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Tuesday, 3 February 2015

Walfrido Antão - Escrever, porque e para quem? Ou, o silêncio fala melhor nas tardes de calor (1968)

A minha casa não é minha/é de vós todos/As palavras que escrevo não são minhas/São de vós também – poeta brasileiro

Perguntaram-me outro dia se eu sabia o que era a Vida. Desde a ovulação até a inseminação artificial. Ou as suas manifestações como a velhice de cabelos de prata na noite de prata de destinos cruéis de sofrimento e de ternura. “Teasingly”, afirmaram-me que na filosofia da goanidade, viver era beijar a mão que não se podia cortar. Ou quem não herdou, tinha de m..... Cônscio como sou de que o protesto rebelde é válido e actual, fiquei a lembrar páginas antigas de Nietzsche – uma das grandes benesses do Cristianismo é tornar-nos cordeiros, pois aliás, até os servente e os criados davam cabo de nós. Quanto à Vida, não soube que responder. Ainda penso galgar Sancoale para pedir uma resposta aos heróis da tragi-comédia.

Sim, este fado de escrever a horas mortas quando os capitalistas pensam no ‘net profit’, ‘net figures’ e ‘net amount’ (tudo net mas não neat) e o pequeno burguês sorve na inconsistência de cama do casal lonçanias gastas no duro ofício de dactilógrafa, Oficial (oficial sem espada, claro, femino e moderno, tipo 75), o que a esposa burguesa traz além do dote. Escrever com a música da agonia na alma palavras de agonia. Mas porque? Porque não se escolhe o fado, o destino das letras, quem tem olhos de ver que leia.

Não haveria outras opções? A luta, a acção directa junta com camaradas que no silêncio heroico de suas vidas constroem um barco, máquinas, arroz e tantos bens de utilidade social? Cada homem leva ao túmulo o que trouxe do berço, e o homem de letras não podia ser excepção. No nosso arsenal, só a pena nos resta. E o agravo de uns quantos ofendidos orgulhosos da sua vitória intitulada “saber viver”. Ou aceitar a horizontalidade de Cristo? Quem sabe, uma das opções?

Eu não aceito a afirmação de Cabral e Sá de que a literatura se estagnou com Eça. Se é certo que o nosso Amadeu trazia transparente na sua ironia, as “Farpas” de Ramalho, também é verdade que alguns de nós buscam o autêntico na Arte – que o digam aliás, eles próprios, Mário e Martinho Noronha. Mas compreendo a sua dúvida potente quando afirmou no Simpósio sobre “Goanidade- Mito ou Realidade”. Sim, resta-nos “O Heraldo” mas com o preço do papel quem nos vai ler (cito de memória, não tenho o texto à mão)?

Escrever para quem? Eis a dúvida para aquela Jane símbolo e não nome verdadeiro da juventude goesa que lê Nick Carte e se empenha decidadmente com “calças stretch” balão ou bandeira do seu modernismo e desprezar ou ignorar por condição factual a língua e literatura portuguesa num alongamento goês, típico congraçar de duas raízes, duas autenticidades? Para aqueles poucos da velha guarda que vivem e sentem o que sofremos na hora difícil da criação?

Desistir não está no meu calendário existencial. Escrever, ainda que seja para uns poucos eleitos e logo vos conto o que se passou em Lisboa nos anos 50. Estavamos à saída do Teatro, lá na Avenida da Liberdade, eu e um jovem do Porto, José Luís de Costa (segue na 3a página) Dias fresco de uma prisão no Peniche por ter assinado um Comunicado de Protesto da M.U.D. ao lado de Rui Cabeçadas, Luís Monjardino. Era uma noite de invernia e a calor da emoçnao com que Eunice Muñoz e Rogério Paulo haviam representado o “Gebo e a Sombra” de Raul Brandão disseminava no espaço confluente as dúvidas da adolescência. E foi então que o Poeta brasileiro nos surgiu, anónimo como “Pedro, o Vagabundo” de Manuel Mendes que pouco antes estivera conosco no Teatro. Vinha de Paris, do Sud Expresso, gostaria conhecer os intelectuais não comprometidos. E dizia versos (ou seria algo de real, penso hoje?) que rezavam assim “Tinha uma casa, lá no Morro, com crioula mulata Pulquéria ou coisa que valha, havia retratos na sala de Generais e Comendadores e uma suposta tia velha parte do recheio. A tia era uma espécie de Símbolo de coragem, e havia negros no Morro [os negros e os curumbins, que estranha identidade pensava eu, goês e indiano?]. Um dia de sol parti à busca de aventura. Mordendo, piscando, esgravatando o solo e por toda a parte, encontrei a comunhão dos homens.

“A minha casa não é minha
É de vós também!
As palavras que escrevo não são minhas,
São de vós também!”

Esquecer e lembrar é parte da condição humana.

Sunday, 14 December 2014

Walfrido Antão - De Mobor a Agonda (Canácona) ou Desenvolvimento, Para Quem? (1982)

“O problema hoje não é de ECOLOGIA ou de extração da AREIA das praias de MOBOR, mas o de Desenvolvimento, para quem? E à custa de quem? 200 famílias, milhares de pescadores e lavradores de palmeiras não vão gozar de um hotel de cinco estrelas com piscinas e aeródromos...

Mas não sei, às vezes é tão difícil escolher numa situação existencial: seria melhor a excavação na Praia para levar a AREIA ou um hotel?”

Era uma noite magoada de 76 ou 77. Vieram contar-me a mãe proletária de Francisco Rodrigues, o grande idealista pioneiro dos movimentos ecológicos em Goa, havia sido presa em Margão porque mãe e filho lutavam contra a excavação da areia em Mobor. Ao longo dos anos, desde Cavelossim a Utordá, fizeram greves de fome, comícios, até arrancamos promessas ao Congresso em 77 e 80 que lutariam para acabar com a Extracção da Areia. Na década dos 0, como as lembranças acorrem ao calor do reencontro com a terra alienada em Sancoale, o Arquitecto Urbano Lobo e Mathany Saldanha levantavam o problema da mortandade de peixe em Velsão devido aos efluentes do Reservatório Bhiase e o exczema das crianças. Outra década, outro ânimo de luta, porém, o mesmo idealismo frente aos salafrários Relações públicas, como diria Jorge Amado.

As notícias vêm filtradas em rumores. De Agonda em Canacona falam os peixes e as praias, um Hotel de cinco estrelas, quem sabe um casino, um aeródromo, loucas recepcionistas-secretárias para todo o serviço, como exige um projecto de tão grande valor. Mas esse desenvolvimento da região extrema do Sul de Goa, a quem vai favorecer? Certamente, os pescadores e os lavradores de palmeira não poderão frequentar ambiente de tanto luxo, nem necessitam tal luxo na carestia em que vivem, aliás todos os goeses. Mas dirão os tais salafrários: a terra tem de ser desenvolvida e entre as opções de uma Hidroelectrica, uma estação nuclear, minas de areia e um Hotel, o Hotel salvará a ecologia da região e será um benefício a longo prazo. Um outro argumento aduzido é o de que a lavra de palmeira não é uma industria e os filhos dos lavradores com a democratização do ensino acham muito mais proveitoso ir ao Golfo como mecânicos contabilistas, etc do que subir a descer a palmeira duas vezes ao dia e usar um alambique antigo com a lenha tão cara.

Profissões tradicionais, herdadas dos pais a filhos quase sempre na mesma família às de Ramponkares e lavradores de palmeira à sura, a dúvida que se impõe nesta época febril de desenvolvimento é a da continuação destas profissões frente a mecanização dos barcos de pesca, portos piscatórios, armazéns-frigoríficos nas praias e fábricas de aguardentes regionais como o Feni e o Caju. São dúvidas dolorosas e angustiantes para quem pensa o decorrer do processo de desenvolvimento com súbitas notificações na Gazeta Oficial expropriando terrenos e teimosamente recusa-se a aceitar que daqui a cinco ou dez anos os goeses serão como os East Indians (os tais norteiros) de Bombaim. Neste contexto de conta-corrente do desenvolvimento vale a pena lembrar o sistema de Prioridades e lamentar na ausência de um Plano sistemático organizado por uma equipe de especialistas e de um Governo capaz (na voz do líder da oposição, Adv. Ramakant Khalap, temos um Governo que abdicou dos seus poderes perante o Administrador deste Território), toda a espécie de salafrários tipo Relações Públicas pode levar avante quaisquer projectos desde que esteja pronto a pagar comissões e tenha contactos... no topo da pirâmide dos poder.

Nestas condições, urge aos homens de liderança e quantos são ouvidos e amados pelas massas, desde Morgim até Agonda (ambas aldeias de pescadores) decidir se para além do negativismo da agitação pura e simples e dentro dos parâmetros do amor à Terra – defesa das profissões tradicionais e do habitat – tradição e progresso para salvar a ecologia – mudança e desenvolvimento, há possibilidades de aceitar o menor mal como é o caso de um hotel versus uma fábrica de, por exemplo, ácido sulfúrico, desde que esse mal menor trate de reabilitar quantos vão perder o lar, o tecto e o habitat. No caso de Mobor, como me explicou o ex MLA e distinto advogado Ferdino Rebelo, o que se objecta é a extensão da área expropriada – 15 laques de metros quadrados e não o projecto que tem as suas vantagens. E naturalmente há que defender o aspecto humano das famílias de Mobor – 135 famílias que vão ficar sem texto e outros tantos lavradores de palmeiras. Em Agonda também, o homem tem de ser defendido.

A terra e o homem e que se não repita o crime de Sancoale, onde o camarão desapareceu para todo o sempre e o Arsénico e o Ácido sulfúrico são os ingredientes da fauna marítima... Que haja flexibilidade e tolerância e em nome do Desenvolvimento, salafrários das relações públicas não acabem com as nossas profissões tradicionais e o direito ao habitat. Que Goa continue.

Monday, 13 October 2014

Walfrido Antão - De poetas, um que outro ganhiano ou as fronteiras de Vishal Gomantak (1977)

Um poeta que tem fronteiras definiu-se si próprio: escreve para um fim.
Dom Moraes é um poeta quase da minha geração que se tornou subitamente conhecido do grande público leitor de jornais não porque era filho de Frank Moraes ou detentor do Prémio Jovem Precoce da Pesia mas por um acidente da sorte (ele nega agora que I am born lucky) – o de ter espalhafatosamente renunciado à Cidadania Indiana como protesto contra a entrada de tropas indianas na manhã de 18 de Dezembro de 1961 em Goa, terra de seus ancestros com certa apologia ou genealogia de casta de que se ufana numa biografia comercial de um grande industrial goês que cheguei a ler numa das escapadas a Bombaim. E foi mau que assim se desse a conhecer um bom poeta de língua inglesa que o “born lucky” com meios e contactos na Europa e no mundo conseguiu anichar para si um dos primeiros lugares da Imprensa mundial. Um poeta deve ser conhecido pela qualidade do seu verso, não pelo escândalo de decisões playboxianas que o Capital e o Monopólio Internacional tem tanto prazer em publicitar.

Devoto de seus versos que me falam à sensibilidade mas não contêm mensagem, apelo de ideais que superassem a vulgaridade dos “drinks nos bares de Algiers ou Hong Kong” que qualquer Playbox capitalista pode servir-se como e quando quiser, uma estranha dúvida, dúvida sobre o carácter da validade de uma literatura de espalhafato, de escândalo topo “oh, deve ser bom livro, foi escrito por Dom” me persegue desde que li alguns dos seus livros em prosa como Autobiografia onde as suas justificações de não ser GAY já sabem o que é não deviam ser incluídas. “People that Matter” etc. Procuro ao longo de tantas lindas páginas que me falam à sensibilidade, um motivo ideológico, alguma preocupação do homano, uma Utopia ao menos e só vejo longas tiradas como foi recebido no Brasil onde esteve em missão da ONU para estudar o problema de explosão populacional, como um poeta surrealista sangrou-se a si próprio por influência do ALCOOL e DROGAS, passagens lindamente trabalhadas mas percorridas por um frio gélido de vazio interior, de movimento dramático de vivências superadas, de apelos ao Desconhecido da Utopia que como bom poeta devia trazer em cada palavra ou ao menos na sequencia de imagens. Mas o que encontrei foi BOOZE, DRINKS, sangue e uma que outra mulher como gratificação ou compensação de um eu por se definir. E foi pena porque anos seguidos andava a rezar seus versos com uma prece à Musa. O seu último trabalho, aliás primeiro no “Illustrated Weekly” intitulado “Of Time and Place” fala dos 40 anos na vida do escritor frente ao problema da Morte (assunto aliás tão bem estudado desde Balzac a Malraux e Júlio Dantas) mas pena é que de novo à banalidade do drink do bar e das lágrimas, sem um gesto sequer de Absurdo ou Revolta ou então definição da Aceitação de um Poder superior. Só palavras como Stench, to be impotent, not to wine and dine, como se a Vida de um Poeta fosse isso.

Às vezes penso em como a tradição latino-americana em que se baseiam as literaturas francesa, espanhola, portuguesa e brasileira obriga ao escritor a ter umas ideias junto com PALAVRAS. É a diferença que vai de uma literatura séria somando o HOMEM como DIMENSÃO à outra de vendas espectaculares, de rendimentos fabulosos. Esta agonia de ver o vazio interior em literatura.

***

Não sou político mas homem de Letras e como tal cheguei a conhecer na declamação de Madhu Manguesh Kunk e tradução de Deshmukh num flat da Junta House há anos a Poesia do nosso celebrado vate Bakibab Borkar e confesso que minha alma virou adepta da sua Poesia. Nos meus encontros em Bombaim com literatos em marata fiquei a conhecer mais da sua obra e foi assim, mais magoado que revoltado, li uma sua recente declaraçãoo ao “Free Press” (página interior) que apoiava a ideia de Vishal Gomantak porque restabeleceria as fronteiras da tradição de Goa, por muito tempo separadas do núcleo mãe goesa. Para que um poeta como Bakibab Borkar que foi presidente do Instituto Menezes Bragança e parecia aceitar a definição da Índia de Gandhi como janela aberta e todas as correntes de Cultura volta agora à paróquia de uma Vishal Gomantak, para que um Poeta fazer um volta-face à própria POESIA que deve ser geografia da alma sem fronteiras? Será que o Poeta anda a viver o “drama de Jean Barois” de Roger Martin du Gard em outro plano, a religião sectária, será? No cansaço da velhice? Será possível tão grande regresso ao paroquial? Outro, já não poeta que eu saiba, mas gandhiano, Ravindra Quelecar cujas notas sobre Ahimsa me traziam alívio à luta de classes que os intelectuais marxistas consideram como a única SALVAÇÃO até para eliminar o Castismo do Poeta da Casta, armou à fala no Navhind para defender a ideia da Vishal Gomantak e exortando a Comunidade católica a não ter MEDO. Porque MEDO, não sabemos, nem tão pouco compreendermos esta atitude paternal quando todos somos indianos e distinções da Religião e Constituição não alberga. Ou será que a senilidade traz a Religião à mente quando a hora presente é da luta pessoal à base de mérito. Porque MEDO?

Ai como nesta mal-aventurada Goa os políticos metem a Religião de permeio. Como Gandhi os absolverá do comunalismo Não são eles que...

Walfrido Antão - Dialogo: Aquele Suspiro Malandro ou o “naturismo” de António Ataide (1980)

Perguntaste-me outro dia, leitor amigo, o que significava aquela palestra do venerando ancião de Goa Barónio Monteiro que à falta de um alti-falante deixo na margem deixo na margem da classe dos “reservados” ou “primeira classe” como se faz com bilhetes da comédia popularuncha de um M. Boyer (o dinheiro, o vil metal, as contas correntes dos Clubes são muito para quem até queira conseguir companheira, não é assim leitor amigo?). Conheço o intelectual mas não ouvi.

Conheço António José Ataíde há anos. 61, creio. Vinha da Europa onde havia conhecido um Roque Machado divulgador da teoria hindu das “Descobertas” como diz Carmo Azavedo. Trazia um sonho a cura pela Natureza. Aqueles banhos ao sol, aquela carícia ao luar, aquele entusiasmo do Desporto. O sexo vinha mais logo.

Para quantos de nós vivemos na Europa não a ambição, de um diploma que pudesse arredondar as contas correntes de Bancos de juro fortíssimo mas sim a angústia do descalabro de valores, o existencialismo era a única saída. Como afirmava Vergílio Ferreira, aliás escritor de mérito, “nós não escolhemos a existência. Foi um desejo de “autrui”. Cabe a nós escolher.”

Referindo-se à hipótese de Alberto Camus de que o único problema verdadeiramente filosófico era o do suicídio, Virgílio Ferreira opinava que dada a certeza fundamental da Morte valia a pena viver a lonjura da solidão da vida. No desespero, na angustia e revolta. A Morte e o presente ou seja a vida como diz Teles. Para Amadeu engolfado no atrito da lógica racional e do materialismo “possorcar” de caixa de fósforos, o problema é diferente.

E neste ínterim surgiu António José Ataíde. Não um marido ou senhor de cheques. Apenas um divulgador do que a Natureza ensina para preservar a pela ou tecido fibroso. Esposo fiel de uma portuguesíssima senhora, António José Ataíde quer reaver o débito das gerações transmontanas de “linguiça” e de copos de três como método de higiene alimentar.

Lembro-me que um dia li na Revista “Natura” alguns artigos sobre o regresso às raízes. Não raízes de “palha” ou coisa que valha mas algo diferente. Um retorno não à propriedade privada de bens materiais mas um encontro com o destino.

Que António José Ataíde traga com a sua revolução alimentar higiene – saúde um sopro de via nova sem bacalhoeiras de malfado.

Bacalhau como o fado tem o seu destino...

Thursday, 9 October 2014

Walfrido Antão - Aquele Suspiro Malando ou o 'Naturismo' de António Ataíde (1968)

Perguntaste-me outro dia, leitor amigo, o que significava aquela palestra do venerando ancião de Goa Barónio Monteiro que à falta de um alti-falante deixo na margem deixo na margem da classe dos “reservados” ou “primeira classe” como se faz com bilhetes da comédia popularuncha de um M. Boyer (o dinheiro, o vil metal, as contas correntes dos Clubes são muito para quem até queira conseguir companheira, não é assim leitor amigo?). Conheço o intelectual mas não ouvi.

Conheço António José Ataíde há anos. 61, creio. Vinha da Europa onde havia conhecido um Roque Machado divulgador da teoria hindu das “Descobertas” como diz Carmo Azavedo. Trazia um sonho a cura pela Natureza. Aqueles banhos ao sol, aquela carícia ao luar, aquele entusiasmo do Desporto. O sexo vinha mais logo.

Para quantos de nós vivemos na Europa não a ambição, de um diploma que pudesse arredondar as contas correntes de Bancos de juro fortíssimo mas sim a angústia do descalabro de valores, o existencialismo era a única saída. Como afirmava Vergílio Ferreira, aliás escritor de mérito, “nós não escolhemos a existência. Foi um desejo de “autrui”. Cabe a nós escolher.”

Referindo-se à hipótese de Alberto Camus de que o único problema verdadeiramente filosófico era o do suicídio, Virgílio Ferreira opinava que dada a certeza fundamental da Morte valia a pena viver a lonjura da solidão da vida. No desespero, na angustia e revolta. A Morte e o presente ou seja a vida como diz Teles. Para Amadeu engolfado no atrito da lógica racional e do materialismo “possorcar” de caixa de fósforos, o problema é diferente.

E neste ínterim surgiu António José Ataíde. Não um marido ou senhor de cheques. Apenas um divulgador do que a Natureza ensina para preservar a pela ou tecido fibroso. Esposo fiel de uma portuguesíssima senhora, António José Ataíde quer reaver o débito das gerações transmontanas de “linguiça” e de copos de três como método de higiene alimentar.

Lembro-me que um dia li na Revista “Natura” alguns artigos sobre o regresso às raízes. Não raízes de “palha” ou coisa que valha mas algo diferente. Um retorno não à propriedade privada de bens materiais mas um encontro com o destino.

Que António José Ataíde traga com a sua revolução alimentar higiene – saúde um sopro de via nova sem bacalhoeiras de malfado.

Bacalhau como o fado tem o seu destino...

Saturday, 21 June 2014

N. B. Sar Dessai - Bhisma (1966)

Tu tens de casar comigo – disse o célebre Rei Xantanú à Deusa Gargá, quando esta se lhe apresentou em forma humana, intoxicando-lhe os sentidos com a sua ternura super-humana.

O Rei oferece-lhe em troco do seu amor, o reino, a riqueza e tudo o resto, ainda mesmo a sua vida.

Gargá respondeu-lhe:

Ó Rei, eu posso tomar-te por consorte, mas mediante as seguintes condições: nem tu, nem ninguém me preguntará quem eu sou, nem donde venho; também não me impedirás de fazer o que entender fazer, quer seja o bem, quer seja o mal; nem zangar-te-ás comigo seja por que for; nada de desagradável e recriminatório tu dirás. No momento em que tu violares qualquer destas condições, eu abandonar-te-ei. Concordas?

O Rei concordou impaciente e a deusa tornou-se sua mulher e passou a viver com ele.

O coração do rei estava captivo da modéstia, da graça e do resoluto amor que ela lhe nutria.

Xantanú e Gangá viviam uma vida de perfeita concórdia, sem mesmo se lembrarem da passagem do tempo. Ela deu à luz muitas crianças; de cada vez que lhe nascesse um bebé ela levava-o ao Ganges e deitava-o ao rio, depois do que voltava para o Rei com a cara sorridente.

Xantanú horrorizava-se com esta conduta diabólica mas sofria-a em silêncio, lembrado da promessa feita. Muitas vezes ficava ele a pensar quem seria ela donde vinha e porque agia como uma bruxa sanguinária. E, não obstante, não proferiu sequer uma palavra de recriminação. Desta feita, chegou ela a matar sete crianças. Quando nasceu a oitava, e esteve ela prestes a deitá-lo ao Ganges, Xantanú, não mais podendo suportar, gritou:

“Espera, espera, porque estás tu resolvida a dar esta horrível e desnatural morte às tuas próprias crianças?” – com este grito de alarme, o Rei impediu-a de executar o seu desígnio.

Ó grande Rei, disse ela, tu estás esquecido da promessa feita, o teu coração está agora mais votado às crianças do que a mim, tu já não precisas de mim, e por isso eu vou-me embora. Eu já não mato esta criança, mas ouve (4a pagina) a minha história antes que me julgues:

Eu que me vejo obrigada a desempenhar este odioso papel por virtude das imprecações proferidas por Vassista, sou a Deusa Ganga, adorada dos deuses e dos homens. Vassieta praguejou os oito Vassús desejando-lhes um nascimento no mundo dos homens, e, comovido pelas súplicas deles, determinou que seria eu a mãe deles no mundo dos homens. É de ti que eles nasceram, e ficou-te bem que assim tivesse sucedido, pois tu irás às regiões mais elevadas, em recompensa dos serviços que prestaste aos oito Vassús. Eu cuidarei desta tua última criança por algum tempo, depois do que devolver-ta-ei como meu presente.

Dito isto, a Deusa desapareceu com a criança. Foi esta a criança que mais tarde se notabilizou como Bhisma.

Sunday, 11 August 2013

Walfrido Antão - Páginas Íntimas (de um diário por escrever): Meu claustro de Angústia ou Vida a partir da Morte (1981)

À Memória do Meu Irmão Celso Antão

Ao longo de Creta (1965) – Grécia

“Meditar sobre a Vida – a Vida em relação à Morte, é talvez nada mais do que intensificar a sua própria busca.

Mas a Morte, tal como se manifesta em tudo quanto está alem do controle do homem, acima de tudo o Irremediável, o sentido de que você nunca sabe o que aquilo é. O homem torna-se objecto de uma Busca e não de Revelação. Assim o Homem que irão encontrar neste Livro de Memória é o Homem desperto às Perguntas que a Morte levanta sob o sentido do Mundo.

André Malraux (Anti-Memoires)

“Mon ame vers d’affreux naufrages appareille”

Claudel

“Rage, Rage against the dying of the Light”

Dylan Thomas (da Idade do Ultraje)

“A Morte é a Opção final, o encontro com a interioridade, a realização pessoal em Cristo como Caminho, Verdade e única vida”

de Teólogos moderados editados por Michael J Taylor.

Não gostaria publicar estas páginas intimas mas eu e o leitor do “O Heraldo” conhecemo-nos mutuamente há já vinte anos e na Autenticidade e Sinceridade do depoimento pessoal crio páginas de Intimidade. Foi aos 25 de de Julho de 1951 que morreu o meu Pai e o leitor dirá “quê tenho a ver com isso?” mas nada no mundo acontece, especialmente no domínio da vida e Literatura, que não tenha um sentido, um simbolismo de Prece. Eu vi na morte do meu Pai o primeiro desengano da Permanência, a luz vibrante do coqueiral esmorecendo na sombra do velório, a primeira pergunta, a primeira Busca que as velas, o abraço apertado, o dobre a finados, até mesmo as lágrimas, não podiam cumprir, satisfazer. Magos, dor, Desengano da separação tudo me cobria na negra noite funeral, mas a Busca, essa havia começado. Sem a Busca de uma Ideia que se me não definia por ser confusa, seria a Busca de um distracção com um curso, um Diploma, um emprego capital e Exploração da mais valia, segurança social para anos meus ou a Busca de mim próprio “esse esperança em busca de vida”, como me declamava uma noite o grande poeta negro de mães e filhos negros Agostinho Neto. Uma noite em Lisboa, Costa Dias deu-me a ler o Manifesto de Marx – era aí que estava a ideia, a Utopia, o antídoto do Desengano, da Magoa e da Dor. Passaram anos, a longa noite de opressão e da revolta e em Alfama Berta Cardoso e Tristão da Silva cantavam na “Nau Catarineta” a opção da Liberdade. Com Sartre e Albert Camus não havia que esperar muito – o mundo e a linguagem eram Absurdos. Camus morrendo absurdamente num desastre de automóvel havia deixado incompleto o itinerário da Morte. A pergunta continuava.

Voltei à Índia, o espaço aberto da Competição “homem lobo do homem”, o quebrar de amarras de um sentir e de um viver plácido sim, mas digno e humano, a vida aos baldões da Sorte do “cais de pedra” de todas as solicitações, apelos e convites – mas a Morte, vista, vivida, sofrida até o desespero sem lágrimas, cântico lúgubre do Fim, esssa não esperava me colhesse a Afeição mais cara que a Vida me havia oferecido. Porque, meu Deus, tão cedo?

Ao cair da tarde de 31 de Janeiro de 81, da minha janela virada para o mar, janela que mais não uso porque nem o Mar nem a longa duna de AREIA tem hoje qualquer apelo, senti o carro avançar como um ladrão na noite escura. A mangueira sem flor sob a cacimba era como um último baluarte de gerações que ao longo de séculos haviam criado filhos missionários devotos da Imaculada Conceição, juristas e jornalistas, médicos e homens de lavoura – HOMENS COM RAÍZES. No aparelho, a cassete “não me pergunteis o Nome ou a Hora”, o carro avança, uma duas pancadas leves, um JOVEM e mais logo um homem de meia idade. “Notícias? Sim – não mais existe”.

Sob a fotografia, a Marte fala da Vida – não choro porque não posso.

Morreu algo dentro de mim de novo, após 30 anos. Em 1951, a Busca, em 1981, o encontro com Higher Power, um Deus que não sei definir, mas viveu comigo na noite integral a queda, a solidão a vida de um irmão “que podia ser e não foi” (José Régio).

Passaram já quatro meses e não voltei à minha janela virada para o mar. Talvez não voltarei mais. Moças guapas em saias de cambraia desnudando a coxa em manhas de Pesca ainda vão às dunas de Areia até o mar, tractores levam AREIA populares pedem-me que volte à causa da Justiça da OPRESSÃO dos MINING LEASES não registados e não completos. MAS a vida matou em mim essa esperança de Permanência. Situada aquém do coval enxuto de lágrimas e de flores, eu vejo da janela estreita do cemitério a ilusão desfeita, a vida interrompida, o nome riscado do rol dos vivos, o pó primevo de retorno às raízes da aldeia.

Sou homem, sinto como um humano, mas quando penso em Cristo eu vejo a única Vida de Luz e de Glória. Quem morre com Cristo, quem vive todos os dias a obrigatoriedade de um ofício ou de querer bem aos outros, esse não morre – vive uma nova dimensão de energia transformada “meu Pai tem muitas mansões” (Cristo). O Absurdo ficou em mim, fui e a perder, mas em Cristo a Vida renovou-se, tornou-se parte da Resurreição, “não choreis por ele, mas por quem fica, eles tem mais precisão” (adaptado de Manuel Bandeira, Brasil).

As chuvas voltaram como a primeira bênção de um Deus Natureza a um povo maltratante por políticos que mais pensam na cadeira do PODER do que em fornecer fertilizantes e sementes aos agricultores em devido tempo, a vida em busca de satisfação das necessidades mais básicas. Vida e energia, uma oferenda de Deus retribuída em 30 anos de trabalho e devoção à Família e Vida intuída mas não realizada no sentido essencial. Mas a Morte é final. Volto a ler Rig VEDA – “And I am Death...”

“I am Death that snatches all. And the source of all that shall be born; And the silence of things secret”

A vida vivida, sofrida até exaustão face a Morte. Recuso o Absurdo, opto, escolho, digo Não logo existo. Aceito a vontade de Deus e creio que há muitas mansões na casa do senhor. Talvez amanhã, da janela do Cemitério da aldeia, a vida volte a renascer das cinzas. Talvez amanhã eu conheça a vontado do meu Higher Power.

Walfrido Antão - Diário de um Poeta em Férias: O Sonho e a Nausea (1968)

Esta noite choveu granizo na aldeia. Será? Não. Deve ser cacimba mas a aldeia traz um ar levado, fresco, loução como o de certa mulher ainda inocente. Lembra-me certas sequencias do filme “La notti bianchi” (Noites brancas) de Dino de Laurentes. “Noites Brancas” era se não me engano o título dum romance de Dostoiewsky que Dino de Laurentis usou para fazer ciente ao mundo o talento e a Arte da atriz Maria Scholl.

Leio um poema de Jagadish intitulado “Ek Git Morta”. Há música, sensibilidade, intuição artística no seu verso. “Kavi” é poeta em Concanim. Será Jagadish poeta? Nem por sombras pensar o contrário. O caso do “Kavi” ou poeta lembra-me uma noite na Casa de Fados em Alfama. Berta Cardoso cantava “Aquele amor foi à Índia”. Tristão da Silva apresenta-me um escolar de Coimbra – Pinheiro ou Torres, não me lembra já. Alto, espadúado, “machakaz” como se dizia lá. Grosso como diria uma certa Nur Jehan que eu conheçø. A poesia e o físico. E acrescentava Tristão da Silva que ele era poeta. E ele sabia o que dizia porque era Artista também. Ser artista é ter coração, sangue, alma, nervos, sensibilidade e um grande amor ao homem condenado à Morte.

A Morte, essa sim é a única certeza existencial. Daí o absurdo, o desespero, a angústia e o “l’homme revolté” de que fala Albert Camus. A escolha vem depois. O “choisir” de que difere um Sartre. Como “Camus” diz ao abrir tragicamente “Le Mythe de Sysiphe” – “o único problema verdadeiramente filosófico é o do suicídio”. Como dizia uma vez Camus no Café Deux Magots, se o homem tem de morrer após uma vida inteira de trabalho, de estudo de cultura, então já não existem valores. Vale vazar até à náusea a existência condenada ao não valor ou seja o silêncio da “funérea Beatriz de mão gelada”. E a Esperança de que falam os neo-existencialista com os “Beatles” ou os “Hippies” que falam da meditação transcendental da Índia? Aquela Corrente, aquela Voz? Qual é o significado do “Thee” de que rezam os escritos de Swami Vivekananda? E Cristo esse Herói do Amor que perguntado se era Deus respondeu “tu o disseste”.

Está uma madrugada nevoenta agora. Mulheres vão a caminho do verzedo. Uma Quitéria, uma Rosa, uma Letícia, quem sabe: a pimenta cujo cheiro atraía caravelas do século quinhentista como diria Oliveira Martins, o arroz provisão e celeiro da fome de um ano, uma melancia, vegetais quem sabe.

Sim, tenho de ler o que Amadeu escreve sobre o arroz. O arroz, suor e sangue de todo um povo que os açambarcadores resolve em notas e ofícios ou em termos de agiotagem e lucros. Para resolver os problemas do povo seria bom que os grão-senhores descessem de suas majestades gabinetes até o povo para ver o sacrifício dessas Quitérias anónimas que sustentam a Cidade e os mercados.

Sim, tenho de deixar este diário. Aquela personagem “Sunita” pede-me que componha a sua história ou seu drama no meu conto: um amor proibido, a casta, a diferença de religião, um matrimónio arranjado, a África, a solidão, a ternura esfarrapada. Mas o jornal para quem escreve é como se fosse um primeiro amor que se não esquece. Como diz o Teles quando a gente entre para a Rádio é a mesma coisa.

O burguês acorda agora. Sorri para a mulher. Há qualquer coisa de glutão no seu olhar. O toucinho se calhar me lembra a música dos versos de Jagadish “Ek Git Morta”. Kavi, qual é seu fado?

Monday, 15 July 2013

Walfrido Antão - Setembro e as Alegrias Campesinas (1955)

Setembro, mês encantador por excelência, é para o goês o período de tempo em que as espigas louras, que madeixas queridas de alguma Madalena, ondeiam ao sabor dos ventos e amadurecem lentamente sob a acção benéfica dos raios solares.

Quando a colheita se aproxima, o agricultor exulta de alegria, pois já não há de sofrer privações nem fome.

A seara apresenta bom aspecto e eis tudo para ele. Manhã cedo, quando rubra aurora ainda se esconde no horizonte, hesitante e prometedor, alguns homens musculados de troncos espadaúdos, cor de azeviche/azevinho, a que o vulgo chama begarins, acompanhados de uma fila de mulheres e raparigas, um rancho de Evas roliças, dirigem-se para a várzea. Lá, foices na mão por entre o canto harmonioso e terno de mandós e dulpodas, ceifam, isto é cortam as espigas que montoados num lugar serão transportadas pelos homens até a eira, onde segue a debulha por um grupo de bois andando sempre à roda e a espiga deixa cair o doirado bate que é levado em cestos para casa do agricultor.

A ceifa, de índole nativa tão original, tão pitoresca, foi cantada por Floriano Barreto em estrofes maviosas que lembram o murmúrio doce e acariciante das manilhas nos punhos das encantadoras ceifeiras.

Natureza bravia, viço, encanto, poesia, tudo se junta nas várzeas. Ali brotam os primeiros anseios de amor. “O amor ao ar livre, na solidão imensa do campo”, de que nos fala Júlio Diniz nas “Pupilas” e Walter Scott na “Dama do Lago” tem a dignificá-lo a sinceridade, franqueza, nobreza de conduta do carácter e ainda o modo de sofrer. É aí que o amor – esta palavra mágica cantada pelos poetas e prosadores de todos os tempos como faísca electrizante da vida – tem a sua mais elevada expressão.

Em noites luarentas, enquanto o grilo com o seu zumbido estridente irrita o agricultor, rapazes e raparigas, cestos à cabeça, em franca conversa, alicerçam sob bases sólidas o seu futuro lar sem convencionalismos nem enredos caprichosos a entorpecer a beleza do seu sonho...

No conhego remansoso do seu “Lar”, ele, o agricultor em simples e modesta festinha, reúne toda a sua família e expande-se de alegria. E por meses fora, ele renova a sua intensa labuta, com um sorriso franco a bailar nos lábios e um celeiro farto na sua modesta casinha.

Depois de labuta insana e pesada de três meses, a maior parte dos jovens, goza as férias de Setembro na inebriante poesia das suas aldeias. Aproveitamos estes poucos dias em que os livros se espreguiçam languidamente nas pastas e aproximemo-nos com ele que, no esquecimento longínquo da várzea, Grangeia o suficiente para o seu viver e doutros, e ergue preces clamorosas ao Senhor pela bendita dádiva de Setembro.

Saturday, 27 April 2013

CX - O Gonim (1958)

“A vida é uma grande escola!” Não sei qual foi o homem que primeiro chegou a esta certíssima conclusão; mas, que o sujeito devia ser um grande realista, conhecedor das coisas e dos homems, é ponto assente.

Eu gosto da vida, gosto da rua, gosto de estar em contacto permanente com as coisas e com os indivíduos; foi a vida, com os seus trambolhões, andanças e contradanças que me forneceu os modestos alicerces em que assenta o meu “modos vivendi”.

Por isso eu gosto da vida, da rua, do campo e da serra, do mar e das suas areias, das crianças e... dos cães! Por isso eu conheci o meu amigo “Gonim”.

Foi na esplanada do “Moderno”; um Sol áspero, quente e teimoso, atirou-me para uma daquelas cadeiras feitas de caixotes de “Becks” enquanto minha garganta pedia aflitivamente um bom copo da dita. Surgiram os inevitáveis “graxas”: caras lambuzadas do pó que tragam nas ruas e na vida, camisas rotas de cor duvidosa, minúscula caixa desconjuntada, ei-los de joelhos, a nossos pés, tocando os sapatos com os seus dedos esguios e sujos, sujos do pó, que nanja das acções... a proferir o característico “Senhor, Xuxo”.

O ar límpido e bondoso, e de súplica, do olhar de gaiatos onde a maldade ainda não encontrou guarida, é, quase sempre, uma garantia de que irão receber as duas tangas e barrar horrivelmente as nossas meias. Olhar irrequieto e vivo, sempre com um sorriso são a lambuzar-lhes os queixos, eles não sentem os pontapés que a vida lhes dá em vez de carinhos, roem as côdeas de um pão que o diabo amassou; olham os privilégios da vida como coisa que não é de sua pertença e, do mundo e das coisas, têm uma ideia supinamente filosófica.

O meu amigo “Gonim” é um desses diabretes que acabo de descrever: ele surge inevitavelmente em minha rota sempre que abandono esta “Velha Cidade” para me deslocar à capital onde muito aprecio os zigazageantes movimentos dos peões que já não sabem de que lado surgem os carros, e dos malabarísticos condutores que vêem as ruas transformar-se em perigosíssimo labirinto invadido pelos peões.

O “Gonim” aparece sempre sujo, sorridente, com uma assobiadela muito sua a bailar-lhe nos lábios de adolescente, ele personifica a despreocupação e a simplicidade e felicidade: sempre tão relativa! Com um admirável espírito de camaradagem e entre-ajuda, ele pede a pomada ao colega, fornece o capital-trabalho, e, sem quaisquer discussões entrega ao “sócio” a tanga que lhe pertence: e, sempre a cantarolar, a assobiar ou a engenhocar qualquer brincadeira inocente de ai vai repetir noutra (Segue na 4a página) parte seu estribilho: “Senhor XUXO”! E eu fico pensando, como o mundo seria se os homens encarassem a vida como o meu amigo “Gonim”!... Conformado, alegre, aceitando a sua sorte com um sorriso franco e bom o “Gonim” é uma das coisas que gosto de contemplar na vida; e a vida tem tantas coisas belas!

Agostinho Fernandes - Goa: Vinte Anos Depois (1977)

Foi em 1958, numa tarde de calor abrasador, o suor a escorrer pelo rosto marcado já pela infinda e melancólica saudade, que deixámos Goa a bordo do paquete “Índia”, rumo a novos horizontes, a aventura e ao desconhecido...

Já lá vão cerca de vinte anos... Vinte anos de tristezas e alegrias, de esperanças e ilusões, de luta e trabalho. Vinte anos de vivência profunda nas mais árduas condições, em choques constantes com civilações que não eram as nossas, vinte anos de acrisolado amor escondido algures num cantinho do ser por este pedaço de terra perdido na imensidão do mapa.

Agora regressamos...

Meu Deus! Como Goa se modificou! Como Goa desenvolveu! Como Goa se fez adulta! Como Goa nos pareceu estranha e quase hostil!

Logo nos primeiros dias Goa mostrou-se-nos algo desconhecida, tão diferente do querido torrão que deixáramos há apenas duas dezenas de anos... A invasão do progresso já chegara até Goa... Lindos e airosos prédios de vários andares, com estruturas e matizes ocidentais, desabrocham um pouco por todo os lados...

Pangim, cidade quase bucólica de então, languidamente debruçada, estende-se agora em mostros de aço e cimento pelo Campal fora, enquanto uma enorme ponte substitui os “ferry-boats”.

Vasco da Gama, jardim florido que já foi, é, presentemente, uma amálgama de edifícios...

Mapuçá, que é feito da sua arrogante e aristocrática fidalguia?

Margão perdeu a sua ancestral pacatez para dar lugar a um reboliço constante, num ir e vir continuo e estonteante de gentes e veículos, de vozes e ruídos, de buzinas e gritos: “Quepém... Sanvordém... Sanguém..., Varcá..., Orlim..., Carmonã...” Tan-laddu”, “Tan-laddu”, “Pan-supari”...

Longas e serpenteantes fitas de negro asfalto cobrem todas as estradas e mesmo as picadas insignifiantes indo morrer nos povoados mais afastados dos grandes centros.

A corrente eléctrica invadiu agressivamente até os casebres mais humildes do interior. Aqui e acolá pululam grandes complexos industriais substituindo gradualmente as antigas pequenas industrias quase artesanais.

As escolas galgaram, ao desafio, bairros e povoações numa luta desenfreada de expandir o sabor e a instrução atingiu níveis que nem sequer nos era dado sonhar... Santo Deus, tantos e tantos jovens com curso superior! Goa bem pode vangloriar-se da sua juventude.

Entretanto, potentes escavadores continuam a desentranhar as encostas dos Gates num ciclópico trabalho de extração de riqueza que em camiões, em comboios e em barcaças é drenada nos bojos de enormes cargueiros ancorados no magnífico porto natural de Mormugão...

“Ninguém mais poderá deter o progresso deste terra” – como diriam os brasileiros. Coom Goa modificou-se.

Céleres, os dias foram passando. Num frenesi constante, numa verdadeira luta contra o relógio, andamos, vimos, sentimos, sondamos, palpamos, convivemos e agora que estamos quase a deixar o nosso torrão natal, apesar do estonteante e salutar progresso, apensar do imenso desenvolvimento, apesar, ainda, do calor, quase insuportável, continua a ser a mesma Goa que deixámos duas décadas atrás.

São iguais as lágrimas comovidas dos familiares que nos querem tocar repetidamente para terem a certeza de que não estão a sonhar e de que a nossa presença aqui é mesmo real.

São mesmos os abraços dos velhos amigos que quase nos partem as costelas de tanto nos apertar.

E mesmo o sotaque: carinhoso dos conhecidos que cruzam connosco nas ruas e nos saúdam amigavelmente: “boró assa”?

São iguais as várzeas infindas já loiras de sazonadas, algumas já em plena faina de ceifa e debulha, são iguais os cantares dos “rendeiros” lavrando as palmeiras são idênticos os murmúrios dos ribeiros e regato na sua corrida interminável para o mar, é idêntico o pipilar gorjeante dos pássaros orquestrando o alvorecer.

Não mudou o olhar vivo e nos rostos das criancinhas a caminho da escola, não mudaram os deliciosos sabores das iguarias tipicamente nossas, não mudou o ruminar pachorrento dos bois vagueando pelos arrozais já ceifados...

Não! Goa, apesar de tudo mantém-se idêntica a si mesma! Até o esguio e solitário coqueiro ao pé dos rochedos, à sombra do qual rimamos os nossos primeiros versos de ingénua adolescência, continua hirto e vigilante, talvez um nadinha mais velho, desafiando o firmamento com as suas palmas generosamente abertas...

Não há dúvida, Goa continua a ser a mesma “Golden Goa” de sempre, onde ainda se pode acariciar com a vista o frondoso das suas matas e o verdor das suas plantações, onde a hospitalidade e o carinho continuam a não ser uma palavra vã, onde a poluição ainda não chegou, onde ainda se pode respirar, como bálsamo salutar, a paz, o sossego, a tranquilidade que no resto do mundo já se perderam há muito tempo...

É adeus novamente.

Obrigado Goa por nós ter possibilitado redescobrir um dos últimos recantos onde ainda é permitido sonhar, onde a esperança renasce, onde a vida n~åo nos parece tão vazia e inútil.

Mais uma vez obrigada Goa... e até breve.

Monday, 18 February 2013

Padre Pedro Lobo - O Casamento (1982)

Havia um casamento na minha aldeia. O noivo, um limpa-pratos vindo do Golfo Pérsico, ia ter uma festa de espavento para celebra a vitória final do seu coração sobre os seus pais e mais parentela, que se opunham a que ele se casasse com a moça a quem namorava há alguns anos. É a eterna questão de castas e classes e desequilíbrios sociais, que surge sempre contra o casamento, mas nunca contra o namoro, mancebia e outras actividades compartilhadas.

Como sucede com todos quantos sofrem do complexo de inferioridade, o novo rico, que tinha a bazófia de dizer que trazia consigo mais notas bancárias do que as folhas do tamarindeiro secular do Dr. , em cujo prédio morava, viha apostado a celebrar bodas de arromba para deslumbrar os velhos ricos e fazer cócegas à freguesia inteira com uma sumptuosidade nunca dantes vista por estas redondezas.

Talvez por eu ter simpatizado com o noivo e efectuado um armistício na família, fui convidado a fazer o brinde, mas em português, ou pelo menos em inglês – ambas as línguas perfeito chinês para os nubentes e suas relações. É a bem conhecida mania do goês, nobre ou plebeu, rico ou pobre, instruído ou analfabeto, que pensa que o seu nível social sobe alguns degraus quando fala língua que não é sua. Aceitei o convite, mas sob condição que o brinde seria na nossa língua materna, pois antevia o auditório que me esperava, e não me dispunha a fazer o ridículo papel de falar em idioma desconhecido da grande maioria, só para satisfazer a vaidade do populacho, que quer empertigar-se, guindando em andas ou pernas de pau.

A ‘entrada’ era a uma hora depois do meio-dia. Fui lá uns minutos antes da hora marcada e encontrei a sala alugada já atulhada de um formigueiro de crianças de todas as ideias e tamanhos, e de gente em trajes tão variegados e disparatados, que seria mais exacto chamá-los carnavalescos. Para amostra: estava lá uma rapariga muito gorda, vestida de calças muito apertadas de amarelo muito berrante, e uma camisola preta de malha, demais pequena para um busto tão enorme, com uma caveira no peito e outra nas costas com este dístico em letras garrafais brancas: “Meet me at the graveyard!”

Ia chegando ainda mais gente, não em pares, como se fazia dantes, mas em bandos, capazes de encher a cógulo mais uma sala. É que basta haver uma função nas nossas aldeias, e nesse dia não se acende lume de fogão, e os pais com toda a sua filharada aterrisam lá como um enxame de gafanhotos com um só intento: beber e comer à tripa forra.

Por falta de assento, fui ocupar o sofá reservado para os noivos, pois hoje ninguém tem a delicadeza de oferecer o seu lugar a uma pessoa de idade ou respeitabilidade, graças a educação moderna ou, melhor, à falta de educação elementar não obstante a pletora de escolas e colégios, onde não se suplementa o que falta à educação caseira, nem se remedia as suas flagrantes lacunas.

(continua)

A ornamentação era de tal profusão, que não havia lá lugar para mais um festão ou para mais um balão. Nas paredes penduravam cartazes com caricaturas de homem e mulher em pelo e os seguintes letreiros: Amor é felicidade. Amor é intimidade. Amor é união. Amor é sexo. Amor é??? e coisas assim, sugestivas insinuantes, de mau gosto, terminando com mais esta obscenidade: Love is a 4-letter Word! para conspurcar a santidade do matrimónio, dando-lhe uma torcedura retintamente carnal..

Uma orquestra chamada “Relâmpagos e Trovões” pôs-se a afinar os intrumentos; duas guitarras eléctricas tocavam uns arpejos, um drummer fazia umas acrobacias com as suas baquetas “para se esquentar”, e um saxofone e um clarinete executavam uns gorjeidos. Isso durou por algum tempo, até que afinal um mulherão que desejava ouvir uma musicata, disse com um ruidoso bocejo: O que estão eles a tocar? Mas a esposa do Sr. Dr. X, com ares de pessoa muito entendida na arte de Mozart, explicou-lhe em surdina: “Oiça com atenção, é música clássica!”

O relógio marcava já duas horas e meia e os noivos não apareciam. A causa desta desaforada demora era que eles tinham ido a Panjim para se fotografar, pois todos os fotógrafos de Mapuçá, conforme eles eram uma turma de palermas que não prestavam para nada. No entanto, chegava mais gente, que conhecia melhor que eu a suposta pontualidade goesa; mas o que me intrigava mais era que aqueles que, como eu, tinham chegado a hora marcada, não se ralavam com a demora, que para eles era a coisa mais natural do mundo, e até contribuía para maior solenidade da ocasião. Para o inglês o tempo é dinheiro. Para o goês, que timbra em macaqueá-lo, o tempo não vale um chavo. O relógio é uma jóia para adornar o pulso, não para ser consultado, menos ainda obedecido. É inútil perder o tempo a filosofar. Cada povo é o que é, e o que desavergonhadamente teima em ser. Dizem em tamul: “Na terra onde se cultiva nudez, vestir langotim é estupidez.”

Finalmente os noivos chegaram uns minutos depois das três, radiantes de glória nos seus ricos trajes de noivado com a sua vistosa comitiva, e foram recebidos por entre um foguetório ensurdecedor, salvas de palmas e a fanfarra de instrumentos desavindos uns com os outros. Dirigidos por um mestre de sala trazido da freguesia vizinha e que só falava a língua de Milton, os noivos passearam pela sala a passo de caranguejo e receberem uma chuva de confetti trazidos do Golfo.

Depois do corte do bolo de noivado no meio de clarões que partiram de uma meia dúzia de máquinas fotográficas profissionais e amadoras, foi anunciado que eu ia fazer o brinde. Esfomeado e sedento, armado com um copo de vinho, dei uns passos para a frente e comecei, com visível surpresa dos ouvintes, o meu brinde... em concani. Até a esposa do Dr. X resmungou, para eu ouvir: “Pouca de vergonha!” Mas eu felicitei os noivos e suas famílias, desejei-lhes todas as ventras, falei do amoroso sacrifício que a vida conjugal demandava, a sua santidade e indissolubilidade, e tudo quanto a minha teologia conservadora me inspirou, e terminei, diplomaticamente, com as sacrossantas e mágicas palavras: “God bless the bridal couple. Vivam os noivos!” Foram precisamente estas duas frases em inglês e português que me valeram uma vigorosa salva de palmas e me absolveram da ignomínia de ter falado numa língua tão desprezível como a nossa língua-mãe. O sr. noivo fez em inglês (pois não!) o seu primeiro e possivelmente o seu último discurso, bem decorado e ensaiado: “Thank you. Enjoy yourself” – a mais breve e eloquente peça de oratória que ouvi, e que foi sublinhado por uma efusiva salva de palmas e uma ruidosa improvisao da orquestra, e lhe mereceu um enleiado olhar de admiração e apreciação da sua cara metade.

A felicitação dos noivos foi um pandemónio. Quebraram-se muitos copos de vinho, enodoaram-se muitos vestidos, pisaram-se muitos calos, acotovelaram-se propositadamente muitos bustos tentadores, desarranjaram-se muitas toilettes, e de tanto beijocar, de que foram vítimas, encheram-se de carimbos de lábios carminados as caras sorridentes dos felizes noivos. Uma demonstração de amor e amizade verdadeiramente democrática e popular como o nosso governo.

Enquanto se servia o queque, o meste de sala foi ao microfone e ribombou: “Queiram ouvir. Vou-lhes contar, especialmente aos noivos uma interessante anedota: Marido e mulher foram a uma coudelaria alugar um cavalo padreador para algumas éguas que tinham. Quando Inês foi apresentado um soberbo espécime, a mulher quis saber a sua capacidade prócriativa. Foi-lhe dito: “Umas dezes vezes ao dia.” Voltando-se ao seu homem, ela disse com visível desdém: “Ouviste meu desavergonhado?”. Quando o marido por sua vez perguntou: “Ele toma a mesma égua”, foi-lhe dito: “Certamente que não”. E ele, voltando-se para a mulher: “Ouviste, minha ciumenta?”. A reacção foi variada. 90 por cento não percebeu. Alguns deram uma gargalhada. Uns poucos, como eu, ficaram nauseados com uma grosseria desse calibre, saída da boca de um jovem cristão, por ocasião de um casamento cristão, numa festa em que cada convidado era cristão, e onde se encontrava um ministro de Religião, que acabara de falar da santidade conjugal de um casal cristão! Temos lá o barómetro a indicar quanto, pela nossa cumplicidade e tolerância, temos ajudado a bancarrota geral em bom senso e bom gosto, em boa educação e boas maneiras, em boa religiosidade e boa moral.

Começaram a dançar. Eu com poucos cavalheiros e senhoras éramos os únicos espectadores daquele redemoinho que voluteava pela sala numa nevrose colectiva. O que quer que a orquestra tocasse, não fazia nenhuma diferença aos supostos dançarinos. Eles saltitavam como macacos ou energúmenos, fazendo macabros trejeitos, meneado vente e ancas, entrechocando, as nádegas, e parecendo estar em delírio hipnótico. Alguns davam a impressão de estar em convulsões epilépticas e outros faziam uma coisa parecida com a dança de S. Vito. Como diz Júlio Dantas: “A dança tinha sido noutras épocas um simples passatempo, um pormenor de festas galantes, de distinção e de boas maneiras”. Hoje nada de elegância, ritmo, arte ou decência. Hoje não é preciso saber dançar; basta ter a coragem e a pouca vergonha de fazer o melhor ou o pior que a tal criatividade lhes inspira. É o resultado daquilo que se vê no ecrã. É o único modelo.

O entusiasmo dos jovens pegou-se aos mais idosos, e no meio da confusão geral viu-se homens gordos e pançudos agarrados a mulheres bojudas e obesas a andar aos trambolhões, pisando os pés uns aos outros, tropeçando, esbarrando e pensando que estavam a dançar. Lembrei-me daquilo que tinha lido, há anos, numa revista inglesa: num luncheon a que Churchill assistia alguém viu o corpulento Ministro de Trabalho a dançar e chamou a atenção do Primeiro Ministro de Sua Magestade Britânica. Churchill, com o seu inseparável charuto na boca, voltou-se e viu o seu colega a dançar mal com uma senhora muito volumosa e, no meio de uma gargalhada, comentou: isso não é uma dança. Isso é um dos movimentos laboristas!

Saturday, 29 October 2011

Telo de Mascarenhas - Crónica de Viagem (1978)

Sempre que víamos o barco de carreira de Bombaim atracado ao cais da Alfândega, um imenso anseio enchia o nosso peito de aventura pelas Sete Partidas do Mundo, sulcando sete rios e sete mares; de percorrer os cinco Continentes (que os ingleses alargaram para seis, partindo a América em duas, talvez para dar maior dimensão aos seus domínios, quando eram senhores da Terra e do Mar, onde o Sol nunca se punha).

Uma bela manhã de princípios de Janeiro, ligeiramente friorenta, tirámo-nos de cuidados para dar realidade ao nosso anseio e metemo-nos num daqueles Leviathans de cabotagem (à cautela, porque hoje em dia os desastres de avião frequentes, não se sabe se por os Jumbos estarem a pedir repouso nalguma estancia de sucatas ou por mãos criminosas e vingativas, com fins políticos, esconderem bombas no seu bojo, como quem esconde mata-ratos na cave).

Mal largou as amarras, o Konkan Shakti, pesadão e negro como um albatroz, foi descendo o rio abaixo, com a cidade desbobinando-se com as suas imagens policrómicas de caleidoscópio e, na outra margem, com os perfis de fortes aparatosas, meio desmantelados e inúteis eriçados de guaritas e ameias negros e soturnos como se ainda sentissem mouro na costa – fortes que estão a pedir camartelo demolidor para que deles não fique pedra sobre pedra e memória sinistra de prisões políticas, para arejar e alindar esta terra outrora tão cobiçada pelos soldados de aventura e pelos buscadores de fortuna; mas sempre bela, sempre verde e sempre procurada pelos turistas que vão de cá desiludidos por falta de alojamento condignos a condizer com a beleza paisagística, as praias encantadoras e os monumentos artísticos. Goa, hoje em dia, abunda em hippies seminus, esfarrapados, escanzelados, entregues ao tráfico de estupefacientes, com o que unicamente evidenciam o seu desprezo pela Nossa Terra e pela Nossa Gente, coisa que, de certo, na sua própria terra não lhes é permitido. Mas os nossos governantes, seduzidos pelo brilho das divisas estrangeiras, fecham os olhos à realidade e deixam que eles conspurquem e intoxiquem a nossa juventude e as nossas belezas naturais.

Viajar com a mulher e a bagagem (ambas femininas), coisa incómoda, por elas demandarem cuidados e atenções. Não há nada mais cómodo como viajar só com uma malinha de mão, com a qual se pode ir, comodamente, até o fim do mundo e, com um pouco de boa vontade, até para o outro mundo.

O sol doira o mar e o horizonte no ocaso, e a noite tropical desce bruscamente para envolver a terra e o mar no seu manto de veludo negro. Vem a lua de prata e a poalha de estrelas. Só os faróis, de longe em longe, piscam seu olho faiscante de Ciclope para avivar a navegação do perigo à proa. Às 20:30 passa, emproado e garboso, todo salpicado de clarões de luz, soltando mugidos roucos atroadores da sirene, o irmão gémeo do nosso – o Konkan Sevak.

As sete de manhã já se avista Bombaim, ainda sonolenta e embrulhada no seu xaile de neblina parda. O sol já acima do horizonte é como um muhur de oiro remirando-se nas águas paradas e glaucas da baía, qual Narciso para atrair “as sereias, que no fundo do mar, dançam sobre as areias” na velha canção da nossa infância. O bruhaha das horas do desembarque. Os passageiros pressurosos em chegar ao seu destino. Assalto aos táxis e a exigência dos bagageiros, que amenizam o tom à aproximação do policia, para condescender: “de o que estiver na vontade do freguês.” O táxi tem de abrir passagem à força de buzinadelas, por entre a multidão de gente grulhante que peja as ruas. Apesar de o Congresso estar dividido nunca se viu tanto Gandhi-cap, em manhãs como esta, nas ruas circundantes ao cais.

Bombaim, terra de exílio tão nossa conhecida, onde andamos empenhados, durante anos, na luta fecunda e apaixonante, empunhando o facho ardente e triunfante de “Ressurge, Goa!” Bombaim, que cresceu verticalmente, com os arranha-céus, como uma floresta de cimento, parecendo querer topetar o céu. A arquitectura vitoriana cedeu o passo aos multi-storeys modernos de Bacbay e Cuffe Parade.

Chegámos, enfim, ao cabo do nosso roteiro Goa-Bombaim – dois esteios do defunto Império Colonial Português no Oriente. Goa sob a durindana implacável de Albuquerque o Terríbil e Bombaim que já no século 17 deixou de ser portuguesa por o rei D. João IV a ter dado em dote a sua filha D. Catarina de Bragança ao casá-la com Carlos 2o, da Inglaterra e onde um Garcia, curioso das plantas, medicinais da Índia, tinha uma quinta, pelo que ficou sendo conhecido entre os seus amigos íntimos (que fazem sempre melhor cama), pela alcunha “O da Orta.” Aquele Garcia da Orta ganhou fama com o seu livro do ‘Colóquios sobre Simples e Drogas e Plantas Medicinais da Índia.”

Já em terra firme, libertos do espaço acanhado da cabina e da estreiteza da tolda onde os ‘passos perdidos’ não podiam estender-se muito, ocorreu-nos à memória a quadra do “Pescador de Pérolas” do drama ‘Sundorem’, do elenco do Grupo Teatral:

Mar alto, mar alto, mar alto,

Mais alto que eu sulco de escaler;

Mais vale andar no mar alto,

Do que sujeito ao capricho de mulher.

As frequentes evasões de Goa para Bombaim ou Nova Delhi concorrem para nos mergulhar no banho de civilização e para rejuvenescer o nosso espírito, proporcionando-nos o ensejo de assistir a diversas manifestações intelectuais, tais como a inauguração de exposições de manuscritos preciosos e livros raros, organizada pela Asiatic Society of Bombay, no Durbar Hal do majestoso Town Hall, exposições de arte (pintura e escultura), conferências científico e literárias, dramas e bailados, e a excursão pelo inextricável “Filmland” e, em especial, o magnífico “Planetárium”, maravilha da ciência moderna de perscrutar os astros de que os próprios Aryabhata, Copérnico e Galileu se orgulhariam: os grandes comícios do Shivaji Park, que não se realizaram devido às rivalidades internas do próprio partido no poder, para gáudio de indígena e das facções do Congresso, e para amargurar a vida politica do Primeiro-Ministro, Morarji Desai, em contraste com as grandes manifestações publicas que foram acolhidos na Índia, Carter and Callaghan.

The Asiatic Society of Bombay foi fundada em Novembro de 1804, com o fim de promover o conhecimento, em particular, dos trabalhos literários respeitantes à Índia. Ela é sucessora da Asiatic Society de Calcatá, fundada em 1784, por William Hastings, e da qual foi Presidente William Jones, orientalista eminente que revelou ao mundo ocidental o drama Shakuntala, de Kalidasa que mereceu a Schopenhauer entusiásticos louvores. Tivemos o ensejo de admirar naquela exposição não só velhos e preciosos manuscritos indianos, em Devanagri, árabe, persa e urdu, mas também edições impressas dos Vedantas e Puranas, o Bhagavad Purana, traduzido para o francês pelo insigne orientalista e filosofo Eugène Barnouf e o Bhagavadgita, igualmente traduzido para o francês pelo sanscritólogo Émile Burnouf. Os originais clássicos franceses, Les Fleurs du Mal, de Baudelaire e obras de Voltaire e Rousseau; Sylvain Levy, com Le Théatre Indien, que, segundo o seu autor “a originalidade da Índia é expressa inteiramente na sua arte dramática que os seus dogmas, as suas doutrinas, os seus mitos e as suas lendas”; obras de François Rabelais e Rochefoucauld; a Correspondência de George Sand e Alfred Musset e Pierre Loti representado como o “L’Inde sans les Anglais.”

Uma noite ofereceu-se-nos o ensejo de percorrer, numa corrida rápida, a longa e sinuosa avenida de Chowpatty – o Marine Drive – que marginava a grande baía orlando de enfiada de luzes multicores reflectindo nas águas como um colar principesco de pedras preciosas, de caminho ao Catholic Gymkana, onde em Dezembro de 1948, aquando do nosso primeiro regresso do exílio voluntário em Portugal, assistimos pela primeira vez (com assombro misto de escândalo) ao Baile do Fim do Ano, e em 1974, à recepção do Dr. Mário Soares. É uma das muitas reminiscências que afloraram ao nosso espírito – pois, o que é a vida se não uma enfiada de contas que desafiamos com saudade para “recordar e viver?”

Os nossos afazeres em Goa forçam-nos a encurtar as férias e cortar cerce o fio da nossa digressão pelo mundo colorido e ultramoderno, com os seus inevitáveis contrastes, que é Bombaim.

Na noite anterior, os ventos rijos e o mar picado tinham provocado a demora, na manhã seguinte, do barco que nos devia trazer de torna-viagem para Goa. Porém o Konkan Sewak que largara de Bombaim com hora e meia de atraso, brioso como era, com marchas forçadas recuperou o tempo perdido e manhã cedo do dia seguinte avistámos terra de Goa, que reconhecemos, mercê das suas praias brancas, os edifícios alvejando por entre o denso palmeiral e a silhueta do negredado Forte da Aguada, a ponta do Cabo com o seu palácio banco poisado um pombal e a foz do Zuari coalhada de barcos cargueiros, que trazem contrabando e levam a maior riqueza que Goa possui, que é o seu minério.

Mergulhámos, novamente, na pasmaceira de Goa, unicamente amenizada pelos trabalhos que nos assoberbam, intelectuais e culturais.

Friday, 16 September 2011

Victor Orlando - Carne à venda (1956)

From the column “Ouvindo todo e qualquer”

Subtitle: O balcão é a cama; o preço não depende do peso; a balança é o relógio; há fregueses de todos os feitiso: bons, maus, nem bons nem maus.

Preamble: Com esta entrevista iniciamos a série em epigrafe. Tentaremos assim, fugir às normas ditadas por aquela forma de jornalismo que, começando por ser de luva calçada, descamba em jornalismo de banalidades, abstraindo-se do seu papel fundamental – de servir o público – para assumir o de louvaminhas e beija-pés.

Todo e qualquer será aqui entrevistado. Exporá o seu caso. Revelará os seus problemas, ao mesmo tempo lançando o seu repto à sociedade que para a existência desses problemas concorre com o seu total desprezo pelo mais fraco.

Não esquecemos que a sociedade é, em ponto maior, o que cada um de nós é. O ladrão que rouba a mulher que se prostitui, a criança que desanda, têm, todos, em cada um de nós, um conivente, um co-autor dos seus desmandos, pois a cada um de nós cumpria proporcionar-lhes meios de vida decentes, não levando o nosso amor próprio ao ponte de o tornar prejudicial aos interesses alheios!

Todo e qualquer aqui dirá da sua justiça!

A entrevistada é uma mulher que é filha duma mãe. Não tem pai. Não sabe quem é seu pai e não pode sabê-lo. Para dizer a verdade, não quer sabê-lo – quando se cai sobre um monte de pedras nunca se descobre qual foi a que mais magoou; quando se é filha de “Naiquina” nunca se sabe quem é o pai!

Ela tem nome. E tem marido. O nome não revelo e o marido é o coqueiro à frente da sua casa. Nasceu por acidente mas a sua vida não é acidente. Faz parte da tradição. Sua mãe casou-se com um coqueiro. Sua avó também. O ritual é velho.

O coqueiro é o marido simbólico dessas mulheres que mudam de amante como quem muda de camisa. Coqueiro e “Naiquina” casam-se em pitoresca cerimónia antes da “Naquina” ser mulher. Nesse dia a mulher planta o marido – O Coqueiro – e deixa-o à sua sorte. Faz o mesmo o Coqueiro e abandona a mulher aos azares da vida. Não se melindra com nada. Não sabe o que seja ciúmes.

A entrevistada conserva em sua casa retratos de personagens importantes que para a sua alcova entraram. Descreve-lhes os gostos e as predilecções a, ao falar, comove-se e chora com aquela facilidade que a sua vida difícil torna possível. Mas é possível que tenha saudades dos seus dias de prosperidade. Não sei como era a casa há vinte anos. Agora, o tecto deixa atravessar-se por réstias de sol, o chão é húmido, aquele antro mete nojo.

A um canto, uma bicicleta que de bicicleta só tem o quadro, o guiador e o guarda-lama. A um outro, uma bacia de ferro esmaltada, com mais ferro do que esmalte. Encostada a uma parede, uma cama sem lençol, com uma esteira de palha mais infecta do que um mictório publico. Por todos os lados, retratos de artistas do cinema indiano, pin-ups já estafadas recolhidas dos cestos de lixo que pelos modos, nada ofendem os deuses que também naquelas paredes tem os seus retratos.

Tem nome, como disse. Tem marido, como expliquei. E tem filhos: duas filhas que já ganham e dois rapazes ainda pequenos que dormem no chão do quarto único da sua casa miserável. Esses dois rapazes nasceram para ser vadios: serão vadios. A sua família sabe-o perfeitamente. Seus tios são vadios. Esses dois rapazes dormem no chão da alcova da sua mãe. A vida, para eles, não contem segredos – não chão se permanecem, dormindo ou fingindo dormir, enquanto dura a noite negra.

Pergunto à entrevistada:

- Como encara a vida?

Responde-me:

- É o que vê. Os sábados são horríveis. E os domingos pior ainda. Tenho um amante que me bate se lhe não dou quanto dinheiro quer para se embebedar.

- E a saúde? – perguntei.

A pergunta ofendeu-a. Da sua saúde depende a prosperidade. E eu tinha-a ultrajado.

- O que é que o sr .julga? Nunca tive a mais pequenina coisa sequer! Julga que sou como a... ou como a.. ? Muito se engana!

E ela foi continuando o seu discurso. Jurando que tinha óptima saúde. Que nunca tinha tido a mais pequenina coisa sequer.

A entrevista tinha de terminar ali. E terminou. E saí daquele talho de carne humana. Ali o balcão é a cama. E paga-se a carne como se a usa. Pesa-se-a com o relógio. Quando mais tempo, mais o preço. E fregueses não faltam. Chova ou faça sol, assim é.

Quando regressei à cidade encontrei a como a deixara. Nas ruas gente de todos os tamanhos. E aquele garoto, com cara de inocente, que comprava doces, três por uma tanga, na praça dos automóveis – não garanto, mas juro – era o garoto que nervoso, confundindo, vi fugir quando me viu enquanto eu aprendia numa casa miserável que o coqueiro tem mais esta utilidade de ser marido paciente de mulheres desgraçadas.

Thursday, 28 July 2011

Aires Colaço - Uma Carta (1982)

Minha querida amiga:

Da minha janela virada para o mar, do litoral do sul de Goa, de regresso à minha terra após uma longa ausência, te escrevo esta carta, feita de amor e saudades dos tempos que, há muito, deixaram de nos sorrir, assim que deixámos os bancos daquele velho liceu, plantado ao sopé do altinho, quando por entre sorrisos e esperanças do porvir, com olhos marejados de lágrimas, a sombra da verdura do arvoredo, com a lua nos batendo em cheio nos rostos, olhos fitos nos olhos, lábios colados nos lábios, os nossos corações se despediram naquele longo ADEUS, na véspera da minha debandada para terras do oeste, para vestirmos a capa universitária e cantarmos o fado nas margens do Mondego:

Coimbra é uma lição
De sonho e tradição
O lente é uma canção
E a lua a faculade
O livro é uma mulher
Só passa quem souber
E aprende-se a dizer
SAUDADE!”

Como os tempos passam e tão depressa! No entanto, na roda vertiginosa do Tempo, rodaram duas longas décadas. O velho império do oriente fabuloso desmoronou-se em peso, a face do intransigível do palácio de São Bento. Mudaram os ventos nas margens do Tejo e emanciparam-se as Áfricas. O expedicionário português, Manuel da Tropa dos Batalhões de Portugal, já casado de responder às cartas da sua namorada Maria, que por tão longo o esperou, regressou agora às províncias de Minho e Algarve para fazer o lar. Enfim, depois da longa noite polar que passámos nos cafés de Coimbra e Lisboa, levantou-se a velha cortina de “Visado pela Comissão de Censura”, mas o escudo vascilou em face da instabilidade económica, cortado o nó górdio da placenta que o nutra. E aí, os governos somaram e seguiram.

No meu solar, à beira-mar do lindo Arábico, no litoral do sul de Goa, com as suas areias finas e brancos, como o corpo desnudado dos turistas de todo o mundo que o debandaram desde a última década, em redescoberta do caminho do oriente das Índias, una levados pela ideologia da revolução de Paris, da primavera de 68, outros motivados pelo turismo ou estudo de uma civilização milenária, ainda cercado por aquela vegetação luxuriante para antro de chilreantes pássaros, o anteras e a terra que um dia foram a minha telefonia, serviram de cordas de suspensão para a roupa dos pares que, em noites de luar, anicharam nele para furtivas luas de mel, aproveitando da solidão do ambiente e da ausência do seu dono em terras de fado.
As árvores do meu lindo arvoredo de há gerações, circundando o meu vetusto solar, e que serviram de protecção aos inofensivos inquilinos temporários que aí apareceram de quando em vez, sem a carta do contrato, para hospedes de um ou outro dia, senão horas, escaparam das chacinas do machado dos algozes. Aqui e acolá, os coqueiros, as mangueiras, as jaqueiras, os pinheiros, a despeito de não terem que manjar, cresceram sem queixumes, reproduzindo-se regularmente, para mata pão de mata-bicho dos desventurados da sorte. Só a pintura das paredes, que em tempos se vestiram de gala, cedeu imenso. Mesmo assim, eles albergam ainda com toda a fidelidade que dorme agora o sono na campa fria da lousa e que, em tempos, encheu o solar com vida e alegria. Uma e outra imagem dos santos, de devoção, de marfim, relíquias do passado, distante, foi roubada do seu nicho, sagrado, provavelmente pelos homens de além-gates, sem escrúpulos, em troca de algumas centenas de rupias no mercado de Bombaim, para fazer o seu ganha-pão, sem suor, irados de acharem as antiguidades removidas, há tempo.

E enquanto cá o nosso Mandovi secou o seu leito de saudades dos que partiram, nós, já fartos das águas do Mondego e das capas negras, fechamos o nosso diploma de Coimbra nas gavetas da secretária em Lisboa, esquecidos do objectivo do nosso curso, para tomarmos um emprego na casa-forte do Banco Espírito Santo e Sotto Maior em Lisboa, para vermos o saldo na caderneta do banco em algumas centenas de contos, para partirmos para um tour pelas sete partidas do mundo, a ver se fazíamos o coração mais leve... Aonde fomos, o que vimos, o que fizemos, seria um longo rosário de histórias que as limitações do rectângulo de papel não me permitiriam por hoje.
E agora, de regresso ao meu velho solar, em romagem de saudades, com alma feita de nostalgia, com o coração repartido pelas sete partidas do mundo, recostado à minha janela virada para o sul horas sem fim, reatando o fio, recordando o que a memoria me permite desses longos vinte anos da minha ausência, com as suas lacunas, convidando-me a um exame introspectivo: são recordações que se perdem no alem. As lembranças humanas dissipam-se cada vez mais... E o mundo, elíptico e redondo como a luz que alcançamos, na sua azáfama incessante, vai-se evoluindo impassível... as emoções humanas!

Se há muito a vida não me faz sentido, ainda guardo na minha mala de mão os enormes maços das tuas cartas, já amareladas pelo tempo, enumerados por ordem cronológica, em maços de cada ano, quando, por longos anos, corria ávido à porta da minha república em Coimbra, à espera das tuas notícias que, de repente, a certa altura, se sumiram como por mistério...

Nunca mais consegui escrever-te... nunca mais pude indagar... porque em parte não tinha alma para tanto, porque em parte não tinha também o endereço da tua residência nova.. mas faço hoje a muito custo, servindo das colunas do nosso jornal, o velho ‘O Heraldo’, o único que sobrevive até hoje, a ver se tu podes ler a minha carta, além do túmulo...

Litoral do sul de Goa, 7 de Agosto de 1981

Tu amigo dos bancos do liceu,

Aires Colaço

Thursday, 16 June 2011

Evágrio Jorge - Xacuntalá (1965)

Xacuntalá é filha de um Rixi e de uma Apsará. Mestre Cannvá, encontrando-a abandonada numa floresta logo que nascida, recolhe-a no Eremitério e toma-a para sua filha adoptiva. E aí ela cresce junto de duas companheiras da mesma idade, de quem se torna muito amiga: Anassuiá e Priamvadá. Caçadores infestam o bosque do Eremitério e matam uma gazela que amamentava um filho. Xacuntalá encontra o pequenino animal, órfão de mãe, e cria-a enternecidamente, como faria e um filho. De uma vez, em que as três amigas regavam as flores que Xacuntalá ama como se fossem irmãs, Anassuiá prediz-lhe que ela encontrará uma dia um homem poderoso que o fará muito feliz, mas o seu horóscopo reza que um infortúnio pesa no seu destino. Mestre Cannvá, o pai adoptivo de Xacuntalá, vai em peregrinação aos mais afamados templos impetrando os deuses para que esconjurem aquele mau signo. O Rei Dushianta anda a caça, perto do Eremitério. Quando apontava a flecha à pequenina gazela, é surpreendida pelo sacerdote do Eremitério que o exorta a não matar o dócil animal. O Rei cede aos rogos do sacerdote, e este augura-lhe que será um dia, ele ou um filho seu, um Monarca Universal. Encantado com a formosura de Xacuntalá, o Rei resolve não sair do Eremitério. O Rei está maravilhado. As três amigas oferecem-lhe frutas e flores, bailam para seu recreio. Xacuntalá, sente que, no seu coração virginal, desperta, pela primeira vez, uma emoção desconhecida. Priamvadá revela-lhe que ela está apaixonada pelo Rei e diz-lhe que a forma de saber se o Rei está também apaixonado por ela é fazer um estrofe. Xacuntalá escreve, com a ponta da unha, numa folha de lótus, a seguinte poesia, que Priamvadá dependura duma árvore:

“Não Sei
Que sente o teu coração
O meu
Ficou preso a ti
Da mesma maneira

Que aliança ao lodão
A Vanadassini
A Mangueira
Desde a hora
Em que te vi”

O Rei lê a poesia e declara que está apaixonado por Xacuntalá. Para penhor da sua constância, dá-lhe o seu anel que é um talismã e tem o poder mágico.

O rei casou com Xacuntalá segundo o rito védico, para o qual nada mais era preciso que a vontade mútua dos nubentes. Xacuntalá é feliz. As suas companheiras participam da sua ventura. Decorrem suaves as horas no Eremitério. Ao despontar do sol, rezam à Súria a oração da manhã. O rei pinta o retrato de Xacuntalá. Um mensageiro, porém, da Corte, vem, inesperadamente, chamar o Rei da parte da sua mãe para celebrar o jejum em comemoração dos antepassados. O rei hesita ente as solicitações imperiosas do seu coração e o cumprimento do dever sagrado com os antepassados. O rei parte para a corte. Xacuntalá sofre rudemente com este afastamento. Entretanto Durvassa, um Rixi, austero, de ânimo duro, vingativo e colérico, visita o Eremitério. Xacuntalá é abismada na sua mágoa, não cumpre os deveres de hospitalidade com Durvassa. O severo Rixi, irritado por esta falta de atenção, lança uma maldição sobre Xacuntalá.

Vai passando o tempo. E o Rei, que prometeu dar notícias suas dentro de três dias, não voltou nem recado manda. Xacuntalá julga-se abandonada e fina-se de sanidade. Vestiu-se de luto. Sente-se morrer... Impetra Suriá a que não abandone nesse transe aflitivo. As amigas consultam um Vidente e este revela que Xacuntalá concebeu do Rei um filho que trará um estigma de soberania. Ele será um Monarca Universal. Mestre Cannvá não tardará a regressar do Eremitério. As duas companheiras e Gautami, a superiora do Eremitério, vivem numa dolorosa ansiedade, na perspectiva de que Mestre Cannvá se irritará com o sucedido. Gautami anda rabugenta, mal-humorada, e imputa, injustamente, às duas amigas de Xacuntalá que viria a ser um dia uma Rainha. Mas quando lhe revelam que o Rei não voltou há quatro luas, sente-se contrariado. Recorda-se, então, que um infortúnio haveria que ser sofrido por Xacuntalá. Priamvadá informa-o de que Durvassa veio ao Eremitério e que Xacuntalá, preocupada com a partida do Rei para a corte, não cumpriu os deveres de hospitalidade com o rigoroso asceta. Cannvá reconhece que era esse o infortúnio que pesava sobre o destino de Xacuntalá. E a hora solene de sacrificar o Fogo. Procedem, no altar ao rito sagrado. O Sacerdote impetra Agni para que esconjure o malefício de Durvassa e resgate Xacuntalá de maldição. Cannvá tira um bom pronuncio da forma como corre a cerimónia e resolve ir à corte entregar Xacuntalá ao Rei. Xacuntalá despede-se comovidamente do Eremitério. Partem todos para o Palácio. Mas, no caminho, o Xacuntalá perde o anel que o Rei lhe deu.

O Rei não reconhece Xacuntalá. Esquece por completo dos dias passados com ela. Como um riternello fatídico, ouve-se, de vez em quando, a Canção da Abelha

“Abelha, abelha
Como és volúvel!
Depressa esqueces
A pobre flor
Que te deu o mel
Do seu amor

Abelha, abelha
Como és volúvel
Como o amor.”

Porém, um dia chega à Corte um pescador com o anel perdido, que ele achara no ventre dum peixe. Volta a memória do Rei do tempo passado no Eremitério em companhia da meiga Xacuntalá. O Rei manda chamá-la à sua presença e pede-lhe mil desculpas pela perda da memória e aceita-a como Rainha, no meio de estrondosa festa.