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Wednesday, 25 April 2012

Juliana Cordeiro Monteiro - Diga-me (1965)

Porque será
Que de um mês para cá
Está às escuras
A convidar gatunos,
Importunos,
A travessa
Que passa
Pela minha casa?
Rios andantes aqui,
Poças estagnadas além,
Porque não há luz,
Para a gente
Que vai e vem?
Com monturos num canto,
Um rato morto também,
Que os varredores,
- Que espanto! –
Nem tocam com o medo
De sujarem os dedos,
Diga-me lá,
Em plena monção,
Porque essa lassidão
Dos serviços públicos?
E havendo suínos,
Valdevinos,
A assinalar de umunda
A sua passagem vagabunda,
Porque estão na escuridão,
As estradas da cidade,
Aqui, acolá,
Agora que para Mapuçá
Fornece electricidade
O Além-Gates?
Porque este lamaçal
Com desprezo soberano
Pelo conforto humano,
Pela estética social?
Será porque,
Nesta faminta terra,
Onde cada boca berra
A pedir mais pão
E não sei quê,
Ninguém liga a Você
Deixando “correr o marfim”
Sem pensar em si,
Em mim,
Ou nos demais,
Como seres racionais?

Friday, 13 January 2012

Maria Juliana Cordeiro e Monteiro - Vaidade (1962)

Supor que se é Alguém
Que tudo sabe e tudo diz,
E nas mãos remédio tem
Para a chaga de todo o infeliz.

Sonhar que se paira alto,
Acima da mesquinha terra
E, desperto num sobressalto,
Ser surdo à dor que perto berra,

Julgar que num só verso
Se penetra o fundo da alma,
Se condena a lágrima do Universo
E ao desvairado não dar a calma...

Olhar para o chão com desdém,
Tocar o Céu em acordado,
É loucura do Zé-Ninguém
É vaidade... e mais nada!

Thursday, 10 November 2011

Maria Juliana Monteiro e Cordeiro - Noite de Insónia (1963)

Ó Lua!
Luar de meia-noite!
Porque me espreitas,
Assim matreira,
Bisbilhoteira,
No conchego sem par
Do meu doce lar?
Não sabes, por certo,
Que o teu olhar indiscreto
Até me tira a cor
No terno alento
Do beijo quente
Do meu Amor?
Tem mais dó
Do pobre viandante
Que pela noite adiante
Saiu da casa, só,
Por obrigação,
Sem uma lanterna, coitado!
Vai iluminar,
Por favor,
O jardim dos namorados
Para andarem acautelados
Com a febre da sua idade...
A mim, não, querida!
Se passei em dura lida
As horas do sol,
De cá para lá,
Sem um momento parar!
Ó lua de prata,
Tapa-me pelo menos
Esses olhos de marota
Com o negro véu
Da nuvem perdida,
Vagabunda, esquecida,
Do oceano do céu.
Vai-te embora,
Importuno luar
Que a esta hora
Eu quero repousar
Das fadigas do dia
Na doce companhia
Do escuro da noite
Onde me sabe melhor,
Muito melhor,
O conchego do meu Amor...

Friday, 21 October 2011

Juliana Cordeiro Monteiro - Para Onde? (1965)

Folha despegada
Ao sopro do vento,
Para onde vais tu,
Assim azoinada?
Sem rumo nem norte,
Do monte ao vale,
De ravina em ravina,
Assim à sorte...
Ao sabor da rajada,
Destrambelhada,
Diz-me lá
Que procuras tu?
Onde o teu destino?
- Não sei para onde vou,
Nem mesmo atino
No que quero,
No que sou
Vou aonde me leva
O vento e a corrente
Aonde vai toda a gente
A folha do manjericão
Do cravo e jasmim.
Vou,
Quer queira quer não,
Porque não sei mandar em mim.

Wednesday, 14 September 2011

Juliana Cordeiro Monteiro - Eterno sonho (1965)

Que me diz,
Risonho, o sonho?
- Sou a esperança,
Que acalenta
As almas sedentas
Por um porvir feliz.
- Sou a urna de ilusões,
Frágil como o cristal,
A baloiçar no espaço etéreo,
Para fazer rir e chorar
Até o homem mais sério.
- Quem me procura,
Infatigável, confiante,
Será meu amante,
Mas não me acha nunca.

Contudo,
Não sei porquê,
Também sonhei
Uma vez na vida
E nessa paisagem apetecida
Poisei a vista gulosa,
E o coração em pista
De um bem
Que jamais achei.
Não seria isso sonho,
Se, alguma vez,
Eu pudesse navegar
Nas ondas amorosas
Desse mar de rosas,
Que eram, talvez,
Para que eu, louca,
As namorasse de longe
Com águas na boca.
Mas, ó credulidade de monja,
Que a idade
Não fez esmorecer!
Pois, mil vezes desiludida,
E neste entardecer
Da minha vida,
Nos escombros
Dos meus sonhos desfeitos,
Sonho agora, com efeito,
Mais ainda
Do que sonhei outrora...

Friday, 2 September 2011

Mariana Juliana Cordeiro Monteiro - Protesto (1962)

Tu, que me deste o ser,
Ao calor do teu seio
Não me abortes o viver
Que do Amor me veio!

Porque me não deixas ver
O raio doirado do Sol
Sentir, ao anoitecer,
O conchego do teu colo?

Ouvir os passarinhos
Ao despertar da manhã
E ao mimo dos teus beijinhos,
Chamar-te: mamã, mamã!

Por falta de guarida
Não me deixas mal.
Tenho, como tu, o direito à vida,
E um alma imortal.

Por uma côdea de pão
Não te vás desesperar...
Terás a tua ração
Se souberes trabalhar

Não me mates, que horror!
À mingua de um bago de arroz,
Cresçam searas em flor
Pelas mãos que Deus nos pôs.

E nas névoas de amanhã,
Quem sabe lá
Se no teu glorioso afã
Não surgirá
Dos farrapos do teu manto
Um génio, um santo?

Monday, 22 August 2011

Juliana Cordeiro e Monteiro - Desperta, é hora (1962)

Adormecida há séculos
Sem vontade, sem cor,
Minha alma cambaleia
Estremunhada do seu torpor –
Liberdade! Liberdade!
Tendo sonho… só para sonhar!
Um bem a que se aspira
E não se sabe como usar.
Neste orbe em que a Força
Manda no Direito,
Que razão há?
Que lhe faça jeito?
Para quê a minha voz?
Ah! O Destino é feroz...
Pois, se não souberes lutar
De lá ou de cá,
Canga sempre hás-de levar!

Sunday, 19 June 2011

Maria Juliana Cordeiro Monteiro - Porquê (1965)

Cães lazarentos,
Cães danados,
Vagueam pelas estradas,
Sem pão nem patrão,
Pobres animais,
Símbolo da fidelidade,
Como são descuidados,
Pela humanidade!
Quem deles tem compaixão,
Se, doentes, sem carinho,
Sem um osso para roer,
Vadios de profissão,
Vão alastrando, sem querer,
Terror e morte
Pelos povoados
Superlotados?
Almas penadas
Errando pelos caminhos,
Libertinos,
Ao Deus-dará,
A cumprir as penas
- Vejam só –
D’alguma raposa má,
Sua tetravó,
Farejam no lixo
- Tristes bichos! –
Mas em vão,
À procura de uma côdea de pão.
Se não há
Para a gente,
Que se gasta e moureja,
Um bago de arroz,
Que se veja,
Porque deixar sem dono,
E, ao abandono,
À solta pelas vielas,
Essa malta de sentinelas
De olhar tão humano?!
Porque acrescentar,
Inconscientemente,
Ao calvário da nossa gente,
Mais uma tortura,
Mais uma agonia
Mais um mal sem cura
Aos males de todos os dias?

Friday, 10 June 2011

Maria Juliana Cordeiro Monteiro - Salvé Nehru (1961)

O feitiço da Nação!
Este povo pluriracial
Feito uno no momento actual
Te saúda com efusão.
Põe a terra toda em chama
O teu verbo claro e ardente,
Despertando o orgulho dormente
Da velha Índia de altiva fama.
Diante do teu génio audaz,
Na angústia da hora severa,
O Bharat ajoelha e espera
Que por ti lhe venha a paz.
Mas hoje, data querida,
Sente-se cá dentro um não sei que...
- Salve! “Parabéns a Você,
Muitos anos de vida!” –
Canta, uníssona, a jovem Nação,
Qual meiga, tímida donzela
Tu não és só cabeça dela,
És também seu coração!

Wednesday, 13 April 2011

Maria Juliana Monteiro e Cordeiro - Na Bicha, Faça Favor (1963)

Passam horas,
Que demoras!
Quando virá a minha vez?
Um punhado só
Para cada freguês!
A bicha é enorme
E o agente ainda dorme…
Cravo, queijo, Maggi,
Tem-se agora só assim.
Um comboio de gente
Que se empurra,
Impaciente.
Mas para quê tanto empenho
Se me arranjo com o que tenho?
Será que uma pitada de sabor
Vale horas de tédio e calor?
- Os hábitos não são de bronze –
Se os posso ainda amoldar
Aos imperativos de hoje,
Eu me devia acomodar
Fosse como fosse.
Sem o cravo picante e doce
O ‘Xacuti’ não é ‘Xacuti’,
Sem queijo, sem Maggi,
Não há sopas, nem aperitivos –
E tudo isto, meu Deus,
- É o que mais dói dizer –
É a razão do meu viver…
Enquanto o homem lá fora
Acelera o passo, nervoso,
A par do avanço da terra
Nesta era atómica, mundo novo,
Eu, parado, por sinal,
Só tenho uma virtude,
Sim, para meu mal:
Alinhado na rua a bocejar
Tenho a virtude de saber esperar!

Monday, 4 April 2011

Maria Juliana Monteiro Cordeiro - Avante, Índia! (1962)

Índia de milénios,
Índia sonhadora
Desperta os teus génios
Contra a China usurpadora!

Tens nas túmidas veias
O sangue de Ashoka a ferver
Toma a fúria dos seus leões
Que o dragão há-de morrer!

Não temas os milhões!
Bem sei que o frio é fero,
Mas com fogo nos corações
Os milhões dão em zero.

Que sono tão profundo,
E o inimigo a arrombar a porta!
O senhor não é deste mundo,
A paz é letra morta!

Ó peçonha que o dragão esconde!...
Rios de sangue descem dos Himalaias!
Ai, enxota para longe, bem longe
... Donde não possa voltar mais!

Avante, Índia unida!
Não temas a neve glacial,
Luta de alma erguida
Que a Vitória é tua, afinal!