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Saturday, 5 November 2011

Remígio Botelho - 15 de Agosto (1966)

Um luar de prata
Se retrata
E sorri
No Mandovi…
Luar e enchentes
E de soledade;
Luar das gentes a perseguir
A quimera do Porvir;
Seguindo,
Pelo azul infindo,
O Destino, a Fatalidade.

Um luar de prata,
No Mandovi...
E por sobre a espuma
Que se desarruma
Ao embate da monção,
Eu te enxergo, visão!
Visão de ti, trigueira,
Estendendo-se da cordilheira
Do Himalaya
À velha praia
De Cormorim;
Visão sem par
E sem fim,
Como o grande mar...

Vai alta a noite...
E o açoite
Do vendaval
Reboa no palmeiral...
Noite chuvosa,
Tempestuosa;
E ela,
Pela noite fria,
Desafia
A procela!
Desafia a sonhar
E a pensar
Nos dias doutrora
Na aurora
Da Civilização!
É a recordação
Dos tempos idos,
Quando príncipes destemidos
Vinham de terras várias
Por rotas milenárias
Em busca de riqueza,
Da sua beleza,
Beleza arisca,
De odalisca...

E ela a sonhar...
E a pensar
No presente
Quando o sangue ardente
De Liberdade
Lhe corre nas veias...
Quando as peias
De iniquidade
Se rebentam, uma a uma;
E a bruma
De ignorância
E superstição,
Se derrete na ânsia
Da nova Redenção!

E ela a sonhar...
E a pensar
No dia distante,
Quando enfim triunfante
Na labuta
E na luta
Contra o Mal e a Dor,
Levará por toda a parte,
O mui nobre estandarte
De Paz e Amor...
É o desejo
Que eu vejo
No teu rosto,
Ó terra amada!
À luz magoada
Do luar de Agosto.

Ó luar de Agosto, luar de Amor,
O teu pranto incolor
Descendo em chuva fria
Que alumia
O palmar
E mais o mar;
Teu pranto silente
Que me traz à mente
Os meus versos
Dispersos
Ao longo dos anos
E desenganos;
Quando der o sinal
Da hora final
Da minha vida,
Me traga também
A visão querida
Da minha Terra-Mãe!
Visão que eu vi
A sobre-nadar
Ao luar
No Mandovi...

Friday, 19 August 2011

Augusto do Rosário Rodrigues - O Resurgir duma Nação (15 de Agosto).

Mil novecentos quarenta e sete – eis uma data
Desde a qual a nação frue liberdade lata.
Vertido um mar de sangue, o inglês, finalmente,
Promete deixar a Índia em paz, de boa mente...

Foi em Catorze de Agosto. Um dia a mais raiava.
Batera a meia noite. A Índia trepidava...
Sonhos de glória e raiva! Euforia! Tristeza!
Um povo que traçou páginas de beleza
Vibrava em alto grau, tanto no Parlamento
Como fora, nas ruas, à luz do firmamento.
E um homem austero, a passo mesurado,
Caminhou então hirto e solene ao estrado,
Era o audaz Nehru, o primeiro-ministro!

Acabara o terror, o regime sinistro...
Uma Índia, agora livre, ia ter, finalmente,
Um governo só seu, feito com sua gente,
Cumprido o protocolo a aposta a chancela,
Um dilúvio de luz, visão de Cinderela,
Inunda a capital. As ruas, esquinas
Eram grandes florões de cores peregrinas.
Archotes, lampiões, como em dias de festa,
Brilhavam no solar ou na casa modesta.
Bandeiras e festões, mil ramos de verdura;
Charangas a tocar; fogos, manjares, fartura!
Homens ao desafio choravam a cantar,
E, em louco frenesi, dançavam a gritar.

E, entretanto, Nehru, numa voz muito calma,
Entrava a declamar, com toda a sua alma,
Sua fala à Nação – mensagem bem sentida,
O eco passional duma alma dolorida,
Duma alma de eleição, de herói e de santo,
Que teve a sua cruz – pois sofreu tanto!
Um sulco de agra dor riscava-lhe a fronte.
Como num sonho mau, ele já via defronte
Questões de águas de rios, questões de caminhos,
A intriga de Jinnah, o receio dos vizinhos...
Uma Índia bipartida, ele já visionava
Um mal fatal, que de longe espreitava...
Tudo isto e muito mais, nessa data bendita
Passou, qual raio veloz, na mente do Pandita
Que cimentou com sangue, e inteligência
O último grau da nossa Independência

Saturday, 12 February 2011

Ananta Rau Sar Dessai - 15 de Agosto (1962)

Saúdo-te, mais uma vez, jubilosamente, quinze de Agosto,
Queimando a longa escravidão iluminaste o nosso rosto.

Saúdo-te, mais uma vez, calorosamente, quinze de Agosto,
Deste-nos a liberdade, fazendo sair o Inglês com desgosto.

Saúdo-te mais uma vez, almejadamente, quinze de Agosto,
Da “colónia da Coroa” deste-nos da Nação, o digno posto.

Saúdo-te, mais uma vez, fervorosamente, quinze de Agosto,
O “povo indiano” no seu lugar da honra foi por ti reposto.
Saúdo-te, mais uma vez, vivamente quinze de Agosto,
O papel de animar os povos dominados lhe está imposto.

Saúdo-te, mais uma vez, animadamente, quinze de Agosto,
Um lugar de honra, no calendário do Mundo lhe está proposto.

Saúdo-te, mais uma vez, entranhadamente, quinze de Agosto.
Fazes dançar as crianças, mulheres; comer os doentes com gosto.

Saúdo-te, mais uma vez, delirantemente, quinze de Agosto,
Entusiasmas os jovens; molhas da comoção, dos velhos do rosto.

Saúdo-te, mais uma vez, aclamantemente, quinze de Agosto,
Saudar-te-ão, enquanto a Lua e o Sol estiver no seu posto.