interna que ele próprio anseia, só pode consegui-los no bem-estar dos pequenos. No mesmo poemeto volta a bater na mesma tecla: não obstante toda a sorte de correntes e esforços para nivelar as diferenças, tudo se condensa na diferença principal – de o opressor contra o oprimido. Dum lado, os arranha-céus, e doutro os “zhopddis” da Índia, os “slums” da Inglaterra, os “ghettos” da América e as “favelas” do Brasil.

Tudo isto indica que o Pandit não está a sonhar na Torre de Marfim, nem tão pouco a inspirar-se nos livros. Ele é grande porque é formado pela Universidade da Vida. Como poeta ele penetra no âmago da vida dos pobrezinhos, sente o seu coração palpitar pelos humildes que bradam pela codeia de duro pão. Refereindo-se ao poemeto “Hanv Ek Ihan Munis”, diz o Hugh McKinley que escreveu uma longa apreciação literária no “Athens Daily Post”, que o tal poemeto “actua como uma bomba napalm sobre as nossas ilusões e afastamento da responsabilidade activa”; e condensando a sua critica literária, acrescenta: ‘nos versos do Sr. Pandit temos uma expressão quente destes temas que criam a vida: o lar, a família, o amor conjugal, a ordem e a glória da natureza.”

A personalidade do R.V. Pandit cresce com raízes no solo. Ela cheira à terra vermelha. Os seus poemas são plantas regadas com o suor dos “gauddé.” O seu coração pulsa pelo sofrimento dos “Kunbis” e

(segue na 2a pagina)

Dos pobres campesinos. Ele vê tudo sob o prisma do realismo nu da existência. Mesmo a sua imaginação não libra voos como a dos bardos românticos. A sua imaginação é bem térrea. Eis o motivo por que a sua poesia é inspirada, em grande parte, na cultura folclórica de provérbios e superstições. Não só ele ausculta os sentimentos e pensamentos dos “gauddés”, mas identifica-se com eles ainda na expressão. A sua colectânea de poemas “Mujem Guit Gauddeanchem” é toda simplicidade, despida de ornamentos artificias. E a simplicidade é grandeza, escreveu algures o Victor Hugo. O Pandit canta noutro passo que a grandeza da palha reside no seu crescer por si mesmo à chuva e ao sol.

Quando vemos o “Bhatkar-Saukar”, sr. Pandit ao volante do seu carro e morando no Altinho, a primeira pergunta que nos aflora nos lábios: “É o mesmo Pandit que se identifica com os “gauddé”? Sim, “ecce homo”. Contudo Pandit não verseja na Torre de Marfim. Algumas vezes por semana, o Pandit vai comisturar-se com os seus co-aldeanos, a arraia-miúda em Palém de Siridão. Não se sente à vontade longe deles.

O amor aos humildes abarca toda a humanidade, e o apelo dos seus poemas é universal. Na sua cadência se sente o rítmico bater do coração que geme e sofre por uma dura côdea de pão. Eis o espírito de fraternidade que extende o seu círculo dum canto a outro do mundo:

“Tum ani Hanv,

Dogui bhav bhav,

Bhashek lagun

Dusman zaliat”

Noutro poema, “Hem Mhujem Ghor”, o espírito universitária de poeta canta “hoje e cá, amanhã lá, depois não sei onde”.

Os poemas de Garcia Lorca constituem uma tela em que se projecta fielmente o panorama da Espanha. Onde está a Espanha, lá está o imortal Lorca. Enquanto viver a Goan (Koncão) lá estará o Pandit sempre vivo na memória Pandit também pinta com palavras o cenário soberbo de riachos, mangueiras e coqueiros. Porém, não cantou como Lorca que a Morte é sombra da Vida, Lorca que morreu tragicamente na Guerra Civil da Espanha em 1936 com apenas 38 primaveras. Pandit conta hoje 50 anos.

A fé inabalável nos destinos da humanidade leva-o a arrancar os seguintes versos chamejantes cheios de visão profética:

“Aiz nam faleam

Tumkam amchi yad zatoli

...

Ami tumche bhavuch

Tumche prem korpi.

...

Ani tea dissa

Soglo sonsvar – hem ek rashtr

Sogle rong, kelle gore,

Hanchi ekutch zat – mnnis zat

Ekuch dhorm – mnnis dhorm

Oxem tumkam distolem –

Tea dissachi hanv vatt polle tam”

Outro poema em que anuncia que tudo se faz por Deus, rescende à grinalda de Tagore a Deus enquanto noutro passo o poeta não deixa de se insurgir contra o formalismos, como no-lo atesta “Fatrachi Puza” (Adoração à Pedra). Acho que devia lançar ao limbo de obscuridade poucas poesias de pouco quilate como “Mudoi” (O Capital de Amor) e “Nova Torecham Kalliz” (Nova Espécie de Coração). Porém, o seu verso livre é admirável, lembrando-nos sempre do insigne poeta da democracia Walt Whitman. Que mais poesias de povo venham à luz da pena dum dos poetas mais representativos de Goa de todos os tempos, R. V. Pandit.

Wednesday, 7 September 2011

Alfredo Bragança - Hino Nacional da Índia: Jana Gana Mana (1962)

Tu és quem comanda o espírito do povo,
Tu, ó Dispensador do destino da Índia.
Teu nome desperta o coração do Punjab, do Sind,
Guzerate e Marata, de Drávida, Orissa e Bengala;
Re-ecoa nos montes dos Vindias e Himalaias,
Funde-se nas ondas musicais do Jamuna e do Ganges,
Desaguando nas ondas valsantes do Oceano Índico.
Eles imploram-te bênçãos e cantam-te louvores:

A ti, ó Dispensador do destino da Índia,
Vitória, Vitória, Vitória!

Tua voz, noite e dia, é proclamada de região em região,
Convocando-nos, hindus, budistas, siques, jainas,
Parses, muçulmanos e cristãos, em volta do teu trono.

Ao teu santuário surgem oferendas do Oriente e Ocidente,
Para serem tecidas numa grinalda de amor.
Tu fundes os corações dos povos na harmonia duma só vida;

A Ti, ó Dispensador do destino da Índia,
Vitória, Vitória, Vitória!

Ó eterno Condutor que guias o carro da história humana,
Soçobrada de grandeza e decadência das nações,
Em que o homem é o eterno peregrino adante.

Em meio de aflições e terrores,
Soa tua trombeta, ó nosso Salvador em vicissitudes e tristezas;
A Ti, ó Dispensador do destino da Índia
Vitória, Vitória, Vitória!

Quando na longa, terrível noite do denso negrume
A Pátria continuava ainda no torpor,
Teus braços maternais a sustentaram,
Seu olhar vigilante se inclinou para o seu rosto,
Até que ela se rompesse dos negros sonhos maléficos:

A Ti, ó Dispensador do destino da Índia,
Vitória, Vitória, Vitória!

Desponta a madrugada, o sol beija a fronte dos montes do Oriente.
Trinam os pássaros, a brisa matinal traz frescura orvalhada de vida nova.
Beijada dos raios de oiro do teu amor,
Desperta a Índia e dobra a cabeça a teus pés:

A Ti, ó Rei dos reis, a Ti, ó Dispensador do destino da Índia
Vitória, Vitória, Vitória!

Thursday, 28 July 2011

Alfredo Bragança - O Grande Poeta RV Pandit (1968)

Alguns dias depois da estrondosa aclamação que R.V. Pandit, o poeta festejado de Goa, recebeu com uma condecoração honorífica das Filipinas, passo a falar dele no que mais me impressionou na sua poesia de alto recorte literário.

R.V. Pandit, autor de quatro livros em inglês e sete em Konkani, tendo também deixado gravados os seus pensamentos em artigos em marata e inglês focando temas de actualidade social e cultural. Redigiu com proficiência a revista marata Bharati em 1953. Obteve o grau de Bacharelato, e apesar de ser estudante de ciências, bem cedo revelou o seu pendor pelas letras. Já versejava em inglês aos 15 anos. Divulgou ao depois os seus poemas em marata. Porém, só mais tarde sob a mais profunda influência dos grandes pensadores como Tagore e Kakasaheb Kalelkar é que Pandit descobriu-se, e em 1954 principiou a dar expressão plástica aos sentimentos, pensamentos e anseios de grande poeta que é na nossa língua-mãe Konkani.

RV Pandit é, sem sombra de dúvida, um “grande” poeta. É grande porque é autor de muitas obras? Não. É grande porque os seus poemas foram vertidos para hindi, kanada, inglês e português ou porque escreveu em algumas delas? Não. Pandit é grande porque é pequeno. E ser pequeno é inteirar-se dos sentimentos e anseios dos pequenos, amá-los a pugnar pelos mesmos.

A paz que o “Gauddó” procura em vão através das longínquas Nações Unidas, como se patenteia no seu poemeto “Hanv Ek Ihan Munis” (Sou um Homem Pequeno) ou a tranquilidade interna que ele próprio anseia, só pode consegui-los no bem-estar dos pequenos. No mesmo poemeto volta a bater na mesma tecla: não obstante toda a sorte de correntes e esforços para nivelar as diferenças, tudo se condensa na diferença principal – de o opressor contra o oprimido. Dum lado, os arranha-céus, e doutro os “zhopddis” da Índia, os “slums” da Inglaterra, os “ghettos” da América e as “favelas” do Brasil.

Tudo isto indica que o Pandit não está a sonhar na Torre de Marfim, nem tão pouco a inspirar-se nos livros. Ele é grande porque é formado pela Universidade da Vida. Como poeta ele penetra no âmago da vida dos pobrezinhos, sente o seu coração palpitar pelos humildes que bradam pela codeia de duro pão. Refereindo-se ao poemeto “Hanv Ek Ihan Munis”, diz o Hugh McKinley que escreveu uma longa apreciação literária no “Athens Daily Post”, que o tal poemeto “actua como uma bomba napalm sobre as nossas ilusões e afastamento da responsabilidade activa”; e condensando a sua critica literária, acrescenta: ‘nos versos do Sr. Pandit temos uma expressão quente destes temas que criam a vida: o lar, a família, o amor conjugal, a ordem e a glória da natureza.”

A personalidade do R.V. Pandit cresce com raízes no solo. Ela cheira à terra vermelha. Os seus poemas são plantas regadas com o suor dos “gauddé.” O seu coração pulsa pelo sofrimento dos “Kunbis” e dos pobres campesinos. Ele vê tudo sob o prisma do realismo nu da existência. Mesmo a sua imaginação não libra voos como a dos bardos românticos. A sua imaginação é bem térrea. Eis o motivo por que a sua poesia é inspirada, em grande parte, na cultura folclórica de provérbios e superstições. Não só ele ausculta os sentimentos e pensamentos dos “gauddés”, mas identifica-se com eles ainda na expressão. A sua colectânea de poemas “Mujem Guit Gauddeanchem” é toda simplicidade, despida de ornamentos artificias. E a simplicidade é grandeza, escreveu algures o Victor Hugo. O Pandit canta noutro passo que a grandeza da palha reside no seu crescer por si mesmo à chuva e ao sol.

Quando vemos o “Bhatkar-Saukar”, sr. Pandit ao volante do seu carro e morando no Altinho, a primeira pergunta que nos aflora nos lábios: “É o mesmo Pandit que se identifica com os “gauddé”? Sim, “ecce homo”. Contudo Pandit não verseja na Torre de Marfim. Algumas vezes por semana, o Pandit vai comisturar-se com os seus co-aldeanos, a arraia-miúda em Palém de Siridão. Não se sente à vontade longe deles.

O amor aos humildes abarca toda a humanidade, e o apelo dos seus poemas é universal. Na sua cadência se sente o rítmico bater do coração que geme e sofre por uma dura côdea de pão. Eis o espírito de fraternidade que extende o seu círculo dum canto a outro do mundo:

“Tum ani Hanv,
Dogui bhav bhav,
Bhashek lagun
Dusman zaliat”

Noutro poema, “Hem Mhujem Ghor”, o espírito universitária de poeta canta “hoje e cá, amanhã lá, depois não sei onde”.

Os poemas de Garcia Lorca constituem uma tela em que se projecta fielmente o panorama da Espanha. Onde está a Espanha, lá está o imortal Lorca. Enquanto viver a Goan (Koncão) lá estará o Pandit sempre vivo na memória Pandit também pinta com palavras o cenário soberbo de riachos, mangueiras e coqueiros. Porém, não cantou como Lorca que a Morte é sombra da Vida, Lorca que morreu tragicamente na Guerra Civil da Espanha em 1936 com apenas 38 primaveras. Pandit conta hoje 50 anos.

A fé inabalável nos destinos da humanidade leva-o a arrancar os seguintes versos chamejantes cheios de visão profética:

“Aiz nam faleam
Tumkam amchi yad zatoli
...
Ami tumche bhavuch
Tumche prem korpi.
...
Ani tea dissa
Soglo sonsvar – hem ek rashtr
Sogle rong, kelle gore,
Hanchi ekutch zat – mnnis zat
Ekuch dhorm – mnnis dhorm
Oxem tumkam distolem –
Tea dissachi hanv vatt polle tam”

Outro poema em que anuncia que tudo se faz por Deus, rescende à grinalda de Tagore a Deus enquanto noutro passo o poeta não deixa de se insurgir contra o formalismos, como no-lo atesta “Fatrachi Puza” (Adoração à Pedra). Acho que devia lançar ao limbo de obscuridade poucas poesias de pouco quilate como “Mudoi” (O Capital de Amor) e “Nova Torecham Kalliz” (Nova Espécie de Coração). Porém, o seu verso livre é admirável, lembrando-nos sempre do insigne poeta da democracia Walt Whitman. Que mais poesias de povo venham à luz da pena dum dos poetas mais representativos de Goa de todos os tempos, R. V. Pandit.

Alfredo Bragança - Desilusão (1968)

É tudo desilusão,
Nem arroz, nem pão.
É língua a arder Troas
Na Índia...
A Índia em pedaços,
A língua é tudo,
Pois não!
Muita politica,
Estômagos vazios,
Enquanto uns poucos tubarões
Se desfazem
Em gargalhadas satânicas.

As cinzas de Nehru e Shastri
Recusam-se
A comisturar com a terra,
E alimentar a seara
Que gera o pão.
Pão que não há.
Açúcar também não.

Viva a Liberdade
Apertando o cinturão.
Jesus Cristo
Não desceu da Cruz,
Não, não,
Pobre da Humanidade
Suspensa sem luz,
Em perene incerteza.

Tudo isto,
Sem cor, sem luz,
Sem arroz, sem pão,
É desilusão.

Review of Canção da Alma (1962)

Dentre os diversos livros e opúsculos que repousam sobre a nossa mesa de trabalho, aguardando revista ou análise critica, chegou a vez de nos referirmos à “Canção da Alma”, livro de versos de Alfredo Bragança, poeta goês da Nova Geração.

Trata-se duma colecção de poesias dos mais diversos tipos que vão desde a quadra ao soneto e desde o poemeto ao verso livre, escritos em língua portuguesa e reunidos num volume de boa apresentação gráfica pelas edições “Alvorada”.

Adentro do tema proposto, a “Canção da Alma” exprime os anseios da alma do poeta que se manifestam logo nos seus primeiros versos como a “Prece do Natal” que, embora de contextura simples, põem bem à mostra as tendências do seu espírito educado no velho lar goês, onde o Natal e o Presépio são temas aliciantes da juventude.

Outros temas, outras poesias vêm depois, tais como “Os Finados”, e “Via Dolorosa”, “Aspiração”, “Mors Liberatrix”, “Templo dos Poetas”, “Sonho Desfeito”, e outras ainda, através das quais se sente um decidido esforço do autor de não se deter apenas nas líricas perfumadas que de resto duma maneira geral marcam quase sempre o inicio na vida literária

Esse manifesto esforço de tratar temas com mais largueza de visão, e os anseios da alma o destino das existências, a dor, a alegria ou o travo amargo da vida, adentro das formas da poética regular, sentem-se nos seus versos como a “Missão do Poeta”, “Anseio Alado”, “As duas vozes”, mas, particularmente, nos sonetos “Aspiração”, “Transcendentalismo”, “Infância”, “Horas Esbraseadas”, “Angústia”, “Ânsia do Intangível”, “Incêndio da Alma”. São versos de poeta que sente a natureza e a vida e escuta os estranhos murmúrios sobre os quais passa indiferente, o egoísta ou o mundano, ou aquele para quem só o que luz é oiro e que na “Mãe”, tributo à memória de quem lhe deu o ser, encontram a expressão mais apurada e perfeita.

Esses versos, particularmente, e a sua expressão poética dentro das formas tradicionais, levam-nos a pensar como deveria ter sido grande no espírito de Alfredo Bragança a influência dos poetas do Romantismo que, aliás, foi notável entre gerações de goeses que se dedicaram às Letras e às Artes.

Esse ponto de partida para o desenvolvimento da arte poética entre nós, é indiscutível. Ele demonstra ao mesmo tempo quão grande foi a influência que a literatura portuguesa exerceu no nosso meio através de todas as suas Escolas, desde a clássica, a romântica e realista, quer pelo ensino liceal, quer ainda pelo interesse que os mesmos estudod despertavam nas classes ilustradas do pais, através da leitura das obras do Padre Vieira e Bernardes e dos melhores escritores portugueses como Oliveira Martins, Herculano, Eça, Ramalho, e poetas, desde Eugénio de Castro e Teixeira de Pascoais a Fernando Pessoa e outros, sem falarmos ainda da leitura das obras dos melhores escritores franceses, ingleses e alemães que tinham cultores apaixonados no nosso meio de Goa.

Todavia é digno de registo o facto de que Alfredo Bragança, estando ausente de Goa durante o longo período de 15 anos na União Indiana onde fez os seus estudos de MA, entregando-se à absorvente actividade naquele meio, soubesse conservar fortes esses laços que o ligavam à língua portuguesa, embora tivesse completado em Goa os seus estudos do Liceu.

O seu livro “Canção da Alma”, embora em uma ou outra poesia se note a repetição do termo é uma prova específica de que a língua portuguesa constitui um belo veiculo na expressão do pensamento, mas só quando posta ao serviço de quem trabalha nela com particular devoção, na Ânsia do universal.

Bem afirmou o autor no proémio do seu livro ao referir-se aos escritores goeses que deixaram suas produções, tanto em prosa como em poesia, em língua portuguesa.
O mesmo afirma peremptoriamente Kaka Kalelkar, companheiro e colaborador de Gandhi como obreiro social quando escreve na “Mensagem” dirigida a Alfredo Bragança e arquivado no mesmo livro:
“O português não é falado apenas em Portugal, mas igualmente no Brasil, em Moçambique, Angola e noutras partes. E na nossa própria terra, muitos dos meus compatriotas não só apreciam a lginua portuguesa, mais ainda o amam, tal o seu ritmo e beleza; não admira, portanto, que muitos deles tenham querido exprimir os seus mais íntimos anseios e sentimentos nessa língua”
E com essas palavras, que exprimem uma das facetas mais simpáticas do livro “Canção da Alma”, desejamos a Alfredo Bragança os melhores trunfos na sua vida literária com votos pelo aparecimento de novos trabalhos da sua lavra.

Friday, 8 July 2011

Alfredo Bragança - 18 de Junho: depois do dever do Jawan (1965)

Quero descansar em ti, ó Terra amada,
Dormir no seu teu eternamente,
Assim deixar o mundo e toda a gente,
E alcançar em ti a Paz abençoada.

Abre-me o seu seio, ó Terra sagrada,
Que eu quero que o meu corpo penitente
Vá dormir na tua urna friamente,
Repousar manso na Campa gelada.

Quando assim deixar-me acabar a vida,
Lá surgirá a minha Alma reflorida,
Comungado a Hóstia de Paz infinita...

Eis minha única prece, único anseio:
Deixa-me dormir, abre-me o teu seio,
Ó Terra minha, ó terra bendita!

Thursday, 16 June 2011

Alfredo Bragança - Parede Humana (1965)

Chovem trovoadas,
Ribombam canhões,
Atroam os ares,
Gargalhar das metralhas,
Eis arrancadas,
Monstro amarelo
À porta blindada!

Clamam trombetas,
Estandarte tricolor à frente,
Saem Jawans para frente
Sangue a arder
Fúria e sanha,
Com o inimigo à porta.

Cá nos lares,
Choram esposas e mães,
Filhos e filhas também,
Pais a terra defendem,
Sorri à Índia-Mãe.

Põem-se a coçar a cabeça
Os estadistas,
Matutam os cientistas e artistas
Pensam alto e baixo
As camadas congressistas,
Comunistas e socialistas

Será pó e nada
Esta estremecida terra?
Será escura a luz abençoada
Que envolve a terra?
Dançarão esqueletos
Sobre o bonito soalho
De cinzas e lava coagulada?
Romperão vulcões
Com fúria e fogo,
Dançarão esqueletos
A este macabro jogo?
Formarão estátuas de cinzas
No Campo de Liberdade?
Saltarão pedaços de terra seca,
Sem plantas e árvores secas,
Com esqueletos dobrados
Chupando-lhe as raízes,
Sem água nem mágoa,
Cena inglória e tétrica?
Não poderão chorar
Os farrapões dos viúvas?
Morrerão os ecos
Dos dilacerantes gritos
Dos pobres órfãos
Nas suas gargantas secas?

Será arrasado
O templo de Liberdade,
Onde vão rezar
Camadas de ordem vária?

Não poderemos comer
Do pão de cada dia,
Das cinzas de Nehru?
Será fogo, trovão,
Cinzas, pó e nada
A nossa terra amada.

Clamam trombetas,
Estandarte tricolor à frente,
Saem Jawans para a frente
Sangue a arder,
Fúria e sanha,
Com o inimigo à porta.

400 milhões
Esquecem Punjab,
Gujerate e Kerala...
De Assam à Madrasta,
De NEFA à Goa,
Todos parede humana
Todos parede humana
Avançam os Jawans.

Máquinas correm céleres,
Suam os irmãos de noite,
Mais ritmo, mais trabalho
Que o inimigo amarelo
Martela a porta.

O Himalaia
De 400 milhões
Derretem suor e neve branca,
Formam um bloco,
E derretem o amarelo!

Vem o verde traiçoeiro
Arranca do Kutch
Um pedaço
Rempo com ímpeto
A artilharia
Faz-se fogo e aço.

Avançam os Jawans,
Contra o verde inimigo.

Oram multidões,
Os 400 milhões
Nas naves
Do templo da Liberdade.

Os filhos à guerra
Os pais à guerra,
Choram irmãs,
Esposas e viúvas,
Sorri a Terra-Mãe Índia.

Friday, 18 February 2011

Alfredo Bragança - Goa Viva, Goa Livre (1963)

Eles foram…
Abutres que vieram,
Abutres que foram,
Goa não é carcaça,
Goa não é cadáver,
Goa viva, Goa livre!

Vontade divina,
Seta de Parshuram
Que funda o Concão.

Coqueiros e arecais,
Luxuriantes e frondosos,
Várezeas e mangueirais.
Jardins edénicos,
Rios leitosos,
Praias de areia branca,
Espuma cristalina,
De Betul a Siridão,
De Colvá a Calangute,
Não as deixaremos macular
Pelas botas férreas,
Do bárbaro invasor,
Tocam tambores,
Soa clarim,
Vozes que bradam,
Vozes que ecoam
Em concani:
Amchem Goem, anchi as,
Amcho ganv, amchi bhas.

Vozes da História,
De Epopeia e Glória,
Vozes de Tempo
Vozes de Panchayts e Comunidades,
Vozes sem idades,
Vozes de Bhau Daji Lad
E Dada Vaidya
De Francisco Luís Gomes
E Dalgado
Vozes de Kosambi e Valaulicar,
De Gama Pinto
E Menezes Bragança...

Gritos de Sidnate e Chadernate,
De Dudsagor e Arvalém
De Mandovi e Zuari,
Nossos Indus e Ganges,
Vozes que gritam
Vozes que rompem:
Amchem Goem, amchi as,
Amcho ganv, amchi bhas.

Vozes que ecoam,
Vozes que reboam,
Vozes que voam

Goa é nossa,
Goa viva, Goa livre.
Rica língua,
Rico folcore,
Milhares milhares
De provérbios concanis,
Mandós e dacnis,
Dulpodas e haloios,
Zotiós e ovios.

Surgem preces imortais
Por Goa viva, Goa livre,
Preces de templos e catedrais:
Da Sé e Bom Jesus,
Shri Manguesh, Shri Naguesh,
Shri Mahalacximi, Shri Ramnath,
Preces do Pilar e Sancoale,
Por Goa viva, Goa livre.

Goa é Shanta-Durga,
Deusa de paz,
Unindo Vishnu e Shivá
Ao apelo do Bramá,
Que é a Índia-Mãe.

Santos e heróis,
Luzes e faróis,
Ranés d’antanho,
Satyagrahas tamanhos,
Aguada, Reis-Magos
E fortes vetustos,
Então revoltas em vão?
Não, mil vezes não!

Eles foram...
Outros convidam
À escuridão,
À escravidão,
Profetas falsas,
Para ‘engolir’
Nosso rincão,
Cautela irmão!
Cautela com amigos
A soldo dos vizinhos!
Avalanches dos estados inimigos.

Capa de amizada,
Hipocrisia, falsidade,
Cavalo de Tróia,
Ganância e traição.
É ‘China’ dentro da Índia,
Avançando à dianteira,
Alargando a fronteira,
Empurrando o Macmahon,
Adentro do Concão.

Cautela, filhos de Goa!
Alerta, filhos de Concão!
Alerta, filhos da Índia!
Goa não é carcaça,
Goa não é cadáver,
Goa somos nós,
Goa é nossa,
Viva Goa, livre Goa,
Goa viva, Goa livre!

Wednesday, 16 February 2011

Alfredo Bragança - Os Finados (1962)

Pelas densas escruridões nocturnas
Passam lá em cortejo enfileiradas,
Pálidas Sombras, tristes e enlutadas,
Como farrapos de Almas taciturnas.

Saindo das suas carcomidas urnas
Em dolorosos crepes embrulhadas,
Vão todas Elas, frias e geladas,
Com as faces chupadas e soturnas.

Perguntei, porém, ao cortejo fúnebre:-
Ó velhas Sombras, lívidas e mortas,
Pra onde ides acossadas de Tristeza?
- Vamos nós, ao gemer do Sino lúgubre,
Bater às vossas generosas portas,
Mendigando a Esmola duma Reza.

Alfredo Bragança - As Más-Caras (1964)

Três dias,
dias de bulício infernal,
são três dias de Carnaval…

Envergando o seu trajo carnavalesco,
reina supremo o deus Momo,
o pérfido mundo grotesco.

Por toda a parte vende-se
ilusório prazer,
prazer que vive um segundo,
vende-se hipocrisia,
vendem-se ambições e insultos ocultos.

- Máscaras e cocotes –
vendem-se sorrisos irónicos,
risadas sonoras e gargalhadas satânicas,
vende-se orgia e mais orgia,
orgia que, em doída azáfema,
compra o ávido Zé Povinho,
em honra do deus Momo.

Mas ao depois,
findos estes três dias,
pensamentos na Quaresma,
acocorado num solitário cantinho,
põe-se a chorar e a soluçar,
o pobre do Zé Povinho.
- Porque, porque choras,
meu Zé povinho,
a morte do deus Momo,
todo desfeito,
em frias cinzas da Quarta-feira?

Porque, porque cjoras,
se a má-língua sempre usa cocotes,
que são o sussurar,
de calúnias secretas,
se as nossas próprias caras,
são más-caras da Hipocrisia?

Porque choras, meu Zé Povinho,
se a Vida é um eterno Carnaval,
uma perene tragicomédia,
de brincos populares,
onde vão e vêm,
aparecem e desaparecem,
homens de ordem vária?

Porque, porque choras,
meu Zé Povinho,
se o Carnaval é apenas,
um esboço fotográfico,
da cria realidade da Vida?

Porque, porque choras?...

Sunday, 26 December 2010

Alfredo Bragança - A Índia e o Tricolor (1963)

Quinze de Agosto. Acaba a noite escura…
Surge o Clarão radiante da Vitória,

Anunciando uma Nova Era, de luz pura,
E a Índia abre mais um capítulo na História.
Com ele há-de ficar sempre na memoria,

O nobre Ahinsa do Mártir exangue,
Que derramou suor, lágrimas e sangue,
P’ra ver por fim raiar o sol da Glória.

Dessa sua Não-violência e artifício,
Erguem-se de Ashoka a Roda – a Nova Idade,
E a Bandeira Tricolor da Liberdade: -

O alaranjado - cor de Sacrifício,
O branco – a Pureza de criança,
E o verde – que simboliza a Esperança

NB – estes versos foram publicados pela primeira vez em 15-8-1947