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Monday, 9 July 2012

Amadeu Prazeres da Costa - Apreciação Literária de Paulino Dias (1965)

Quem entre os jovens de hoje lembra-se do nome de Paulino Dias? Quantos homens da minha geração leram as suas obras? Quantos homens do seu tempo vivem ainda, homens que com ele conviveram, que o conheceram de perto, que sentiram o influxo da sua personalidade?

O Dr. Paulo Dias, que muito cedo foi arrebatado pela morte, tinha várias facetas por onde entrar para a história. Era professor da Escola Normal e havia sido nomeado professor do Liceu, meses antes da sua morte. Como professor, dizem as crónicas do tempo do seu falecimento, não era mero burocrata que cumpria escrupulosamente o programa de ensino e os deveres funcionais. Era um apóstolo e, nas palavras de Roque Correia Afonso, pontificou na educação como professor erudito e como prelector sugestionante diante de um auditório empolgado pela sua palavra ardente e sincera. Era, ainda nas palavras de Correia Afonso, um cultor da Ciência aplicada à produção industrial de drogas e dietas indígenas, tão apreciáveis como as importadas. E, por fim, “um apaixonado da Arte”, seja nos domínios da Pintura idealista, seja nas regiões etéreas da Música, seja finalmente na alta esfera da Poesia. Eis como o presidente do 3o Congresso Provincial, de que o Dr. Paulino Dias era um dos fundadores, o descreveu ao prestar homenagem à sua memória no discurso de inauguração da sessão.

Mas é sobretudo como Poeta que o Dr. Paulino Dias se revela em toda a pujança do seu talento. E é nessa sua qualidade, como poeta, que eu perguntava quantos dos jovens e dos homens da minha geração se lembravam dos seu nome.

Aliás, o próprio poeta, que personificava o homem despreendido da glória e fama, pressentia isso:

Mas alguma dia uma alma abandonada,
Discrente como eu de glória e de renome,
Se recordar de mim pela noite abalada,
Eu a hei-de escutar numa cova olvidade,
Quando pronunciar lentamente o meu nome.


Assim cantou Paulino Dias com esse pessimismo suave e não agressivo e com essa descrença que perpassa pela sua obra: esta atitude mental, que é a nota dominante da sua poesia, contrasta singularmente com as suas outras actividades. Paulino Dias, dizem-nos, era um chefe de família exemplar. Para mais, era dotado de iniciativas que requerem uma forte dose de optimismo. Promover a formação do Congresso Provincial e fabricar produtos industriais num meio como o nosso, nas condições então existentes, requer certo grau de idealismo poético, mas um idealismo iluminado pelo optimismo. Daí o pessimismo e a descrença que Paulino Dias revela na sua obra poética, não são um pessimismo orgânico, da índole própria do autor, mas antes o cunho estético da escola em que se filia a sua obra.

Com o pseudónimo de Priti Das, Paulino Dias publicou várias poesias dispersas nas revistas e jornais do seu tempo. São poesias do período formativo, sonhos de mocidade, nas quais – em uma e outra que cheguei a ler – pelo tema e pela forma já se adivinha por onde se vai encaminhando o seu espírito, a sua imaginação e seu conteúdo emotivo.

Vêm depois trabalhos de maior fôlego. A Lira da Ciência, a Deusa de Bronze e Vishnulal. E aqui teria terminado para os pósteros a sua obra, se uma comissão dos seus coaldeanos não tivesse dado à publicidade os manuscritos inéditos, coligidos com título de No Pais de Súria, título que o próprio poeta teria escolhidos para esses poemetos.

A Lira da Ciência é, por assim dizer, a profissão da sua fé, a sua matrícula na escola literária que, com o nome da Escola Realista, abrira na Europa novos e vastos horizontes. Para dispensar uma dissertação longa e tediosa que aliás julgo descabida aqui – sobre o que seja essa Escola Realista, apenas vou ler um trecho de Guerra Junqueiro, a quem o nosso poeta tomou como modelo.

Para provar que a poesia moderna deve ter um carácter científico, escreve Guerra Junqueiro que a poesia é a verdade transformada em sentimento. A lei descoberta por Newton, diz o vate, tanto pode ser explicada num livro de Física como num livro de versos. O sábio analisa-a, demonstra-a, e o poeta, partindo dessa demonstração, tira de facto todas as consequências morais, sociais e religiosas, traduzindo-as numa forma sentimental. A ciência, neste caso, dá o convencimento, a certeza; a poesia dá a emoção, o entusiasmo.

E mais adiante diz Junqueiro: “O poeta tem pois, obrigação de ser um homem do seu tempo”.

Ouçamos agora estes versos da Lira da Ciência de Paulino Dias. O poeta saúda os abertos horizontes:

Donde pode surgir e iluminar as fontes
Uma estética nova, imensa, incorruptível.
A forma é que o abismo, o obstáculo terrível.
A nossa é a infância da Arte, a treva da rotina;
Quando a forma ideal, robusta, masculina,
Romper com um vulcão do sal da inteligência
E que pode triunfar a Lira da Ciência.


E Paulino Dias impõe a si própria esta rota em seguida, dizendo:

Eis o ideal de futuro, ó cismador indiano!
Sê tu um dos heróis dessa coorte d’aço.


Comparemos estes versos de Paulino Dias com estes outros de Guerra Junqueiro, do fragmento de Prometeu Libertado:

A Ciência vê na frente um monte alcantilado:
Tem pressa, quer andar; fura-se de lado a lado.
Sobre aonde não sobe a asa dos cantores.
E onde os raios não vão, vão os mergulhadores.
Com fio de cobre ela reúne um mundo
A outro mundo; e enquanto o velho mar profundo,
Assombroso leão, ruge, estoira, rebenta
Debaixo do azorrague da hercúlea tormenta
Enquanto o vendaval revolve os sorvedouros
A as roucas ondas vãs, como um tropel de touros
Desgrenhados titãs fugindo a um cataclismo,
Na funda escuridão, bem no fundo de abismo,
Por entre as vagalhões e a glance olhar ardente
Dos monstros, vão passando irresistivelmente,
Vitorioso, na treva, o pensamento humano.


Como disse, Paulino Dias, como poeta, abre a sua matrícula na Escola Realista. Adapta a forma, a escola e “estese” dos homens de letras que, no século dezanove, operaram uma profunda revolução na literatura da Europa. Mas, como temos visto com esta comparação dos versos, ficaria reduzido a um aluno balbuciante se tivesse parado por aqui. A amplidão, a sonoridade, a vibração emotiva dos alexandrinos de Junqueiro reduzem a um pálido eco os versos de Paulino Dias.

Mas Paulino Dias, adoptando os moldes da nova estética europeia, volta-se para a Índia e encontra na sua rica a variada história e vida os temas para nesses moldes vazar os seus poemas. Índia, Nirvana, os Parias, poemetos dramáticos de maior fôlego e os outros poemas menores que constituem o Pais de Súria e a Índia toda com os seus heróis, os seus deuses, as suas crenças, os seus costumes, os seus esplendores e as suas misérias, interpretada, sentida, descrita segundo os cânones da escola literária ocidental do seu tempo.

Dois poetas, Paulino Dias e Nascimento Mendonça, fizeram isso. Ambos tiveram a infelicidade de ser arrebatados pela morte, antes de alcançarem a maturidade da sua obra, ambos deixando manuscritos inéditos que não chegaram a limar, a corrigir, a aperfeiçoar.

Nos poemas de Paulino Dias, publicados depois da sua morte, vê-se nitidamente essa lacuna de última demão que o poeta daria para dar maior flexibilidade ao verso e talvez refundindo trechos inteiros para lhes tirar a rigidez. Mas ainda assim como vieram à luz constituem esses poemas, ao lado dos de Nascimento Mendonça, talvez únicos exemplares na literatura indiana.

Compreendamos bem o que eu quero dizer com isso. Haverá talvez muitos livros de Arte em prosa e em poesia dos autores europeus ou ainda indianos tendo por temas assuntos indianos. Porém, neles a Índia é vista ficando fora dela e o tema passa a ser simples roupagem, uma casa externa confundindo-se com as descrições de paisagens e factos, permanecendo alheio à Índia no conteúdo emotivo. Na poesia de Paulino Dias é a própria Índia que paira.

E ao ver essa Índia assombrosa, multifacetada, carregando nos ombros o peso dos séculos de grandes realizações do espírito e da tragédia das superstições e de preconceitos, de crueldades e fatalismo resignados, Paulino dias, movendo-se dentro dos cânones da poesia realista, procura para os seus temas o que desagrada os oprimidos, os espoliados, os desprezados e as vítimas das disparidades económicas, os deserdados da fazenda que na sociedade europeia que proporcionaram o temário à literatura realista, mas sim os espoliados e deserdadas pelos preconceitos seculares de cartas.

E uma íntima revolta contra essa injustiça vibra nas suas palavras:

É-me selvagem, sei, a consciência da Bela
Mas que importa a pedrada e os botes escarninhos!
A liberdade vai da pena ao camartelo;
Se é livre a águia, o espaço e a torre de castelo
Que seja livre o verme, a poeira dos caminhos.


Paulino Dias vê uma coorte de deuses e deusas, dotados de paixões humanas, que nas mãos interessadas se tornaram instrumentos da resignação dos deserdados. E ele se torna descrente dos deuses:

Vai Indra, mau, às vinganças
O seu braço é longo e forte
Entre heróis, búzios e lanças
Guiando imensa coorte.
Triste vai Indra às vinganças que delira só na morte.


Canta um coro em um dos seus poemas e pergunta:

Quem é o deus supremo e justa?
Naraina, Naraina?


E o Naraina responde:

Diaus, Indra, Mitra, Ormuzd, Zeus, Tis e Ouranos
Mundos, glórias e sons, pensamentos humanos,
O que sobre, o que desce, o que morre e palpita
É o pó que rola aos pés da Verdade infinita.


E essa Verdade infinita são para ele as forças da Natureza que a Ciência revela. Paulino põe na boca de Durvassa, um dos personagens do seu poema, esta apóstrofe contra Indraa:

Tu eras o Deus da chuva e a tempestade amarga,
Um nababo com o raio! Ó Indra, figura oca,
Que adorava a cantar toda a Ariavarta louca,
Pondo a carne de bois e a sura nos altares!
E não és tu que pões a chuva sobre os ares,
Nem deitas o trovão com ecos sobre os montes
Não és tu o senhor dos longos horizontes
Tu não fizeste nunca o vento, o fogo, a aurora
É a Natureza, a mãe, a única criadora!


Mas no meio dessa revolta sucedem-se os desalentos. E uma grande tristeza, uma grande dor, um amargo pessimismo apodera-se da alma do poeta ao ver a sorte dos Párias.

Sublá Mar, o faraz de Berar, um dos personagens deste seu poema dramático em prosa e verso exclama acabrundado:

“Ó gentes, porque é que nós somos corridos da face do Suriavarta?
Quanto fizemos nós? Somos os únicos ladrões, assassinos
E mendigos no mundo? E a nossa pele tão suja?
Não a pode lavar toda a água do Ganga de Sarasvati?
Porquê não nos matam os Árias, reunidos no
Alto dos montes? Sabem como se purificam os que
Nos tocam por acaso?”


“Como é isso, é Sublá”, perguntam os párias, e Sublá Mar, ou seja o poeta, responde com escarninha amargura:

“Atirando água de bosta sobre o corpo, ou dando uma miserável moeda de cobre ao botta”

E o poeta apesar de todo o seu pessimismo, vê ainda a redenção:

Escutai-me eremitas, é tempo de apagar as crenças infinitas
Sonhos e criações das polidas idades,
Outras forças se impõem às severas verdades.
Essas, forças diz o poeta, são as forças da Natureza que

A Ciência explica, pondo nas mãos dos homens os meios para as desviar para o seu progresso.

Paulino Dias via na Ciência – não só por pertencer à escola realista em que literariamente se formou – o caminho da redenção da Índia, da solução dos inúmeros conflitos que, no seio da sua sociedade, foram suscitados pelos séculos de preconceitos. Na arte de Paulino Dias – nos seus versos, por vezes provocadores e ríspidos como rajadas de vento – é retratada a Índia integral: a sua paisagem assombrosa, desde as cordilheiras gigantescas até os bosques impenetráveis, os palmares, os bambuais, os arecais, os perfumes estonteantes das suas flores; os templos ecoam os gongos e dançam as bailadeiras; as ranis enfeitadas de jóias, guisos nos pés e manilhas nos pulsos; os deuses que descem da Svarga e heróis que combatem nos campos. Mas tudo isso é pano de fundo, é o cenário, para o tema central de toda a sua obra, que é a conquista da Índia pelos arianos e subjugação do drávida donde derivam todos os conflitos sociais.

Como disse, Paulino Dias morreu antes de ter podido aperfeiçoar o que escrevera e deixara inédito e de completar a sua obra e pensamento. Existe nessa obra verdadeira poesia. Nos poemas que nos deixou pode haver lacunas, mas é impossível ler qualquer desses poemas sem se sentir empolgado pela emoção. É que nas suas poesias há aquela profunda veracidade intrínseca pela qual se impõe ao nosso espírito. A superioridade literária manifesta-se nelas como simples consequência natural e lógica da verdade revolucionária do sentimento. Ainda considerado literariamente, e no campo restrito do valor estético, um homem que se manifesta pela palavra escrita tem muito mais mérito do que um simples autor. Paulino era assim: era dos que faziam da consciência pena, da verdade tinta, com pensamentos que respiram e palavras que queimam:

“Mas se, algum dia, uma alma abandonada, descrente como eu de glória e de renome, se recordar de mim pela noite abalada eu hei-de escutar numa cova pronunciar lentamente meu nome”

Friday, 13 January 2012

Visnum Porobo Sincró - Saíste Cedo, Amadeu (1972)

Sem completar o intento
Assinalado pelo labutar intenso,
Inda nos templos infaustosm
Sempre avante, firme no pensar,
Trabalhando para pugnar pela Verdade.
Esforçaste para o bem da terra
Saíste brevemente sem completar a missão
Exausto pelo esforço inaudito,
Destituído de malquerenças;
Obraste sempre a bem do povo,
A posterioridade nunca esquecerá,
Menos ainda os seus colegas,
Aflitos por esta separação rápida,
Devido a morte que ceifou a esta vida,
Excelente; alma santa, alegre,
Um grande perda para o Jornalismo.

Thursday, 28 July 2011

Amadeu da Costa Prazeres - O Drama dos Séculos (1968)

Mário Cabral e Sá ofereceu-me um dia um gira-discos, em penhor de amizade. Era excelente mas tinha um senão: ligado à corrente e ao alto-falante do rádio e posto a funcionar, os discos gravam, giravam e iam girando sem nada dizer, mudos e silenciosos. Como ao cavalo dado não se lhe olha ao dente nada disse ao meu amigo Mário e procurei investigar a causa da mudez do aparelho: o cartucho electrónico da cabeça do seu braço estava avariado.

Como nessas alturas partia para Europa, retirei o cartucho para comprar outro igual. A primeira cidade do meu itinerário onde me demorava era Zurich e banhado, comido, bebido e vestido no hotel após a chegada fui percorrer as lojas, para comprar a peça. Não havia em nenhuma parte. Havia de outra marca que podiam servir mas não se adaptavam na cabeça do braço. Ia resignar-me a tentar em Londres, pois o gira-discos era de manufactura inglesa, quando se acercou de mim um rapaz de dezoito anos prováveis e insistiu: “olhe, compre e venha comigo”.

Comprei e acompanhei-o. Numa água furtada de minúsculos dimensões, armara sobre um banco de pinho a sua minúscula oficina. Num canto sobre uma mesinha de pinho uns livros e duas rosas numa jarra de água. Noutro canto num leito estreito a cama limpa e arrumada. Estudava, dormia e trabalhava ali em horas vagas. Como trabalho semi-permanente servia num restaurante e feito o exame final terminado aquele semestre esperava obter o seu diploma de engenheiro técnico. Por espaço de uns quinze minutos, que passei fascinado com a sua história a vê-lo trabalhar, manipulou pinças, despicios de vários calibres, limas e soldador eléctrico e no fim a cabeça do braço do meu gira-discos estava munida do cartucho. Dei-lhe seis francos pelo trabalho e convidei-o para beber comigo uma cerveja. Levou-me ao restaurante onde servia e, sentados a uma das mesas, bebemos e conversámos: àquela hora não era criado. Era freguês, instruído e culto.
Segundo facto. Quando o Japão estava prostrado pela derrota na segunda Guerra Mundial dois rapazes, formados em Engenharia electrotécnica, puseram-se a matutar ao meio de ruínas da cidade bombardeada sobre que rumo iam dar à vida. Coligiram bocados de sucata, arranjaram ferramentas, apossaram-se de uma garagem dilapidada e à custa de trabalho e engenho fabricaram um pequeno rádio-transistor. A tentativa dera resultado. Fabricaram outro, mais outro, mais outro. Foram vendendo os aparelhos que fabricavam. Engajaram um rapaz e uma rapariga como primeiros operários da empresa incipiente. E hoje a fábrica dos aparelhos “Sony”, que principiou numa garagem dilapidada como vontade de sobreviver e triunfar de dois jovens castigados pela derrota do seu pais, é um dos símbolos da ressurreição do Japão à custa do trabalho dos seus filhos.
Terceiro facto: uma das primeiras cartas do meu filho escritas de Munique estava recheada de elogios pelo trabalho dos alemães: ‘Nem calculas, pai, como esta gente trabalha!” Ele trabalhava então, como aluno-aprendiz da Universidade Técnica de Munique, numa fábrica de Siemens em Nuremberg. O governo indiano tinha mandado para Alemanha como bolseiros dois engenheiros para ‘advance training’. Estavam naquela fábrica onde os engenheiros alemães fizeram praticamente todas as espécies de tarefas dos operários sob as suas ordens. Aos alunos-aprendizes, como ao meu filho, mandaram à entrada limar as peças e fazer gradualmente todos os trabalhos até à montagem das máquinas. Pois a respeito desses dois bolseiros, a carta dizia: ‘Estes nossos dois compatriotas andam à volta das máquinas, afastados, com receio de mancharem seus fatos, como se estivessem a observar animais num jardim zoológico. Que vão fazer depois de voltarem à Índia? Que vão levar daqui? Só a vanglória de serem “foreign trained”!

Todos estes factos ocorreram-me à mente num quarto de hotel em Bombaim. Tinha ido a Damão em serviço profissional. Reservara o bilhete de volta no avião para o dia 10 do corrente mês. Como o meu trabalho terminou mais cedo do que esperava voltei a Bombaim no dia 8 e fui direitinho ao escritório da ‘Indian Airlines’ para saber se podia antecipar o meu regresso a Goa tomando o avião do dia 9. Entrei e me abanquei ao balcão com o bilhete na mão. À minha frente, uma empregada e um empregado – que naturalmente foram contratados e são pagos para serem acessíveis aos passageiros – ciciavam aos ouvidos um de outro, indiferentes aos que passava em volta. De vez em quando olhavam para mim, para o bilhete que tinha na mão, e sem se importarem comigo voltavam aos esus arrulhos. Passaram assim quinze minutos. Perdi a paciência e estava para lhes dizer coisas duras quando o protagonista macho do dueto inaudível levantou-se da cadeira e outro que a veio ocupar informou-se da minha pretensão. Não havia lugar vago no avião e tive que marcar passos num hotel de Bombaim.

Estes episódios vieram-me à mente ao ler no quarto do hotel a revista de um livro num velho número de um magazine. O livro intitula-se ‘Asian Drama;, livro volumoso de 2.500 páginas em três volumes. É seu autor o economista sueco Gunnar Myrdal cujo livro ‘American Dilemma’, publicado em 1944 é um estudo sóbrio e autorizado sobre o preto americano. Comissionado pelo Twentieth-Century Fund para estudar os problemas e as perspectivas do Sul da Ásia, o economista levou dez anos para completar a tarefa, três dos quais viajando na vasta área ao sul da periferia da Rússia e China. Constituída por onze nações, desde o Paquistão à Indonésia, a área abriga quase um terço da população do mundo porém enfrenta mais de dois terços dos problemas mundiais: pobreza esmagadora, crescimento demográfico ruinoso, o fardo do passado colonial e agressores armados comunistas no Sueste Asiático. Myrdal é sueco, o seu pais não tem pecados coloniais e as conclusões do seu estudo não são coloridas de preconceitos ou ideias pré-concebidas que tendemos atribuir aos ocidentais que tiveram colónias. Reconhecendo que existem as condições vulgarmente citadas como responsável pelo atraso da Ásia – a falta do capital, dos recursos da educação – Myrdal diz porém que muito mais prejudiciais são os traços de carácter básicos e atitudes dos asiáticos que passa a enumerar: ‘níveis baixos de disciplina, pontualidade e ordenamento; crenças supersticiosas e visão irracional; falta de vigilância, adaptabilidade, ambição e prontidão geral para mudança e experimentação; desprezo pelo trabalho manual; submissão à autoridade e à exploração; aptidão baixa para colaboração.”
Desprezo pelo trabalho manual – sim, que exacta definição não é, por exemplo, das nossas atitudes, nesta nossa minúscula parcela da Ásia! Basta aprender a soletrar duas palavras na escola primária e adeus o trabalho manual – o menino já é doutor.