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Sunday, 7 October 2012

Versos de RV Pandit (1963)

“O Meu Rico Amigo”

O meu corpo
É despido
De roupas...

E
São farrapos
As poucas roupas
Que visto.

Não me despreza,
Por isso.
Pela Pobreza
Das minhas roupas.

O sol me veste
Com tecidos de oiro...
E a Lua
Com tecidos de seda
Cor de pérola...

De cobrir o corpo
Dia e noite
Com tais tecidos
Deus me deu
A grande fortuna!

Deus me deu
E só a mim,
Não se esqueça.

“Um faísca só”

A lâmpada
Está
Cheia de azeite...

O pavio
Imerso no azeite...

Está
Tudo pronto
Para receber a Luz.

Mas...

Entre o azeite
E o pavio
Falta a faísca
Que os há de incendiar
Escuridão em toda a parte

Assim
Entre o corpo social
E o pavio do seu coração
Para humanizar a sociedade
Falta só uma faísca

Sem ele...
Nunca haverá luz

Tradução do original concani por Mucunda Quelecar.

Mucunda Quelecar - Um Acontecimento no Mundo Literário de Goa (1968)


Viram a luz da publicidade, no dia 25 do corrente mês, cinco livros de poesias do poeta goês, RV Pandit.

Exprimir em palavras o que o génio dum poeta sentiu e traduziu na sua linguagem é talvez uma das tarefas mais difíceis que há; “é preciso ser-se um Milton” diz-se. Para apreciar o poeta RV Pandit não tenho senão uma qualidade: é ser goês e amar Goa como ele.

O sr. Pandit escreveu os versos não tendo em mira a publicidade, mas simplesmente para o desabafo do seu temperamento de artista, extremamente sensível ao mundo que o rodeia. Ele acalentou durou dez anos essas manifestações que traduziam a sua alma de poeta. Acontecimentos posteriores fizeram com que o poeta achasse necessário e oportuno que os seus versos saíssem à luz da publicidade!

Os cincos livros do poeta RV Pandit marcam uma época na vida da literatura e pensamento goeses. Em si, esses livros representam uma revolução na vida goesa. O sr. RV Pandit é um goês no mais íntimo das suas fibras e quando ele fala, é Goa que fala pela sua boca.

O sr. Pandit identifica-se com tudo o que Goa possui. Não há objecto, forma ou feição que lhe tenha escapado. É admirável a sua penetração em todos os detalhes da vida goesa. Tal penetração só é possível a quem ama entranhadamente a sua terra.

O sr. Pandit é goês e é revolucionário. Os seus versos atestam o facto de que ele atravessa todas as convenções literárias e sociais para atingir a verdade latente em que se vê.

No prefácio a um dos livros “Ailem toshem gailem” (I sang as it came, Eu canto como me apraz) diz o poeta laureado Baqui Borcar: o poeta Pandit, ao contrário doutro poetas não respeita a tradição. Quando eu li os versos de Pandit fiquei perdido numa floresta mas quando avancei fiquei encantado com a majestade natural dela. Essa era a voz do aborígene goês que até hoje não tivera uma oportunidade de se exprimir.

Lembrei-me de Walt Whitman, os versos de Pandit tem um estro, uma imaginação, uma revolta, uma ironia e uma tendência marcada para o sublime”.

Uma característica desse poeta é o seu anseio pela justiça social e o seu humanitarismo.

Outro livro seu aparece sob o título “Mogem Utor Gaudiachem (A Mminha fala dum Gaudó). O autor está tão identificado com a vida dum gaudó que ele exprime tudo o que essa entidade goesa representa. O gaudó é filho da terra, a sua base de sustenção.

Mas a sociedade não o considera, e todavia ele é imortal e passa por todas as vicissitudes sociais sem se alterar.

Sou um gaúdo – diz o poeta. Os outros são grande gente, mas eu sou um gaudó desprezível. Mas há uma coisa em mim. Podeis esmagar-me! Mas não fico pulverizado. Sou o mesmo homem, hoje e amanhã.”

Falando dele diz outro poeta goês Dr. Manohar Sar Dessai: “RV Pandit fala a linguagem dum gaudó. Ele é o filho aborígene de Goa. Goa tem passado por vários regimes políticos, várias mudanças económicas, mas o gaudó tem-se conservado firme. Ele é a base da nossa sociedade. Tem uma vitalidade inexaurível.”

Outros três livros são: Uitalem tem rup dhartalem (Form that will remain), Dharturechem Kavan (Song of the Earth) e Chandraval (Phases of the Moon). Todos esses cinco livros representam o génio versátil e polifacetada do artista e poeta que é o sr. RV Pandit.

Eles não só assentaram um marco miliário na literatura goesa na sua língua mas quando a língua de Goa for reconhecida no mundo, haverá para a nossa terra um prémio internacional.

Thursday, 14 June 2012

RV Pandit - O Sangue do Escravo (1962)

Era uma festa dos vermelhos,
À qual assistiram
Todos os vermelhos do mundo:
O vermelho perfumado da flor,
O vermelho áureo do céu matutino,
O vermelho do arco-íris
E o vermelho do rio turvo,

O vermelho dos dedos pintados,
O vermelho flamante da gravata,
O vermelho dos lábios “abolim”,
O corar da virgem casta,

O vermelho sanguíneo do poder insolente,
O vermelho róseo do nascer da liberdade,
O vermelho sufocante da luta nacional
E todos os vermelhos do mundo...

Mas, quando a festa começou...
Um vermelho infeliz foi visto num canto:
Era a cor do sangue dum escravo algemado.

Tradução de Mucunda Quelecar

Thursday, 5 April 2012

RV Pandit - Uma Faísca Só (n.d.)

A lâmpada
Está
Cheia de azeite...

O pavio
Imerso no azeite...

Está
Tudo pronto
Para receber a luz.

Mas...

Entre o azeite 
E o pavio
Falta a faísca
Que os há de incendiar
Escuridão em toda a parte

Assim
Entre o corpo social
E o pavio do seu coração
Para humanizar a sociedade
Falta só uma faísca
Sem ela...
Nunca haverá luz!

Traduzidos do original concani por Mucunda Quelecar.

RV Pandit - Ó Meu Rico Amigo (n.d.)

O meu corpo
É despido
De roupas…

E
São farrapos
As poucas roupas
Que visto.

Não me despreze,
Por isso,
Pela pobreza
Das minhas roupas.

O sol me veste
Com tecido de oiro...
E a Lua
Com tecidos de seda
Cor de pérola...

De cobrir o corpo
Dia e noite
Com tais tecidos
Deus me deu
A grande fortuna!

Deus ma deu
E só a mim,
Não se esqueça.

Traduzido do original concani por Mucunda Quelecar

Monday, 20 June 2011

RV Pandit - A Roda do destino (traduzido do concanim por Mucunda Quelecar, 1963)

Está a girar
A roda do destino,

Milhares de vidas
Esmagando, triturando.

Vidas…
Insignificantes de vermes,
Vidas
Divinas, sublimes
Com única medida.

Mas das vidas divinas
Uma música resssoa,
Uma cadência

Que, ecoando
Por toda a humanidade,
A vitória alcança…
Sobre o destino… eternamente!

Saturday, 12 February 2011

RV Pandit - O Número Dez (translated from the Konkani by Mucunda Quelecar)

Deus,
Uma vez,
Deu números
Às coisas venenosas.

Coube
O número um
À ambição humana.
Dois à traição
E à sua malquerença.
O número três,
À intrujice,
O número quarto.
Cinco,
Ao ódio.
À inveja
Número seis.
Sete
À intriga.
À leviandade feminina
Número oito.
E nove
Á arrogância dos homens.
E, vendo
Que os primeiros
Nove números
Foram ganhos
Pela peçonha humana,
A cobra
Deseperou...
E começou
A chorar...
Porque não tinha valia
O seu veneno
Perante outros maiores...
Então Deus,
Compadecido
Marcou sobre a sua fronte
O último número
O número dez!