Mil novecentos quarenta e sete – eis uma data
Desde a qual a Nação frui liberdade lata
Vertido um mar de sangue, o inglês finalmente
Promete deixar Índia em paz, de boa mente...
Foi em quatorze de Agosto! Um dia a mais raiara;
Batera a meia noite. O Bharat trepidava...
Sonhos de glória e raiva! Euforia! Tristeza
Um povo que traçou páginas de beleza
Vibrava em alto grau, tanto no Parlamento
Como fora na rua, à luz de firmamento...
E um homem austero, a passo mesurado,
Caminhou então, hirto e solene, ao estrado...
Era o audaz Nehru, o primeiro-ministro.
Acabara o terror, o regime sinistro.
Uma terra já livre – ia ter finalmente
Um governo só seu, mesmo da sua gente!
Cumprido o protocolo e aposta a chancela
Um dilúvio de luz – visão de Cinderela –
Inunda o capital! As ruas, as esquinas.
Eram grandes florões de cores peregrinas.
Archotes, lampiões, como em dias de festa,
Brilhavam no solar e na casa modesta.
Bandeiras e festões, mil ramos de verdura;
Charangas a tocar; fogos, doces, fartura!
Homens, ao desafio, choravam a gritar
No entretanto, Nehru, numa voz muito calma,
Entrava a declamar, bem do âmago da alma
Sua fala à Nação, mensagem bem sentida
O eco passional duma alma dolorida:
Um sulco de agra dor riscava-lhe a fronte:
Como num sonho mau, ele via defronte
Questões de águas do mar e questões dos caminhos,
A intriga de Jinah, receios dos vizinhos...
Uma Índia bipartida, ele já visionava
Um mal bem fatal que de longe espreitava...
Tudo isto e muito mais, nessa data bendita
Passou, qual raio veloz, na mente do Pandita,
Que cimentou com sangue e mais inteligência
O último grau de nossa Independência.
Tuesday, 15 March 2011
Monday, 14 March 2011
Alberto de Menezes Rodrigues - Insónia (1970)
Foge-me o sono. A noite avança,
Negra como o carvão.
Cães ladram na vizinhança,
Fere-me os ouvidos
A estridulação
Dos grilos
Um dia morreu e um novo nasceu
Canta um galo
Amanheceu
Negra como o carvão.
Cães ladram na vizinhança,
Fere-me os ouvidos
A estridulação
Dos grilos
Um dia morreu e um novo nasceu
Canta um galo
Amanheceu
Tuesday, 8 March 2011
Francisco Correia-Afonso - Sorrowing Lies My Land (1962)
O leitor duma novela da vida e costumes de Goa com este título devia a cada página ouvir o tanger de plangentes sinos, o choro de carpideiras. Mas não. Lambert Mascarenhas, seu autor, tem o estilo ligeiro e cantante e, nas suas evocações da nossa vida rural, dos nossos simples costumes, palpita o amor pela terra e pelo povo. Quão diferente é este ambiente do ambiente pincelado por Orlando da Costa – este todo artificial, certamente composto com arte e jeito, mas desgostosamente afastado das realidades do clima e relações sociais, ao passo que o livro de Lambert Mascarenhas corre espontâneo e natural, como uma fonte que brotou do flanco dum oiteiro coberto de surungam e pidkallam.
Lambert Mascarenhas vive a vida que narra, sente os sentimentos que possuem os seus personagens. Durante a sua longa ausência em Bombaim sentiu a saudade do cheiro das nossas flores, do saber acre da água do mar durante as alegres passeatas na praia de Colvá, sua aldeia natal. São reais e vivos estes personagens – o Pai lavrador, amando a sua várzea e o seu palmar, mas homem à sua maneira culto, a Mãe caseira com fortes opiniões sobre a educação dos seus filhos, os rapazes e as meninas cada qual com o seu temperamento e os seus gostos mas correndo por todo este aglomerado de temperamentos e de gostos qualquer elemento comum que é tipicamente goês desenrolando-se na atmosfera confinada da aldeia – para os rapazes a escola primária, o liceu e depois fuga para Bombaim ou as Áfricas, para as meninas o casamento...
Mas porque jaz triste a terra de Lambert?
O episódio passa-se durante os últimos terríveis anos do regime policial em Goa. Descreve-se a primeira incursão, na nossa pacata terra, duma força expedicionária de paclés. Correm pelas aldeias histórias aflitivas de lares invadidos, de raparigas violadas. O regedor da aldeia defende os paclés e faz o elogio “da civilização” de que eles são os portadores para afinal cair sucumbido sob a terrível notícia de a filha ter sido raptada e violada.
Descreve-se a fortes traços a resistência do povo no dia em que Tristão Bragança Cunha desafiou a lei na praça de Margão. O Pai, tenaz anti-salazarista, toma parte na luta e regressa à casa com um rasgão na cara. Dias depois é chamado ao quartel onde o comissário lhe fez um “sermão” narrando factos íntimos da sua vida. O bom velho fica sabendo no fim que o seu próprio filho o delatou à policia. Este rapaz, filho desnaturado, é o símbolo de tantos que traíram a sua terra Mãe recebendo pinguemente pagos lugares para fazerem o frete do portuguesismo. O velho simboliza o espírito de resistência e de luta dos goeses cultos e patrióticos, em face de todos os sofrimentos físicos e morais.
Neste breve período encontraremos as razões por que jaz triste a terra de Lambert.
Este livro encantador produzido por Lambert Mascarenhas em terra ao tempo estrangeira e no período em que viveu ali exilado, chegou ao seu pátrio lar no encalço das tropas indianas libertadoras. É ainda cedo para Lambert Mascarenhas escrever a sequência do seu lindo romance. Mas fazemos votos para que chegue a produzi-lo. Poderíamos sugerir-lhe vários títulos: “As nuvens negras levantam-se”, “Voltou o sorriso ao rosto da minha Goa”...
Mas Lambert Mascarenhas é artista bastante para achar um título muito mais bonito que oxalá possa ser um título assinalado uma feliz verdade.
Lambert Mascarenhas vive a vida que narra, sente os sentimentos que possuem os seus personagens. Durante a sua longa ausência em Bombaim sentiu a saudade do cheiro das nossas flores, do saber acre da água do mar durante as alegres passeatas na praia de Colvá, sua aldeia natal. São reais e vivos estes personagens – o Pai lavrador, amando a sua várzea e o seu palmar, mas homem à sua maneira culto, a Mãe caseira com fortes opiniões sobre a educação dos seus filhos, os rapazes e as meninas cada qual com o seu temperamento e os seus gostos mas correndo por todo este aglomerado de temperamentos e de gostos qualquer elemento comum que é tipicamente goês desenrolando-se na atmosfera confinada da aldeia – para os rapazes a escola primária, o liceu e depois fuga para Bombaim ou as Áfricas, para as meninas o casamento...
Mas porque jaz triste a terra de Lambert?
O episódio passa-se durante os últimos terríveis anos do regime policial em Goa. Descreve-se a primeira incursão, na nossa pacata terra, duma força expedicionária de paclés. Correm pelas aldeias histórias aflitivas de lares invadidos, de raparigas violadas. O regedor da aldeia defende os paclés e faz o elogio “da civilização” de que eles são os portadores para afinal cair sucumbido sob a terrível notícia de a filha ter sido raptada e violada.
Descreve-se a fortes traços a resistência do povo no dia em que Tristão Bragança Cunha desafiou a lei na praça de Margão. O Pai, tenaz anti-salazarista, toma parte na luta e regressa à casa com um rasgão na cara. Dias depois é chamado ao quartel onde o comissário lhe fez um “sermão” narrando factos íntimos da sua vida. O bom velho fica sabendo no fim que o seu próprio filho o delatou à policia. Este rapaz, filho desnaturado, é o símbolo de tantos que traíram a sua terra Mãe recebendo pinguemente pagos lugares para fazerem o frete do portuguesismo. O velho simboliza o espírito de resistência e de luta dos goeses cultos e patrióticos, em face de todos os sofrimentos físicos e morais.
Neste breve período encontraremos as razões por que jaz triste a terra de Lambert.
Este livro encantador produzido por Lambert Mascarenhas em terra ao tempo estrangeira e no período em que viveu ali exilado, chegou ao seu pátrio lar no encalço das tropas indianas libertadoras. É ainda cedo para Lambert Mascarenhas escrever a sequência do seu lindo romance. Mas fazemos votos para que chegue a produzi-lo. Poderíamos sugerir-lhe vários títulos: “As nuvens negras levantam-se”, “Voltou o sorriso ao rosto da minha Goa”...
Mas Lambert Mascarenhas é artista bastante para achar um título muito mais bonito que oxalá possa ser um título assinalado uma feliz verdade.
Monday, 7 March 2011
Maria Elsa da Rocha - Não Tens Personalidade? (1963)
Não tens personalidade?
Com esse teu ar singelo e reservado
De homem educado
Que na multidão de gentes,
Alias do mesmo subcontinente,
Te faz ficar só,
Embora contente,
Fruindo duma forma peculiar
Esse momento vital?
Não tens personalidade?
Quando ris e choras
Nesse mandó dolente,
Qual beijo suave
Do Ocidente com o Oriente,
Numa simbiose de sons
Que evocam teu Passado
De machilas e boiâs,
Palanquins opalescentes?
Não tens personalidade?
No olhar firme
Do homem comum
Que calmo enfrenta
Monções irregulares
Na certeza absoluta de haver pão..
Para outro dia tão igual...
Com esse teu ar singelo e reservado
De homem educado
Que na multidão de gentes,
Alias do mesmo subcontinente,
Te faz ficar só,
Embora contente,
Fruindo duma forma peculiar
Esse momento vital?
Não tens personalidade?
Quando ris e choras
Nesse mandó dolente,
Qual beijo suave
Do Ocidente com o Oriente,
Numa simbiose de sons
Que evocam teu Passado
De machilas e boiâs,
Palanquins opalescentes?
Não tens personalidade?
No olhar firme
Do homem comum
Que calmo enfrenta
Monções irregulares
Na certeza absoluta de haver pão..
Para outro dia tão igual...
Sunday, 6 March 2011
Telo de Mascarenhas Obituary 1979
Já não é dos vivos o Dr. Telo de Mascarenhas
A sua figura imponente de lutador sem treguas, para alguns dos seus amigos era figura controvertida, mas ninguem foi capaz de por em duvida o seu indefectível nacionalismo, o seu amor à Pátria que mereceu o reconhecimento do Governo da Índia que o galardoou com Padma Shree, como combatente de liberdade.
A sua folha de serviço como combatente de liberdade foi multiflora. Na All-India Rádio, de Nova-Deli, e na Imprensa a sua acção se desdobrou de uma forma admirável. No Ressurge Goa, primeiro publicado em Bombaim, e depois da reintegração deste território na Índia dos seus sonhos, em Pangim, onde a sua pena cintilante versou assuntos, palpitantes de interesses da sua terra natal e na Coluna de Pilatos vergastou sem dó nem piedade muita hipocrisia e desmando do Governo local.
Acérrimo imimigo do Governo da ditadura Salazarista, contava amigos dedicados entre portugueses e, ultimamente, o seu decidido empenho foi ver convertido em realidade o seu sonho de um “Círculo de Amizade Indo-Portuguesa” que tinha sido a preoccupação dos últimos anos.
Ainda, recentemente enviara para O Heraldo a reportagem a uma representação levada ao palco na Kala Academi e à qual assitira o embaixador designado da Índia junto do Governo de Portugal, sr. Auduta Cacodcar, reportagem que daremos na edição de amanhã como a sua última contribuição e preito da nossa enternecida saudade.
Fulminado por um súbito colapso cardíaco nas primeiras horas da manhã de anteontem rendeu a sua alma ao Criador, nas suas casa de Camorlim, este nosso prezado amigo e colaborador, que contava setenta e oito anos de idade.
Poeta, escritor e jornalista, tem à seu crédito várias publicações e colaborou assiduamente na imprensa, tanto local bem como na estrangeira.
Combatente de Liberdade, agraciado com a comenda de Padma Shri em 1976, fundador do Ressurge Goa, cujo tema oi sempre batalhar contra a ditadura de Salazar, de quem, por ironia de destino, fora seu aluno predelicto, Dr. Telo de Mascarenhas, quando regressou ao seu torrão natal ao 9 de Agosto de 1970, foi recebido com as máximas honras, em geral, dispensadas a um herói e fundou logo o “Círculo de Amizade Indo-Portuguesa” do qual tornou-se o seu primeiro presidente.
Depondo um punhado de goivos sobre a sua campa fria erguemos uma prece fervente pela sua alma e enviamos as nossas sentidas condolências a sua viúva, sra D. Elsa Mendonça e Mascarenhas e demais família.
A sua figura imponente de lutador sem treguas, para alguns dos seus amigos era figura controvertida, mas ninguem foi capaz de por em duvida o seu indefectível nacionalismo, o seu amor à Pátria que mereceu o reconhecimento do Governo da Índia que o galardoou com Padma Shree, como combatente de liberdade.
A sua folha de serviço como combatente de liberdade foi multiflora. Na All-India Rádio, de Nova-Deli, e na Imprensa a sua acção se desdobrou de uma forma admirável. No Ressurge Goa, primeiro publicado em Bombaim, e depois da reintegração deste território na Índia dos seus sonhos, em Pangim, onde a sua pena cintilante versou assuntos, palpitantes de interesses da sua terra natal e na Coluna de Pilatos vergastou sem dó nem piedade muita hipocrisia e desmando do Governo local.
Acérrimo imimigo do Governo da ditadura Salazarista, contava amigos dedicados entre portugueses e, ultimamente, o seu decidido empenho foi ver convertido em realidade o seu sonho de um “Círculo de Amizade Indo-Portuguesa” que tinha sido a preoccupação dos últimos anos.
Ainda, recentemente enviara para O Heraldo a reportagem a uma representação levada ao palco na Kala Academi e à qual assitira o embaixador designado da Índia junto do Governo de Portugal, sr. Auduta Cacodcar, reportagem que daremos na edição de amanhã como a sua última contribuição e preito da nossa enternecida saudade.
Fulminado por um súbito colapso cardíaco nas primeiras horas da manhã de anteontem rendeu a sua alma ao Criador, nas suas casa de Camorlim, este nosso prezado amigo e colaborador, que contava setenta e oito anos de idade.
Poeta, escritor e jornalista, tem à seu crédito várias publicações e colaborou assiduamente na imprensa, tanto local bem como na estrangeira.
Combatente de Liberdade, agraciado com a comenda de Padma Shri em 1976, fundador do Ressurge Goa, cujo tema oi sempre batalhar contra a ditadura de Salazar, de quem, por ironia de destino, fora seu aluno predelicto, Dr. Telo de Mascarenhas, quando regressou ao seu torrão natal ao 9 de Agosto de 1970, foi recebido com as máximas honras, em geral, dispensadas a um herói e fundou logo o “Círculo de Amizade Indo-Portuguesa” do qual tornou-se o seu primeiro presidente.
Depondo um punhado de goivos sobre a sua campa fria erguemos uma prece fervente pela sua alma e enviamos as nossas sentidas condolências a sua viúva, sra D. Elsa Mendonça e Mascarenhas e demais família.
Friday, 4 March 2011
Manuel Ferreira - O apoio de que necessitam os literatos (1954)
Já há tempos, ao de cima da rama, nos referimos ao assunto e hoje apetece-nos, uma outra vez, bordejar o siso, um nadinha só mais amplamente, porque, estamos na nossa, de que o assunto merece os esmeros e os mimos paternais de quem cuida e manda. De quem cuida e de quem manda e, mais que tudo, responde pela manutenção dos valores intelectuais. Afinal, aqueles valores que perduram e se perpetuam nos caminhos ásperos e heróicos do Tempo e do Espaço.
Seja esta a primeira pergunta, se me dão licença. Há ou não há valores goeses actuais? Há ou não há valores goeses em nossos dias, uns entrados na idade e amadurecidos pelo estudo e ainda não minados pela desilusão, outros tenros de anos, irrompendo para a vida com o entusiasmo remoçado de quem se sente talhado pelos fados para as coisas da Literatura?
Cremos que sim, pelo menos em maior ou menor grau.
Deixemos os mais velhos que pelos anos fora têm rompido a vencer dificuldades de toda a espécie, e falemos hoje de novos. Entre estes há, pelo menos, jovens poetas, já que a poesia é a forma artística mais pronunciada nas primeiras idades literárias, porque em seus inícios ela é toda lírica, emoção pura e primitiva, e nada, ou pouquíssimo, racional, intelectualizada.
E aqui temos de lançar uma outra pergunta. E onde encontram esses jovens poetas, na floração do seu talento, os estímulos para continuarem os seus exercisios literários estímulos para continuarem os seus exercísios literários, para darem volume definido e humano aos seus sonhos poéticos, às suas ambições de homens que vêem na Arte a sua audaciosa e mais querida razão de ser? Melhor, talvez: como poderão esses nóveis literatos vazar os seus versos ou os seus ensaios literários? Como poderão comunicar eles com o público, se não alcançam nada através de que? E não nos esqueçamos de que a comunicação com o público, que é lograda especialmente através de publicações e da critica, é dos factos mais decisivos para a evolução do artista. Já porque o artista encontra nesse como que diálogo entre si e a massa o remate de tarefa realizada e cumprida ainda que momentaneamente.
Eis porque ousamos avantar aquilo que uma vez sugerimos: criarem-se as possibilidades de algum organismo lançar mãos dos originais dos poetas (ou de contistas ou romancistas, se eles vierem a sugir em Goa) e dá-los a conhecer ao público, por intermédio de publicações gratuitas ou compradas aos autores.
A Imprensa Nacional, parece-nos, não encontraria dificuldades que não fossem ultrapassáveis, para levar adiante iniciativa tão generosa e útil, se os poderes constituintes assim o entendessem e o determinassem.
E se a tudo isto, ajuntássemos antologias de prosadores e poetas goeses que ergueram alto o seu nome através dos anos e edições de valores actuais bem definidos, prestava-se um belo serviço à Cultura Portuguesa e satisfazia-se assim uma necessidade que, de uma assentada aprazia a autores, ao público e a todos quantos têm para si que uma coisa nunca poderá ser destruída e sempre fica como padrão perpétuo e reduto indestrutível: a Cultura.
Evidente mente que esta sugestão despretensiosa, mas sincera, para se tornar numa realidade invejável requeria uma pequena secção que poderia ficar adstrita à Imprensa Nacional e com latitude suficientemente elástica de modo a que pontos de vista menos largos ou menos convenientes não viessem apear os vôoes poéticos ou os rasgos humanos dos prosadores com direito de mérito a serem publicados.
Este facto o reputamos de muita importância e antolha-se-nos que para se levar que para se levar adiante a obra que referimos é absolutamente necessário tê-lo bem presente e bem vivo na memória, senão tudo ficará sujeito a proporções de obra maninha.
Seja esta a primeira pergunta, se me dão licença. Há ou não há valores goeses actuais? Há ou não há valores goeses em nossos dias, uns entrados na idade e amadurecidos pelo estudo e ainda não minados pela desilusão, outros tenros de anos, irrompendo para a vida com o entusiasmo remoçado de quem se sente talhado pelos fados para as coisas da Literatura?
Cremos que sim, pelo menos em maior ou menor grau.
Deixemos os mais velhos que pelos anos fora têm rompido a vencer dificuldades de toda a espécie, e falemos hoje de novos. Entre estes há, pelo menos, jovens poetas, já que a poesia é a forma artística mais pronunciada nas primeiras idades literárias, porque em seus inícios ela é toda lírica, emoção pura e primitiva, e nada, ou pouquíssimo, racional, intelectualizada.
E aqui temos de lançar uma outra pergunta. E onde encontram esses jovens poetas, na floração do seu talento, os estímulos para continuarem os seus exercisios literários estímulos para continuarem os seus exercísios literários, para darem volume definido e humano aos seus sonhos poéticos, às suas ambições de homens que vêem na Arte a sua audaciosa e mais querida razão de ser? Melhor, talvez: como poderão esses nóveis literatos vazar os seus versos ou os seus ensaios literários? Como poderão comunicar eles com o público, se não alcançam nada através de que? E não nos esqueçamos de que a comunicação com o público, que é lograda especialmente através de publicações e da critica, é dos factos mais decisivos para a evolução do artista. Já porque o artista encontra nesse como que diálogo entre si e a massa o remate de tarefa realizada e cumprida ainda que momentaneamente.
Eis porque ousamos avantar aquilo que uma vez sugerimos: criarem-se as possibilidades de algum organismo lançar mãos dos originais dos poetas (ou de contistas ou romancistas, se eles vierem a sugir em Goa) e dá-los a conhecer ao público, por intermédio de publicações gratuitas ou compradas aos autores.
A Imprensa Nacional, parece-nos, não encontraria dificuldades que não fossem ultrapassáveis, para levar adiante iniciativa tão generosa e útil, se os poderes constituintes assim o entendessem e o determinassem.
E se a tudo isto, ajuntássemos antologias de prosadores e poetas goeses que ergueram alto o seu nome através dos anos e edições de valores actuais bem definidos, prestava-se um belo serviço à Cultura Portuguesa e satisfazia-se assim uma necessidade que, de uma assentada aprazia a autores, ao público e a todos quantos têm para si que uma coisa nunca poderá ser destruída e sempre fica como padrão perpétuo e reduto indestrutível: a Cultura.
Evidente mente que esta sugestão despretensiosa, mas sincera, para se tornar numa realidade invejável requeria uma pequena secção que poderia ficar adstrita à Imprensa Nacional e com latitude suficientemente elástica de modo a que pontos de vista menos largos ou menos convenientes não viessem apear os vôoes poéticos ou os rasgos humanos dos prosadores com direito de mérito a serem publicados.
Este facto o reputamos de muita importância e antolha-se-nos que para se levar que para se levar adiante a obra que referimos é absolutamente necessário tê-lo bem presente e bem vivo na memória, senão tudo ficará sujeito a proporções de obra maninha.
Thursday, 3 March 2011
Frei Manuel Cristo - As Letras em Goa (1954)
Faz poucos meses, um escritor metropolitano que viveu algum tempo nesta terra e se interessou com vivo carinho pela actividade cultural do nosso pais, registava em tom magoado, que Goa, sem embargo de ser reputada como centro de cultura lusíada no Oriente, contribuísse com escassa produção, no campo literário.
Por nossa vez, não hesitamos em subscrever o amargo reparo contanto que se limite somente ao presente. De feito, mercê de factores que longo e também delicado se esmiuçar neste lugar, as Letras em Goa vegetam presentemente numa estagnação.
Talvez a um espírito superficial se afigure esta opinião pouco exacta à vista de abundância de periódicos que entre nós pululum. É certo que aumentou, nos nossos dias, o número de jornais; mas doutro lado não se pode deixar de admitir que cresceu concomitantemente a onde de desmazelo com que é tratada a língua na qual estas folhas vêm a lume.
Consola, todavia, verificar que nem sempre o goês, integrado na cultura portuguesa, fez pouco do idioma.
De posse duma sólida formação humanística e lidando com quase toda a literatura portuguesa e sobretudo com a clássica, os nossos escritores de antanho manejavam a língua de Vieira com tal domínio, apesar de não a terem aprendido desde a infância, que causavam espanto nos próprios meios cultos da metrópole.
Dr. Júlio Gonçalves, insigne professor e escritor do século passado, se lê que usava com tal pureza a língua que em Portugal era tido por esse facto como um reinol e não como um puro goês.
Oferecemos, nesta página, trechos escolhidos de dois dos nossos escritores que ganharam loiros, no manejo do idioma português. São eles Floriano Barreto e Wolfango da Silva.
O primeiro anti-sazão arrebatado pela Morte ao cultivo das boas letras distinguiu-se como filho dilecto das musas e como tal deixou uma coletânea de vários poemas intitulada Falenos e de que extraímos a poesia que vai publicada em outro lugar.
O outro escritor é e Dr. F.X. Wolfango da Silva, personalidade multifacetada em que sobrepujava talvez o seu peregrino talento literário. Chefe dos Serviços de Saúde, mestre cujos lições sobre medicina eram escutadas com acatamento e admiração pelas gerações de estudantes que frequentaram a nossa Escola Médica, orador da palavra enfeitiçante graças à qual os temas da ciência se despojavam da natural aridez e ganhavam vida e interesse, o Dr. Wolfango da Silva possuía o raro condão de imprimir a beleza a qualquer produção que saísse do seu privilegiado espírito.
Por nossa vez, não hesitamos em subscrever o amargo reparo contanto que se limite somente ao presente. De feito, mercê de factores que longo e também delicado se esmiuçar neste lugar, as Letras em Goa vegetam presentemente numa estagnação.
Talvez a um espírito superficial se afigure esta opinião pouco exacta à vista de abundância de periódicos que entre nós pululum. É certo que aumentou, nos nossos dias, o número de jornais; mas doutro lado não se pode deixar de admitir que cresceu concomitantemente a onde de desmazelo com que é tratada a língua na qual estas folhas vêm a lume.
Consola, todavia, verificar que nem sempre o goês, integrado na cultura portuguesa, fez pouco do idioma.
De posse duma sólida formação humanística e lidando com quase toda a literatura portuguesa e sobretudo com a clássica, os nossos escritores de antanho manejavam a língua de Vieira com tal domínio, apesar de não a terem aprendido desde a infância, que causavam espanto nos próprios meios cultos da metrópole.
Dr. Júlio Gonçalves, insigne professor e escritor do século passado, se lê que usava com tal pureza a língua que em Portugal era tido por esse facto como um reinol e não como um puro goês.
Oferecemos, nesta página, trechos escolhidos de dois dos nossos escritores que ganharam loiros, no manejo do idioma português. São eles Floriano Barreto e Wolfango da Silva.
O primeiro anti-sazão arrebatado pela Morte ao cultivo das boas letras distinguiu-se como filho dilecto das musas e como tal deixou uma coletânea de vários poemas intitulada Falenos e de que extraímos a poesia que vai publicada em outro lugar.
O outro escritor é e Dr. F.X. Wolfango da Silva, personalidade multifacetada em que sobrepujava talvez o seu peregrino talento literário. Chefe dos Serviços de Saúde, mestre cujos lições sobre medicina eram escutadas com acatamento e admiração pelas gerações de estudantes que frequentaram a nossa Escola Médica, orador da palavra enfeitiçante graças à qual os temas da ciência se despojavam da natural aridez e ganhavam vida e interesse, o Dr. Wolfango da Silva possuía o raro condão de imprimir a beleza a qualquer produção que saísse do seu privilegiado espírito.
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