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Thursday, 30 August 2012

Cyrano Valles - Saudade (1978)

Saudade!
Emoção divina!
Elo doirado
Entre nós e o passado,
Vislumbre íntimo
De róseos sonhos
Desfeitos em fumo e nada.

Passam dias e anos
Mas a saudade nos subjuga
Sempre numa suave tirania
Feita de amor e melancolia.

Saudade! Única e última consolação
Para o nosso atribulado coração!

Tuesday, 5 June 2012

Cyrano Valles - Poema (1981)

Águia negra
Arrebatou de repente
A pomba parasita
Que entre corvos
Reinava anelando
Pantera feroz disfarçada
Em sentinela d’amor...

Rompeu o sol rútilo
As malignas cadeias
Das últimas trevas.
Aclamado com júbilo
Pelos cativos livres
Enfim dum longo pesadelo,
Um sonho mau de bruxas velhas
Que ruiu sob uma chuva
De estrelas vermelhas!

Alcandorado sobre pirâmides
De craveiras e carcaças
O deserto meglomaníaco
De chacina dos inocentes
Ruiu num instante orgíaco
Co’a maré subindo... subindo
Lenta... inexorável... fatal...
O canto das ciganas ecoando
O monótono restolhar dos fenos
E as abelhas revoltas zumbindo
Sobre a flor d’outono submergindo
Virgem violada pelo vendeval,
Nas névoas da noite eterna.
Algas de chumbo mal ocultando
Sua nudez íntima e derradeira!
Sulla spiaggia “un odor” di putredine
Dove sta la gloria...


Monday, 2 April 2012

Cyrano Valles - Requiem (n.d.)

Sou
O funeral
D’um pobre Homem
A quem nunca
Quiseram bem…

Sinos dolentes
Dobrai!
Violinhos plangentes
Dobrei!
Um requiem
Por este Homem de Bem
Que no Mundo
Criou espanto
Mas por quem
Ao morrer,
Ninguém verteu pranto,
Salvo sua Mãe,
Seu irmão
E um... ladrão!

Sinos agonizantes...
Violinos soluçantes...
É o Requiem
Do Homem de bem
A quem jamais quiseram bem!

Friday, 13 January 2012

Cyrano Valles - Ode ao Poeta Desconhecido (1966)

Sofres poeta
As vilanias do destino,
Mas cantas todavia,
Inspirado pela própria dor,
Que punge teu coração.

Alçado nas asas dum sonho,
Buscas a perfeição,
Fugindo do caos medonho
Que mundo se chama.

Procuras com uma ânsia divina
Tornar mais bela a vida,
Mais leve o jugo da sina
E menos triste a despedida.

Em ti que cantas
Os sonhos desfeitos
Dos vivos e dos mortos,
Renasce a esperança
De ver livre a Terra
Das barreiras dementes
Que separam os homens.

Canta, poeta,
Enquanto brilha o sol,
Que a Morte espreita
Teus passos, ciosa,
Da tua alma generosa.

Cyrano Valles - A Promessa (1967)

Virei um dia
Bater à tua porta
Viandante cansado
D’errar pelos agrestes
Caminhos da vida.

Virei em silêncio
Qual sopro
De suave brisa marinha
Levar-te

Para a viagem derradeira,
Iremos juntos
Semear nossos sonhos
Por entre as estrelas perdidas
Nas brumas da Eternidade.

Cyrano Valles - No Meu Jardim (1968)

Há no meu jardim
Flores maravilhosas,
Lindas e rubras rosas
Alvos lírios de cetim…

Há suaves melodias
De pássaros e trinar
E um eco de beijos
Trovados em noites de luar...

Há ainda o rasto
Sobre a relva azul
Da felicidade que passou,
Leve e descuidada,
Como o vento do sul...

Há no meu jardim
Uma saudade sem fim
Da ilusão doirada
Que outrora floriu em mim.

Wednesday, 28 September 2011

Cyrano Valles - Prelúdio (1976)

Homem!
Sê mais
Do que julgas!
Abarca
Nos teus punhos
Quadriláteros,
Todo esse
Infinito
Que o Céu não descobre!...

Homem!
TU
Microcosmo vivo,
És mais do que julgas!
Entre as estrelas-do-mar
E as estrelas do Céu
Ergues-te
Nas asas da Razão
Para desvendar
O segredo
Dos Deuses!

Homem!
A vida não mais
É do que um passo –
Uma ponte –
De ti depende,
Contigo só
Fica a decisão
De seres livre 
Ou eterno escravo
Da tua humana condição! 

Monday, 5 September 2011

Cyrano Valles - Redenção (1977)

Profetas
Pregando
Sonhos de glória
Prometendo
Nossa eterna redenção
Vem e vão:
Nunca nos dão
Vinho e pão
Fazer o bem
Sem olhar a quem
Receber o mal
Sem se queixar a ninguém
Sofrer em silêncio
(O silêncio é divino!)
Eis a nossa sorte banal!
Involuntários fantoches
De suma e divina comedia
Antes de Gomorra e Sodoma
Depois de Nagasáqui e Hiroshima,
Até quando...?
Mais não, meu valente!
Até marchar p’ra frente
É só mais olhar p’ra trás!
Sem jau sem razão convincente -
Para que mais estátuas de sal!
Safa! Seremos sempre escravos,
Mercenários lazarentos dos tiranetes
Ou dos seus vendilhões de rabanetes?
Não! Não e não meus bravos!
Cada dia que passa e jamais volta
É preciso fomentar
A revolta íntima e suprema
Contra homens falsos
E deuses espúrios –
É preciso transmudar
As nossas lágrimas em vinho
Em flores, fruta e pão
Os espinhos e as pedras
Do nosso quotidiano Calvário –
Eis a nossa REDENÇÃO!

Friday, 2 September 2011

Cyrano Valles - Promessa (1967)

Virei, um dia,
Bater à tua porta
Viandante cansado
D’errar pelos agrestes
Caminhos da vida

Virei em silêncio
Qual sopro
De suave brisa marinha
Levar-te

Para a viagem derradeira.
Iremos juntos
Semear nossos sonhos
Por entre as estrelas perdidas
Nas brumas da Eternidade.

Monday, 22 August 2011

Cyrano Valles - A Vida (1966)

A vida
É frágil flor
Que vive de amor
E more de dor.

A vida
É uma dança
De títeres,
Movidos por invisível mão.

A vida
É uma curta romaria
De peregrinos
Que vêm e vão
Com um sorriso nos lábios
E morte no coração.

A vida
É ser e não ser,
Gozar e sofrer –
É isto e mais aquilo,
Estranha chama
Misto de sonho e lama.

Monday, 20 June 2011

Cyrano Valles - Clareira de amor (1966)

Homem!
Porque tanta ira
No teu coração?
Porque tanta mentira?

Não nasceste
Para atiçar
As chamas do ódio
E da vingança,
Não. Não nasceste
Para cultivar
A seara do Mal
Mas sim para amar
A Vida inteira
O Verbo feito flor e carne.

Desperta, irmão,
Do teu negro torpor!
Abre uma clareira de amor
Nas trevas da tua condição
E sê, na verdade, o escultor
Da tua própria perfeição.

Saturday, 18 June 2011

Cyrano Valles - Não eras assim… (1966)

Tu não eras assim,
Polida e triste,
Qual rosa esmaecida.
Brotava em ti
Uma alegria sem fim,
Mas agora - quem diria? –
Teus olhos claros
Com o riso das estrelas,
Amorteceram
E, fitos no sol poente,
Contemplam
Não sei que visão demente.

Quem tumbou
O teu sonho alado?
Quem magoou
Teu coração enamorado?

Chora.
Deixa correr as lágrimas.
O pranto é um bálsamo
Para todas as mágoas;
É a redenção dos infelizes,
Feridos pelo áspero destino.

Friday, 10 June 2011

Cyrano Valles - Tudo Perdi (1966)

Tudo perdi
Quando a sina mesquinha
Desfolhou as rosas
Do nosso amor
Com mãos impiedosas.

Nada me consola agora.
Nem a toada do vento
Nas verdes pinheirais,
Nem a lânguida beleza do mar
Em noites do luar.

Tudo perdi
Quando te perdi.
Ferido
Pelo destino perverso,
Vivo só de saudade
E, no silêncio das estrelas,
A minha dor sem par,
Espraia-se pelo Universo
Em ondas de agonia.

Thursday, 9 June 2011

Cyrano Valles - Bilhete de Natal (1965)

Escuta!
No marulhar das ondas
Não ouves um coro celeste?
No chilrear dos passarinhos
Não ouves a voz de Jesus?
As flores e os campos doirados
Não te falam do Senhor?

Não pressentes a Divindade
No cilintar das longínquas estrelas?
E no humilde cardo
Não sentes palpitar o Eterno?

Natal! A Luz
Dissipa as trevas;
A Verdade triunfa sobre a mentira;
O Amor vence o ódio
Escuta! Um rumor divino
Se espraia pela noite estrelada;
É a voz do Deus menino –
A Voz da Eternidade –
Dizendo: “Paz aos homens de boa vontade”

Thursday, 2 June 2011

Cyrano Valles - Tu (1976)

Criança buliçosa,
Que vais caminhando
Pela Vida fora,
Cantando e sonhando
Sonhos cor-de rosa;
Que será de ti
No palco do Mundo?

Serás apenas um títere
Do cego Destino?
Uma vitima imbele
De qualquer monstro humano,
Virão sabujos insolentes
Tocando buzinas dementes
Cevar a sua louca fúria
No teu pobre corpo inerme?

Mimosa criança
Entre flores e risos brincando,
Após esta alegre alvorada
Qual será o teu porvir?
Serás um “anjo querido da Vitória”
Ou eterno joguete da Miséria?
Só Deus sabe e o Tempo o dirá;
Mas sempre por tuas ilusões embalada,
Vai cantando e sonhando até lá,
Que a Vida é uma cruel farsa –
Verdadeira e frenética corrida
Para esse álgido e negro abismo
Donde não se volta – nunca mais!

Sunday, 15 May 2011

Cyrano Valles - Horizonte Perdido (1976)

Palmeiras hirtas e mudas
No triste esmaecer da tarde…

Horizonte perdido
C’o sol Escondido
Nas negras nuvens paradas…

Ondas frouxas, cansadas
Morrendo à beira-mar…
Vultos cinzentos
“Boa Note! Boa Noite!”

Imagens inquietas
A flutuar na ânsia
Dos meus sonhos –
Saudades mortas

Surgindo vertiginosas 
Do horizonte perdido.

Sunday, 17 April 2011

Cyrano Valles - Charada (1982)

Tilintar
De cobres
Na calada da noite.
Judas continuando
Os dinheiros da traição?
Qual? Apenas o comilão
De sapos, mas a cara metade
Dos assassinos da Verdade
Empilhando os laques empalmados!
Depois, de joelhos
Perante altares alumiados
Rezam com a nação
Os sacripantas descarados
Pedindo a Deus com fervor
Glória, saúde, felicidade,
Mais riqueza… tudo menos perdão
Dos seus crimes e pecados!
Tilintar
De cobres
Pela noite fora…
A corja vai amontoando
Os laques e crores usurpados
Ao povo e aos pobres!

Friday, 18 February 2011

Cyrano Valles - Poema (1981)

Águia negra
Arrebatou de repente
A pomba parasita
Que entre corvos
Reinava anelando
Pantera feroz disfarçada
Em sentinela d’amor...

Rompeu o sol rútilo
As malignas cadeias
Das ultimas trevas.
Aclamando com jubilo
Pelos cativos livres
Enfim dum longo pesadelo,
Um sonho mau de bruxas velhas
Que ruiu sob uma chuva
De estrelas vermelhas!

Alcandorado sobre pirâmides
De craveiras e carcaças
O desvario megalomaníaco
De chacina dos inocentes
Ruiu num instante orgíaco
Co’a maré subindo.. subindo
Lenta... inexorável... fatal...
O canto das ciganas ecoando
O monótono restolhar dos fenos
E as abelhas revoltas zumbindo
Sobre a flor d’outono submergindo,
Virgem violada pelo vendaval,
Nas névoas da noite eterna.
Algas de chumbo mal ocultando
Sua nudez intima e derradeira!
Sulla spiaggia “un odor” di putredine
                    Dove sta la gloria...