Wednesday, 7 March 2012

Gaby Neves - Admoestação (1962)

Porque ris
Porque choras
Porque mostras como agora
A tua podridão!
Para mim é só fraqueza...
Fraqueza que uma alma sente
Quando sente a solidão.
Mas para os outros...
Não rias
Não chores
Não abras ingenuamente
As portas do coração
Para os outros
Não é tristeza
Sendo a própria fraqueza
Sinónimo de devassidão.

Tuesday, 6 March 2012

Visnum Porobo Sincró - O Esconderijo (1972)

Para ocultar o que sinto,
Quando não quero ser claro,
Tenho um esconderijo meu próprio!
Ninguém sondou a consciência
Nem tão pouco a alma humana,
Para todos ela é insondável;
Indecifrável na realidade,
E não se pode saber nunca,
Os íntimos de quem quer!
É coisa já determinada!!
Um homem discreto é respeitado,
Porque ninguém o pode avaliar;
Para isso são úteis os esconderijos!!

Bailon de Sá - São João Baptista (1975)

Precursor: qual aurora do esplendor
Do Sol, transluzindo no horizonte,
Cândido, mas terrível no fervor
Do seu verbo mordaz e escandecente.

Na sua base a montanha estremeceu,
E turgesceu-se o vale como um seio
(como o mar encapela um escarcéu)
mordido por um velho e doce enleio.

Contorce Herodias no seu leito
Adúltero – qual verme numa brasa –
Urdindo a negra trama no seu peito,
P’ra extinguir o remorso que lhe abrasa.

Em ritmos de volúpia, Salomé
Vem dançando perante o ignóbil rei,
E quase a volitar, pé ante pé,
Da aproxima-se e diz: “mãe, não sei,

Ao Tetraca que devo eu lhe pedir,
Pela galharda oferta que me fez?
Um sinistro clarão trai-lhe o sentir
“Ah! Já tenho nos dentes a minha rês:

Nesta salva a cabeça do Batista!”
Cochicha... Triste o rei, acede porém.
E sem mais, Salomé, lúbrica artista
E pôs na mãos crispados da sua mãe.

Cabeça do Batista, eis a Verdade,
Que nós em vão tentamos degolar:
Há Rhodanos na senda da Maldade,
Que, às furtivas, se podem congelar!

(Nota) Diz uma lenda que Salomé, quando a caminho de Lião, acompanhada de sua mãe e Herodes, ora destronados e exilados, atravessava o Rhodano, vendo-o coberto de gelo, quis patinar, mas ficou submergida até o pescoço. Enquanto estrebuchava, o gelo foi-se, aos poucos, apertando-a como um garrote, até que a cabeça ficou separada do tronco.

Ave Cleto Afonso - A Tragédia Humana (1965)

- O pá... José... José... Psciu... – e eu continuava a correr, atrás dele, todo ofegante e com o rosto alagado em suor. O movimento na rua era grande e uma grande mole de gente dificultava a passagem do tráfico motorizado por aquela artéria estreita. O ruído ensurdecedor das buzinas dos carros e dos foguetes, queimados sem cessar por petizes gaiatos, provocava uma aguda dor de cabeça.

Era dia da festividade do deus Ganesh. As moradias das famílias que a celebrava, estavam abertas às visitas. Cada uma delas tinha, sobre uma espécie de um altar improvisado e em artísticos nichos, a imagem do divino Gannpati.

Em um desses dias, não era, portanto, tarefa fácil atravessar a Rua Abade Faria. Em constantes ziguezagues, para evitar empurrões e “abraços” indesejados dos transeuntes, só um louco se atreveria a uma prova de corrida nessa medonha confusão.

- Ó homem de Deus... José... hei... psciu... Não, o desgraçado não atendia, apesar de saber ser “perseguido”. Corria quase a cambalear e já algumas vezes se prostrara involuntariamente aos pés dos transeuntes. Numa ocasião falhara por pouco em ser colhido por uma carroça, e numa outra, recebera uma valente bofetada de uma moça que fora magoada por ele acidentalmente. E eu corria atrás dele, qual outro louco.

Mas porque teria ela afinal interrompido tão bruscamente a conversa e começado a fugir como um touro assanhado? Lá devia ter as suas razões o homenzinho.

*

Em criança havíamos sido bons amigos, companheiros de alegrias e tristezas, e havíamos, muitas vezes, ocupado a mesma carteira nos primeiros tempos da nossa vida de estudantes. Mais tarde, completados os cursos secundários, que ele considerava um “diploma para a subsistência”, cada um de nós seguira rumos diferentes.

Embora não nos encontrássemos desde há bom tempo, alguns anos talvez, sabia que José se tornara devoto de deus Baco e estava quase desesperado, tentando, como dizia, esquecer-se a si próprio. Ninguém conhecia o motivo do estado mental em que se encontrava e tão-pouco era possível sondar-lhe o que se passava no seu íntimo. Assim, mal encontrei-me com ele, e isto foi logo atrás dos Correios e quase em frente do “Félix”, disparei-lhe sem delongas e tentei entrar direitinho no assunto.

- Então, José! Que grande prazer! Vais bem, homem? Só o local em que estás postado, é que não me cheira muito bem... – disse maliciosamente lançando um olhar em volta.

- Ham?... Hum?... Tu por cá... – saudou-me, com visível confusão, provocada pela inesperada referência à taverna próxima.

- Que tal vai a vida, José? Tudo bem em casa?

- Obrigado... felizmente... – mastigava entre dentes.

- Que é que te vai mal, santo homem? Vê lá se te pões mais alegre. Esta tua cara de laxante não é a mesma que conheci há tempos.

Não restava dúvida de que a conversa que se encetara, estava criando uma confusão medonha no espírito do meu interlocutor, que não proferira até lá nem uma única palavra nítida. A língua e o pensamento traíam-no. José estava em apuros.

- Mais alegre do que estou agora? Ah, é loucura, António! – gaguejou, limpando o polegar direito as gotas do suor que lhe orvalhavam a testa.

- Se soubesses...? Não! Não! Não posso! Não quero! Falar dela? Adeus, António... – e, volvendo as costas, queria afastar-se do local.

Amigavelmente pus-lhe a mão no ombro e fi-lo desistir do intento de me abandonar tão bruscamente

Se não pudesse conseguir arrancar nada mais a esta alma vagabunda, ao menos já sabia que uma ela era a causa do infortúnio do meu amigo, que coitado, devia ter sido incauto.

Puxei do bolso o maço de cigarros e estendi-o gentilmente. Misturando perguntas com baforadas de fumo, astutamente levei-o ao ponto da conversa que mais me interessava e consegui extorquir-lhe a confissão.

- Sabes, António, a chaga que me dilacera o coração, é enorme. Amei Sheila com ardor, mas... a-a-a-i-i (um longo suspiro era mais um indício do seu pesar). Não conheces Sheila?

- Se conheço! – apressei-me a fingir que conhecia a moça e, para não ter de falar mais, levei nervosamente o cigarro à boca.

- Pois é. É a mesma. Quando a conheci um dia... em... diabo! Já nem me lembro onde a conheci... Era uma moça invulgar. Tentar descrevê-la seria atrevimento criminoso. Cada traço da sua fisionomia era um reflexo de perfeição. A sua longa trança – uma espécie de serpente mitológica a derreter os corações gelados dos moços e a madeixa teimosa que caía sobre a sua tez – como que um exemplo a convite à persistência. Nunca tive oportunidade de ouvir a sua voz, que devia ser melodiosa, mas as suas respostas às minhas cartas eram cada vez mais prometedores e havia nelas um fogo de paixão... – descrevia o desiludido José, fixando um ponto longínquo e alheio até à minha existência naquele local. Uma delas, por exemplo, dizia: “... se soubesses... o destino parece ter-nos talhado um para o outro...”. A minha convicção era cada vez maior de que Sheila me correspondia e esta última carta não podia deixar dúvidas. Sheila havia-me feito prisioneiro...”

A cada entonação que a sua voz assumia, os seus olhos, até então lânguidos e melancólicos, se iam avivando e as constantes mudanças do seu semblante davam uma ideia grosseira de quão ardente devia ter sido o amor de José para com Sheila.

A tarde ia rapidamente cedendo lugar à noite. As multidões recolhiam-se apressadas para as suas casa. Os poucos que haviam chegado tarde, estugavam o passo de modo a poderem visitar o maior número de Chaturtis. Os fogos de artifícios eram cada vez mais brilhantes e das janelas e portas abertas jorravam feixes de luz festivas.

- Mas sabes, António, as suas cartas eram sempre dactilografadas. Podia ser que a própria Sheila fosse sensata e adoptasse esta atitude para não só deixar apanhar pelos seus. Era mais uma qualidade que apreciava nela. E quem poderia ter interesse em “aldrabar”, escrevendo cartas por Sheila? Um seu irmão, sim, tinha ares de maroto e fazia me suspeitar.

Esta última informação sobre o futurível cunhado, espicaçou-me a curiosidade e quando fixei a vista no rosto do meu interlocutor, vi na sua testa duas produndas rugas e o aspecto pensativo do seu semblante intrigou-me.

- Quando, no ano passado, - prossegui melancolicamente, o admirador de Sheila – no dia de Divali tive a dita de me encontrar com a menina dos meus olhos, foi esse o último dia normal da minha vida. Aquela testa de luzes lançou trevas sobre a minha existência. Então decidi esquecer-me... Não me restavam mais esperanças na vida...

- Conclui, homem, conclui a história! Naturalmente tomaste outra por Sheila e apanhaste uma “tampa” – gritei impacientemente, como se fosse um ouvinte que adquirira o direito de ouvir a história toda.

- Disse-lhe que... a.. amava...e... – gaguejava o infeliz Romeu, ao mesmo tempo que duas grossas lágrimas assomavam aos seus olhos – ela me respondeu: Tum re makkdda! Mhojea zoteak lagonam!

E, sem mesmo se despedir de um amigo que havia encontrado depois de uma longa temporada, o pobre do José corria a bom correr, sem dar ouvidos à minha fraca voz.

- José... Jooséé... Psciu.... Psciu... – tudo era em vão. Talvez fosse a caminho de qualquer templo de Baco. Queria esquecer-se a si próprio. O irmão de Sheila era maroto...

Passou-se isto há dois anos atrás. Se fosse agora, com certeza não teria corrido atrás do José.

Thursday, 1 March 2012

Guilherme de Melo - A Estreia Literária de Uma Poetisa Goesa (1952)

Através de Armindo Santos, nosso camarada da Imprensa moçambicana, recentemente chegado a Goa onde se encontra em serviço militar, foi-nos dado ler uma interessante crítica de Guilherme de Melo – jovem e apreciado jornalista Laurentino – ao livro “Destino” da nossa conterrânea Judite Beatriz de Sousa.

Essa crítica - publicada, com o título acima, na edição de 24 de Janeiro findo do “Notícias”, importante diário de Lourenço Marques – não só pela honestidade da sua concepção, mas também, e especialmente, por dizer respeito a um livro da outrora de uma goesa, merece ficar registada nesta página semanal de “O Heraldo”, da qual, aliás Beatriz Judite de Sousa, foi apreciada colaboradora.

Por tal motivo, passamos a transcrever com a devida vénia essa crítica do nosso prezado colega de Moçambique.


Com o lacónico e, ao mesmo tempo, incomensurável título de Destino – ou não concordais que pode, nesta simples palavra, saber todo um universo de sonhos e de esperanças, de lutas e desesperos, de alegrias e de lágrimas? – acaba Judite Beatriz de Sousa de trazer para as mãos do Mundo o seu primeiro livro de poemas.

Se outro valor não tivera, com efeito, esta pequena obra de estreia, ainda assim merecia que a ela dedicássemos um pouco de atenção e interesse, quanto mais não fosse pelas circunstâncias pouco vulgares que envolvem o seu aparecimento: Judit Beatriz de Sousa nasceu na velha e portuguesíssima Goa e jamais da sua terra natal saiu. Assim, como muito bem aponta Mário Isaac no curto prefácio à coletânea dos poemas: “não sofreu, portanto, a influência do tão discutado meio ambiente e, se juntarmos a isto o facto de não haver europeus entre os seus descendentes, conclui-se que a poetisa de “Destino” é, para além do mais, um produto da cultura portuguesa na Índia”

Razão, pois, mais do que suficiente, para que a pequena obra litéraria, composta e impresssa na Imprensa Nacional de Goa, contenha, a par do natural interesse que sempre em nós suscita a estreia de uma poetisa ou de um poeta, um especial motivo de atenção e estudo.

Vejamos, pois, o que, na verdade, “Destino” nos oferece como obra poética.

O fulcro da colectânea define-o a poetisa no décimo terceiro poema justamente com o nome “Destino”: vai pelos caminhos da Vida andando, sem norte, sem farol, sem um guia, a si próprio fazendo companhia, agora vai sozinha.

“Porque houve alguém mais forte
que te arrancou dos meus braços
quando
com as almas plenas de sol,
Caminhávamos sonhando,
Teus passos paralelos aos meus passos”

E agora vai sozinha, “como um coração sobre as águas a boiar”.

“como aquele que caminha
porque tem de caminhar!”

É, pois, o Amor, o Amor com tudo o que possa conter de alegria e mágoa, de dor e prazer, de renúncia e abandono, de exaltação e sofrimento, de ânsia e de desespero, de fé e ilusão, o mundo em que se desfia o rosário das vinte a tantas poesias que Judite Beatriz de Sousa reuniu neste seu livro, em que a Artista e a Mulher se confundem a cada passo, numa união curiosa e tendo, por vezes, como resultado, momentos de rara beleza poética:

“Parti num barco sem idade,
Feito só de silêncio musical da noite
E de vigílias de ansiedade,
Para um país sem fronteiras,
Sem caminhos.
Onde as asas não se quebram
Nas barreiras...”

Ou, por exemplo, esse belíssimo “Elegia”, quanto a nós um dos melhores, senão mesmo o melhor poema do livro:

Meus dedos eram de barro
(ou de terra humedecida);
Quiseram prender o Sonho
Trazê-lo mais para a Vida.

Mas ai! Que o Sonho se foi
Como fumo de cigarro...
Os meus desejos partidos,
Meus pobres dedos quebrados.
Meus dedos eram de barro”

Apaixonada, a Mulher sobrepuja, por vezes, a Poetisa, como no poema em que, num lirismo quase exacerbado, num rompante de masoquismo puro, depois de gritar o seu Sonho desfeito, porque ele passou na sua Vida para não voltar conclui que passou afinal apenas

“para que colasses a boca nos teus passos
religiosamente
apaixonadamente!”

Mas, conhecedora perfeita de que a Vida não é só amor e desilusão, sonho de lirismo e romance desfeito:

“Bebe mais Sol. Amor, e encara a Vida!
- já lá vai o tempo das janelas
floridas de roseiras,
e, debaixo delas,
a estrofe sentida
de amantes sonhadores...

Agora há mais espinhos,
E menos flores,
Mais pedras nos caminhos,
Mais esperas, canseiras,
Mais ilusão mentida!
Bebe mais Sol, Amor, e encara a Vida”

A Poetisa chega ao fim com um viajante que alcança uma fronteira – “fronteira de Alma”, lhe chama. E, aí parada agora nessa fronteira alcançada, queima, na fogueira em si mesma acesa, “tudo o que foi mentira, tudo o que foi Passado”m para, depois de tudo queimar, se encontrar a si mesma.

“Eu só – no meu quarto parado,
De parades pasmadas limitando a curva sinuosa do Futuro
Lá fora, o escuro...”

O escuro – ou o Mundo, talvez o Mundo onde Judite Beatriz de Sousa, estamos certos, não hesitará em entrar, de passos bem firmes, pisando a estrada aberta à sua frente, vivendo a Vida, sentindo-a, tocando-a, palpando-a, cantando-a nos seus versos de Poetisa que realmente é.

Visum Porobo Sincró - A Juventude (1972)

Sempre alegre, livre de preconceitos,
Vigor no trato, coração generoso,
Afabilidade irmanada da Nobreza
Audácia impensada espontânea!
A juventude é livre de pesadelos,
Nada a recear do Mundo desleal;
Para eles tudo é água, tudo fácil
A mocidade de nada receia!

A juventude é atleta, gosta de jogos
Cricket, football, tennis e quantos mais
Sempre a pensar nos prazeres mundanos
Nunca se demora a pensar no futuro
Para eles tudo é hoje, neste momento
A juventude de hoje é assim!

José Rangel - Síntese (1977)

“Goa has a distinct personality and it would be a pity if this was taken away” – Jawaharlal Nehru

Labuta insana,
Na colmeia humana!
Levaste
E levantaste
O nome
Da tua Terra;
Suportaste
Agruras de fome
Em tempo de guerra;
Recriaste
A imagem do teu torrão
Em época de paz
Em alheias plagas,
E as chagas
Da nostalgia do teu coração
Dulcificaste
Com o bálsamo que o amor natal traz.

Duas grandes civilizações,
Ricas de pensamentos e acções,
Deram carácter ao teu ser.
Por isso é dos outros prazer
Em ti ver
A mística do Oriente
E a vibração do Ocidente.

Cantas com a mesma alma
Mandós, ovis, dhalos e fados;
Com naturalidade vestes a gama
De trajes variegados.
Tu és: Hindu, Cristão, Moiro;
Mas o teu ethos é o mesmo.
E este tesoiro
Não se formou a esmo.

Pois vives em invejável harmonia
Com o teu semelhante;
E nessa atmosfera de sinfonia
Cresces, trabalhas, e segues avante!

Ouve, meu irmão:
Peço não te rales
Com o chauvinismo
A pôr-se em bicos de pés,
E a acusar-te de desnacionalismo.
São complexos da frustração.

Tu és goês e indiano,
E sempre te orgulhaste de o ser.
Não foi Gilberto Freyre, o mestre lhano,
Que falou de o Ocidente e o Oriente em ti conviver?
Por que temeis o ataque doidivano,
Se tens o imortal Nehru para te defender?