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Thursday, 29 August 2013

Mário Cabral e Sá - As Chuvas Vieram (1968)

De súbito, porém há muito desejado, em preces silentes, em ladainhas desafinadas, as chuvas vieram. Pelos tectos de colmo dos gaddés de Diyar entrou água primeiro aos pingos, logo uma cascata, empapando o chão de terra batida, apodrecendo as enxergas, molhando a roupa no fio, enferrujando as malas de lata com seu conteúdo amarrotado – fato de ir ver a Deus aos Domingos e dias santificados, para dia de festa em casa do compadre e funeral da consogra.

Ao Motês, filho de Lorçú, irmão de Gospú, não podia acontecer coisa molher. Veio a chuva era ainda dia – quatro da tarde pelo relógio do escrivão Esvonta, três e meia hora local. E, sol posto, estava ele, como de costume, ponto assinado e copo na mão, dissertando para seus irmãos de alma presentes na taberna do Vicente, sobre o futuro risonho que há séculos lhe faz negaças. E sonharam todos eles, e beberam todos eles à saúde de seus sonhos, com uma ânsia dos diabos, com uma fúria maluca dos diabos de preservar em fenim de conserva de taberna do Vicente suas esperanças megalómanos de uma boa colheita, de filhos na universidade de Gaspar Dias, de uma casa de pedra e cimento de Carlota com anéis dos dedos embalando sua velhice numa cadeira de balanço de sissó envernizada pelo Roguvira, como as havia em casa dos Ranjeis.

O ano passado foi um ano como os não houve há muito. Obras de Deus, que tudo pode e faz que quer. E (segue na 4a pagina) contra a vontade de Deus que pode Motes, irmão de Gospú? Que pôde se pai Lorçú? O avô de Lorçú? Que poderá o filho de Motes? Nem Motês o sabe, que casamento e mortalha, como o presente dos pobres e futuro dos ricos no céu se arquitectam – no Céu como quem diz, que a miséria pegada em casa do Domingos, e a sorte negra da filha do Caitú só o diabo, só o diabo seria capaz de espalhar.

Que poderá o filho de Motes? Pensa Xambá que conhece a resposta. Pedaço de granito talhado à pressa, os pés chatos esparramados, seu pai nascera em Carambolim, a mãe nunca a conheceu, que o fiel mucadão como seu fora, mudar de mulheres era privilégio concedido pelos senhores da Casa Grande. Xambá fala. Mas quando fala que o oiçam. Como a ouviram não há muito quando pôs a calva à mostra ao regedor da freguesia, à tarde, diante de toda a gente. Se o prenderam por subversivo isso é o menos, que o prazer de dizer alto e bom som o que lhes ia na alma e na cabeça nem cabos Duartes nem sipaios Silvas foram capazes de desmanchar, nem a sopapo, nem a palmatoada.

Pois pensa Xambá que conhece a resposta. Leva-me pelos trilhos de sua vida a um punhado de casebres. Mulheres em desalinho calam a tabefe a fome de meninos que em vão buscam leite em tetas ressequidas. No lamaçal à frente dos casebres de addsó chafurdam búfalos ossudos e crianças de barriga inchada. “É o que poderá fazer o filho de Motês” diz-me Xambá, “engordar os búfalos, de inchar estas crianças. Quando o fizer, não será de lama e de milho. Será uma estrada, de brito, e asfalto, como a que passa pela casa dos Sás, como a que vai passar pela casa dos Costas. Então seremos outra gente. Os caminhos da vida se abrirão diante de nós e os da morte já não serão tantos à nossa volta.

Nos interiores dos casebres mães em desalinho continuam a sovar filhos meninos. E cá fora búfalos magrizelas e rapazes de barrigas inchadas lavam no lamaçal mágoas de sues destinos.

Friday, 16 September 2011

Mário Cabral e Sá - O baile (1962)

Chegou a hora. A hora das mensagens que se lêem nos olhos. Das palavras que se não falam. Um a um todos os convivas se levantam. Há despedidas. Os convites de convenção, “para o lanche, amanhã à tarde”. Há olhares que se desviam, outros que se cruzam e se fixam. Os papás mordem charutos e dão palmadinhas nas costas das meninas dos compadres. As meninas examinam os semblantes dos filhos casadoiros de outrem, inscrevem apontamentos, na sua mente, sobre o que viram e não viram e magicam artes de conquistar o José Olívio – novo, filho único, uma nada estrábico mas rico. Que mais se quer?... Se a Annette tem namoro? Que o desfaça. Amor e cabana, sim senhores, muito bonito, mas é para outra gente... Há os últimos apertos das mãos e a revolta dos insubmissos.

Levanta-te, “Balalaica”. Chegou a hora. Hoje tens trabalho. Há cadeiras por arrumar. O chão por limpar. Urinóis por desentupir. E talvez ainda haja para ti restos de comida e cerveja choca nos fundos dos copos, esquecidos por baixo das cadeiras.

Levanta-te, também tu. Bem sei que não pudeste dormir. Mas sai da cama. Agora ou nunca! O papel está na caixa, ao canto esquerdo da secretaria. A caneta na algibeira do paletó de teu pai. Deixa o selo, o sobrescrito e a direcção por minha conta.

“Não sei por onde começar. Mas já o deves adivinhar. Afinal...”

“Ontem, como sabes, houve baile. A mamã não atendeu a nenhuma das mil desculpas que havíamos inventado para que nessa noite, até que enfim, mais uma vez, umas horas juntos. Sós, em casa, enquanto os meus pais estivessem no baile. Absolutamente sós. Eu e tu... A mamã insistiu e o papá quase me bateu. Que era filha de gente de bem. Que esse baile podia decidir o meu futuro! Maldito baile e maldito o futuro que ele decidiu!

“Desde as cinco da manhã de hoje, estou noiva. Essa terrível desgraça que antecipávamos, enfim deu-se! À porta da saída, os meus pais e os pais do Albano discutiram os últimos pormenores. Depois, no carro, disseram-me que estava noiva. Que o “rapaz” era uma jóia de homem – apesar do cretinismo que abunda nas suas faces gordas de querubim vesgo em férias terrenas. Que o “rapaz” é rico. Que o “rapaz” é filho único. Que o “rapaz”... que o “rapaz”, mil vezes maldito, é o meu futuro marido.

“Não quero esforçar-me em imaginar as tuas reacções à esta carta. Se muito já sofro de pensar em ti daria em doida. Antes desse! Mas talvez ainda nos vejamos. Não sei. Mas quanto não daria eu – oh, se pudesse! – para que isso fosse possível. Mesmo que haja infernos nesta vida e noutra.

“Sei que poderia e deveria ser mais forte. Que tudo devia arriscar pelo amor que nos une e agora nos separa. Desculpa-me Victor. Fui fraca. Como naquela noite em em que melhor nos conhecêssemos... Tu és bom. Tu és um homem diferente dos outros homens. Por isso continuarei a ser tua.

Hoje como sempre.

Tua
Annette”

Pois bem, Victor, aqui tens a carta. Sou testemunha da tua mágoa. Do desmoronar dos edifícios de felicidade que havias arquitectado. Por isso, estarei presente na hora da tua reabilitação. Na vida vencem os insubmissos.

E tu, “Balalaica” continua a varrer. Limpo o pó e os vómitos no bacio. Procura a dona do fio de ouro que apanhaste preso à borda do cortinado. E isso que tens na mão e esticas e largas, como se fisga fosse, é uma liga com que as Senhoras prendem as meias à coxa. Deita-a no lixo ou brincas com ela se quiseres. Diverte-te à custa da Dama Nobre que se descuidou...

Wednesday, 7 September 2011

Mário Cabral e Sá - O baile (1962)

Chegou a hora. A hora das mensagens que se lêem nos olhos. Das palavras que se não falam. Um a um todos os convivas se levantam. Há despedidas. Os convites de convenção, “para o lanche, amanhã à tarde”. Há olhares que se desviam, outros que se cruzam e se fixam. Os papás mordem charutos e dão palmadinhas nas costas das meninas dos compadres. As meninas examinam os semblantes dos filhos casadoiros de outrem, inscrevem apontamentos, na sua mente, sobre o que viram e não viram e magicam artes de conquistar o José Olívio – novo, filho único, uma nada estrábico mas rico. Que mais se quer?... Se a Annette tem namoro? Que o desfaça. Amor e cabana, sim senhores, muito bonito, mas é para outra gente... Há os últimos apertos das mãos e a revolta dos insubmissos.

Levanta-te, “Balalaica”. Chegou a hora. Hoje tens trabalho. Há cadeiras por arrumar. O chão por limpar. Urinóis por desentupir. E talvez ainda haja para ti restos de comida e cerveja choca nos fundos dos copos, esquecidos por baixo das cadeiras.

Levanta-te, também tu. Bem sei que não pudeste dormir. Mas sai da cama. Agora ou nunca! O papel está na caixa, ao canto esquerdo da secretaria. A caneta na algibeira do paletó de teu pai. Deixa o selo, o sobrescrito e a direcção por minha conta.

“Não sei por onde começar. Mas já o deves adivinhar. Afinal...”

“Ontem, como sabes, houve baile. A mamã não atendeu a nenhuma das mil desculpas que havíamos inventado para que nessa noite, até que enfim, mais uma vez, umas horas juntos. Sós, em casa, enquanto os meus pais estivessem no baile. Absolutamente sós. Eu e tu... A mamã insistiu e o papá quase me bateu. Que era filha de gente de bem. Que esse baile podia decidir o meu futuro! Maldito baile e maldito o futuro que ele decidiu!

“Desde as cinco da manhã de hoje, estou noiva. Essa terrível desgraça que antecipávamos, enfim deu-se! À porta da saída, os meus pais e os pais do Albano discutiram os últimos pormenores. Depois, no carro, disseram-me que estava noiva. Que o “rapaz” era uma jóia de homem – apesar do cretinismo que abunda nas suas faces gordas de querubim vesgo em férias terrenas. Que o “rapaz” é rico. Que o “rapaz” é filho único. Que o “rapaz”... que o “rapaz”, mil vezes maldito, é o meu futuro marido.

“Não quero esforçar-me em imaginar as tuas reacções à esta carta. Se muito já sofro de pensar em ti daria em doida. Antes desse! Mas talvez ainda nos vejamos. Não sei. Mas quanto não daria eu – oh, se pudesse! – para que isso fosse possível. Mesmo que haja infernos nesta vida e noutra.

“Sei que poderia e deveria ser mais forte. Que tudo devia arriscar pelo amor que nos une e agora nos separa. Desculpa-me Victor. Fui fraca. Como naquela noite em em que melhor nos conhecêssemos... Tu és bom. Tu és um homem diferente dos outros homens. Por isso continuarei a ser tua.

Hoje como sempre.
Tua
Annette”

Pois bem, Victor, aqui tens a carta. Sou testemunha da tua mágoa. Do desmoronar dos edifícios de felicidade que havias arquitectado. Por isso, estarei presente na hora da tua reabilitação. Na vida vencem os insubmissos.

E tu, “Balalaica” continua a varrer. Limpo o pó e os vómitos no bacio. Procura a dona do fio de ouro que apanhaste preso à borda do cortinado. E isso que tens na mão e esticas e largas, como se fisga fosse, é uma liga com que as Senhoras prendem as meias à coxa. Deita-a no lixo ou brincas com ela se quiseres. Diverte-te à custa da Dama Nobre que se descuidou...

Sunday, 13 February 2011

Mário Cabral e Sá - Pró-Portugueses e Pró-Indianos (1964)

Certo crítico da PIDE escreveu uma vez em ‘A República’ que eram os agentes daquela polícia política os principais responsáveis pela expansão do comunismo em Portugal – porque, muitos daqueles agentes, para justificar os seus salários e provar a sua utilidade, se dedicavam ao desporto de fabricar “comunistas”. Comunista passou a ser Ismael Gracias porque no lugarejo onde advogava, uma vilória minhota, patrocinou a causa de uma mulheraça que se travara de razões com seu amante, um polícia da esquadra do sítio… E, como Ismael Gracias, muitos outros por razões não menos disparatadas.

Em Goa, chamar outrem de comunistas já esteve nos hábitos dos videirinhas, os carreiristas inveterados que chova ou faça sol, sempre estão com a situação. A moda, hoje, é chamar outrem de “pró-portugueses” e chamarem-se a si próprios “pró-indianos” – gente de má morte aqueles, divinos prodígios estes.

Como e por que ser-se “pró-português” implícita que se é “anti-indiano” e como e por que ser-se “pró-indiano” implícita que se é “anti-português” – quem o saiba que o diga... O que a nós nos surpreende é que se diga, à uma, que o responsável pela tensão nas relações indo-portuguesas é, unicamente, o governo do Dr. Oliveira Salazar, que se diga que o seu Governo não representa a nação e o povo portugueses e que se diga, sem pejo pela contradição, que ser-se amigo de Portugal e do seu belíssimo povo é ser-se inimigo de povos co quem Portugal não pode, neste momento, ter relações amigáveis, simplesmente porque tal não permite a politica adoptada pelo Governo no exercício do seu mandato.

Por outro lado, patrioteiros e patriotaços que, ainda ontem, traziam os gorgomilos enfartados com o que às mancheias lhes deitavam às gamelas os portugueses que aqui se encontravam, em paga do “portuguesismo” exibido, mestres na arte da patriotipércia, declaram-se ferrenhos “pró-indianos”. Esquecem-se de que, ser pró é ser a favor. Não se identificam indianos declarando-se “pró-indianos”. Como não se identificavam portugueses declarando-se “pró-português”... E, por isso, revelam que, nada seguros nem do que foram nem do que são nem, possivelmente, do que serão, o que querem é darem-se ares de “fiéis”, de “leais” à Pátria, seja ela quem for...

Em Pondicheri, temos Goubert que foi pró-francês e, ainda, não fez nenhum arrependimento público por o ter sido. Nem tampouco fez uma declaração negando suas velhas simpatias. Dir-se-á, uma vez mais, pela quincentésima vez, que os “franceses negociaram”, que os “portugueses não quiseram negociar”, que a França adquiriu direitos culturais na Índia e que Portugal os perdeu. O que não explicarão, porque não o podem, é a necessidade de se ser “anti-português” para se provar que se é leal à soberania que se estabeleceu em Goa em 19 de Dezembro de 1961!

Do que me foi dado ler e aprender das origens do nacionalismo indiano, e da sua evolução pelo figurino do universalismo gandhiano, derivei a noção de que o ódio é totalmente estranho à índole da politica nacionalista indiana. É por isso que é possível estar-se em estado de guerra com a China e continuar a ter-se uma representação diplomática em Pequim!

Sejam indianos todos quantos o queiram ser. Sejam bons indianos se bem querem servir a Índia. Mas chega desta brincadeira de chamar nomes que, nada significando, contudo, em vista do estado de histeria que prevalece nesta terra, prevaricam situações e falsificam-nas.

Disso, chega!