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Monday, 1 April 2013

Agostinho Fernandes - Tudo Voltará (1955)

…Ela morreu!... Morreu porque, coitada, lhe estalou o coração!

Mas terá morrido de facto? Teria deixado de existir? Sim! Aquele corpo de que ela ufanava de exibir as formas, já não existe! Desfez-se. Foi riscado o seu nome.

Para o diante, confundir-se-á com a terra, transformar-se-á nela, regressará à natureza de onde saíra para poucos dias.

Os seus órgãos despedaçar-se-ão em células, inúmeras células que perderão o poder de trabalhar, como unidades para uma unidade, destacar-se-ão egoisticamente, ganharão autonomia embora por pouco tempo e vir-se-ão libertas de escravidão do senhor – e todo – mas, por fim, degradar-se-ão também em compostos químicos cada vez mais simples até chegaram a elementos. O mesmo destino terá a brancura da roupa que lhe mascarou o corpo, as flores deliciosas que a acompanharam, as lágrimas que a molharam e o próprio palicete de pinho que lhe servira de lúgubre morada. Tudo se degradará, tudo se misturará entre si e com a terra, tudo o que foi votado à corrupção. Será uma massa anómala, idêntica a si mesma. Desaparecerão os antigos compostos químicos para se transformarem em neves, provenientes de mistura dos elementos daquelas diferentes unidades que a terra piedosamente recebeu no seu maternal seio.

Breve, tudo se dividirá em infinitas unidades químicas – os iões – que palatarão como bichos imundos presos a um corpo atirado à putrificação.

Terminações de raízes incautas obrigarão até lá. Absorverão sôfrega aquelas unidades de matéria e, a seiva fecunda correrá célere pelas veiazinhas da planta, ávida de distribuir pelos seus múltiplos órgãos aquele tóxico enverdecedor, vivificador!

Um botãozinho delgado, esquecido, banqueteará largamente naquela ceia fúnebre e daí uma flor policrómatica, viçosa, abrir-se-á impudica como uma mulher nua na cálamo nupcial.

Exalará aromas inebriantes... e as frescas brisas espalharão por toda a parte aquelas aromas fabricadas a partir de matérias pútridas... As abelhas não se demorarão em fecundar as flores sedentas de paixão, com o pólen fabricado enfim com a mesma matéria pútrida... E que deliciosas flores dali sairão?

E ninguém duvidará, ninguém pensará nisso. Deleitar-se-ão os olfactos com os magníficos aromas, galantear-se-ão as vistas com a harmonia das cores, muitos peitos se enfeitarão e se tornarão provocantes com aquelas flores, muitos paladares se saciarão com as frutas suculentas...?

Durará pouco! A natureza é pródiga e é avara ao mesmo tempo. Voltará tudo para ela. Os olfactos já não sentirão, as retinas não se admirarão, as flores murcharão e os frutos se transformar-se-ão em novas seivas e novos sangues.

Tudo voltará a natureza.. tudo, tudo o que de lá saiu. Não se perderá uma migalha, nem uma célula, nem um ião. Matematicamente tudo regressará a ela, para continuar a existir nela, eternamente. Nada se criará de novo, nem tão pouco se perderá, apenas se transformará largamente.

Sim. De facto. Embora se modifiquem integralmente os corpos e as suas formas, a natureza tem esse poder único: o de tornar imortal a sua matéria!

Agostinho Fernandes - Cortejo Fúnebre (1955)

O sino da igreja chorava lugubremente. À minha frente passava um cortejo, um cotejo fúnebre... Uma égua, velha e raquítica, com uma capa negra e desbotada, no costado, puxava languidamente o carro mortuário. De quando em quando as suas narinas dilatavam-se, e o olhar brilhava cínico com que dissesse: “uma besta viva a carregar uma besta morta!...”

Quem iria no féretro? Um velhote, diabético, vergado sob o peso da maldade? Qualquer jovem roubado à vida desvairada? Alguma mulherzinha subtraída às dores do parto...?

Atrás seguia gente: parentes e amigos, admiradores e indiferentes... Todos, num pouco à vontade, pareciam condenados... Alguns derramavam lágrimas hipócritas... Outros pareciam fulminados pela dor que não sentiam. Ainda havia alguns, talvez os mais sinceros, os mais honestos, que se entretinham a conversar.

Sem querer, sem mesmo pensar nisso, meti-me no cortejo, fui seguindo a égua cínica... O sino continuava chorando, continuava derramando lágrimas.. Como nada tinha a fazer pus-me a ouvir os comentários: “Coitadinha, estava para se casar...” “Tinha apenas vinte anos, mas que jóia de rapariga!...” “... Moça a valer, lá isso era! Que formas!...” “... Foi o coração que se estalou. E de namorar muito!” Não pude conter uma gargalhada! Que comentos! E a égua a ouvir tudo isto e a julgar...

Mas afinal porque seguia eu o cortejo? Com que fim? Nem sequer conhecia o ilustre cadáver...! Se ao menos aquilo divertisse...!

Passava-se por um restaurante. Raspei-me, meti-me por aí dentro e enquanto o café fumegava na chávena, o meu pensamento acompanhou o cortejo e voou até a casa dos mortos: lá estava ela, rapariga de 20, moça a valer e a quem o coração estalara! E o coração estalara exactamente quando se ia casar! As suas vestias imaculadas, vestias de virgem salientavam-se na escuridão da cova fria, cova de primeira classe! Vestiam-na de virgem para ser hipócrita mesmo depois de morta: davam-na um poisio de primeira classe para continuar a ser “classista”! Mas lá estava ela... O seu rosto não me parecia desconhecido. Talvez já a tivesse visto, talvez a tivesse visto muitas vezes! Sabe-se lá?... Talvez ao passar por mim, toda perfumada, toda orgulhosa das suas formas a tivesse desejado secretamente... Talvez já a tivesse despido muitas vezes com o olhar! Poderia perguntar quem era ela. Mas, para quê? Que me interessava isso? Ela estava lá. Um montão de células podres!... Aquele coração que estalara já não bateria mais! O sangue estagnar-se-ia nas veias, o cérebro deixaria de pensar, os músculos não se moveriam, os nervos não conduziriam e o seio não arfaria outra vez! Ninguém mais a desejava, ninguém mais se importará com ela, pertencerá ao passado e, daqui a dias eu próprio me esquecerei dela e do cortejo fúnebre...

Ave Cleto Afonso - O Testamento de Um Moribundo (1966)

Pankash estava profundamente intrigado. Por mais voltas que desse à cabeça, não conseguia descortinar a razão dessa sentença que tinha de cumprir.

“Não, assim é que não irei. Quero ver o Raju antes de partir. Quero dar-lhe este pião, aquela bola e mais o arco. É tudo quanto tenho de meu”, resolvera, agachado por detrás da sebe, olhando atentamente em direcção da sua casa. Esperava que o seu tio Tucaram se fosse embora. Assim poderia retardar a sua saída da aldeia onde passara toda a sua vida, cheia de recordações.

Pankash tinha os seus doze anos, já completos. Frequentava a escola da localidade e era o mais irrequieto da companhia. Entre todos outros da sua roda, era talvez o mais estimado e impunha-se logo como chefe indisputado. Os adultos, estes é que não o compreendessem bem. Se tentasse adoptar maneiras de pessoas já de idade, censuravam-no, riam-se dele, expunham-no ao ridículo. Se quisesse portar-se como um menino despreocupado, então repreendiam-no também, exortavam-no a ser mais sensato, queriam que seguisse o exemplo dos velhos. Era um dilema que era incapaz de vencer só por si.

Agora tinha mais um problema a enfrentar: o seu irmão Raju, de oito anos de idade. Sempre que ele fosse jogar ao pião, lá vinha ele arrancá-lo das suas mãos. Mal tocasse na bola, o Raju pedia o esférico. Se fosse jogar com os seus amigos da vizinhança, o pequeno déspota do seu irmão lá chegava também, e punha-se no meio. Em mais de uma ocasião, tivera de fazer de juiz e carrasco, impondo e executando penas contra o impostorzinho: uns murros aplicados à socapa, uns empurrões e outros correctivos desse género.

Mas, invariavelmente Pankash fora, por sua vez, castigado pela sua mãe. Mais novo como era, Raju estava nas boas graças de todos os adultos de casa. Os seus olhos, deitando lágrimas de teimosia infantil, nunca haviam deixado de comover Vijaybhai, a mãe dos petizes. Em resultado, o mais velho merecera muitas vezes penas corporais várias.

Desta vez, porém, o castigo consistia simplesmente numa deportação. Pankash teria de acompanhar o seu tio Tucaram para a terra deste e ficar lá isolado por quanto tempo não se sabia. Frequentaria a escola nessa nova paragem, criaria novos amigos, adquirira novos gostos. Já não teria mais a companhia de Raju, a quem, aliás, muito queria. Os seus bosques e campos favoritos, amigos queridos e tudo o resto ficaria muito longe, por muito tempo, talvez para sempre.

“É verdade que atirei o Raju ao chão, mas só por isso terei de abalar para tão longe? E porque é que não querem saber daquilo que ele fez a mim? Não me deixava livre o baloiço e avisei-o, três vezes, a sair”.

Contudo, estava decidido a não acompanhar o velho Tucaram sem fazer o testamento. Queria dizer que amava muito o seu irmãozinho e fazer dele o herdeiro dos seus bens: um pião de madeira, uma bola de lona, um arco de metal. Custava-lhe muito este exílio e observava, do seu esconderijo, o velho casarão como se tivesse sido ausente por algumas décadas de anos. Já sentida saudades da figura turbulenta de Raju, como se tivesse regressado depois de um longo desterro.

Era tarde demais para continuar nessa posição. O sol já encarregara a Lua de tomar conta do seu reino dentro de uns momentos mais. O irmão de Vijaybhai decidira pernoitar em casa do cunhado Venctesh, ausente na cidade.

Como um condenado expiando o crime, Pankash transpôs o umbral da quinta. Queria pedir desculpas à mãe, mas um semblante indiferente e ameaçador manteve-o à distância. Esperou que o tio fosse mais afectuoso, mas ouviu sair da sua boca de educador rigoroso: “Saberei curá-lo”. Buscou Raju com o olhar e viu-o a um canto, saboreando guloseimas e insistindo em não levantar os olhos para ele.

Quando estendeu o corpo pesado na enxerga, sentiu uma ligeira dor na cabeça e um calafrio sacudiu, ao de leve, o seu ser. Antes de ser vencido por um pesado sono, ouviu confirmada a cruel sentença. :Bahu, por Deus, leve-o consigo. Talvez consiga corrigi-lo. Estou cansada das suas diabruras” – dissera Vijaybhai ao seu mano.

*

“Não... não... não me batam. Irei com ele... Tuca’m bab vamos agora mesmo... Eu vou consigo... Não quero mal a Raju...” Era noite alta quando Pankash pôs-se a gritar em sonhos. Acordou sobresaltado e viu que todos de casa tinham acordade aos seus gritos. Pela fenda da janela soube que havia luar lá fora. Que horas seriam? Desejaria que fosse já dia e pudesse ir-se embora com o tio.

Mas Raju... Ao menos queira vê-lo. Queria que ele dissesse que faria uso do seu pião, da sua bola e do arco. Sentiu então que tinha a testa e o corpo orvalhado de suor. Tentou dormir de novo.

“Levem-me ao Raju... Levem-me ao Raju... Quero ver Raju...”. Tentou levantar-se mas viu que não podia. Estava com febre e sentia como que uma fornalha ao redor. Vijaybhai comovida aconselhou-o a dormir sossegadamente. Queria que o filho ficasse bom na manhã seguinte e não mais exigiria o cumprimento do castigo de separação. “Pankash e Raju não mais brigarão. Pankash há-de ser bom rapaz e há-de ficar connosco” idse a mãe, acariciando a testa e a cabeleira do filho enfermo.

“Mãe, quando Raju acordar amanhã, diga-lhe que gosto dele. Aquele pião... o meu pião...”. Trouxeram-lhe então de um canto o brinquedo que Pankash tomou nas suas mãos febris e trémulas exclamando: “É para Raju. Raju gosta dele...”

Havia um nervosismo no semblante de todos ao redor. Pankash estava seriamente mal e não havia médico algum na aldeia que pudesse acudir mas o jovem parecia indiferente a tudo aquilo. Só lhe interessava que Raju aceitasse a sua oferta de pião, bola e arco. Para ele, o irmão mais novo, que entretanto já se encontrava ao pé do doente, tornara-se a única preocupação. Os dois haviam brigado sempre mas já não brigariam mais.

“Eu gosto de Raju e quero dar-lhe o meu pião”, era o último juramento de Prakash.

Alberto Cota - Epistolas II "De Caminho..." (1983)

Manhã do dia 24 de Abril de 191... Surgia rútilo por entre a neblina o astro do dia devolvendo alegria à natureza; alegria para os campos acidentados aqui e ali por verdes comas de donairosos coqueiros doirados pelos raios matutinos; alegria para as aves saltitantes de ramo em ramo sacudindo das suas penugens multicores camarinhas de água que o chuvisco nocturno ali depositou; alegria para os camponeses que na sua ocupação cotidiana curzavam-se nos campos uns de arado às costas, outros de cestos nas cabeças levando para terra a sementeira para que ela os devolvesse em cêntuplo.

Um quilometro alem após um distiladeiro marcando o limite das planuras o quadro era diverso: picos longínquos, moitas compactas, veredas sinuosas encombradas de verdura, rampas sulcando vertentes, abismos cavando profundidades, tudo contrastando tudo embelezando numa desordem encantadora e sob a cúpula celeste pura e transparente que o génio humano não lograra imitar.

Por uma estrada que se penetrava em ziguezagues por entre vertentes exuberantes de vegetação silvestre caminhava um viandante, mancebo de vinte e seis anos, medindo com a vista o caminho a percorrer e que lhe afigurava imenso. Grossas bagas de suores escorriam-lhe pela fronte em que transpareciam sinais indeléveis de sofrimento. O próprio olhar deixava adivinhar o obscuro do seu passado se não o presente. Regular de estatura, tez morena, simpático no seu conjunto, correcto no porte tinha qualidades de atrair o mais indolente.

Cem passos mais e casou-se com um outro que vinha em sentido contrario. Era Francisco da Costa, o robusto oficial do exercito em serviço na povoação de X... Vestido de caki espingarda de dois canos ao tiracolo, cartucheira bem provida cingindo a cintura, uma cabeça bamboleante ao menos movimento do possuidor e botas altas davam-lhe aparência de homens de guerra em plena campanha.

Júlio Lopes, tal era o nome do mancebo, na incerteza do caminho que percorria e era a primeira vez que chegava aquelas paragens perguntou-o parando para ele:

“Faz-me obsequio... é este o caminho que dirige para povoação de X... e resta muito para lá chegar?”

“É estrada de que se trata, é ir direitinho sem mudar pela outra que surge a esquerda, disse Francisco quanto ao mais caminhar resta-lhe um bom pedaço.”

“Obrigado.”

Cada qual seguiu o seu caminho, Júlio apressando o passo para chegar cedo a repartição onde ia apresentar-se munido de guia de transferência; Francisco desviando-se da estrada para meter-se no denso arvoredo a cata de caça.

Por fim desapareceram-se os dois, um atrás das moitas, outro na curva do caminho.

Súbito alem onde o céu parecia tocar-se com a terra formou-se uma nuvem plumbia que de pronto tomou proporções de gigante. Dilatou-se enroscou-se nos seus tentáculos de polvo, já ganhou o Zenith numa aceleração espantosa. Escondeu o astro diurno o seu disco de fogo atrás das massas disformes que já toldavam o espaço ameaçando arrazar derrubar tudo. Desprenderam-se os ventos em uivos de hiena, cruzaram-se fagulhas eléctricas em ziguezagues, caíram fendidas de alto abaixo árvores seculares em crepitações, reboaram baques nas fragoas e bramiu medonho o trovão vitorioso. E grossas gotas de chuva sulcaram a atmosfera carregada de ozone e escorreu água barrenta pelos sulcos escancarados enquanto o vendaval recrudesceu açulando os elementos para refraga feroz. Por fim como por encanto amainou-se a tempestade, romperam-se as nuvens, jorros de luz rasgaram o espaço e do lado oposto do sol surgiu benfazeja a arca de aliança nas suas sete primarias cores. O vento agora brando remexeu-se na folhagem; e cada ramagem era um feixe de jóias incrustadas de pérolas e cada casinhola distante um ninho e o murmúrio das águas o cochichar dum casal.

O nosso viandante emancipado já do susto prosseguiu o seu caminho.

Longe nas quebradas das serranias ouviu-se um tiro, depois um outro.

“Talvez o seja daquele caçador” pensou Júlio.

Por fim, já depois de sete curvas dobradas e sete eminências transpostas divisou não muito longe à sombra de coqueiros enormes traves de ferro cruzadas em mil setios qual gigantesco conjunto esquelético dalgum monstro geológico. Era ponte em construção que comunicaria a estrada com a povoação de X...

Sustentam-na oito colossais pilares que trabalho insano custou aos construtores. Três vezes ergueram-nos para três se desmoronaram pelo ímpeto das torrentes; nem isso valera! Estavam empenhados os engenheiros naquela obra que as águas reduziam a escombros. Tanto trabalho frustrado, tantas noites perdidas à espera da vazante do rio porque só nelas possível era trabalhar nos alicerces. Somente pela quarta vez é que a obra ficara de pé. E desde então ergueram-se erectas na sua rigidez de aço, gigantes no tamanho, enormes na espessura sustentando possantes nas suas cabeças elípticas o peso daquelas massas de ferro por onde para o futuro passariam os veículos sem nenhum receio de soçobro. Júlio a medida que avançava devorava com a vista aquela obra gigante, fruto de tanto labor.

Já de passo estugado chegou a margem do rio. Na oposta serralheiros em grupos, uns ocupados em limpar da ferrugem peças de ferro, outros em solda-las, dava não sei que de encantador aquele quadro pitoresco.

Mas um barulho ensurdecedor saía daqueles grupos que as olas de coqueiros sombreavam.

Distante, atiçava-se a fornalha nas forjas onde o ferro incandescente faiscava rutilo sob o peso do potente martelo que o maleiava e recurvava ou endireitava segundo requeria o engenho enquanto os foles sibilavam inchando e contraindo os seus bojos descomunais para inda mais abraçar a fornalha crepitante onde peças de ferro esperavam a sua X.

Quatro braças além onde a ramagem era mais densa avistou Júlio um individuo sentado no tronco duma árvore decepada, ocupando em falar sobre o assunto da obra com mais dois que escutavam de pé. Cans venerandas coroavam-lhe a fronte rígida e serena. Os fartos bigodes recurvados nas pontas, o nariz de uma correcção atlética, o contorno dos beiços a exteriorizar fraqueza rude, os maxilares musculosos, davam ao seu rosto crestado pelo sol ardente da Índia, um tom próprio de quem passasse por trabalhos árduos.

O seu vestuário era duma simplicidade provinciana: camisa ampla desabotoada até ao meio do peito peludo, calças curtas, sandálias de coiro grosso. Tinha uma carabina ao lado é um cachimbo espetado ao canto da boca. Teria sessenta anos de idade.

O nosso mancebo reconhecendo nele seu velho tio, acenou ao ar seu lenço. E, atravessando, quase a correr, a ponte provisória erguida nas estacas foi lançar-se nos braços do velho que o apertou saudoso.

Monday, 25 March 2013

Alberto Cotta - Epistolas 1 (1983)

Sentada ao pé duma janela escancarada à brisa do poente, estava Bena, uma guapa rapariga das suas 18 primaveras o muito. Entretinha-se a bordar um pano de cetim branco esticado na teara colocada sobre os joelhos e encostada ao espaldar duma cadeira à sua frente.

Pertencia a um colégio onde estudava a arte de bordar e talhar, dirigido por uma professora já de idade razoável a quem a experiência adquirida pelo tempo e aliada a uma sólida instrução fazia digna de superintender o estabelecimento que dirigia.

Órfã de pais desde tenra idade, Bena não tivera outro amparo além do irmão e cunhada. Zuleima, sua irmã mais nova que ela também internada do mesmo colégio, era sua fiel companheira. Uma não podia passar sem outra – tão amigas eram.

Bena era a cabeça, Zulema o braço, aquela a pastora esta a ovelha embora de génio arrebatado mas que fácil lhe era voltar ao aprisco, quando desgarrada sob o sisudo bordão da sua pastora. A própria Zulema reconhecia, quando serena, amansada já, o lado benéfico daquele jugo, como ela o qualificava, embora revoltasse no auge de furor. E a tempestade passava desfeita em bonança de arrenpendimento. Deste modo Bena era a Zulema irmã e mãe.

O sol declinava já quase no ocaso, voltavam gralhas ao abrigo e o operariado da lida cotidiana ao remanso do lar.

Súbito Bena deixando o trabalho ergueu-se pressuroso. Tão depressa correu infantilmente pelo jardim fronteiro por entre canteiros de roseiras, jasmina e dálias que crotons multicores ensombravam hospitaleiros.

“Aí vem o mano, ai vem ele!” disse louca de prazer.

E lá está ela ao pé do irmão, individuo alto espadaúdo, bigodes fartos vestido a militar. Chamava-se Francisco da Costa e era oficial do exército em serviço na povoação de X vindo a Pangim por motivo do Estado, motivo que lhe dera ensejo para visitar as irmãs.

“E Zulema?” disse o recém-chegado mas Zulema que o vira vinha já correndo para eles sorridente e ligeiro.

“Pelos modos”, aventurou Bena, cingindo com os braços a cintura proeminente do irmão, pelos modos nem pensa em levar-nos para essa terra de X... e cá estamos há mais de três longos meses sem ver a cunhada e os sobrinhos.

No Maio, minhas prendas no próximo Maio. E que teremos então festa na minha terra de X.

Maio, Junho, Julho, e Setembro!

Outubro, Novembro e Dezembro, rematou Zulema.

A presença da directora interrompeu-lhe a avalancha de meses.

Depôs a conversa decorreu amena para os três irmãos, posto que a directora se retirou após os cumprimentos de estilo. Falaram sobre mil assuntos, choveram mil perguntas as quais o irmão respondeu como podia.

Mas estávamos a falar do Maio, Junho... arriscou Bena voltando-se à carga.

Nada, no Mio próximo, no Maio! Replicou-lhe o tenente que sem esperar por mais correu escada abaixo com risco de se resvalar.

Bena do peitoril da janela repetia alto – No Maio, mano!

E ele virando-se para ela, tornando a girar nos calcanhares, gritou a rir: “No Maio, no Maio!”

Bena imóvel ainda seguio-o com a vista até vê-lo desaparecer atrás da casaria da cidade. Então a expansiva alegria momentânea transformou-se-lhes em amarga nostalgia, principalmente para Bena que não se movera do lugar.

A presença de pombas nos beirais das casa próximas distraiu-a da fixidez do pensamento quedando-se a segui-las no seu caprichoso esvoaçar de telhando em telhado, de muro a muro para de novo pousarem no ponto de partida. Achou divertido aquilo que lhe valeu uma distracção.

Mas como tudo no mundo tende a finalidade e as brancas pombinhas esvoaçaram além eclipsado-se e Bena retirando-se da janela correu ao jardim onde as companheiras de mãos dadas cantavam alegres e descuidosos.

A presença de Bena fê-las hilariante. Choveram epigramas e risotas, e houve uma que saindo do grupo correu ao repuxo de água no centro do jardm para borrifá-las de água importada nos côncavos das mãos. A. A esta seguiram outras e tão depressa o alegre bando molhou-se sob o pesado aguaceiro que o sol agonizante circulou de pérolas.

O movimento excessivo trouxe-lhe a canseira e cada qual acomodou-se em assentos improvisados arquejantes e balofas mas que não impedia de se rirem pela graça que acharam.

Por fim o sol escondeu-se e neblina vespertina toldando o poente anunciou a noite, mas pura, transparente, cintilante de estrelas.

O campanário da Igreja da cidade tangeu ave-marias e o bando recolheu-se à voz da professora do alto da escadaria. Mesmo a subi-la não faltaram ditos alegres e risos reprimidos – bem-aventuradas mocidade sempre viçosa e discuidosa!

Assim no trabalho, no recreio e na própria disciplina encontrava Bena o suave e o belo da vida humana. Era feliz por assim o julgar.

O acordar às cinco da madrugada pura e ridente empregada de perfumes, de estranhos e novos cada dia e inebriantes encantos: trabalho cotidiano com múltiplas variantes, as horas de recreio e mil nadas que adquirem proporções benfazejas para quem sabe compreendê-las, constituíam alegrias perenes para ela que com pouco se contentava, e essa mesma pequenez de desejos fazia-a feliz.

Tal era vida para Bena.

Monday, 18 March 2013

Mécia Elvina de Sousa - Amor da Pátria (1963)

Foi numa noite brumosa e nevoenta, como são geralmente nesta época as noites nas regiões montanhosas do Himalaia.

Num casebre desgarrado, à beira do caminho de ferro, a tiritar de fio junto da lareira, estava o Ramá, um jovem ainda imberbe, velando a cabeceira do pai enfermo que jazia na sua enxerga meio apodrecida, a um cantinho da habitação.

Seria meia-noite, quando muito... Súbito, uma detonação forte reboou pelas quebradas da serra, abalando a pobre cabana desde as fundações.

Ramá salta de repelão do seu cantinho, esgueirando a cabeça pela porta entreaberta e procura inquirir a origem do estranho fenómeno.

Nada enxergando pelo vão da porta, Ramá sai do eirado da casa a ver se descortinava algum vestígio do misterioso abalo. A serração da noite não permitia ver um palmo diante do nariz. A neve inclemente açoitava-lhe o rosto enregelado pelo frio cortante da noite.

Mas agora caíra tudo em silêncio, cortado apenas, de longe em longe, pelo mugido intermitente de uma cascata longínqua a despenhar-se das alturas para o fundo vale de tenebrosas furnas. Seria o sinal de avanço do inimigo que se dizia ter ultrapassado a fronteira? Ou seria acto de sabotagem dos traidores da Pátria, camuflados talvez em vigias do caminho de ferro?

Tinha de apurar a verdade, custasse o que custasse, embora tivesse de jogar nisso a sua vida.

Embrulhando-se na sua capa surrada de pele, um gorro de lã grosseira na cabeça, Rama lá foi seguindo com a sua lâmpada de furta-fogo, a caminho da ponte donde lhe parecia ter partido o infernal estrondo.

O frio gélido da noite penetrava até a medula dos ossos. Era o sopro glacial do Himalaia, a álgida mensagem dos picos de neve perpétuos que se erguiam alterosos de todos os lados. Uma espessa camada de neve cobria o atalho, dificultando a marcha já de si penosa.

Ia-se aproximando agora da terrível cascata, cujo bramido cavo e soturno embravecia de momento a momento com as catadupas da chuva que caía ininterrupta desde o cair da tarde. Uma rajada de vento agreste quase que o ia despenhando, ribanceira abaixo. Equilibrou-se como pode e, lutando conta a fúria dos elementos, lá foi avançando a custo, a tiritar de frio, e eis que, chegado à testa da ponte, vê horrorizado o abismo enorme que se abria a seus pés. A ponte em toda a sua extensão fora destruída por mão criminosa, certamente a soldo do inimigo.

- Deus do Céu! Bradou, num grito lacinante de angústia, a pobre criança, lembrando-se que daí a momentos passaria por lá o comboio a transportar armamento e tropas para a fronteira.

- Que seria dos nossos soldados?

Não havia tempo para hesitações. Corre, voa célere à sua cabana. Dir-se-ia que uma rajada furiosa de vento o impelia pela ladeira íngreme. Cabriolava de rocha em rocha, quase de olhos fechados.

Mais uns saltos apenas e ei-lo no umbral do seu casebre, esbaforido a comprimir o peito com as mãos.

Empuxa com violência a porta que cede ao poderoso impulso de braços nervosos e entra de roldão no recinto onde jazia o pai enfermo que desperta sobressaltado com a algazarra.

Uma voz dentro, desabafa de um fôlego, perante o pai estremunhado do sono, a terrível mensagem que levava.

- Temos que acudir a tempo para evitar a catástrofe – rematou ofegante o jovem.

- Vai, vai depressa, meu filho – gemeu o pai.

E depois com a vez sumida com o sofrimento, acrescentou: está aí no canto do meu baú uma lanterna verde-vermelha dos guardas do caminho de ferro. Vai com ela dar o sinal de alarme à aproximação do comboio... Avança quanto puderes. Quanto mais longe, tanto melhor... já compreendes o resto.

Ramá não quis ouvir mais... Acende a lanterna do pai e salta para a linha férrea, resolvido a enfrentar todos os perigos para salvar a vida dos soldados.

Impelido por uma força oculta, o rapaz parecia ter asas nos pés, na ânsia febril de avançar ao encontro do comboio. Percorria nesse momento a linha férrea no trecho perigoso de uma curva brusca a orlar um precipício medonho. Nem por isso Ramá refreava a sua louca corrida.

Súbito, num dos torcículos do caminho, enxerga o foco intenso da lanterna central da locomotiva, que vinha avançando vertiginosamente para o rapaz.

Postado no meio da linha férrea com mãos convulsas, Ramá agita febrilmente a minúscula lanterna com luz vermelha a dar rebate do perigo iminente.

Ouve-se o chiar agudo dos freios da locomotiva a travar a marcha vertiginosa do comboio. Neste instante o clarão intenso do foco da locomotiva, já próxima, bate em cheio nos olhos de Ramá, que, ofuscado pela luz deslumbrante, salta fora da linha para evitar o embate. Porém, o pulo, formado na precipitação da fuga, foi tão desastrado na precipitação da fuga, foi tão desastrado que o pobre rapaz, desequilibrando-se, deslizou pela beira escorregadia da estreita orla e num instante sumiu-se nas trevas do abismo hiante que se lhe abria aos pés...

No dia seguinte foram encontrar o cadáver do pobre rapaz, reduzido a uma mole informe, no fundo do precipício... Oferecera a sua vida em holocausto pela causa santa da sua querida Pátria.

Tuesday, 26 February 2013

Padre Pedro Lobo - O Sovina (1982)

Dizem que os escoceses são sovinas por natureza; mas há destes sob todos os céus porquanto a índole é a mesma onde quer que seja. Ser sovina é feitio com que cada um nasce, ou que cada qual adquire por força de hábito, que se torna segunda natureza. Como tudo o mais, sovinice tem graus. Conheci um. Bom homem religioso e escrupuloso, mas dessa religiosidade e escrupulosidade” que não vão para alem da epiderme, e se limitam a certas áreas da vida, ou como Cristo disse com muita piada, religiosidade que é capaz de coar um mosquito e engolir um camelo.

Trabalhou desde jovem com afinco e honestidade, entrou nas boas graças dos seus superiores e subiu aos poucos os degraus da burocracia. Gastou o mínimo, economizou o máximo e pôs o dinheiro a render o melhor possível.

Casou porque precisava de uma mulher que lhe fizesse todo o serviço domestico e lhe poupasse cozinheiro, lavadeiro, jardineiro, alfaiate e outro pessoal i.e. o correspondente dinheiro em salário e comida. Depois de alguns anos nasceu-lhe uma filha. “Primeira filha, maravilha”, diz-se, mas para ele foi esse um dia de luto, só de pensar que no futuro muito distante ela o privaria em dote duma parte considerável do vil metal que adorava e que tão somiticamente tinha amealhado. Apertou a cinta e pôs-se a economizar mais ainda, para enfrentar a negra eventualidade, que a má sorte lhe deparara, e que lhe era desde já um permanente pesadelo. Depois de ter matutado profundamente, resolveu conservá-la solteira, convencendo-se, como bom cristão, de que o estado de virgem era mais perfeito do que o conjugal. Quando viu que a mulher não o presenteava com mais prole, concluiu que a melhor maneira de guardar o dinheiro em casa era ter um genro comensal. Instrução primária, que graças ao Governo era gratuita, era mais que bastante para a filha que ia ser esposa e mãe. A mulher lhe ensinaria a cozinhar e a fazer outros trabalhos caseiros, de modo que a filha seguisse o mesmo teor de vida que ele tão fanaticamente impusera à mãe. Ele estaria lá para regular o orçamento e vigiar as despesas. O genro seria membro da família, mas não dono da casa. Pronto!

Vivia uma vida triangular – casa, igreja e repartição; não visitava ninguém para não ser visitado também, poupando despesas desnecessárias com comes e bebes. Pelo mesmo critério, não ia aos clubes e não assinara jornais, vestia-se pobremente, comia parcamente, vivia miseravelmente e economizava religiosamente, sacrificando o presente ao futuro.

A mulher, cada vez mais fraca e esvaída com as magras refeições e fatigantes ocupações, adoeceu seriamente. O avarento não quis consultar médicos, visto que eles e suas receitas, custam os olhos da cara, e tratou-a por herbolarios e curandeiros, e só quando ela piorou e o seu estado se tornou muito grave, levou-a a um hospital provinciano e fê-la admitir gratuitamente, como pobre. Quando ela morreu, o fona resignou-se ao destino, como bom cristão, convencido de que tinha feito por ela tudo quanto podia ter feito, e atirou as culpas nos médicos, que não souberam diagnosticar, ou não lhe deram remédios necessários para a curar. Consolou-se com o piedoso pensamento de que Deus sabe muito bem que uma mulher doente se ia um encargo custoso e uma boca improdutiva para alimentar, alem de ser uma cruz pesada para si própria. Para mais, a filha era já crescida e casadoira, capaz de arcar com as responsabilidades doméstica, para que fora bem treinada pela mãe.

Herdeira universal de uma grande fortuna, a menina, que ia perdendo aos poucos o viço da mocidade, devido à pobre alimentação e ao excessivo trabalho que agora se via obrigada a fazer sozinha, tinha naturalmente muitos pretendentes, mas o pai não aprovava nenhum deles, por melhores que fossem. Ele quer um genro tão forreta como ele, se fosse possível. Quando algum jovem entrevistado lhe assegurasse que trataria a sua futura esposa com todos os cómodos – boa mesa, bom guarda-roupa, enfim boa vida, - o unhas de fome, que já o desqualificara na sua mente, dizia-lhe: “Fico de pensar e escrever”. E não escrevia. Assim vieram e foram muitos.

Depois, apareceram outros, que, matreiramente mudaram de táctica. O velho oferecia-lhe tabaco e eles diziam que não fumavam; oferecia-lhes bebidas, e eles fingiam ser abstémios; convidava-os para almoçar com o fim de os observar, e comiam muito pouco; finalmente, ele, já algum tanto bem disposto, pedia-lhes para passar a noite, para poderem discutir futuros planos. Mas quando notasse, e sempre notava, qualquer pormenor que não lhe agradava, dizia: “fico de pensar e escrever”, e ali terminava o assunto. Desapontados, eles comunicavam uns aos outros, os detalhes da entrevista e discutiam a provável causa do mau êxito. Finalmente, um finório, munido de todas as informações colhidas daqueles que o tinham procedido na difícil empresa, apresentou-se modestamente vestido, em casa do avarento.

Começou o ritual esperado. O sovina ofereceu-lhe tabaco e este não só recusou, mas mostrou-se tão surpreendido que uma pessoa de tanta experiência e idade despendesse dinheiro tão precioso em coisa tão inútil. E acrescentou: “Embora novo, conheço bem o furo que o tabaco faz na algibeira da gente, reduzindo a fumo e cinzas as economias reunidas com tanto sacrifício e suor. De maneira que eu, para falar francamente, em tempo, fumava cigarros e charutos da marca “Que Me Dão,” mas comprá-los, isso não! Da mesma forma, ia a casa de amigos a hora em que é costumeiro oferecer bebida e bebia quanto me apetecia, mas comprá-las e, pior ainda, oferecê-las, isso eu nunca fazia, pois era crime contra a economia.”

Quando o velho ofereceu-lhe vinho, este sentenciou que esse líquido traiçoeiro já tinha liquidado enormes fortunas, e que ele se obrigara por um voto a Sta. Cunegundes a nunca pegar num cigarro ou num copo de vinho ou aguardente. Quando o velho quis oferecer-lhe ao menos uma chávena de chá, o maroto desculpou-se dizendo que chá, leite, açúcar e lenha que uma chávena implicava, é despesa perfeitamente dispensável nesta carestia: e para mais, o açúcar, que está tão caro, é causa de diabetes, que por seu turno consome drogas que custam um dinheirão. Ao almoço comeu tão pouco, que o velho censurou-o pela sua demasiada parcimónia. Ao que este respondeu: “Come-se para viver, i.e., o indispensável para conservar corpo e alma unidos. Só os glutões vivem para comer, e isso é um vício tão mau como fumar ou beber, pois além de custar dinheiro, encurta a vida. Para mais, a nossa Santa Religião nos ensina que a gula é um dos sete pecados capitais. Sei que é indelicado fazer reparos à mesa. Mas para que está o senhor a gastar tanto dinheiro em cebola, coco e azeite? Cozer hortaliça e fritar peixe em água é mais económico e não aumenta o colesterol, pois não? Economia, acima de tudo, eis o meu princípio.”

O fona enamorou-se deste jovem que filosofava a cada passo, prova de que pensava profundo e tinha fortes convicções. Era até teólogo: mas, contudo, convidou-o a passar a noite para se conhecerem melhor. Era o que este esperava. A ceia debicou como um passarinho, notando que as refeições da noite devem ser sempre leves, visto que o estômago trabalha menos quando deitado na cama. O velho não sabia como admirar tanta sabedoria em cabeça tão nova. Estava quase decidido a aceitá-lo como genro.

Depois da ceia, foram sentar-se no balcão, para deixar a menina livre para lavar os pratos e fazer as camas. O burlão sugeriu que fosse apagada a pequena candeia que o velho lá pusera, pois era desperdício de petróleo; ele mesmo foi e apagou a luz, não obstante os protestos fingidos do avarento, que tinha gostado da ideia. Ficaram os dois em completa escuridão. Depois de alguns minutos de cavaqueira, o jovem saltou do seu assento como que alguma coisa o tivesse picado. Assustado, o velho quis saber o que fora, e o maroto explicou que era seu hábito, quando estivesse sozinho ou na escuridão, abaixar as calças e sentar-se mas que desta vez se esquecera de o fazer. Intrigado com a revelação, o sovina indagou a causa desta esquisitice e o velhaco disse: “As calças gastam-se nos joelhos e nos fundilhos: no primeiro caso podem ser convertidas em calças curtas, mas no segundo caso ficam inutilizadas. Este hábito que tenho cultivado tem-me poupado muitas calças.

O sovina ficou tão impressionado, pois tal ideia nunca lhe passara pela mente, que resolveu casar a filha com esta jóia de rapaz que a Providência lhe mandara. Certo do consentimento da filha, disse ao figurão que o aceitava de boa vontade como seu futuro genro comensal, e que no dia seguinte os dois iriam ao vigário, ao registo civil e ao tabelião fazer as diligências necessárias, sem mais perda de tempo. Foi dar a filha a boa notícia e foram os três, cada um ao seu quarto, dormir, mas nenhum deles pregou olho, de felizes que estavam, o patife mais que todos.

Fez-se o casamento com a maior economia e o sogro passou ao genro e à filha toda a sua riqueza, convencido de que ela estava mais segura nas mãos de um homem mais económico e meticuloso que ele próprio. A convicção durou pouco. O genro virou a casaca e mostrou-se as suas verdadeiras coras. Fumava como uma chaminé, bebia como um peixe, comia como um cevado e obsequiava amigos como um nababo. Às recriminações do sogro respondia com uma sonora gargalhada. Uma bela manhã encontraram o velho morto na cama, com todas as regras. Suicídio ? Ataque cardíaco? Ninguém sabia. O vigário, o sacristão, dois coveiros, o genro e a filha foram os únicos que o entregaram à terra-mãe. Tal vida, tal morte. E a riqueza? Essa o genro perdulário comia-o mais sofregamente do que os vermes comiam o sogro usuário...

Wednesday, 13 February 2013

Edmundo Pacheco - O Natal do Cauteleiro (1956)

Naquela gélida manhã de Dezembro, Alberto saltara ledo da sua caminha a que se tinha achegado, com a noite a povoar-lhe a cabeça de mil e uma fantasias, qual delas a mais tentadora e obsediante...

De todas, duas ideias tinham-se obcecado implacavelmente e a sua corporização não lhe seria muito difícil, atenta a sua perspicácia. Se outros triunfavam também ele havia de triunfar!

Jovem ainda, 16 primaveras, com alguns invernos bem rigorosos, conhecendo por experiência própria o que era a luta pela vida, guardava sempre bem presente na sua memória, com uma relíquia, uma frase que ouvia repetir constantemente ao seu vizinho, o Doutor Meireles: “Ad augusta per augusta”.

O dealbar da manhã, daquela gélida manhã, de Dezembro, se fora para o Alberto uma maviosa canção da vida, também lhe fera uma surpresa! É que nem sequer previra a hipótese de fazer a travessia da noite em branco, embalado nas seus sonhos cor de rosa...

Em silêncio, sempre em silêncio, pé ante pé, não fosse despertar o sono da sua Mãezinha a quem evitava o mais pequenino desgosto, já pronto, abeirou-se da sua cama e passou-lhe um círculo na testa e, à meia voz, dulcíssima e meiga, chamou-a: Mãezinha! Minha boa e santa mãezinha!

Lentamente, viu a sua Mãezinha abriu os seus formosos olhos, os lábios a esboçarem um sorriso triste e indefinível, com o estigma de sofrimento estampada no seu rosto formosos, restod da sua beleza antiga, que tanto penalizava Alberto.

- Meu filho! Filho da minha alma... do meu coração! E Mãe e filho, num amplexo para confundirem-se por algum tempo.

Docemente, meigamente, levantada a cabeça do filho, e Mãe reviu-o.

- Choras, Mãezinha? Eu também sofro e muito por causa da Mãezinha, que nem a Mãezinha calcula!

Cena arrebatadora, a mais sublime de todas, soberba, divina! D’Annunzio com a sua pena de outro e Tiofane com o seu pincel mágica, não restituiriam ao quadro sedutor, emotivo, impressionante.

Olha, Mãezinha, deixemos isso por agora e vamos às coisas práticas. O Natal este ano tem de ser melhor e eu vou trabalhar para isso! Tive uma ideia: vou vender cautelas e hei-de ganhar muito dinheiro. Sempre, sempre nesta vida que não dá nada! Raio de vida! Concordas, Mãezinha? Para o não contrariar, a Mãe concordou: como quiseres, meu filho. Um abraço breve e ei-lo na Rua, dir-se-ia a voar estonteado.

Conseguidos os números numa casa da Baixa, onde o seu malogrado pai era muito conhecido, todo optimista e aquecido pelo entusiasmo incabível, começou a apregoar: É o 3.4449. Amanhã anda a roda! É o 3.449! Amanhã anda a roda!

Ao entrar na Rua da Conceição quase ia esbarrando com um transeunte que andava um pouco apressado.

- Cavalheiro, compra um número? É o 3.449. Amanhã anda a roda!

- Já agora deixe-me ver o número...

- Compre este, cavalheiro, o *.449. Tenho cá um palpite!

- Deixe-se lá dos seus palpites, que eu também tenho cá os meus...

Era a sua estreia como... “cauteleiro” principiante. O frio quase que o tolhia naquela gélida manhã de Dezembro. Como o navegante que procura o primeiro porto de salvação, procurava os locais abrigados da Nortada e aquecida pelo Sol. Tinha já feito o seu “giro” pela Baixa com uma apreciável receita. Na Avenida da Liberdade detêm-se por momentos e um turbilhão de ideias desorientaram-no deixando-o triste e macambúzio, vergado sob o peso de qualquer coisa que o esmagava inexoravelmente.

Alberto lembra-se agora dolorosamente da tragédia em que numa manhã Sul-America, de Lisboa, ali, onde se encontrava o seu malogrado pai, de volta da última viagem da África, como capitão de navio, num luxuoso “Packard” que trouxera consigo como surpresa, perdera a vida em circunstâncias horripilantes, deixando-o, novo ainda, na orfandade e a sua Mãezinha, em eternas crepes de viúva, conservando, desde então, bem viva a recordação dos seus dias de privações; de viveres, conservando, desde então, bem viva a recordação dos seus dias de privações de época, não muito longínqua em que a dura realidade lhe dera lições magistrais. Baixou a cabeça num profundo e respeitoso silêncio e abalou Avenida acima... É o 3.449, E amanhã anda roda! Olhe o 8.449, o número de palpite!... Vendidas mais alguns números, saltam para “fender” de um “eléctrico” da carreira do Campo Grande, escondendo-se das vistas do condutor que se encontrava no interior do carro a atender os passageiros e que parecia não ter dado pela sua presença. Estava agora na Praça do Duque de Saldanha quando, sentindo a aproximação do condutor, trémulo, baixando-se e olhou para cima, a ver se se encontrava encoberto, quando aquele lhe deitou serradura para os olhos, o que o fez desequilibrar e cair.

- Mãezinha! Minha boa e santa Mãezinha, não me podes acudir, pois não, minha boa mãezinha?! É ajudado por uma vendedeira que ia a passar perto. Já se levantava como pôde e coxeando e com o braço dorido, agradeceu: muito obrigado! Que Deus lhe pague!

- Adeus, rapaz. Boa sorte e livra-te desses malvados com pelos no coração!

- É tão dura a vida! Nem sei para que vivemos, afinal! Pensava de si para si. É o 3.449! E amanhã anda a roda! Ninguém compra! Isto por aqui não dá nada!

Tomado um “eléctrico” voltou para a Baixa, campo proveitoso e fácil.

Já o sol ia a pino! Na Rua da Pretas a “Floresta” parecia convidá-lo. Com um apetite devorador pediu pão com sardinhas e pasteis e saiu, indo sentar-se num banco da Avenida. Para completar, comprou o “Diário de Notícias” que, em grandes paranganas, trazia notícias da Guerra desse dia, e leu: “Berlim, 28 – O Alto Comando do Exército Alemão comunica que na frente de Varsóvia, após batalhas sangrentas, as tropas Germânicas esmagaram as últimas resistências do inimigo. O general Van Baech

- Pst! Ó...

- Quer um número, cavalheiro?

Mais dois números vendidos! Ficara-lhe apenas o 3.449! Der por finda o seu trabalho daquela gélida manhã de Dezembro, mas a notícia que lera no matutino Lisboeta enchia-lhe a cabeça de imagens fantásticas – parece que os Alemães têm o diabo no corpo. Que mania de querem o que é dos outros.

De repente, lembra-se da sua boa Mãezinha, que à esta hora devia estar em <>. Grande foi a sua alegria quando viu a sua Mãezinha, a quem ia contando, todo ofegante, as peripécias daquela gélida manhã de Dezembro.

- Olha, Mãezinha! Quanto dinheiro! Mas só me ficou este numero que, estou certo, será vendido amanhã.

- Já basta, meu filho. É muito o que fizeste hoje. Olha, Alberto, a costura que recebi hoje, e estes livros que a Fernanda me empresta.

Um sono profundo, longo e reparador se apossara de Alberto. A Mãe recolheu sensata à sua cabeceira e absorta balbuciava palavras imperceptíveis, como olhos perlados de lágrimas, que lhe emprestavam uma beleza suave. Vivia só para o seu filho, que adorava.

Aos primeiros alvores da manhã, Alberto, todo prazenteiro e refeito dos trabalhos da véspera, abandonou a sua caminha, ligeiro, mas desta vez encontrou a sua Mãezinha já despertada.

- Mãezinha! Minha boa e santa Mãezinha!

De braços abertos Laura chamou o seu filho:

- Alberto. A Mãezinha pede-te para não saíres hoje, sim? Toma o teu café e vamos conversar.

- Mãezinha, eu só vou acabar de vender o número que resta e volto logo para a casa.

- Vai então, meu filho, e vai com Nossa Senhora!

É o 3.449! Hoje anda a roda! Por mais voltas que desse, não conseguia vender o último número, e número que restava!

A roda já devia estar a correr. Quando chegou ao largo de Trindade Coelho uma enorme multidão comprimia-se num frenesi e breve Alberto, electrizado pelo entusiasmo dos “habilitados”, ia ouvindo os números que pausadamente eram anunciados.

-3.449! 1o prémio! 3.449! 1o prémio! Nervosíssimo e atrapalhado, olhou para o número que tinha na mão, como que a confirmar perto, dois sujeitos com um olhar medonho deixaram-no como que hipnotizado. Um arrepio percorreu-lhe o corpo todo e, olhando em volta, viu um guarda.

- Senhor Guarda! Senhor Guarda! Gritava-lhe todo espavorido! Rápido, o guarda aproximava-se enquanto Alberto agarrava-se-lhe fortemente.

- Vá! Coragem! Diz-me lá que é que tens! E Alberto, sempre abraçado ao guarda, mostrou-lhe o número.

Num momento o guarda alçou-o ao ar e gritou: Atenção! É o 3.449! Eis aqui o detentor da “taluda”! Uma trovoada de palmas atreou os ares enquanto guarda e Alberto tomava um “táxi”. Para a Ajuda ordenou o guarda.

A Rua onde Alberto morava oferecia o aspecto típico das velhas Ruas de Lisboa. Grupos de miúdos traquinavam aqui e acolá, não faltando, de quando em vez cenas de pugilato com comentários do rapazio, acabando sempre a bem, tudo harmonizado. Os pregões estridentes: ali um amolador, mais alem um latoeiro e lá, ao fundo, uma varina ganhando-se da sua fresca e rica mercadoria....

É aqui! O carro parou. Foi motivo de grande curiosidade para a gente da Rua. Da janela de um 1o andar uma jovem senhora, toda aflita. Alberto saía do carro e dizia, voltando-se para a janela: Mãezinha! Minha boa mãezinha. Tive o 1o prémio! E rápido galgou a pequena escadaria, abraçando efusivamente a Mãezinha. A nova correu como um raio. Num tempo-relâmpago toda a gente da vizinhança acorria à casa da D. Laura para associar-se à alegria dos ditosos. Os comentos eram vários e todos eram unânimes em que a sorte grande procurara quem bem a merecia.

Teremos dias melhores e aliviaremos a vida, porque a D. Laura, com o seu coração de diamante olhará por nós, pronta como é em minorar o sofrimento dos mais infelizes, dizia o “tio” João, alcoolizado. “O vinho ainda é o melhor mata-dores,” sentenciava ele, mas agora vem mudar de vida, porque já posso contar com a bondade daquela santa senhora que me dará trabalho.

Lá se fundeava “tia” Engrácia arrimada a sua sólida bengala dificilmente abria caminho por entre a já compacta mole de carícias que enchia a modesta artéria.

- Ó Maria! Ó Antónia! Helena! As suas vozes eram abafadas por milhares de vozes. Raparigas dum diabo. Já ninguém liga a “tia” Engrácia. Este malfito “romátios”. Distribuindo então bengaladas para a direita e para a esquerda encontrava-se já à pequena distância da casa de Alberto. Aqui a confusão era maior ainda. Ó rapariga deixa-me passar! E como não fosse logo obedecida, arrumou-lhe com uma bengalada com verta violência.

- A velha está tonta!

- Ó sua lambisgóia se te pões a falar muito eu te ensinarei a regra de bem viver. Este maldito romático.

Alcançando Alberto abraçou-o ruidosamente felicitando-o

- Não me esquecerei da “tia” Engrácia e do seu reumatismo que será tratato pelos melhores médicos até a tia ficar boa.

- É agora que vais ser o que sempre querias ser, “médico”, não é, minha jóia?

- Sim, “tia” Engrácia, mas hoje, a gente do nosso bairro vai ter um Natal farto e nunca me esquecerei dos pobres. Vamos esvaziar hoje a mercearia do “tio” José. Balões, marchas a “flambeas”, eu sei lá... eu voltando para a Mãezinha:

- Concordas, Mãezinha?

- Pois, então não havia de concordar, vida da minha vida? E duas lágrimas saltaram dos formosos olhos da D. Laura. Alberto abraço-a e meigamente perguntou: Que é isto, Mãezinha? Voltas a chorar, minha boa e santa Mãezinha?

- São lágrimas de alegria, são lágrimas por seres bom, com sentimentos tão humanitários, luz da minha vida.

Havia quem chorasse!

As primeiras sombras da noite, o bairro, sempre pacato, aparentava-se agora ruidoso, todo embandeirado, cheio de balões, exultante de alegria e sorrisos optimistas à vida...

Altas horas de madrugada Alberto rendeu-se a Morfeu, que o perseguia impiedosa e sistematicamente. Lá fora, os folgazões impenitentes continuavam vencendo a noite em expansões de alegria, até ao amanhecer.

O sol ia já alto, dourando o quarto de Alberto. Na meia-sonolência as imagens daquela gélida manhã de Dezembro perpassavam-lhe como num “écran”...

Como tudo lhe parecia um sonho, quando tudo, afinal, era uma realidade...

Tuesday, 29 January 2013

Maria da Luz - Absolto (1956)

Num fim de Maio embarcou com destino à vida. Estava mar e viajar no convés foi coisa horrível. Jurou nunca mais fazê-lo. Era preciso, mas é, arranjar dinheiro para as passagens do camarote da primeira. Ali sim! Viajava-se bem, e o contraste entre as condições do convés e o luxo das cabines era demasiado abismante, para não excitar o sadismo que todo o homem possui.

Depois... tinha em casa uma mulher que era um mimo. E o filhinho recém-nascido! Porque não seria ele um reizinho, fazendo tudo quanto fazem os filhos de gente de bem?!

A manhã raiava fresca, mas sem encantos. Os encantos deixara-os todos no cais da sua terra, quando retraído e humilde, como são os do seu sangue, acenou à mulher e ao filho com o seu lenço, amarelo de tanto tempo que esteve sem uso, na “área” da sua casa. Não era o único a partir, embora de todos os mais moiro. Um irmão do batcará, rico e, ao que dizia, muito parecido com ele – a maledicência popular atribuía a esse senhor de gente de bem, a paternidade do nosso José – seria o seu futuro patrão. Ia para criado de mesa da sua casa.

O porto estava à vista. Um pouco de água suja, adocicada – chamavam a isso chá – num púcaro muito velho de alumínio e uma fatia de pão torrado, foi o seu pequeno almoço. Bebeu e comeu num instante e apertou o seu saco de viagem. Ao longe, via uma agitação que nunca vira: eléctricos, guindastes, autobus de dois andares. Mas tudo isso de nada servia: a mulher ficara em casa, grávida, à espera de novo filho, e a cuidar do outro que já tinha. Sentiu uma lágrima húmida na sua face encovada de fome. Sacudiu-a, importuna que era. A lágrima secou. O seu menino, porém, não mais lhe saiu de olhos. “Que bonito que era, e quanto eram parecidos, pai e filho”. Embocou-se e acarinhou o seu saco de viagem. O regresso não tardaria...

Já na alfândega, fizeram-lhe desarrumar o saco; mexeram-lhe em tudo e perguntaram-lhe se trazia contrabando. Borgaço, e boçal, recém-vindo da sua aldeia e atirado de chofre contra uma cidade endemoinhada, abriu muito os olhos para compreender tão misteriosa pergunta. Gaguejou um não, que lhe mereceu o sumário “suspeito”, dita seca e ciosamente pelo alfandegário. Também, não compreendeu o que dele acabavam de julgar. Sentiu o perigo só quando um guarda, pegou-lhe pela gola do casaco e arrastou-o à cela.

- Não toque no meu casaco – bradara de raiva, ao ver tão mal tratado o seu melhor “coat”.

A ninguém comoveu o seu lamento. Riram-se do “suspeito” e meterem-no na cela. Que triste surpresa! Porque o prendiam – ninguém o dizia. Nem lhe esclareciam o que seria feito da mulher e do filho que deixara na terra! Chorou de cor, amargura, incerteza e inconformismo! Arguiu o seu caso, para ele com lógica, para os outros, estupidamente. Prontificara-se a jurar pela sua inocência, pondo a mão no crucifixo. Mas não lhe aceitaremos semelhante prova de honestidade.

- Que homens, que nem no juramento acreditam? – chorou deseperado.

Aos poucos, foi-se habituando à vida da cela. Já lhe tinham revistado tudo, mas nada lhe apanharam. Depois mandaram-no despir, e quanto o ofendeu esta ordem! Foi em vão que quis ser pudibundo! Queriam-lhe ver tudo, mas tudo. Nunca sofrera semelhante vexame. Até o médico da sua aldeia, era mais compreensivo. Após o exame convenceram-se de que nada trazia.

- Mas o que posso trazer – perguntava o José – se venho aqui para levar dinheiro para a minha mulher e os meus filhos (o que tenho e o que há de nascer)?

Conservaram-no mais uns dias na cela, a pretexto de lhe extraírem confissões a respeito de “outros” contrabandistas. Mas quais “outros”? Se ele nem sequer as conhecia?

Por fim, fizeram-no comparecer num tribunal e mandaram-no em paz! Que alegria! Ia escrever à mulher, ou melhor, ia à casa do seu patrão, pedir-lhe que lhe fizesse o favor de escrever à sua mulher.

Andou à roda da cidade três dias, sem saber onde o patrão morava. Perdera a direcção, mas lembrava-se bem da descrição que lhe haviam feito do patrão. Perguntou a mil e uma pessoas, e a todos deu as indicações que sabia! Uns não lhe compreendiam a língua! Outros riram da sua ingenuidade. Até que por fim, mais por acaso do que por qualquer outra circunstância, viu o patrão, em pessoa, numa via pública. Correu para ele, e pô-lo ao corrente do que se passara.

O patrão fixou muito a sua cara, e disse, sem mais somentos:

“Julguei que já não vinha. Faz dezoito dias que contratei outro criado”

“Mas então, o que será da minha mulher e dos meus filhos (o que tenho e o que há-de nascer)?”

Não obteve resposta. Passou a mão pela cara. Tão desesperado, que nem lágrimas tinha. Sentou-se no passeio para não cair. Sem vintém no bolso; o que tinha, gastara nos três dias que andou à procura do patrão! O passeio era mais porco do que o convés do barão: papeis de todas as cores, nódoas vermelhas de betel em todo o lado! Encostou-se a um poste... dormiu e sonhou: que alívio para a fadiga! Estava rico e regressava à terra, no camarote da primeira. A mulher esperava-o no porto, com dois miúdos crescidos. Que bonitos que eram, e quanto se pareciam com ele. Agora estava rico. Era homem. Já não precisava de falar com a mulher humilde e retraidamente. Era “gente” como qualquer outro ricaço. Havia de beijá-la, como os ricos beijam quando se cumprimentam... Reparou que a mulher ainda se atrapalhava... Afastou-o de envergonhada. “Mas porquê? Se temos direito à vida como qualquer outro”. A mulher dizia que não, que ainda eram humildes e “gente pequena”. Bateu com o pé no chão, furioso que estava perante tão servil companheira.” Fê-lo com força e acordou!

Envergonhou-se da sua vaidade, do seu sonho, da sua estupidez. Levantou-se, pegou no saco e caminhou sem propósito. Estava com fome, embora sem dinheiro. “Nada há que subordine o estômago à bolsa” pensou.

A fome ia-lhe torturando o ventre. Que caimbrãs que ela fazia. Tomou coragem e entrou num restaurante. Chegou-se a um criado que parecia ser seu patrício e explicou-lhe a sua situação. Este, arranjou-lhe um emprego. Que bem! Tinha cama, mesa, trabalho e 30 rupias mensais!

Nessa mesma noite deitou ao correio uma carta para a mulher...

Afagou a carta antes de a deitar, e limpou as mãos húmidas de lágrimas, ao maro marco postal.

Agora estava menos bicho de mato. Conhecia a cidade. Esquecera, ser da aldeia. Enquanto tinha boas notícias tudo lhe correu bem! O filho, que esperava, já tinha nascido. O outro ia bem, assim diziam as cartas que lhe liam.

Depois as cartas começaram a rarear! A mulher dizia-se doente. Os filhos nunca mais ficavam livres de pequenas enfermidades. As dívidas cresciam! O barco que o trouxera, continuava a fazer viagens para a sua terra levando getne nos camarotes da 1a, e nos “decks”, e ele nem de “deck” podia viajar... tão sem dinheiro estava.

Um dia foi acusado de ter roubado trinta e tal rupias ao patrão. Foi preso . Esteve mês e qualquer coisa na polícia. Por fim, o juiz absolveu-o. Faltavam provas. Quando chegou ao quarto onde deixara o seu saco de viagem, esperava-o uma carta tarjada de negro. A mulher fora internada num hospital na enfermaria dos pobres. O seu filho mais velho falecera, por falta de dinheiro. “Que bonito que era, e quanto se parecia comigo” – soluçou. O outro filho estava também muito doente de baço. Definhava muito, enquanto a barriga crescia extraordinariamente – eram as águas da sua aldeia que provocavam semelhante mal! Depois de “ouvir” a carta pediu-a; dobrou-a, conservou-a muito juntinho ao coração, num bolso interior do casaco, pegou no saco e partiu sem destino.

Precisara de dinheiro, roubara-o, fora absolto e à sua família nenhumbem fizera. Riu-se do mundo, da justiça, dos homens e de si próprio. Lançou para longe o saco de viagem, cabriolou furiosamente e sentiu que já não estava em si. O tê-lo reconhecido, ainda mais o enlouqueceu.

Dali em diante, passou a ser o deleite da petizada. Despia em plena rua e pedia que o revistassem para verem se trazia contrabando! Quando levado à esquadra, por causar escândalo público, ria-se muito e dizia: Estou absolto! Tantas vezes lhe ouviram isso, que todos a ele se habituaram. Só os turistas achavam curioso vê-lo no meio de crianças, ora imitando o juiz, ora fazendo-se réu, ora advogado, para no fim dizer:

“Absolto!”

Wednesday, 5 December 2012

Nazareno - A Aguadeira (1954)

Ao fundo da sala, propositadamente escolho a cadeira mais apta a proporcionar uma indolência a que lanço reconfortante e lenço o corpo e o espírito na corrente mole que o ar do Café engrossa.

A telefonia conta, em segredos de música, a espalharem mais calor nos nervos, episódios de beleza imaginada – lances arrancados a uma superficialidade brutal que não obriga a pensar.

A esta hora – a tarde nasceu há pouco – a sala deserta intensifica o desejo duma fuga à realidade – cobardia assinalada por um mal estar que, a espaços, me aperta a respiração.

Um quadro de todos os dias que, hoje, repentinamente e sem aviso, resolveu mudar.

Ela apareceu no vazio da porta que dá entrada ao recinto; apareceu e escapou-se, logo, indiferente ao silêncio e à música. Os dois “salões” equilibrados no corpo escanzelado – jogo de braços e quadris – voltou a passar naquele intervalo de paredes onde uma escada se projecta, superior ao esforço da aguadeira, talvez a rir-se dos movimentos caricatos que a subida lhe atira às pernas.

Aquela figura tem séculos de poesia romântica a partirem-lhe os pobres ombros que se aproximam irresistivelmente a quererem fechar o peito que já mal pode gritar. É uma figura de adorno na visão febril dos poetas olheirentos, na sensibilidade esponjosa de lírico impenitentes que andam a medir as noites pelo número de estrelas e a conversar com as fontes que, às vezes, nem água têm o inegável mérito de fornecer material para um soneto recheado de comparações luminosas – para um autêntico soneto!

A mulher continua a passar, a vergastar-me os olhos com a sujidade do sari, a recalcar–me os últimos desejos de indiferença – a impor-me conclusões.

Vergo-me ao peso da sua presença, do cabelo revolto, do rictus de fatalidade que se agarrou àquele fase onde a idade intruja, onde há a marca rebaixada de milhares de horas iguais, na luta a na resig-

(Segue na quarta página)

nação.

Olhou-me – um olhar comprometido – e eu pus na minha expressão todos os efeitos das verdades que se arozam na minha consciência de homem da rua. Fitei-a num grito de compreensão que nunca poderá servir de tema aos poetas olheirentos que andam a medir a noite pelo número de estrelas. Naquele momento, parece-me que cheguei a ser irmão da aguadeira. Talvez, por isso, deitei-me a imaginar os dias que a vida lhe roubou, em negaças, em troços, em desprezo.

De certo, foi bela. De certo, aquele corpo amassado de trabalhos desejou o amor com a ânsia que dá a contemplação da beleza própria. De certo, teve sonhos e ouviu palavras inspiradoras de insónias. Momentos houve em que o seu destino se comprimia nas dimensões dum punho. Tão fácil tudo, tão realizáveis as aspirações dessa mulherzinha de porte virgem e flores na trança. Foram as negaças da vida.

Depois, os primeiros passos na criação dum presente que nunca deu margem a alimentar um futuro. A casa estranha, o homem, a obediência e os filhos. E tudo o mais... numa precipitação de reveses, num conjunto frio que foi anulando o resto de calor que o sangue de dúzia e meia de primaveras ainda aguentava. Foi a vida a troçar.

Hoje, autómata no sofrimento, já nem analisa os factos que mataram os mais queridos desejos, já nem lhe importa a cor do sol que vai nascer. Os músculos empurram-na como se fosse embrulho sujo e inútil que pode cair na primeira sarjeta. Ela é capaz de admitir que nas dobras da sua existência possa andar a ironia da quadratura do círculo.

Torna-se tão igual, nos gestos e no querer, ao cachorro dedicado a coxear das últimas pancadas, que as gentes confundem a falta de posses com o vício do infortúnio. E esmagam-na, cada vez mais. Chegam a dizer que estão a medir toda a extensão da sua cobardia e vão pisando mais forte. É a vida a desprezá-la...

A vida! Feita de milhões de princípios nascidos, mais ou menos, ia estupidez fria dos ambientes humanos que a conveniência gerou. Um montão de hábitos cómodos, riquíssimos de contradições palpitantes que nunca andam nas razões dos sonetos recheados de comparações luminosas.

Visto o problema assim, fica-me a dúvida se a Vida, a verdadeira, a única, não está mais na visão clara e interessada, generosa e irmã, de tudo o que a aguadeira não chegou a ser, que na aceitação distante – e, quando próxima, egoísta, até sádica – daquilo que os homens quiserem que ela fosse.

Ipsilon - A Sorte de uma Batcarina (1963)

Chamava-se D. Isménia e era viúva dum médico muito recorrido e popular, a quem, por isso mesmo talvez, ninguém lhe pagava as visitas. As suas receitas limitavam-se apenas a poções que, com grande resultado, ministrava aos seus doentes, reservando para si o mínimo lucro. Era poupado e chegou a ter umas economias que lhe permitiriam reparar o casebre em que viviam, benfeitorizar o seu minúsculo gorbat e uma várzeazinha.

Quando o marido faleceu os recursos financeiros de D. Isménia limitavam-se apenas às rendas do palmar, duma várzea e de uma dezena de acções de Comunidade.

Como o pardieiro em que vivia, ficava situado num lugar isolado e ela era muito medrosa, teve que sustentar um criado, não porque precisasse dele para qualquer serviço, mas mais para ter sua companhia, pois ninguém a visitava Senão de raro em raro.

A sua alimentação reduzia-se ao arroz e carril e, no dia de festa do orago, trazia um pedacito de carne de porco com o que se banquetavam ela, que era uma velhinha, e o criado que era um latagão.

Apesar de tudo o seu palmarzito era assaltado por gatunos que nem lhe deixavam metade do seu produto; quanto às jacas, não lhe deixavam nem uma e um pé de malcurada de grande estimação da velhinha era alvo das pedradas da garotada, que, quando enxotada, lhe correspondia zombeteiramente arremedando-lhe a voz e o gesto.

A várzea estava arrendada a 7 candis de bate, com o que ficavam satisfeitas as necessidade dela, do criado, de umas 5 galinhas e um porquito, sobejando-lhe ainda o necessário para um pouco de canja e um punhado de arroz a dois pobres que lhe vinham à porta todas as sextas-feiras da semana. Vivia assim a D. Isménia numa miséria feliz.

A certa altura, o criado que se chama Daniel, declarando que estava ao serviço dela há um ano, exigiu aumento de salário, alegando que o que ganhava não lhe permitia usar fatos limpos, aparar o cabelo mentalmente, fumar uns cigarros decentes, etc.

A D. Isménia que não encontrava outro que o subsituísse e também porque tinha ganho uma certa afeição pelo rapaz, condescendeu em lhe elevar o vencimento.

Sucedeu que o Daniel Fosse gostando duma rapariga que, por sua vez, era cortejada por um outro, derrubador, de nome Xavier. Claro está que os dois, quando se encontrassem, ferviam em mútuas raivas. Como Daniel tivesse percebido ser o Xavier que estava roubando os cocos da patroa e querendo desforrar-se, foi no encalço do gatuno e, como era forte, segurou-o e com os cinco cocos que tinha colhido, levou-o ao regedor.

Este, com uma rota em que declarava apanhado em flagrante, remeteu-o por um cabo da Policia ao Mamlatdar, onde o gatuno confessou o furto, declarou que o tinha practicado, obrigado pela fome. Condoído com esta narrativa que o homem soube fazer como emérito comediante, o mamlatdar mandou-o em paz. De volta, Xavier que veio de táxi, queimou abundante foguetório à porta de D. Isménia.

Quando foi da colheita da sua várzea, em vez de 7 candis de bate que devia receber, o arrendatário convidou-a a assistir à colheita e deu-lhe apenas 2 candis e 12 curós que representava a sexta parte da produção e mal chegavam para a alimentação do criado.

Por outro lado, as Comunidades onde tinha acções com a renda dos quaid, acrescidas com as receitas do palmar, pretendia pagar o salário do criado, teve o desgosto de saber que estavam deficitárias e não davam renda alguma. Para se manter, teve de recorrer ao expediente de dúvidas.

Por acaso, o marido de D. Isménia tratara, numa doença grave, um pobretão, que,

(segue na 4a. Página)

em testemunho da sua infinita gratidão, lhe pediu para ser padrinho da sua criança, primogénita que nasceria dali a meses, após 10 anos de casado.

Passados 15 anos, o padrinho abanara ao afilhado, já órfão do pai, passagem para o Golfo Pérsico, donde este voltara rico. Foi justamente a este que Dona Isménia recorreu num dos seus momentos aflitivos. O afilhado do marido concordou em lhe dar o empréstimo solicitado, alegando ter mourejado 25 anos em terras inóspitas, mediante o juro de 10% ao ano e hipoteca geral tde tudo quanto ela possuísse, sem outras formalidades.

O contrato foi por um escrito legalizado pela maneira actual, sem intervenção notarial.

Como o dinheiro assim obtido, D. Isménia pôde satisfazer os vencimentos atrasados do criados e teve de se alimentar com chá e uma fatia do pão, com o que, dentro em pouco, a sua saúde se tornou precária.

Certo dia, como o criado tivesse notado que D. Isménia não saíra ainda do quarto a horas em que constumava ir para a Missa, chamou-a discretamente da porta do seu quarto e, como ela não desse acordo, entrou e viu que continuava estendida no seu canapé, sem sinal de vida.

Correu apressadamente à casa do médico que verificou o cadáver e deu como causa da morte a inanição; pois a velhinha não tivera nem pão nem chá nas últimas 24 horas.

Monday, 29 October 2012

Telo de Mascarenhas - O Tesouro Oculto (1975)

Findo o curso do Liceu, nas férias grandes, Dona Leocádia foi com o filho visitar a família de Luís Bernardo, parentes afastados que Carlos Manuel não conhecia ainda. E ao ver Rosália, de rosto oval de madona, dum moreno doirado, emoldurado de bandós negros, olhos vivos e expressivos, airosa e grácil, exuberante, sorridente e vibrante como uma corda tensa de violino, um doce enleio se apoderou do seu coração. Sentiu-se diante dela confuso e acanhado como um colegial. E os olhares furtivos de Carlos Manuel foram mais expressivos do que o mais belo poema lírico.

Quando estudante do Liceu Carlos Manuel fora um romântico impenitente; mas os primeiros rebates sentimentais da sua adolescência não tinham deixado vestígios nem causado danos ao seu coração.

Naquele primeiro encontro ele manteve-se distante e discreto sem deixar transparente o sentimento que lhe agitava a alma. Mas ela que, com o seu sexto sentido de mulher, adivinhara ter causado nele certo alvoroço, não se deu por achada e tratou-o com calma deferência e simulada indiferença, como se trata um parente de cerimónia.

Havia muito que as duas famílias não se visitavam. Mas agora que Carlos Manuel estava quase um homem, com dezoito anos feitos, precisava de conviver, de conhecer a parentela, de sair da concha em que sempre tinha vivido, e impunha-se à Dona Leocádia o dever de o apresentar aos parentes, e não fazer dele um ser esquivo e insociável como um animal bravio.

“Que curso vais fazer, Carlos Manuel? Com certeza não vais ficar só com o Liceu”, perguntou Dona Ubélia.

“Nesta terra onde não há muito por onde escolher, minha tia, só se pode ser Médico-Cirurgião ou então Adv., quero dizer, advogado provisionário, como toda a gente. Eu optei pela medicina, que para chicana não tenho jeito”, disse Carlos Manuel.

“É uma bela profissão para minorar o mal alheio”, observou Dona Ubélia.

“Eu estou a precisar dum médico na parentela para me curar dos meus achaques”, gracejou Luís Bernardo.

Rosália descera ao jardim, como era seu costume todas as manhãs, para colher flores de jasmim que, como minúsculos flocos de neve, salpicavam as moitas de jasmineiros junto do muro. Enfiava-as em grinalda com que enfeitava o cabelo apartado ao meio e apanhado atrás em carapito frouxo descaído na nuca, que lhe dava um ar langoroso e sonhador das heroínas dos contos de amor.

Carlos Manuel lhe dissera quando, no dia anterior, ela lhe aparecera com aquele penteado gracioso, circundado da enfiada de jasmina, como uma aureola: “Fica-lhe admiravelmente, bem esse penteado, Rosália. Por momentos tive a impressão de que eras uma figura animada dos frescos de Ajanta, caminhando para mim”.

Rosália sorrira e agradecera-lha, lisonjeada o galanteio.

Carlos Manuel desceu atrás dela ao jardim e disse-lhe: “Shakuntalá, no ermitério da floresta, devia ser como Rosália, amiga das flores e da natureza. E foi breve o seu idílio com o rei Dachanta. Também para mim chegou o momento de partir. O rei dera à filha adoptiva do eremita, como recordação, um anel com o seu nome gravado. E o quê me vais dar, Rosália, para eu me lembrar de si?”, perguntou-lhe Carlos Manuel.

“Nada mais lhe posso dar que valha tanto para mim como esta rosa, símbolo do meu nome e da minha afeição por si. Mas as rosas tem a vida efémera duma manhã e a sua lembrança morrerá com ela, certamente, e se esquecera de mim”, disse Rosália, pesarosa.

“Creia que, longe ou perto a sua imagem viverá sempre no meu coração e no meu pensamento”, asseverou Carlos Manuel.

“Com tempo veremos”, disse Rosália, com lágrimas na voz.

Dona Leocádia assomou à varanda e lembrou ao filho que eram horas de se porem a caminho. E a iminência da separação veio angustiar ainda mais os dois corações e interromper o breve idílio junto do jasmineiro.

Foi dolorosa a separação para os dois corações que mal preludiavam a eterna canção de amor. E Rosália sentiu pela primeira vez na sua vida, uma imensa dor no coração como se um punhal de indizível saudade o tivesse trespassado, traiçoeiramente. Perdera a habitual alegria de viver e andava triste e suspirosa, alheada e distante, gemendo em solilóquio: “Quando viras tu, quando?”.

A mãe perguntou-lhe um dia: “O que tens tu, menina, que andas a suspirar pelos cantos, como uma viúva?”.

“Não tenho nada, mãe. Então, o que é que eu havia de ter?”.

“Parece que ficaste com pena de não teres ido com a prima Leocádia”, disse Isabel, a irmã mais nova, em tom malicioso, olhando-a de soslaio, enquanto bordavam.

“Cala-te, minha pateta. Tu, que pareces que não partes um prato, sais-te com cada uma!” repreendeu Rosália com um sorriso triste.

Telo de Mascarenhas - O Tesouro Oculto

Bensaulim é uma aldeia de beira-mar, acolhedora e remansosa, aninhada sob as frondes das palmeiras, que o vento da tarde faz fremir como harpas encantadas.

As figueiras da Índia de porte majestoso e ramaria em umbela, são como naves silenciosas de catedrais, dando sombra e frescura à beira dos caminhos. Antigamente, aquelas árvores seculares, que a tradição santificara eram as guardiãs da aldeia. Sob a sua copa frondosa reuniam-se os aldeões, à tarde, finda a labuta do dia e, sentados em volta da peanha circular de pedra, assistiam à representações cénicas dos episódios heróicos e líricos das grandes epopeias, entoavam hinos a Hari, ou ouviam narrar os contos e as fábulas do “Panchachantra”. Agora, porém, perdido o seu carácter de ‘ficus religiosa’ e de centro social da aldeia, aquelas árvores acoitam na sua ramaria bandos de gralhas bulhentas e crocitantes e nos ocos dos seus troncos cobras de capelo oscilante e coruscante, com o tiara incrustada de pedrarias.

Em volta, várzeas e valados, cômoros e lagoas floridas de nenúfares, dão àquela aldeia o aspecto bucólico duma écloga pastoril. Para além das várzeas e palmares estendem-se as dunas e a praia de areias fulvas onde o mar espraia as suas ondas soluçantes, franjadas de alva espuma rendilhada.

Sobranceiro a uma grande lagoa fica o velho solar, bastante danificado pelo tempo, de Luís Bernardo, representante duma das mais antigas famílias daquela aldeia. Como quase todas as casas dos grandes propriedades rurais, a casa de Luís Bernardo havia decaído, devido não só ao grande estadão de vida que os seus antepassados levaram para honrar a tradição, com banquetes e bailes de espavento, mas também porque as suas terras, em parte hipotecadas ou alienadas, e cultivadas com métodos rotineiros, através de gerações, haviam empobrecido.

Com a sua estatura avantajada, olhar inteligente e nariz proeminente, Luís Bernardo, se em vez do seu democrático boné, bigode e mosca, arvorasse turbante rutilante de seda e pedrarias e barba frondosa, seria a imagem viva de guerreiro rajput das pinturas murais dos palácios principescos de Udeipur.

Luís Bernando tinha o ar afidalgado, maneiras requintadas e hábitos hospitaleiros. E não obstante a sua idade avançada, possuía espírito jovem e encarava a vida com optimismo e bom humor.

D. Ubélia, sua esposa e companheira de muitos anos, dera-lhe um filho e duas filhas. O rapaz, José Manoel, feita a instrução primária e aprendios os rudimentos de solfejo e violino, andara a estudar inglês com o fito de ir para África ganhar a vida. A filha mais velha, Rosália, era uma rapariga azougada e espirituosa, de olhos negros e sorriso gracioso. A outra, Isabel, sorridente e esquiva, parecia viver desprendida do mundo, como se tivesse feito o voto de renúncia e sacríficio. A mãe adestrara-se nos trabalhos de agulha e lavores, e elas com as suas mãos de prata, bordando e tecendo, supriam o magro orçamento doméstico.

A preocupação constante de Luís Bernardo era desencantar o tesouro oculto da família que, segundo a tradição, devia estar enterrado no quintal ou nos baixos da casa, como era uso nos tempos distantes de frequentes incursões das hordas de Bijapur e outros invasores, empenhados no saque e rapina. Com aquele tesouro dos seus antepassados contava Luís Bernardo restaurar o seu velho solar escalavrado e melhorar as condições económicas da família. E obcecado por aquela ideia fazia pesquisas diárias, dirigindo os trabalhos de escavação, revolvendo o quintal e os baixos da casa. Andava naquela faina havia anos, na ânsia de ver surgir à luz do sol o decantado tesouro. Tinham sido, porém, até então, baldados todos os seus esforços. Estava, por isso, pesaroso e decepcionado.

Uma tarde, findas as pesquisas do dia, dirigiu-se Luís Bernardo, extenuado e descoroçoado, para a sala de costura onde D. Ubélia e as filhas estavam atarefadas a bordar uma colcha a matiz, e, atirando-se para cima duma cadeira de espreguiçar, desafabou: ‘E não há meio de dar com ele. Maldita sorte a minha”.

“Com quê, meu pai?”, inquiriu Rosália, simulando curiosidade, embora ela soubesse muito bem a que queria referir.

“Ora, com que havia de ser?! Com aquilo que eu procuro. Com o tesouro da nossa família”, disse ele mal humorado.

“O pai espera ainda desencatá-lo?”, tornou ela com cepticismo.

“Porquê não, menina? A perseverança tudo alcança” disse Luís Bernardo com teimosia.

O pai já revolveu quase tudo. Por esse andar é bem capaz de deitar a casa abaixo. E se o tesouro não passa duma lenda, meu pai?” tornou ela a perguntar.

“Impossível, menina!”, disse ele com energia, quase agastado. “O teu avô sempre falava nele. Mas, grande politicão como era, mais interessado com as lutas eleiçoeiras e festanças do que com o bem estar da família, nunca se importou com isso. Dizia ele que tinha achado na livraria um pergaminho manuscrito entre as folhas dum velho códice, especificando as preciosidades que o tesouro continha: ricos “mohurs” de oiro do tempo dos mongóis, jóias e aljôfares, cintas e braceletes incrustadas de pedrarias. Uma verdadeira fortuna, capaz de tentar Genghis Khan”.

“Não teria Rauji Rane, aquando da incursão à nossa aldeia, desenterrado e levado o tesouro? Diz o povo que Rauji Rane levou um grande despojo da nossa aldeia”, observou Rosália com uma pontinha de malícia.

“Rauji Rane, ainda aparentado à nossa família, foi grande amigo do teu avô”, disse Luís Bernardo, com orgulho. “Ele foi um guerreiro que lutou para reivindicar os justos direitos do nosso povo. Não era um vulgar bandoleiro, e incapaz de uma acção dessas. Foram os outros, com certeza, que roubaram e saquearam à sombra do seu nome”.

“Deus o ajude a achá-lo, pai. Já é tempo de sairmos desta mediania”, disse, por fim, Rosália, conformada.

“Mesmo na nossa mediania temos sido felizes. Para que cobiçar grandes riquezas? Até Deus podia levar a mal”, observou D. Ubélia, com a sua resignação cristã.

“Ora, cantigas, mulher; Deus importa-se lá com as nossas necessidades?” volveu Luís Bernardo.

“Não sejas herege, homem, nem ambicioso”, censurou D. Ubélia.

“Não sou herege nem ambicioso, criatura de Deus! Apenas desejo reaver o que é nosso. E aquilo que foi dos nossos antepassados de direito nos pertence. Nem Deus pode levar a mal que assim seja”, replicou ele mal-humorado.

“E não vês que isso te tira o sossego do espírito?”, disse D. Ubélia para o aplacar. “Pois, sim! O maior desassossego é uma pessoa andar a tinir. E nem o céu se ganha sem trabalhos e canseiras”, disse Luís Bernardo, como que se quisesse pôr termo ao assunto.

Levantou-se e saiu resmugando, arrastando os chinelos para se ir refastelar no balcão e fumar, descansado, o seu cigarro.

Nisto, viu vir subindo os

(segue na 5a pagina)

degraus do balcão, com ares misteriosos e modos mesureiros, Manoel João, o casamenteiro. O ofício de casamenteiro é muito antigo nas aldeias de Goa, tão antigo como a própria instituição do casamento. Não há aldeia que não tenha o seu casamenteiro que, incumbido pelos pais com filhas casadoiras, leva a proposta à algum jovem, herdeiro rico, ou lançado na vida como funcionário público, por mais modesta que seja a sua categoria, porque um emprego público é aspiração máxima numa terra sem grandes horizontes nem perspectivas, como é a nossa. Ou então são os pais de filhos que voltam da África ou de Bombaim, com algum pecúlio, e os querem casar nas famílias de alto nível social, mas decaídas de fortuna.

Manoel João era o casamenteiro da aldeia. Pequeno proprietário, lançara mão daquela missão benfazeja que lhe dava o direito a uma percentagem sobre o dote, e comia a dois carrilhos – da família da noiva e do noivo.

Luís Bernardo, pressentindo ao que ele vinha, acolheu-o com o seu hábil ar galhofeiro: “Então, Manoel João, que bons ares o trazem a esta sua casa!”

Há muito tencionava fazer uma visita ao batcará, para saber da sua saúde”, disse Manoel João com a sua manha habitual.

“Bom, bom, não há razão para sustos. Sente-se, Manoel João, e conte como lhe corre a vida”.

“Se o batcará dá licença”, disse ele e sentou-se na extremidade de um banco. “A vida vai mal, batcará, muito mal. A minha profissão está a dar pouco. Uma crise pavorosa. Cada vez recorrem menos aos meus bons ofícios”.

“Então, que quer Manoel João? O preceito “crescei e multiplicai-vos” não se coaduna com estes tempos de vacas magras. No entanto, não me consta que alguém tenha feito voto de celibato”, disse Luís Bernardo.

“O mundo está perdido, batcará”, tornou Manoel João. “A gente nova faz pouco caso dos nossos bons e moralizadores costumes. Pegam em namoriscar e as duas por três estão casados sem se importarem com o futuro, quer dizer, com o dote nem com os conselhos dos pais”

“Mas isso é óptimo, Manoel João. Porque, afinal, quem se casa são os filhos e não os pais”.

“Vejo que está demasiadamente moralizador e pessimista, Manoel João. Então, assim, pela hora da morte, os seus bons ofícios de casamenteiro?”

“É como diz, batcará. O meu ofício não dá para mandar cantar um cego”.

“O meu amigo já fez uma razoável fortuna. Podia agora descansar e gozar o que ganhou casando os outros”.

“São mais vozes de que as nozes, batcará. Eu ando nisto devido a extrema necessidade que tenho de ganhar a vida. A propósito. Trago a proposta de filho de Manoel da Anastácia que, como sabe, voltou há pouco da África. É muito bom trabalhador, e deve dar um bom marido”.

O filho de Manoel da Anastácia que abalou há anos, quase descalço, para África? E como chegou ele a fazer fortuna, homem?”, perguntou Luís Bernardo.

“A África, como o batcará sabe, é um El-Dorado para quem tenha expediente e habildade. Dizem que o rapaz andou no mato a vender aos pretos riscado pelo preço do brocado e fez fortuna.”

“Magnifico, Manoel João! Esta proposta pode fazer a sua fortuna. Não o poupe. Ele que andou a esfolar o negro, pode enchê-lo de oiro.”

“Eu tinha pensado numa dessas filhas do batecará. É um belo partido. E a sua filha seria tratada como uma rainha.”

“Deus me livre falar-lhe nisso. Eu conheço bem as minhas filhas. O oiro nunca as tentou. Veio bater a má porta, Manoel João.”

“Para falar verdade batecará realmente a diferença de famílias é um grade empecilho. Contudo, há precedente. Como sabe, o filho de Gertrudes piladeira, que tem grandes estabelecimentos em Mombaça, onde ele é vice-consul de Portugal, casou com a filha do batcará da Casa Grande”.

“Cada um sabe as linhas com que se cose, meu amigo”, disse Luís Bernardo, causticante.

“O batcará não leve a mal o meu atrevimento. Pensei que talvez chegássemos a um entendimento e o casamento se fizesse. Visto isso, retiro-me, se me dá licença”.

“Pois bem, Manoel João. Estimei vê-lo”, disse Luís Bernardo, despedindo-o.

Manoel João levantou-se, limpou ao lenço encanado as bagas de suor que lhe perlava o rosto e, vendo goradas as suas diligências, foi descendo os degraus do balcão, arreliado com a sua vida, cabisbaixo e vexado, como um cão batido, murmurando entre dentes: “Pobres mas soberbos”.

Ao jantar, Luís Bernardo deu a novidade à família: “Sabem quem esteve cá esta tarde?”

“Quem foi”, perguntou D. Ubélia.

“Manoel João”, disse ele.

“Manoel João, casamenteiro? E o que é que ele queria pois? Quis saber Rosália, ardendo de curiosidade.”

“Vinha com a proposta do filho de Manoel da Anastácia para uma de vocês”.

“Do filho de Manoel de Anastácia que chegou há dias da África?” perguntou D. Ubélia.

“Esse mesmo. Mas eu tirei-lhe as ilusões”, disse Luís Bernardo, autoritárian.

“Deus me livre de casar com o filho de Manoel de Anastácia; nem que ele fosse pintado a oiro. Prefiro ficar solteira toda a vida”, foi o comentário tempestuoso de Rosália.

“E tu, Isabel, o que dizes?”, perguntou Luís Bernardo à filha mais nova, para a arreliar.

“Eu não quero casar. Quero ficar a fazer companhia aos meus pais”, disse Isabel, corando.

“Nesse caso terei que arranjar um ghor-zaoim, um genro estabelecido”, disse Luís Bernardo, divertido, o que a fez arreliar ainda mais.

“Não digo com o filho de Manoel de Anastácia; mas porque não hás-de casar, Isabel? Queres ficar para tia?”, disse Rosália com o seu ar chistoso, e acrescentou: “Já estou a ver a nossa Isabel de pano-baju como as tias clássicas das famílias antigas, devotas e beatas”.

E Isabel, ante a observação da irmã, conservou-se calada e cabisbaixa, e ficou a remoer o seu amuo e a sua timidez.

Telo de Mascarenhas - O Emigrante (1975)

Luís Bernardo era regedor de aldeia. Com o seu saber e experiência de vida, administrava Justiça nos limitados domínios da sua jurisdição, com raro tacto e rectidão. Era, por isso, respeitado e acatado; e os seus concelhos tinham força da lei para a pobre gente da aldeia.

Todas as manhãs, de fato branco, o casaco abotoado até ao queixo, o boné encafuado na cabeça e a bengala que era o seu bastão de mando, dava o seu passeio habitual para se inteirar da vida do burgo, ouvir as queixas e reclamações e dar-lhes pronta solução.

A vida de regedor da aldeia não é um mar de rosas. Contudo, a par de trabalhos, arrelias e canseiras, tem também as suas compensações. Todo o africanista ou bombaísta que regresse após longos anos de labuta no Continente Negro, em Bombaim, ou como embarcadiço nos grandes transatlânticos, é ao regedor-batcará que faz a sua primeira visita com alguma lembrança, e pinta-lhe com cores vivas e até com cores por sua conta e risco, as coisas maravilhosas que viu na Grande Índia e na estranja, no que, não raro, leva a palma ao famoso Marco Pólo.

João António era filho de gente modesta. Inteligente e empreendedor, com o seu sonho de transpor mares e ver terras novas, estudara a algumas classes de inglês na escola de Jackson e fora para Bombaim para se empregar a bordo. E era agora dispenseiro dum dos barcos da P&O, que faz carreiras para Europa.

“Pode crer, batcará”, disse João António a Luís Bernando, “aquilo é que são terras ricas e progressivas. Grandes cidades, grandes e florescentes centros industriais.. E nós aqui a foassar nestas aldeias atrasadas em tudo.”

“O que é que tu queres, João António? Se todos vocês, emigrantes, estivessem de acordo podíamos fazer grandes melhoramentos na nossa aldeia”, disse Luís Bernando.

“E sabe, batcará, como ‘elas’ lá fora, identificam os goeses?”

“Hum, - como é?”

“Eu conto. Uma noite, em Marseilles, fui, com mais dois companheiros meus, visitar uma daquelas casas de luxo das professional beauties, por mera curiosidade, para ver como aquilo era por dentro e se correspondia à realidade aquilo que me tinham contado. Veio sentar-se ao meu lado uma rapariga muito loura, muito pintada, e perguntou-me: “Êtes-vous Goannais, mon chéri?”. “Oui, mademoiselle”, respondi-lhe.

Vai ela, então, sem mais cerimónias, mete a mão pelo peitilho da minha camisa para ver se eu trazia ao pescoço a corrente de oiro com a cruz.

“Com que, então, os goeses lá fora são conhecidos por trazerem ao pescoço a corrente de oiro com a cruz?”, disse Luís Bernardo soltando uma das suas estrondosas e divertidas gargalhadas. “Essa é de primeira ordem. Hei-de contar isso ao nosso vigário para ver com que cor ele fica”.

“Deus nos livre, batcará. É capaz de barafustar no púlpito e chamar imoralões aos emigrantes”

“E o que pensas fazer agora, João António?”, perguntou Luís Bernando.

O ghor-mand é o terreno em volta da casa que sendo pertença do dono da propriedade, este impõe aos seus moradores ou mundcars, obrigações verdadeiramente onerosas: e as várzeas das Comunidades são os grandes proprietários que as tomam de arrendamento em haste pública ou gaun-pon, disputando os lanços em lutas renhidas e as sub-arrendam aos pequenos cultivadores sem terras, mediante rendas exorbitantes, explorando-os sem comiseração. Por isso, ser dono da casa com uma nesga de terreno em volta para servir de logradouro, e uma pequena várzea onde possa semear arroz no tempo das chuvas e, em tempo seco pimenteiras, legumes e batata doce para consumo doméstico, abrindo um poço quando se não tem serventia da lagoa para aguar a plantação, é o maior sonho do mundcar o que lhe dá o desafogo e a satisfação de ser um pequeno proprietário e o liberta das condições onerosas do sistema de mundcarato.

Outra compensação para a vida de regedor de aldeia são os ‘brincos’ goeses e vem de longe aquele costume, de quando os jograis iam de aldeia em aldeia, de corte, representar os episódios heróicos e líricos das nossas grandes epopeias e lendas doiradas.

Música estridente de flautas e tambores anuncia a aproximação de ‘brinco’. E a gente da aldeia acorre; pressurosa e exultante, para se juntar à volta dos cantadores e bailarinos que, nos seus trajes de fantasia, adornos e coroas auriflamantes de papel doirado, cantam, mimam e dançam as façanhas bélicas de Ramá e Ravon, dos Pandavas e Kauravas, os jeitos de audácia e bravura de Shivaji e Custobá (um herói local) ou comentam, com graça e chiste, malícia e bom humor, a vida da gente da aldeia, numa espécie de revista do ano, para gláudio do auditório.

Telo de Mascarenhas - Advogados e Solicitadores (1975)

Todas as tardes, por volta das seis, José Gregório fazia o caminho da estação para casa, de regresso de Margão, e costumava parar no balcão de Carlos Manoel para dar dois dedos de conversa ao amigo, com novidades frescas colhidas no botequim de David Camilo ou na sala de espera da gare do caminho de ferro e, às vezes, quando dispunha de tempo, para uma partida de xadrez.

José Gregório era vizinho de Carlos Manoel, e ambos, quase da mesma idade, tinham cursado o Liceu juntos. Feito o exame para advogado, e obtida a provisão, José Gregório abrira banca em Margão. Todos os dias ia ele com a pasta atulhada de papeis de demandista, tomar o comboio, na sua via-sacra quotidiana, para o escritório e para o tribunal. Arguto e hábil, de olhos vivos armados de óculos de grossas lentes faiscantes, tinha criado uma razoável clientela, alem da que herdara do pai, que fora um advogado consciencioso e honesto. Jogando habilmente os artigos do Código como jogava as pedras do xadrez, engrolava os juízes, novatos na profissão e desconhecedores das tricas e dos costumes forenses da terra, e conseguia fazer vingar as causas que lhe eram confiadas.

“Imagina tu, Carlos Manoel”, dizia ele uma tarde ao seu parceiro do xadrez, referindo-se aos Licenciados, oficiais do mesmo ofício, “aqueles senhores, lá por terem cursado Direito na Universidade fazem alarde do seu título de Doutor e pretendem saber mais do que nós, com o nosso simples exame de advogado”

“Não admira que assim seja, José Gregório”, observou Carlos Manoel. “Também nós, os médicos, com o nosso curso da Escola Médica de Goa, de via reduzida, no dizer do Dr. Brito Camacho, não podemos competir com os diplomados pelas Faculdades de Medicina”.

“Ora, bolas! Eu só queria ver a figura que fariam esses senhores togados, de enorme prosápia, perante os nossos grandes advogados doutros tempos, com o mesmo exame que nós, como o Avertano, Bruto da Costa, Lourencinho e outros, que mereceram louvores dos grandes mestres do Direito.”

“Esses, sim. Foram grandes advogados e podiam ombrear com os luminares do foro, em qualquer parte. Mas hoje em dia, sem desprimor para si, José Gregório, não temos nem grandes advogados nem grandes causas”

“Tens razão, Carlos Manoel. Concordo, plenamente, contigo. Infelizmente assim é. Nós, agora, vivemos de migalhas e não passamos de cepa torta. É sina nossa”

Rosália veio servir o chá, e José Gregório levantou-se muito cerimoniosamente, para a cumprimentar. Continuaram a jogar, até que Carlos Manoel, movimentando a rainha, deu cheque-mate no rei do parceiro, e disse: “Por hoje, basta. Já tens a tua conta, José Gregório”.

“Ora veja, minha senhora”, disse José Gregório, dirigindo-se à Rosália, “Veja como um médico descamba um advogado no xadrez e dizem que nós é que somos chicaneiros”.

“Bem dizem os ingleses – Lawyer is liar. Na língua que nós falamos não rima; mas deve ser verdade. A vossa chicana é mais de temer, porque pode levar à ruina os litigantes. Enquanto que a nossa, se chicana se pode chamar, é no inofensivo xadrez”.

Passaram a beber o chá louro e perfumado, que Rosália deitara nas chávenas.

“Na verdade, não há como mão de mulher para preparar um bom chá. Nós, os homens, somos desajeitados e sem gosto”, disse José Gregório, continuando a saborear a aromática bebida.

“Obrigada pelo elogio Sr. José Gregório”, disse Rosália, agradecendo.

Tomando o chá, José Gregório levantou-se para retirar, dizendo: “Agradecido pelo seu excelente chá, sra. D. Rosália. E agora, deixem-me ir, que devo ter gente em casa à minha espera. Não calculas, Carlos Manoel, como é espinhosa a profissão de advogado”.

“Espinhosa, sobretudo, para os teus clientes a quem tiras coiro e cabelo”.

“És dum sarcasmo mordaz, Carlos Manoel. O que vale é que não passa de boca”, disse ele sorrindo para o amigo e despediu-se; “Bem, até amanhã, à hora do costume”.

E lá se foi gingando, ajoujado, com a pasta atulhada de papeis de demandista.

Esperava-o, sentado no balcão, o procurador Belmiro, com dois clientes, para recorrer aos seus serviços para uma composição amigável numa disputa de limites, que o próprio solicitador suscitara e alentara com os seus conselhos tortuosos, esperando fazer disso uma mina de inconfessáveis proventos.

José Gregório era para o procurador Belmiro um advogado de recurso, de quem se valia para casos urgentes e embaraçosos, que não sabia solucionar, como aprendiz de feiticeiro que era, e por trabalhar por conta dum advogado de Margão.

“Então, Sr. Belmiro, que bico de obra temos nós hoje?” perguntou-lhe o advogado.

“Coisa de nada, Sr. José Gregório. Estes meus clientes querem ouvir a sua opinião para se resolver uma disputa sobre limites”.

“A minha opinião em casos desses só posso dá-la após prévia vistoria ao local. Mas a hora é imprópria”, disse José Gregório.

“Se o Sr. José Gregório não se importasse, podíamos ir lá agora, que é muito pertinho daqui. É que, um dos meus clientes retira-se amanhã para Bombaim”.


E como o caso de esbulho era patente, a disputa foi prontamente solucionada, comprometendo-se o esbulhador a corrigir a extrema.





O procurador Belmiro para se dar ares de pessoa atarefada, sentado sob alpendre de olas entrelaçados da sua casa, que fazia de escritório e servindo-se duma velha Remington, quase desconjuntada, desatava a escrever a toda a gente aquilo que lha dava na real gana – as autoridades civis, reclamando a destituição do regedor que não lhe fazia bom pêlo, dificultando-lhe as manigâncias: as autoridades eclesiásticas, suplicando-lhes a transferência do vigário, por denunciar nas suas práticas dominicais, os que não observavam o décimo mandamento: aos prováveis compradores de algum prédio à venda em hasta pública, apoucando-lhe o valor e o rendimento, para os afastar da concorrência, com o seu espírito de cambão inveterado, para compra-lo por tuta-e-mais.

O procurador Belmiro era uma espécie de gestor de negócios de defuntos e ausentes, mas mau prestador de contas. Para se furtar ao pagamento da renda de prédios que arrendava, desculpava-se alegando o desaparecimento do negociante do coco, sem lhe ter pago. Deixava relaxar as contribuições que eram de sua conta, para descontar na renda e procuradoria pelos serviços prestados para evitar a execução.

Ia assim aumentando a sua fazenda por artes de tricas e baldrocas, e engordando como um bom burguês, porque o seu sonho era ser também um batcará, como todos os grandes batcarás da terra e fazer-lhes sombra. Homem de poucas letras e algumas classes de inglês, metera ombros à vida com o fim de fazer rapidamente fortuna.

Um dia, um aldeão foi procurá-lo no seu “escritório” sob o alpendre, para lhe pedir um conselho. E como ele o tratasse por ‘Sr. Belmiro’, o solicitador abespinhou-se e disse-lhe:

“Dobre a língua, seu begarim, e trate-me por Sr. Doutor, porque eu sei muito mais de leis do que muitos advogados que por aí pululam, quase tanto como os Licenciados – esses senhores de grande prosápia que, quando peroram nos tribunais, vestem túnica negra, como se lhes tivesse morrido a avó torta. Forte danação! Sem aqueles charlatães, que bem que eu teria governado a vida! Não tenho grandes estudos, é certo; mas a manha e a chicana são o meu segredo:.

O pobre homem ouviu em silêncio e a pé firme a longa objurgatória do procurador Belmiro, sem lhe atinar o sentido. Mas quando compreendeu o sentido da expressão “governado a vida”, fez meia-volta e safou-se, apressadamente, com receio de que o solicitador mal-humorado o despojasse das úncias duas rupias que levava atadas na ponta do lenço, sob o pretexto de lhe ter dado um bom conselho.

Aljube, Janeiro de 1961