Tuesday, 21 May 2013

Clara de Menezes - Mote (1952)

Sendo nada, eu dei-te tudo
E tu só me deste nada

Hipólito de Menezes Rodrigues

Fui um grão de areia, diluído
Nos teus olhos de veludo,
Nesse instante bem vivido,
Tendo nada, eu dei-te tudo.

Deste amor, fornalha a arder,
Dei-te a essência concentrada;
Dei-te a minha alma, o meu ser
E tu só me deste nada.

Laxmanrao Sardessai - O Cativo (1964)

Na teia dos teus encantos
Sou como um cativo.
Fui forte em vida.
Ao sopro das minhas ideias
Ruíram os baluartes,
Tombaram os ídolos,
Recuaram as fantasmas.
Fui temido de todos
Que exerciam prepotência
Sobre os desamparados da fortuna.
Fui algoz das feras,
Que despedacei com os golpes da minha espada,
Da minha espada rutilante,
Feita dos meus sonhos,
Dos meus ideais
Altivo, desafiei o mundo,
Desdenhando os espectadores da hipocrisia
Como guerreiro invencível.
Mas foste tu que, com a teia
Subtil dos teus olhares
Me cativaste e fizeste cativo.

O Vagabundo - Jornada de Vida (1956)

Velhos sonhos
Novas paixões,
Mãos trêmulas e arrepiadas,
Olhos de conhaque
E o corpo já velho e dorido –
Onde os levas burrinho?

E porquê tão depressa?

Se é pela chuva que sinto cair,
Corre menos meu burrinho!
Pior que a chuva que molha
E o vento que corta os flancos,
É o abalo que me fazes:
Ideias velhas misturá-las com novas;
Paixões novas fá-las velhas!

Para um bocado ó burrinho!
Há cães que uivam,
Virgens que deliram,
Mulheres de maridos traídos,
Abrigando-se debaixo das varandas...

Para um bocado ó burrinho!
Porque seremos só nós a corremos breve o caminho?

Shanker Ramani - O Cigarro (1956)

Continua aceso
O cigarro na mão
E eu só a ver
As cinzas no chão.

Continua aceso
O cigarro na mão...
Mas os lábios secos!
E faminto o coração!

Nascimento Mendonça - Pôr-de-Sol (republished 1963)

Não sei porque em mim não sinto o coração
Calmo como a luz através das procelas/
Envolve-o a dor, o luto, a escuridão
E lembra um velhinho encostado ao bordão,
Sem poder fixar os olhos nas estrelas.

Hora má, de sombras e de desenganos!
Tanta luz astral, quem sabe se o cegou.
... Tu foste a sondar o insondável arcano
Da terra e dos sóis, meu coração humano!
Ai de quem foi rico, se a fome o esmagou.

Mas não pares, não. Sê como a água corrente,
As águas de um charco estagnam e apodrecem.
Como eras feliz quando foste veemente,
Enteado sempre na harmonia ardente
De milhões de mundos que não desfalecem!

O caminho é mau, todo espinhos. Embora!
Não triunfa jamais quem não sabe sofrer,
E nem sabe amar a rósea luz da aurora
A pobre criatura que a bonança implora
Dos monstros do mar que não quis combater.

A alma humana em vão, a vacilar, absorta,
O céu interroga e perscrutar deseja.
Se sente a beleza, toda a dor que importa?
Não se prende ao sol a triste folha morta,
Não pode voar o verme que rasteja.

A matéria, a força assombrosa, se existe,
É porque não para, nunca dorme exsangue;
Ao destino mau nunca se oferece triste
Como vítima inerme que jamais resiste
E não sente o ardor do desejo no sangue.

E o homem não hesita e treme como o vime,
Se resfria o globo e concentram-se os mares,
Não é como o insecto que a Natureza oprime;
Seu fado não é de sujeição ou crime,
Seu passado fulge de gemas solares.

Agostinho Fernandes - Ladrão (1955)

Fora um galo anunciava a madrugada. Surgiu mais uma ideia: se fosse ao cofre do patrão? Havia lá tanto dinheiro que ele, com certeza, não daria pela falta de uma notinha de 5... Rounar?! Ele que até então fora dos mais honestos? Roubar ele?... Mas cinco rupias não empobreciam o patrão! Ele que apodrecia de rico!... Ladrão! – dizia-lhe uma voz lá dentro... Desistiu... O número 20338 tornou a aparecer... “Ele também rouba! Roubam todos!” Saiu decididamente da cama. A mulher ressonava. A coberta esburacada descobria-lhe os voluptuosos seios nus. Abre de mansinho a porta. O filho mais novo acorda e grita pela mãe... Não se importa com ele, sai. O tempo urge, a escuridão é providencial...

Rasteja cautelosamente pelos corredores. Há luz na cozinha do patrão. A sua sombra projecta-se enorme na alvura da parede. Recua... Ganha ânimo, avança. Os seus passos ressoam nas lajes. Soa-lhe ao ouvido, cada vez mais a voz íntima: Ladrão!... Ladrão!... O patrão dorme profundamente. Na cadeira está o casaco. As chaves estão no bolso.... A sua mão treme toda... As chavezinhas parecem geladas... O patrão mexe-se, dá uma volta na cama...

Abre o cofre. Um estrondo medonho! Silêncio a seguir... Valerá a pena? E se o número for falso?... Tira uma notinha de cinco! Surge-lhe neste momento uma outra ideia: e fosse até Pondá consultar o “gaddi”?... Quem tira cinco tira dez... Chega-se até à porta... Recua ainda... Ladrão! Ladrão!... Não é nada... É apenas o coração que bate mais forte!...

... Ouve-se o rodar dum carro. Desperta do seu sono! Oh! Era um carro particular... E o tempo avança...

... As palavras do Gaddi soavam-lhe ainda aos ouvidos: “Vai sair o número 20338. Vá depressa que talvez ainda consegue bilhete.” Dizia o sono, dizia o Gaddi, dizia a sua consciência! Não! Não podia ser falso! Ia ser rico!

Apareceu a carreira. Lançou-se a ela, mas esta vinha tão cheia que o condutor, não recebia nem mais um passageiro. Para cúmulo estava lá um polícia!

Era de estoirar! Paciência!... Mas se chegar tarde? Perderia tudo! Não! Impossível! De qualquer forma tinha que enriquecer. Poderia enfim adquirir um terreno muito seu e construir lá uma casinha.... Comprar umas eiras de terra e uma junta de bois... Não haveria mais vexames do patrão para a sua esposa.. Mandaria os filhos à escola. Talvez pudesse montar um pequeno negócio. Um barzinho, talvez. Conseguiria ter um criado para dar ordens, e, quem sabe? Talvez viesse a ter pança como o patrão... Mas o auto demora-se muito. Assim não pode ser... E pose-se a correr a toda a brida... Os membros martirizam-se e os pulmões não aguentam. Já corria há mais de 20 minutos. De repente ouve o ruído do carro... Felizmente vinha quase vazio... Mete-se nele e ordena ao condutor: a máxima velocidade. O carro quase que voa mas, ao homem impaciente parece que anda como lesma. Mais, mais!...

Chega enfim a Pangim. Soavam 9 horas. A extracção começava às dez. Tinha ainda uma hora para procurar as cautelas miraculosas. Como um louco andou aqui e acolá pelas ruas. Nem um vendedor de lotarias! Teriam morrido todos? Na praça, ninguém. Foi ao bazar. Nada! Foi ao cinema! O mesmo! Sem dar por isso chegou ao pé da Provedoria de Assistência Pública. Mole imensa de gente esperançosa. Encontrou-se com um vendedor de bilhetes: “Tem cautelas?” “Não. Estão esgotadas.” Correu ao outro. Esta tinha muitas. “Tem o número 20338?” “Tenho sim. Quantas cautelas quer?” “Dê-me o bilhete inteiro!...” Comprou. Azar! Era de extração seguinte!... Devolveu. Correu ao terceiro, correu a muitos outros. Ninguém tinha. Chegou ao pé dum velhote! “Você tem com certeza. Dê-me! Pago o duplo!”. “Eu tenho, mas...” “Mas (segue na 4a página) o quê? Eu quero!” “Não, não tenho..” Levantou-o pela gola do casaco: “Dê-me! Ao menos uma cautela! Pago-lhe cinco rupias!” “Não, não tenho.” “Rogo-lhe de joelhos! Única cautela!” “Não!” Desconsolado sentou-se no chão ao pé do velho... Beijou-lhe os pés: “Uma, só uma” “Não!” Estava alquebrado! Já não podia mais... E... ladrão!...

... Momentos depois saía o número 20338 e dois homens desmaiavam ao mesmo tempo. O velho vendedor de lotarias, pobrezinho, feito rico num instante e o homem honesto feito ladrão...

Renato de Sá - Luz e Trevas: Um Livro Postúmo de Hipolito de Menezes Rodrigues (1951)

Um poeta que morre é mais uma vida que se apaga envolta no mistério da sua própria existência.

 
Hipólito de Menezes Rodrigues, temperamento poético por excelência, cujos primeiros versos surgiam tão cheios de ritmo nas “Luarizadas” ou na “Barca do Amor”, era uma dessas tendências poéticas que procurava na Arte um meio de expressão para as emoções mais intimas da sua alma.

Dominado por esse sonho do irreal e do vago, o seu espírito recolhia-se na doce contemplação dos horizontes vastos, ora escutando aqui uma folha que treme ao sopro da aragem, além um regato que corre plácido por entre as veigas... Ele sente a beleza da terra e da paisagem, ouve o eco da viração, além escuta a voz dolorida do pobre pedinte da estrada e mendigar uma côdea de pão...

E logo, nos primeiros cantos da mocidade os seus versos surgem num hino triunfal a poesia:

“Eu amo a poesia, amo a palidez funérea,
Das campas a mudez, da noite a quietação,
Eu amo a solidão, a tristeza, a miséria,
E a virgem traída na sua mais bela afeição,

Eu amo o soluçar da guitarra, a desoras,
No silêncio da noite os dobres a finados,
A coruja chorando, escondida , horas e horas,
Seus amores talvez funestos, malfadados.”

Todavia num rebate juvenil em que as primeiras realidades de existência o chamaram a si, Hipólito de Menezes Rodrigues, completado os estudos do Liceu, segue para a Metrópole como bolseiro do Estado para fazer os seus estudos superiores.

Passa pela antiga Escola Politécnica; faz os preliminares para os estudos da Agronomia: transita depois para a Faculdade de Medicina, e nessa digressão em que procura escolher o curso que mais se ajuste a sua índole entra para a Faculdade da Farmácia do Porto, centro notável dos estudos químicos e farmacêuticos em Portugal.

Está-se com efeito nos grandes dias em que o movimento transformador da nova ciência com a síntese química está em pleno apogeu, ao mesmo tempo que a química biológica, a nova técnica das análises e a química orgânica aplicada à Farmácia tendem a ampliar os acanhados horizontes de velha botica rural.

E si, no ambiente da vetusta Universidade onde pontificam os grandes mestres como Aníbal da Cunha, Castro Henriques e Manoel Pinto (e mais tarde Abel Salazar nos seus doutos estudos sobre a química microscópica), que Hipólito de Menezes Rodrigues prossegue nos seus estudos de Farmácia Superior que lhe abrem um mundo novo no vasto campo da investigação laboratorial e cientifica.

Mas vem a queima das Fitas, a tradicional festa da pasta, e é então que novamente a sua lira vibra em sínteses formosas que ficam grávidas nas páginas do livro dos finalistas do seu curso.

E os anos passam... e um dia no sertão dessa África – onde ele é Inspector do Exercício Farmacêutico do quadro do Ultramar, quando os serviços do seu dispensário o permitem, ele revê as suas primeiras poesias, os seus primeiros cantos, doces e ternos, o “Idílio”, “A Procura do Ideal”, o “Nosso Amor no Campo”, “Nos Lábios de Mulher”, “O Calvário duma Alma”.

Depois sonha com essas belas quadras do Instabílis:

Rosa que estás na roseira,
Sorrindo a minha desgraça,
Lembra-te que neste mundo”
“Tudo muda, tudo passa”
Passa a desgraça mais crua
Morre a ventura mais linda,
Surge o que menos se espera,
O que mais se estima finda.

Não. A vida não mudou. O destino tem qualquer coisa de inexplicável e subtil que nem a ciência nem nenhuma filosofia conseguem explicar, o eterno enigma que o determinismo universal condensou nessa inexorável sentença:

“A Móbil não escreve e passa avante. Da sentença que lavra nem toda a sua piedade num todo o teu génio alcançarão que risque meia linha sequer! Todas as lágrimas que chores não poderão delir-lhe uma palavra só.

E ele torna-se pessimista, descrente como se um sonho mau o perseguisse:

“Nas minhas veias perpassa
Fatalismo duma raça
Que não consigo vencer –
E assim, julguei-me feliz,
E, assim, julguei-me infeliz,
Fatal poder.
Alma vogando, vencida,
Por tantas vagas batida,
Co’os sonhos a naufragar...
Quem te deu esse cilécio,
P’ra que tanto sacrifício
Num tão inglório luar?

E ocorre-nos preguntar:

- Qual o drama que o pungiu, que lhe amorteceu a vida que tão prometedora e fagueira lhe surgia?

O mesmo drama talvez que ensombrou a vida de tantos poetas, de tantas existências consagradas a poesia, desde esse sublime Leopardi que cantou as suas desditas no “Pardal Solitário” até esse mago da Arte que foi Burns quasi que pressentiu o seu triste fim na sua famosa “Ode a uma violeta...”

Era na selva por um dia nevoento de Setermbro de 1947, quando Hipólito de Menezes Rodrigues em vésperas do seu embarque para a terra natal, fechou para sempre os olhos à luz nas terras de Quelimane, longe do carinho dos seus, tendo por únicos companheiros as páginas das suas líricas que a ternura do seu irmão Alberto de Menezes Rodrigues, camarada distinto das Letras coligiu num mimoso poema de saudade...

Mas é aí que encontramos o lírico mavioso da “Suplica”, da “Rosa Branca”, das “Ironias do Destino” e desse belo soneto “Luz e Trevas”, que em páginas de subtil beleza converteu os seus casamentos em formosos cantos.

“Luz e Trevas”, testamento lírico de um grande poeta que entra para o cancioneiro da melhor antologia goesa, versos em que perpassa a chama dum ideal de pureza sem artifícios e cujo autor repousou suavemente na paz de Deus na selva adusta e impenetrável...

E ao desfolhar a última página desse livro da saudade, eu recordo o famoso verso de Vigny:

Sur la pierre du tombeau croit l’arbre de la grandeur.