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Tuesday, 17 February 2015

Remígio Botelho - De Profundis (1968)

E o Dia veio
Levar-lhe ao seio
Da terra amada,
E lá foi ela –
A doce estrela
Da madrugada.

Lá foi ela –
A alma bela
De sonhador
Ungida
E possuída
De luz e cor.

Alma tão plena
De poesia
A alegria
Da morena
Que apanha
Lírios brancos
Pelos flancos
Da montanha;
A mansidão
Da lua cheia
Que vagueia
Na amplidão
E o fervor
Dos rishis
Ardendo de amor
Em lâmpadas rubis.

Ardendo ainda
De saudade
Da ilha linda
Onde passara
A mocidade –
A seara

Que ondeia
Pela aldeia
Casas de Deus
Que se elevam
Até os céus;
E os oiteiro
Onde rezam
Os cajueiros.

Lá foi ela
Para o além...
Mas dela
Inda nos vem
Um ardor
Abrasador
E risonho –
A flama
Que o proclama
Veleiro do sonho
E do luar,
No altar
Da História



E da Gl

Friday, 9 January 2015

Bicaji Ganecar - A Barca da Minha Vida (1968)

A barca da minha vida
Sempre avança
Com a esperança
De ver a terra prometida.

Abrindo o caminho
P’lo torvelinho
Ela desliza
Com a brisa
Com o seu olhar
No porvir
Que vê sorrir
À beira do mar.

Aonde se eleva
E se torna espuma
E no céu a treva
Se avoluma...
O meu desejo
Se aproxima.
Mas cá em cima
Só pedras vejo.

Serviu o país
Com o seu suor
Foi tudo feliz
Com o seu amor...
A todos amou
Com paixão
E rubra ficou
Com o chão.

Traduzido do original em concanim por Remígio Botelho.

Monday, 18 March 2013

Bicaji Ganecar - Sonho d'Amor (1969)

Ao ver-te andar tão cheia de graça
Tanta coisa em mim se passa
O sangue a correr
Acelerado
A mente a querer
Sentar-se ao lado,
E pensar, pensar
Quando te adorar.

O vento a beijar
Teu cabelo liso
E um ritmo preciso
No teu andar...
Com o fulgor
De tanta graça
Se enche a taça
Do nosso amor.

Para eu compor
Esse canto de amor
Tive de abrir
Meu coração
Inda a florir
Para cantar
Essa canção
Em teu louvor.
E rivalizar
O sonho
Tão risonho
Do nosso amor.

Traduzido do original concani por Remígio Botelho.

Wednesday, 27 February 2013

Remígio Botelho - Ó Sol de Maio (1964)

Ó Sol de Maio
Queima-me a alma...
Queima-me mais
A alma queimada,
Acrisolada,
Como o topo dos palmeirais:
Alma de jovem
Exilada
Em terras d’além:
Alma de crente
Penitente,
Sonhando
Ao Sol brando
De Lisboa:
Sonhando, sonhando sempre
Longe, longe de ti,
Ó Sol de Goa!

Ó Sol de Maio!
Sol ardente,
Dardejante,
Quão diferente
Do Sol distante
Que me vela os passos,
Ó Sol do Hindustão!
Tu só velas os abraços,
Dos que voltam e dos que vão...

Ó Sol de Maio,
Canicular!
A bater
Intransigente
Sobre a terra e sobre o mar...
A bater eternamente
Sobre o fruto
Amadurando
Na herdade,
E sobre a praia
Onde se espraia
A Saudade...

E que saudade, meu Deus!
Sob esses mesmos céus
Donde me fitas e gritas
Ó Sol amigo!
Ouvi eu em grito
Aflito
Dos que não têm abrigo,
E dos que não têm pão...
E o teu calor
Abrasador
Não me faltou então!

E quando a chuva caía
Noite e dia,
Caía incessante,
Alagando,
Ameaçando
O viandante,
Muita vez ajoelhados,
Sobre os soalhos molhados,
Pedíamos o teu calor!
E tu, Sol amado,
Desejado
Eras sempre o vencedor!

Ó Sol de Maio!
Sol ardente, dardejante...

E agora parto, Sol d’Amor
Que me vistes nascer,
E crescer
Ente as jaqueiras,
E as goiabeiras,
E as mangueiras em flor...
Eu parto... mas em mim fica,
A mensagem rica
Do teu rico calor...
E quando um dia voltar,
Já cansada de andar
De toda a Terra em redor,
- Já cansada finalmente,
Doutros mundos, doutra gente –
Seja me dado,
Ó Sol de Maio, abençoado,
Na santa embriaguez
Daquela hora,
Abraçar mais uma vez,
Os que me abraçou outrora.

Ó Sol de Maio
Queima-me a alma...
Queima-me mais
A alma queimada,
Acrisolada,
Como o topo das palmeirais;
Alma de jovem
Exilada
Em terras d’além;
Alma de crente
Penitente,
Sonhando
Ao sol brando de Portugal;
Sonhando, sonhando sempre,
Longe, longe de ti,
Torrão natal!

Friday, 15 June 2012

Remígio Botelho - Curumbina (1969)

No teu rosto
Há açoites
Das longas noites
De Agosto
Mas é risonho
O teu sonho
De guitarradas
A soluçar
Em noutadas
De luar
E de banquetes reaes
Nos palmeirais

Tu pensas...
E de repente
Na tua mente
Há visões imensas
De poentes vermelhos
A orlar 
O mar profundo
E um Deus de joelhos
A orar
P’las dores do mundo.

No teu rosto
Há açoites...
E o desgosto
Acumulado
De tantas noites
Da escravidão
Noites de pecado
E de perdão!

E quando danças
Tua alma dança
Como as tranças
Duma criança
E se debate
Tetricamente
Ao ritmo quente
Do gumate

Quando, quando é que vem a manhã prometida
Da tua vida?
Sobre o cerro alem
A tarde desce,
E sobre a prece
Da Ave-Maria...
É o final
De mais um dia
Que passa
Da missão ancestral
Da tua raça.





Saturday, 5 November 2011

Remígio Botelho - 15 de Agosto (1966)

Um luar de prata
Se retrata
E sorri
No Mandovi…
Luar e enchentes
E de soledade;
Luar das gentes a perseguir
A quimera do Porvir;
Seguindo,
Pelo azul infindo,
O Destino, a Fatalidade.

Um luar de prata,
No Mandovi...
E por sobre a espuma
Que se desarruma
Ao embate da monção,
Eu te enxergo, visão!
Visão de ti, trigueira,
Estendendo-se da cordilheira
Do Himalaya
À velha praia
De Cormorim;
Visão sem par
E sem fim,
Como o grande mar...

Vai alta a noite...
E o açoite
Do vendaval
Reboa no palmeiral...
Noite chuvosa,
Tempestuosa;
E ela,
Pela noite fria,
Desafia
A procela!
Desafia a sonhar
E a pensar
Nos dias doutrora
Na aurora
Da Civilização!
É a recordação
Dos tempos idos,
Quando príncipes destemidos
Vinham de terras várias
Por rotas milenárias
Em busca de riqueza,
Da sua beleza,
Beleza arisca,
De odalisca...

E ela a sonhar...
E a pensar
No presente
Quando o sangue ardente
De Liberdade
Lhe corre nas veias...
Quando as peias
De iniquidade
Se rebentam, uma a uma;
E a bruma
De ignorância
E superstição,
Se derrete na ânsia
Da nova Redenção!

E ela a sonhar...
E a pensar
No dia distante,
Quando enfim triunfante
Na labuta
E na luta
Contra o Mal e a Dor,
Levará por toda a parte,
O mui nobre estandarte
De Paz e Amor...
É o desejo
Que eu vejo
No teu rosto,
Ó terra amada!
À luz magoada
Do luar de Agosto.

Ó luar de Agosto, luar de Amor,
O teu pranto incolor
Descendo em chuva fria
Que alumia
O palmar
E mais o mar;
Teu pranto silente
Que me traz à mente
Os meus versos
Dispersos
Ao longo dos anos
E desenganos;
Quando der o sinal
Da hora final
Da minha vida,
Me traga também
A visão querida
Da minha Terra-Mãe!
Visão que eu vi
A sobre-nadar
Ao luar
No Mandovi...

Tuesday, 31 May 2011

Remígio Botelho - E Agora? (1966)


E agora
A paz orvalhada
Da Madrugada…
E um povo que chora
Desconsolado
Seu filho amado.

É finda a labuta…
E a luta
Entre gente irmã…
E agora –
Nessa manhã
Consoladora,
Só a paz dos céus,
Sob o perdão de Deus.

Tuesday, 15 February 2011

Bicaji Ganecar - O Goês de Amanhã, translated by Remígio Botelho (1969)

Não tenho de andar
Por terras e mar…
Chega-me o canto
Onde eu nasci,
E é só aqui
Meu menino santo
Dirá o goês
De amanhã

Nada maior
Que o meu amor
À Goa bela…
É só nela
Que hei de achar
Minha riqueza
E só hei de cantar a sua beleza
Dirá o goês
De amanhã

Tudo o que sou
Vem do seu nome
Que me matou
A sede a a fome
Beijo-lhe a mão
Em gratidão
Dirá o goês
De amanhã

Minha língua é
Só o concanim
Que lutou com fé
E alcançou o fim
E a sua vitória
É a nossa glória
Dirá o goes
De amanhã

É tudo para mim
A Goa amada
Enquanto assim
For separada
De tudo em redor
Sou eu o senhor
Dirá o goes de amanhã

E a débil planta
d’alegria santa
Cresceu cresceu
Até o céu…
E afastando a dor
Conseguiu tranpor
O cume risonho
Do seu sonho
Dirá o goês
De amanhã