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Monday, 1 April 2013

Alberto Cota - Epistolas II "De Caminho..." (1983)

Manhã do dia 24 de Abril de 191... Surgia rútilo por entre a neblina o astro do dia devolvendo alegria à natureza; alegria para os campos acidentados aqui e ali por verdes comas de donairosos coqueiros doirados pelos raios matutinos; alegria para as aves saltitantes de ramo em ramo sacudindo das suas penugens multicores camarinhas de água que o chuvisco nocturno ali depositou; alegria para os camponeses que na sua ocupação cotidiana curzavam-se nos campos uns de arado às costas, outros de cestos nas cabeças levando para terra a sementeira para que ela os devolvesse em cêntuplo.

Um quilometro alem após um distiladeiro marcando o limite das planuras o quadro era diverso: picos longínquos, moitas compactas, veredas sinuosas encombradas de verdura, rampas sulcando vertentes, abismos cavando profundidades, tudo contrastando tudo embelezando numa desordem encantadora e sob a cúpula celeste pura e transparente que o génio humano não lograra imitar.

Por uma estrada que se penetrava em ziguezagues por entre vertentes exuberantes de vegetação silvestre caminhava um viandante, mancebo de vinte e seis anos, medindo com a vista o caminho a percorrer e que lhe afigurava imenso. Grossas bagas de suores escorriam-lhe pela fronte em que transpareciam sinais indeléveis de sofrimento. O próprio olhar deixava adivinhar o obscuro do seu passado se não o presente. Regular de estatura, tez morena, simpático no seu conjunto, correcto no porte tinha qualidades de atrair o mais indolente.

Cem passos mais e casou-se com um outro que vinha em sentido contrario. Era Francisco da Costa, o robusto oficial do exercito em serviço na povoação de X... Vestido de caki espingarda de dois canos ao tiracolo, cartucheira bem provida cingindo a cintura, uma cabeça bamboleante ao menos movimento do possuidor e botas altas davam-lhe aparência de homens de guerra em plena campanha.

Júlio Lopes, tal era o nome do mancebo, na incerteza do caminho que percorria e era a primeira vez que chegava aquelas paragens perguntou-o parando para ele:

“Faz-me obsequio... é este o caminho que dirige para povoação de X... e resta muito para lá chegar?”

“É estrada de que se trata, é ir direitinho sem mudar pela outra que surge a esquerda, disse Francisco quanto ao mais caminhar resta-lhe um bom pedaço.”

“Obrigado.”

Cada qual seguiu o seu caminho, Júlio apressando o passo para chegar cedo a repartição onde ia apresentar-se munido de guia de transferência; Francisco desviando-se da estrada para meter-se no denso arvoredo a cata de caça.

Por fim desapareceram-se os dois, um atrás das moitas, outro na curva do caminho.

Súbito alem onde o céu parecia tocar-se com a terra formou-se uma nuvem plumbia que de pronto tomou proporções de gigante. Dilatou-se enroscou-se nos seus tentáculos de polvo, já ganhou o Zenith numa aceleração espantosa. Escondeu o astro diurno o seu disco de fogo atrás das massas disformes que já toldavam o espaço ameaçando arrazar derrubar tudo. Desprenderam-se os ventos em uivos de hiena, cruzaram-se fagulhas eléctricas em ziguezagues, caíram fendidas de alto abaixo árvores seculares em crepitações, reboaram baques nas fragoas e bramiu medonho o trovão vitorioso. E grossas gotas de chuva sulcaram a atmosfera carregada de ozone e escorreu água barrenta pelos sulcos escancarados enquanto o vendaval recrudesceu açulando os elementos para refraga feroz. Por fim como por encanto amainou-se a tempestade, romperam-se as nuvens, jorros de luz rasgaram o espaço e do lado oposto do sol surgiu benfazeja a arca de aliança nas suas sete primarias cores. O vento agora brando remexeu-se na folhagem; e cada ramagem era um feixe de jóias incrustadas de pérolas e cada casinhola distante um ninho e o murmúrio das águas o cochichar dum casal.

O nosso viandante emancipado já do susto prosseguiu o seu caminho.

Longe nas quebradas das serranias ouviu-se um tiro, depois um outro.

“Talvez o seja daquele caçador” pensou Júlio.

Por fim, já depois de sete curvas dobradas e sete eminências transpostas divisou não muito longe à sombra de coqueiros enormes traves de ferro cruzadas em mil setios qual gigantesco conjunto esquelético dalgum monstro geológico. Era ponte em construção que comunicaria a estrada com a povoação de X...

Sustentam-na oito colossais pilares que trabalho insano custou aos construtores. Três vezes ergueram-nos para três se desmoronaram pelo ímpeto das torrentes; nem isso valera! Estavam empenhados os engenheiros naquela obra que as águas reduziam a escombros. Tanto trabalho frustrado, tantas noites perdidas à espera da vazante do rio porque só nelas possível era trabalhar nos alicerces. Somente pela quarta vez é que a obra ficara de pé. E desde então ergueram-se erectas na sua rigidez de aço, gigantes no tamanho, enormes na espessura sustentando possantes nas suas cabeças elípticas o peso daquelas massas de ferro por onde para o futuro passariam os veículos sem nenhum receio de soçobro. Júlio a medida que avançava devorava com a vista aquela obra gigante, fruto de tanto labor.

Já de passo estugado chegou a margem do rio. Na oposta serralheiros em grupos, uns ocupados em limpar da ferrugem peças de ferro, outros em solda-las, dava não sei que de encantador aquele quadro pitoresco.

Mas um barulho ensurdecedor saía daqueles grupos que as olas de coqueiros sombreavam.

Distante, atiçava-se a fornalha nas forjas onde o ferro incandescente faiscava rutilo sob o peso do potente martelo que o maleiava e recurvava ou endireitava segundo requeria o engenho enquanto os foles sibilavam inchando e contraindo os seus bojos descomunais para inda mais abraçar a fornalha crepitante onde peças de ferro esperavam a sua X.

Quatro braças além onde a ramagem era mais densa avistou Júlio um individuo sentado no tronco duma árvore decepada, ocupando em falar sobre o assunto da obra com mais dois que escutavam de pé. Cans venerandas coroavam-lhe a fronte rígida e serena. Os fartos bigodes recurvados nas pontas, o nariz de uma correcção atlética, o contorno dos beiços a exteriorizar fraqueza rude, os maxilares musculosos, davam ao seu rosto crestado pelo sol ardente da Índia, um tom próprio de quem passasse por trabalhos árduos.

O seu vestuário era duma simplicidade provinciana: camisa ampla desabotoada até ao meio do peito peludo, calças curtas, sandálias de coiro grosso. Tinha uma carabina ao lado é um cachimbo espetado ao canto da boca. Teria sessenta anos de idade.

O nosso mancebo reconhecendo nele seu velho tio, acenou ao ar seu lenço. E, atravessando, quase a correr, a ponte provisória erguida nas estacas foi lançar-se nos braços do velho que o apertou saudoso.

Monday, 25 March 2013

Alberto Cotta - Epistolas 1 (1983)

Sentada ao pé duma janela escancarada à brisa do poente, estava Bena, uma guapa rapariga das suas 18 primaveras o muito. Entretinha-se a bordar um pano de cetim branco esticado na teara colocada sobre os joelhos e encostada ao espaldar duma cadeira à sua frente.

Pertencia a um colégio onde estudava a arte de bordar e talhar, dirigido por uma professora já de idade razoável a quem a experiência adquirida pelo tempo e aliada a uma sólida instrução fazia digna de superintender o estabelecimento que dirigia.

Órfã de pais desde tenra idade, Bena não tivera outro amparo além do irmão e cunhada. Zuleima, sua irmã mais nova que ela também internada do mesmo colégio, era sua fiel companheira. Uma não podia passar sem outra – tão amigas eram.

Bena era a cabeça, Zulema o braço, aquela a pastora esta a ovelha embora de génio arrebatado mas que fácil lhe era voltar ao aprisco, quando desgarrada sob o sisudo bordão da sua pastora. A própria Zulema reconhecia, quando serena, amansada já, o lado benéfico daquele jugo, como ela o qualificava, embora revoltasse no auge de furor. E a tempestade passava desfeita em bonança de arrenpendimento. Deste modo Bena era a Zulema irmã e mãe.

O sol declinava já quase no ocaso, voltavam gralhas ao abrigo e o operariado da lida cotidiana ao remanso do lar.

Súbito Bena deixando o trabalho ergueu-se pressuroso. Tão depressa correu infantilmente pelo jardim fronteiro por entre canteiros de roseiras, jasmina e dálias que crotons multicores ensombravam hospitaleiros.

“Aí vem o mano, ai vem ele!” disse louca de prazer.

E lá está ela ao pé do irmão, individuo alto espadaúdo, bigodes fartos vestido a militar. Chamava-se Francisco da Costa e era oficial do exército em serviço na povoação de X vindo a Pangim por motivo do Estado, motivo que lhe dera ensejo para visitar as irmãs.

“E Zulema?” disse o recém-chegado mas Zulema que o vira vinha já correndo para eles sorridente e ligeiro.

“Pelos modos”, aventurou Bena, cingindo com os braços a cintura proeminente do irmão, pelos modos nem pensa em levar-nos para essa terra de X... e cá estamos há mais de três longos meses sem ver a cunhada e os sobrinhos.

No Maio, minhas prendas no próximo Maio. E que teremos então festa na minha terra de X.

Maio, Junho, Julho, e Setembro!

Outubro, Novembro e Dezembro, rematou Zulema.

A presença da directora interrompeu-lhe a avalancha de meses.

Depôs a conversa decorreu amena para os três irmãos, posto que a directora se retirou após os cumprimentos de estilo. Falaram sobre mil assuntos, choveram mil perguntas as quais o irmão respondeu como podia.

Mas estávamos a falar do Maio, Junho... arriscou Bena voltando-se à carga.

Nada, no Mio próximo, no Maio! Replicou-lhe o tenente que sem esperar por mais correu escada abaixo com risco de se resvalar.

Bena do peitoril da janela repetia alto – No Maio, mano!

E ele virando-se para ela, tornando a girar nos calcanhares, gritou a rir: “No Maio, no Maio!”

Bena imóvel ainda seguio-o com a vista até vê-lo desaparecer atrás da casaria da cidade. Então a expansiva alegria momentânea transformou-se-lhes em amarga nostalgia, principalmente para Bena que não se movera do lugar.

A presença de pombas nos beirais das casa próximas distraiu-a da fixidez do pensamento quedando-se a segui-las no seu caprichoso esvoaçar de telhando em telhado, de muro a muro para de novo pousarem no ponto de partida. Achou divertido aquilo que lhe valeu uma distracção.

Mas como tudo no mundo tende a finalidade e as brancas pombinhas esvoaçaram além eclipsado-se e Bena retirando-se da janela correu ao jardim onde as companheiras de mãos dadas cantavam alegres e descuidosos.

A presença de Bena fê-las hilariante. Choveram epigramas e risotas, e houve uma que saindo do grupo correu ao repuxo de água no centro do jardm para borrifá-las de água importada nos côncavos das mãos. A. A esta seguiram outras e tão depressa o alegre bando molhou-se sob o pesado aguaceiro que o sol agonizante circulou de pérolas.

O movimento excessivo trouxe-lhe a canseira e cada qual acomodou-se em assentos improvisados arquejantes e balofas mas que não impedia de se rirem pela graça que acharam.

Por fim o sol escondeu-se e neblina vespertina toldando o poente anunciou a noite, mas pura, transparente, cintilante de estrelas.

O campanário da Igreja da cidade tangeu ave-marias e o bando recolheu-se à voz da professora do alto da escadaria. Mesmo a subi-la não faltaram ditos alegres e risos reprimidos – bem-aventuradas mocidade sempre viçosa e discuidosa!

Assim no trabalho, no recreio e na própria disciplina encontrava Bena o suave e o belo da vida humana. Era feliz por assim o julgar.

O acordar às cinco da madrugada pura e ridente empregada de perfumes, de estranhos e novos cada dia e inebriantes encantos: trabalho cotidiano com múltiplas variantes, as horas de recreio e mil nadas que adquirem proporções benfazejas para quem sabe compreendê-las, constituíam alegrias perenes para ela que com pouco se contentava, e essa mesma pequenez de desejos fazia-a feliz.

Tal era vida para Bena.