Wednesday, 5 December 2012

Laxmanrao Sardessai - O Mistério Aclara-se (1966)

O mistério aclara-se
E ai vejo definido o meu ideal,
No céu, no mar e na terra
Vejo a mesma mão,
Invisível e misteriosa,
Modelar o destino da humanidade.
No azul do oceano
No verde da terra
A mesma graça vejo
Estender-se na sua simplicidade
E o mistério aclara-se,
E aclara-se o meu espírito,
Confuso perante a difusão
De cores e linhas,
De formas e matéria
E suas infinitas intrincâncias.
Evapora-se a ilusão
E desponta no horizonte,
Vasto e claro,
O sol uno e brilhante,
A dirigir os meus passos
Para a divina realidade!

Nazareno - A Aguadeira (1954)

Ao fundo da sala, propositadamente escolho a cadeira mais apta a proporcionar uma indolência a que lanço reconfortante e lenço o corpo e o espírito na corrente mole que o ar do Café engrossa.

A telefonia conta, em segredos de música, a espalharem mais calor nos nervos, episódios de beleza imaginada – lances arrancados a uma superficialidade brutal que não obriga a pensar.

A esta hora – a tarde nasceu há pouco – a sala deserta intensifica o desejo duma fuga à realidade – cobardia assinalada por um mal estar que, a espaços, me aperta a respiração.

Um quadro de todos os dias que, hoje, repentinamente e sem aviso, resolveu mudar.

Ela apareceu no vazio da porta que dá entrada ao recinto; apareceu e escapou-se, logo, indiferente ao silêncio e à música. Os dois “salões” equilibrados no corpo escanzelado – jogo de braços e quadris – voltou a passar naquele intervalo de paredes onde uma escada se projecta, superior ao esforço da aguadeira, talvez a rir-se dos movimentos caricatos que a subida lhe atira às pernas.

Aquela figura tem séculos de poesia romântica a partirem-lhe os pobres ombros que se aproximam irresistivelmente a quererem fechar o peito que já mal pode gritar. É uma figura de adorno na visão febril dos poetas olheirentos, na sensibilidade esponjosa de lírico impenitentes que andam a medir as noites pelo número de estrelas e a conversar com as fontes que, às vezes, nem água têm o inegável mérito de fornecer material para um soneto recheado de comparações luminosas – para um autêntico soneto!

A mulher continua a passar, a vergastar-me os olhos com a sujidade do sari, a recalcar–me os últimos desejos de indiferença – a impor-me conclusões.

Vergo-me ao peso da sua presença, do cabelo revolto, do rictus de fatalidade que se agarrou àquele fase onde a idade intruja, onde há a marca rebaixada de milhares de horas iguais, na luta a na resig-

(Segue na quarta página)

nação.

Olhou-me – um olhar comprometido – e eu pus na minha expressão todos os efeitos das verdades que se arozam na minha consciência de homem da rua. Fitei-a num grito de compreensão que nunca poderá servir de tema aos poetas olheirentos que andam a medir a noite pelo número de estrelas. Naquele momento, parece-me que cheguei a ser irmão da aguadeira. Talvez, por isso, deitei-me a imaginar os dias que a vida lhe roubou, em negaças, em troços, em desprezo.

De certo, foi bela. De certo, aquele corpo amassado de trabalhos desejou o amor com a ânsia que dá a contemplação da beleza própria. De certo, teve sonhos e ouviu palavras inspiradoras de insónias. Momentos houve em que o seu destino se comprimia nas dimensões dum punho. Tão fácil tudo, tão realizáveis as aspirações dessa mulherzinha de porte virgem e flores na trança. Foram as negaças da vida.

Depois, os primeiros passos na criação dum presente que nunca deu margem a alimentar um futuro. A casa estranha, o homem, a obediência e os filhos. E tudo o mais... numa precipitação de reveses, num conjunto frio que foi anulando o resto de calor que o sangue de dúzia e meia de primaveras ainda aguentava. Foi a vida a troçar.

Hoje, autómata no sofrimento, já nem analisa os factos que mataram os mais queridos desejos, já nem lhe importa a cor do sol que vai nascer. Os músculos empurram-na como se fosse embrulho sujo e inútil que pode cair na primeira sarjeta. Ela é capaz de admitir que nas dobras da sua existência possa andar a ironia da quadratura do círculo.

Torna-se tão igual, nos gestos e no querer, ao cachorro dedicado a coxear das últimas pancadas, que as gentes confundem a falta de posses com o vício do infortúnio. E esmagam-na, cada vez mais. Chegam a dizer que estão a medir toda a extensão da sua cobardia e vão pisando mais forte. É a vida a desprezá-la...

A vida! Feita de milhões de princípios nascidos, mais ou menos, ia estupidez fria dos ambientes humanos que a conveniência gerou. Um montão de hábitos cómodos, riquíssimos de contradições palpitantes que nunca andam nas razões dos sonetos recheados de comparações luminosas.

Visto o problema assim, fica-me a dúvida se a Vida, a verdadeira, a única, não está mais na visão clara e interessada, generosa e irmã, de tudo o que a aguadeira não chegou a ser, que na aceitação distante – e, quando próxima, egoísta, até sádica – daquilo que os homens quiserem que ela fosse.

Ipsilon - A Sorte de uma Batcarina (1963)

Chamava-se D. Isménia e era viúva dum médico muito recorrido e popular, a quem, por isso mesmo talvez, ninguém lhe pagava as visitas. As suas receitas limitavam-se apenas a poções que, com grande resultado, ministrava aos seus doentes, reservando para si o mínimo lucro. Era poupado e chegou a ter umas economias que lhe permitiriam reparar o casebre em que viviam, benfeitorizar o seu minúsculo gorbat e uma várzeazinha.

Quando o marido faleceu os recursos financeiros de D. Isménia limitavam-se apenas às rendas do palmar, duma várzea e de uma dezena de acções de Comunidade.

Como o pardieiro em que vivia, ficava situado num lugar isolado e ela era muito medrosa, teve que sustentar um criado, não porque precisasse dele para qualquer serviço, mas mais para ter sua companhia, pois ninguém a visitava Senão de raro em raro.

A sua alimentação reduzia-se ao arroz e carril e, no dia de festa do orago, trazia um pedacito de carne de porco com o que se banquetavam ela, que era uma velhinha, e o criado que era um latagão.

Apesar de tudo o seu palmarzito era assaltado por gatunos que nem lhe deixavam metade do seu produto; quanto às jacas, não lhe deixavam nem uma e um pé de malcurada de grande estimação da velhinha era alvo das pedradas da garotada, que, quando enxotada, lhe correspondia zombeteiramente arremedando-lhe a voz e o gesto.

A várzea estava arrendada a 7 candis de bate, com o que ficavam satisfeitas as necessidade dela, do criado, de umas 5 galinhas e um porquito, sobejando-lhe ainda o necessário para um pouco de canja e um punhado de arroz a dois pobres que lhe vinham à porta todas as sextas-feiras da semana. Vivia assim a D. Isménia numa miséria feliz.

A certa altura, o criado que se chama Daniel, declarando que estava ao serviço dela há um ano, exigiu aumento de salário, alegando que o que ganhava não lhe permitia usar fatos limpos, aparar o cabelo mentalmente, fumar uns cigarros decentes, etc.

A D. Isménia que não encontrava outro que o subsituísse e também porque tinha ganho uma certa afeição pelo rapaz, condescendeu em lhe elevar o vencimento.

Sucedeu que o Daniel Fosse gostando duma rapariga que, por sua vez, era cortejada por um outro, derrubador, de nome Xavier. Claro está que os dois, quando se encontrassem, ferviam em mútuas raivas. Como Daniel tivesse percebido ser o Xavier que estava roubando os cocos da patroa e querendo desforrar-se, foi no encalço do gatuno e, como era forte, segurou-o e com os cinco cocos que tinha colhido, levou-o ao regedor.

Este, com uma rota em que declarava apanhado em flagrante, remeteu-o por um cabo da Policia ao Mamlatdar, onde o gatuno confessou o furto, declarou que o tinha practicado, obrigado pela fome. Condoído com esta narrativa que o homem soube fazer como emérito comediante, o mamlatdar mandou-o em paz. De volta, Xavier que veio de táxi, queimou abundante foguetório à porta de D. Isménia.

Quando foi da colheita da sua várzea, em vez de 7 candis de bate que devia receber, o arrendatário convidou-a a assistir à colheita e deu-lhe apenas 2 candis e 12 curós que representava a sexta parte da produção e mal chegavam para a alimentação do criado.

Por outro lado, as Comunidades onde tinha acções com a renda dos quaid, acrescidas com as receitas do palmar, pretendia pagar o salário do criado, teve o desgosto de saber que estavam deficitárias e não davam renda alguma. Para se manter, teve de recorrer ao expediente de dúvidas.

Por acaso, o marido de D. Isménia tratara, numa doença grave, um pobretão, que,

(segue na 4a. Página)

em testemunho da sua infinita gratidão, lhe pediu para ser padrinho da sua criança, primogénita que nasceria dali a meses, após 10 anos de casado.

Passados 15 anos, o padrinho abanara ao afilhado, já órfão do pai, passagem para o Golfo Pérsico, donde este voltara rico. Foi justamente a este que Dona Isménia recorreu num dos seus momentos aflitivos. O afilhado do marido concordou em lhe dar o empréstimo solicitado, alegando ter mourejado 25 anos em terras inóspitas, mediante o juro de 10% ao ano e hipoteca geral tde tudo quanto ela possuísse, sem outras formalidades.

O contrato foi por um escrito legalizado pela maneira actual, sem intervenção notarial.

Como o dinheiro assim obtido, D. Isménia pôde satisfazer os vencimentos atrasados do criados e teve de se alimentar com chá e uma fatia do pão, com o que, dentro em pouco, a sua saúde se tornou precária.

Certo dia, como o criado tivesse notado que D. Isménia não saíra ainda do quarto a horas em que constumava ir para a Missa, chamou-a discretamente da porta do seu quarto e, como ela não desse acordo, entrou e viu que continuava estendida no seu canapé, sem sinal de vida.

Correu apressadamente à casa do médico que verificou o cadáver e deu como causa da morte a inanição; pois a velhinha não tivera nem pão nem chá nas últimas 24 horas.

Monday, 29 October 2012

Telo de Mascarenhas - O Tesouro Oculto (1975)

Findo o curso do Liceu, nas férias grandes, Dona Leocádia foi com o filho visitar a família de Luís Bernardo, parentes afastados que Carlos Manuel não conhecia ainda. E ao ver Rosália, de rosto oval de madona, dum moreno doirado, emoldurado de bandós negros, olhos vivos e expressivos, airosa e grácil, exuberante, sorridente e vibrante como uma corda tensa de violino, um doce enleio se apoderou do seu coração. Sentiu-se diante dela confuso e acanhado como um colegial. E os olhares furtivos de Carlos Manuel foram mais expressivos do que o mais belo poema lírico.

Quando estudante do Liceu Carlos Manuel fora um romântico impenitente; mas os primeiros rebates sentimentais da sua adolescência não tinham deixado vestígios nem causado danos ao seu coração.

Naquele primeiro encontro ele manteve-se distante e discreto sem deixar transparente o sentimento que lhe agitava a alma. Mas ela que, com o seu sexto sentido de mulher, adivinhara ter causado nele certo alvoroço, não se deu por achada e tratou-o com calma deferência e simulada indiferença, como se trata um parente de cerimónia.

Havia muito que as duas famílias não se visitavam. Mas agora que Carlos Manuel estava quase um homem, com dezoito anos feitos, precisava de conviver, de conhecer a parentela, de sair da concha em que sempre tinha vivido, e impunha-se à Dona Leocádia o dever de o apresentar aos parentes, e não fazer dele um ser esquivo e insociável como um animal bravio.

“Que curso vais fazer, Carlos Manuel? Com certeza não vais ficar só com o Liceu”, perguntou Dona Ubélia.

“Nesta terra onde não há muito por onde escolher, minha tia, só se pode ser Médico-Cirurgião ou então Adv., quero dizer, advogado provisionário, como toda a gente. Eu optei pela medicina, que para chicana não tenho jeito”, disse Carlos Manuel.

“É uma bela profissão para minorar o mal alheio”, observou Dona Ubélia.

“Eu estou a precisar dum médico na parentela para me curar dos meus achaques”, gracejou Luís Bernardo.

Rosália descera ao jardim, como era seu costume todas as manhãs, para colher flores de jasmim que, como minúsculos flocos de neve, salpicavam as moitas de jasmineiros junto do muro. Enfiava-as em grinalda com que enfeitava o cabelo apartado ao meio e apanhado atrás em carapito frouxo descaído na nuca, que lhe dava um ar langoroso e sonhador das heroínas dos contos de amor.

Carlos Manuel lhe dissera quando, no dia anterior, ela lhe aparecera com aquele penteado gracioso, circundado da enfiada de jasmina, como uma aureola: “Fica-lhe admiravelmente, bem esse penteado, Rosália. Por momentos tive a impressão de que eras uma figura animada dos frescos de Ajanta, caminhando para mim”.

Rosália sorrira e agradecera-lha, lisonjeada o galanteio.

Carlos Manuel desceu atrás dela ao jardim e disse-lhe: “Shakuntalá, no ermitério da floresta, devia ser como Rosália, amiga das flores e da natureza. E foi breve o seu idílio com o rei Dachanta. Também para mim chegou o momento de partir. O rei dera à filha adoptiva do eremita, como recordação, um anel com o seu nome gravado. E o quê me vais dar, Rosália, para eu me lembrar de si?”, perguntou-lhe Carlos Manuel.

“Nada mais lhe posso dar que valha tanto para mim como esta rosa, símbolo do meu nome e da minha afeição por si. Mas as rosas tem a vida efémera duma manhã e a sua lembrança morrerá com ela, certamente, e se esquecera de mim”, disse Rosália, pesarosa.

“Creia que, longe ou perto a sua imagem viverá sempre no meu coração e no meu pensamento”, asseverou Carlos Manuel.

“Com tempo veremos”, disse Rosália, com lágrimas na voz.

Dona Leocádia assomou à varanda e lembrou ao filho que eram horas de se porem a caminho. E a iminência da separação veio angustiar ainda mais os dois corações e interromper o breve idílio junto do jasmineiro.

Foi dolorosa a separação para os dois corações que mal preludiavam a eterna canção de amor. E Rosália sentiu pela primeira vez na sua vida, uma imensa dor no coração como se um punhal de indizível saudade o tivesse trespassado, traiçoeiramente. Perdera a habitual alegria de viver e andava triste e suspirosa, alheada e distante, gemendo em solilóquio: “Quando viras tu, quando?”.

A mãe perguntou-lhe um dia: “O que tens tu, menina, que andas a suspirar pelos cantos, como uma viúva?”.

“Não tenho nada, mãe. Então, o que é que eu havia de ter?”.

“Parece que ficaste com pena de não teres ido com a prima Leocádia”, disse Isabel, a irmã mais nova, em tom malicioso, olhando-a de soslaio, enquanto bordavam.

“Cala-te, minha pateta. Tu, que pareces que não partes um prato, sais-te com cada uma!” repreendeu Rosália com um sorriso triste.

Telo de Mascarenhas - O Tesouro Oculto

Bensaulim é uma aldeia de beira-mar, acolhedora e remansosa, aninhada sob as frondes das palmeiras, que o vento da tarde faz fremir como harpas encantadas.

As figueiras da Índia de porte majestoso e ramaria em umbela, são como naves silenciosas de catedrais, dando sombra e frescura à beira dos caminhos. Antigamente, aquelas árvores seculares, que a tradição santificara eram as guardiãs da aldeia. Sob a sua copa frondosa reuniam-se os aldeões, à tarde, finda a labuta do dia e, sentados em volta da peanha circular de pedra, assistiam à representações cénicas dos episódios heróicos e líricos das grandes epopeias, entoavam hinos a Hari, ou ouviam narrar os contos e as fábulas do “Panchachantra”. Agora, porém, perdido o seu carácter de ‘ficus religiosa’ e de centro social da aldeia, aquelas árvores acoitam na sua ramaria bandos de gralhas bulhentas e crocitantes e nos ocos dos seus troncos cobras de capelo oscilante e coruscante, com o tiara incrustada de pedrarias.

Em volta, várzeas e valados, cômoros e lagoas floridas de nenúfares, dão àquela aldeia o aspecto bucólico duma écloga pastoril. Para além das várzeas e palmares estendem-se as dunas e a praia de areias fulvas onde o mar espraia as suas ondas soluçantes, franjadas de alva espuma rendilhada.

Sobranceiro a uma grande lagoa fica o velho solar, bastante danificado pelo tempo, de Luís Bernardo, representante duma das mais antigas famílias daquela aldeia. Como quase todas as casas dos grandes propriedades rurais, a casa de Luís Bernardo havia decaído, devido não só ao grande estadão de vida que os seus antepassados levaram para honrar a tradição, com banquetes e bailes de espavento, mas também porque as suas terras, em parte hipotecadas ou alienadas, e cultivadas com métodos rotineiros, através de gerações, haviam empobrecido.

Com a sua estatura avantajada, olhar inteligente e nariz proeminente, Luís Bernardo, se em vez do seu democrático boné, bigode e mosca, arvorasse turbante rutilante de seda e pedrarias e barba frondosa, seria a imagem viva de guerreiro rajput das pinturas murais dos palácios principescos de Udeipur.

Luís Bernando tinha o ar afidalgado, maneiras requintadas e hábitos hospitaleiros. E não obstante a sua idade avançada, possuía espírito jovem e encarava a vida com optimismo e bom humor.

D. Ubélia, sua esposa e companheira de muitos anos, dera-lhe um filho e duas filhas. O rapaz, José Manoel, feita a instrução primária e aprendios os rudimentos de solfejo e violino, andara a estudar inglês com o fito de ir para África ganhar a vida. A filha mais velha, Rosália, era uma rapariga azougada e espirituosa, de olhos negros e sorriso gracioso. A outra, Isabel, sorridente e esquiva, parecia viver desprendida do mundo, como se tivesse feito o voto de renúncia e sacríficio. A mãe adestrara-se nos trabalhos de agulha e lavores, e elas com as suas mãos de prata, bordando e tecendo, supriam o magro orçamento doméstico.

A preocupação constante de Luís Bernardo era desencantar o tesouro oculto da família que, segundo a tradição, devia estar enterrado no quintal ou nos baixos da casa, como era uso nos tempos distantes de frequentes incursões das hordas de Bijapur e outros invasores, empenhados no saque e rapina. Com aquele tesouro dos seus antepassados contava Luís Bernardo restaurar o seu velho solar escalavrado e melhorar as condições económicas da família. E obcecado por aquela ideia fazia pesquisas diárias, dirigindo os trabalhos de escavação, revolvendo o quintal e os baixos da casa. Andava naquela faina havia anos, na ânsia de ver surgir à luz do sol o decantado tesouro. Tinham sido, porém, até então, baldados todos os seus esforços. Estava, por isso, pesaroso e decepcionado.

Uma tarde, findas as pesquisas do dia, dirigiu-se Luís Bernardo, extenuado e descoroçoado, para a sala de costura onde D. Ubélia e as filhas estavam atarefadas a bordar uma colcha a matiz, e, atirando-se para cima duma cadeira de espreguiçar, desafabou: ‘E não há meio de dar com ele. Maldita sorte a minha”.

“Com quê, meu pai?”, inquiriu Rosália, simulando curiosidade, embora ela soubesse muito bem a que queria referir.

“Ora, com que havia de ser?! Com aquilo que eu procuro. Com o tesouro da nossa família”, disse ele mal humorado.

“O pai espera ainda desencatá-lo?”, tornou ela com cepticismo.

“Porquê não, menina? A perseverança tudo alcança” disse Luís Bernardo com teimosia.

O pai já revolveu quase tudo. Por esse andar é bem capaz de deitar a casa abaixo. E se o tesouro não passa duma lenda, meu pai?” tornou ela a perguntar.

“Impossível, menina!”, disse ele com energia, quase agastado. “O teu avô sempre falava nele. Mas, grande politicão como era, mais interessado com as lutas eleiçoeiras e festanças do que com o bem estar da família, nunca se importou com isso. Dizia ele que tinha achado na livraria um pergaminho manuscrito entre as folhas dum velho códice, especificando as preciosidades que o tesouro continha: ricos “mohurs” de oiro do tempo dos mongóis, jóias e aljôfares, cintas e braceletes incrustadas de pedrarias. Uma verdadeira fortuna, capaz de tentar Genghis Khan”.

“Não teria Rauji Rane, aquando da incursão à nossa aldeia, desenterrado e levado o tesouro? Diz o povo que Rauji Rane levou um grande despojo da nossa aldeia”, observou Rosália com uma pontinha de malícia.

“Rauji Rane, ainda aparentado à nossa família, foi grande amigo do teu avô”, disse Luís Bernardo, com orgulho. “Ele foi um guerreiro que lutou para reivindicar os justos direitos do nosso povo. Não era um vulgar bandoleiro, e incapaz de uma acção dessas. Foram os outros, com certeza, que roubaram e saquearam à sombra do seu nome”.

“Deus o ajude a achá-lo, pai. Já é tempo de sairmos desta mediania”, disse, por fim, Rosália, conformada.

“Mesmo na nossa mediania temos sido felizes. Para que cobiçar grandes riquezas? Até Deus podia levar a mal”, observou D. Ubélia, com a sua resignação cristã.

“Ora, cantigas, mulher; Deus importa-se lá com as nossas necessidades?” volveu Luís Bernardo.

“Não sejas herege, homem, nem ambicioso”, censurou D. Ubélia.

“Não sou herege nem ambicioso, criatura de Deus! Apenas desejo reaver o que é nosso. E aquilo que foi dos nossos antepassados de direito nos pertence. Nem Deus pode levar a mal que assim seja”, replicou ele mal-humorado.

“E não vês que isso te tira o sossego do espírito?”, disse D. Ubélia para o aplacar. “Pois, sim! O maior desassossego é uma pessoa andar a tinir. E nem o céu se ganha sem trabalhos e canseiras”, disse Luís Bernardo, como que se quisesse pôr termo ao assunto.

Levantou-se e saiu resmugando, arrastando os chinelos para se ir refastelar no balcão e fumar, descansado, o seu cigarro.

Nisto, viu vir subindo os

(segue na 5a pagina)

degraus do balcão, com ares misteriosos e modos mesureiros, Manoel João, o casamenteiro. O ofício de casamenteiro é muito antigo nas aldeias de Goa, tão antigo como a própria instituição do casamento. Não há aldeia que não tenha o seu casamenteiro que, incumbido pelos pais com filhas casadoiras, leva a proposta à algum jovem, herdeiro rico, ou lançado na vida como funcionário público, por mais modesta que seja a sua categoria, porque um emprego público é aspiração máxima numa terra sem grandes horizontes nem perspectivas, como é a nossa. Ou então são os pais de filhos que voltam da África ou de Bombaim, com algum pecúlio, e os querem casar nas famílias de alto nível social, mas decaídas de fortuna.

Manoel João era o casamenteiro da aldeia. Pequeno proprietário, lançara mão daquela missão benfazeja que lhe dava o direito a uma percentagem sobre o dote, e comia a dois carrilhos – da família da noiva e do noivo.

Luís Bernardo, pressentindo ao que ele vinha, acolheu-o com o seu hábil ar galhofeiro: “Então, Manoel João, que bons ares o trazem a esta sua casa!”

Há muito tencionava fazer uma visita ao batcará, para saber da sua saúde”, disse Manoel João com a sua manha habitual.

“Bom, bom, não há razão para sustos. Sente-se, Manoel João, e conte como lhe corre a vida”.

“Se o batcará dá licença”, disse ele e sentou-se na extremidade de um banco. “A vida vai mal, batcará, muito mal. A minha profissão está a dar pouco. Uma crise pavorosa. Cada vez recorrem menos aos meus bons ofícios”.

“Então, que quer Manoel João? O preceito “crescei e multiplicai-vos” não se coaduna com estes tempos de vacas magras. No entanto, não me consta que alguém tenha feito voto de celibato”, disse Luís Bernardo.

“O mundo está perdido, batcará”, tornou Manoel João. “A gente nova faz pouco caso dos nossos bons e moralizadores costumes. Pegam em namoriscar e as duas por três estão casados sem se importarem com o futuro, quer dizer, com o dote nem com os conselhos dos pais”

“Mas isso é óptimo, Manoel João. Porque, afinal, quem se casa são os filhos e não os pais”.

“Vejo que está demasiadamente moralizador e pessimista, Manoel João. Então, assim, pela hora da morte, os seus bons ofícios de casamenteiro?”

“É como diz, batcará. O meu ofício não dá para mandar cantar um cego”.

“O meu amigo já fez uma razoável fortuna. Podia agora descansar e gozar o que ganhou casando os outros”.

“São mais vozes de que as nozes, batcará. Eu ando nisto devido a extrema necessidade que tenho de ganhar a vida. A propósito. Trago a proposta de filho de Manoel da Anastácia que, como sabe, voltou há pouco da África. É muito bom trabalhador, e deve dar um bom marido”.

O filho de Manoel da Anastácia que abalou há anos, quase descalço, para África? E como chegou ele a fazer fortuna, homem?”, perguntou Luís Bernardo.

“A África, como o batcará sabe, é um El-Dorado para quem tenha expediente e habildade. Dizem que o rapaz andou no mato a vender aos pretos riscado pelo preço do brocado e fez fortuna.”

“Magnifico, Manoel João! Esta proposta pode fazer a sua fortuna. Não o poupe. Ele que andou a esfolar o negro, pode enchê-lo de oiro.”

“Eu tinha pensado numa dessas filhas do batecará. É um belo partido. E a sua filha seria tratada como uma rainha.”

“Deus me livre falar-lhe nisso. Eu conheço bem as minhas filhas. O oiro nunca as tentou. Veio bater a má porta, Manoel João.”

“Para falar verdade batecará realmente a diferença de famílias é um grade empecilho. Contudo, há precedente. Como sabe, o filho de Gertrudes piladeira, que tem grandes estabelecimentos em Mombaça, onde ele é vice-consul de Portugal, casou com a filha do batcará da Casa Grande”.

“Cada um sabe as linhas com que se cose, meu amigo”, disse Luís Bernardo, causticante.

“O batcará não leve a mal o meu atrevimento. Pensei que talvez chegássemos a um entendimento e o casamento se fizesse. Visto isso, retiro-me, se me dá licença”.

“Pois bem, Manoel João. Estimei vê-lo”, disse Luís Bernardo, despedindo-o.

Manoel João levantou-se, limpou ao lenço encanado as bagas de suor que lhe perlava o rosto e, vendo goradas as suas diligências, foi descendo os degraus do balcão, arreliado com a sua vida, cabisbaixo e vexado, como um cão batido, murmurando entre dentes: “Pobres mas soberbos”.

Ao jantar, Luís Bernardo deu a novidade à família: “Sabem quem esteve cá esta tarde?”

“Quem foi”, perguntou D. Ubélia.

“Manoel João”, disse ele.

“Manoel João, casamenteiro? E o que é que ele queria pois? Quis saber Rosália, ardendo de curiosidade.”

“Vinha com a proposta do filho de Manoel da Anastácia para uma de vocês”.

“Do filho de Manoel de Anastácia que chegou há dias da África?” perguntou D. Ubélia.

“Esse mesmo. Mas eu tirei-lhe as ilusões”, disse Luís Bernardo, autoritárian.

“Deus me livre de casar com o filho de Manoel de Anastácia; nem que ele fosse pintado a oiro. Prefiro ficar solteira toda a vida”, foi o comentário tempestuoso de Rosália.

“E tu, Isabel, o que dizes?”, perguntou Luís Bernardo à filha mais nova, para a arreliar.

“Eu não quero casar. Quero ficar a fazer companhia aos meus pais”, disse Isabel, corando.

“Nesse caso terei que arranjar um ghor-zaoim, um genro estabelecido”, disse Luís Bernardo, divertido, o que a fez arreliar ainda mais.

“Não digo com o filho de Manoel de Anastácia; mas porque não hás-de casar, Isabel? Queres ficar para tia?”, disse Rosália com o seu ar chistoso, e acrescentou: “Já estou a ver a nossa Isabel de pano-baju como as tias clássicas das famílias antigas, devotas e beatas”.

E Isabel, ante a observação da irmã, conservou-se calada e cabisbaixa, e ficou a remoer o seu amuo e a sua timidez.

Telo de Mascarenhas - O Emigrante (1975)

Luís Bernardo era regedor de aldeia. Com o seu saber e experiência de vida, administrava Justiça nos limitados domínios da sua jurisdição, com raro tacto e rectidão. Era, por isso, respeitado e acatado; e os seus concelhos tinham força da lei para a pobre gente da aldeia.

Todas as manhãs, de fato branco, o casaco abotoado até ao queixo, o boné encafuado na cabeça e a bengala que era o seu bastão de mando, dava o seu passeio habitual para se inteirar da vida do burgo, ouvir as queixas e reclamações e dar-lhes pronta solução.

A vida de regedor da aldeia não é um mar de rosas. Contudo, a par de trabalhos, arrelias e canseiras, tem também as suas compensações. Todo o africanista ou bombaísta que regresse após longos anos de labuta no Continente Negro, em Bombaim, ou como embarcadiço nos grandes transatlânticos, é ao regedor-batcará que faz a sua primeira visita com alguma lembrança, e pinta-lhe com cores vivas e até com cores por sua conta e risco, as coisas maravilhosas que viu na Grande Índia e na estranja, no que, não raro, leva a palma ao famoso Marco Pólo.

João António era filho de gente modesta. Inteligente e empreendedor, com o seu sonho de transpor mares e ver terras novas, estudara a algumas classes de inglês na escola de Jackson e fora para Bombaim para se empregar a bordo. E era agora dispenseiro dum dos barcos da P&O, que faz carreiras para Europa.

“Pode crer, batcará”, disse João António a Luís Bernando, “aquilo é que são terras ricas e progressivas. Grandes cidades, grandes e florescentes centros industriais.. E nós aqui a foassar nestas aldeias atrasadas em tudo.”

“O que é que tu queres, João António? Se todos vocês, emigrantes, estivessem de acordo podíamos fazer grandes melhoramentos na nossa aldeia”, disse Luís Bernando.

“E sabe, batcará, como ‘elas’ lá fora, identificam os goeses?”

“Hum, - como é?”

“Eu conto. Uma noite, em Marseilles, fui, com mais dois companheiros meus, visitar uma daquelas casas de luxo das professional beauties, por mera curiosidade, para ver como aquilo era por dentro e se correspondia à realidade aquilo que me tinham contado. Veio sentar-se ao meu lado uma rapariga muito loura, muito pintada, e perguntou-me: “Êtes-vous Goannais, mon chéri?”. “Oui, mademoiselle”, respondi-lhe.

Vai ela, então, sem mais cerimónias, mete a mão pelo peitilho da minha camisa para ver se eu trazia ao pescoço a corrente de oiro com a cruz.

“Com que, então, os goeses lá fora são conhecidos por trazerem ao pescoço a corrente de oiro com a cruz?”, disse Luís Bernardo soltando uma das suas estrondosas e divertidas gargalhadas. “Essa é de primeira ordem. Hei-de contar isso ao nosso vigário para ver com que cor ele fica”.

“Deus nos livre, batcará. É capaz de barafustar no púlpito e chamar imoralões aos emigrantes”

“E o que pensas fazer agora, João António?”, perguntou Luís Bernando.

O ghor-mand é o terreno em volta da casa que sendo pertença do dono da propriedade, este impõe aos seus moradores ou mundcars, obrigações verdadeiramente onerosas: e as várzeas das Comunidades são os grandes proprietários que as tomam de arrendamento em haste pública ou gaun-pon, disputando os lanços em lutas renhidas e as sub-arrendam aos pequenos cultivadores sem terras, mediante rendas exorbitantes, explorando-os sem comiseração. Por isso, ser dono da casa com uma nesga de terreno em volta para servir de logradouro, e uma pequena várzea onde possa semear arroz no tempo das chuvas e, em tempo seco pimenteiras, legumes e batata doce para consumo doméstico, abrindo um poço quando se não tem serventia da lagoa para aguar a plantação, é o maior sonho do mundcar o que lhe dá o desafogo e a satisfação de ser um pequeno proprietário e o liberta das condições onerosas do sistema de mundcarato.

Outra compensação para a vida de regedor de aldeia são os ‘brincos’ goeses e vem de longe aquele costume, de quando os jograis iam de aldeia em aldeia, de corte, representar os episódios heróicos e líricos das nossas grandes epopeias e lendas doiradas.

Música estridente de flautas e tambores anuncia a aproximação de ‘brinco’. E a gente da aldeia acorre; pressurosa e exultante, para se juntar à volta dos cantadores e bailarinos que, nos seus trajes de fantasia, adornos e coroas auriflamantes de papel doirado, cantam, mimam e dançam as façanhas bélicas de Ramá e Ravon, dos Pandavas e Kauravas, os jeitos de audácia e bravura de Shivaji e Custobá (um herói local) ou comentam, com graça e chiste, malícia e bom humor, a vida da gente da aldeia, numa espécie de revista do ano, para gláudio do auditório.

Telo de Mascarenhas - Advogados e Solicitadores (1975)

Todas as tardes, por volta das seis, José Gregório fazia o caminho da estação para casa, de regresso de Margão, e costumava parar no balcão de Carlos Manoel para dar dois dedos de conversa ao amigo, com novidades frescas colhidas no botequim de David Camilo ou na sala de espera da gare do caminho de ferro e, às vezes, quando dispunha de tempo, para uma partida de xadrez.

José Gregório era vizinho de Carlos Manoel, e ambos, quase da mesma idade, tinham cursado o Liceu juntos. Feito o exame para advogado, e obtida a provisão, José Gregório abrira banca em Margão. Todos os dias ia ele com a pasta atulhada de papeis de demandista, tomar o comboio, na sua via-sacra quotidiana, para o escritório e para o tribunal. Arguto e hábil, de olhos vivos armados de óculos de grossas lentes faiscantes, tinha criado uma razoável clientela, alem da que herdara do pai, que fora um advogado consciencioso e honesto. Jogando habilmente os artigos do Código como jogava as pedras do xadrez, engrolava os juízes, novatos na profissão e desconhecedores das tricas e dos costumes forenses da terra, e conseguia fazer vingar as causas que lhe eram confiadas.

“Imagina tu, Carlos Manoel”, dizia ele uma tarde ao seu parceiro do xadrez, referindo-se aos Licenciados, oficiais do mesmo ofício, “aqueles senhores, lá por terem cursado Direito na Universidade fazem alarde do seu título de Doutor e pretendem saber mais do que nós, com o nosso simples exame de advogado”

“Não admira que assim seja, José Gregório”, observou Carlos Manoel. “Também nós, os médicos, com o nosso curso da Escola Médica de Goa, de via reduzida, no dizer do Dr. Brito Camacho, não podemos competir com os diplomados pelas Faculdades de Medicina”.

“Ora, bolas! Eu só queria ver a figura que fariam esses senhores togados, de enorme prosápia, perante os nossos grandes advogados doutros tempos, com o mesmo exame que nós, como o Avertano, Bruto da Costa, Lourencinho e outros, que mereceram louvores dos grandes mestres do Direito.”

“Esses, sim. Foram grandes advogados e podiam ombrear com os luminares do foro, em qualquer parte. Mas hoje em dia, sem desprimor para si, José Gregório, não temos nem grandes advogados nem grandes causas”

“Tens razão, Carlos Manoel. Concordo, plenamente, contigo. Infelizmente assim é. Nós, agora, vivemos de migalhas e não passamos de cepa torta. É sina nossa”

Rosália veio servir o chá, e José Gregório levantou-se muito cerimoniosamente, para a cumprimentar. Continuaram a jogar, até que Carlos Manoel, movimentando a rainha, deu cheque-mate no rei do parceiro, e disse: “Por hoje, basta. Já tens a tua conta, José Gregório”.

“Ora veja, minha senhora”, disse José Gregório, dirigindo-se à Rosália, “Veja como um médico descamba um advogado no xadrez e dizem que nós é que somos chicaneiros”.

“Bem dizem os ingleses – Lawyer is liar. Na língua que nós falamos não rima; mas deve ser verdade. A vossa chicana é mais de temer, porque pode levar à ruina os litigantes. Enquanto que a nossa, se chicana se pode chamar, é no inofensivo xadrez”.

Passaram a beber o chá louro e perfumado, que Rosália deitara nas chávenas.

“Na verdade, não há como mão de mulher para preparar um bom chá. Nós, os homens, somos desajeitados e sem gosto”, disse José Gregório, continuando a saborear a aromática bebida.

“Obrigada pelo elogio Sr. José Gregório”, disse Rosália, agradecendo.

Tomando o chá, José Gregório levantou-se para retirar, dizendo: “Agradecido pelo seu excelente chá, sra. D. Rosália. E agora, deixem-me ir, que devo ter gente em casa à minha espera. Não calculas, Carlos Manoel, como é espinhosa a profissão de advogado”.

“Espinhosa, sobretudo, para os teus clientes a quem tiras coiro e cabelo”.

“És dum sarcasmo mordaz, Carlos Manoel. O que vale é que não passa de boca”, disse ele sorrindo para o amigo e despediu-se; “Bem, até amanhã, à hora do costume”.

E lá se foi gingando, ajoujado, com a pasta atulhada de papeis de demandista.

Esperava-o, sentado no balcão, o procurador Belmiro, com dois clientes, para recorrer aos seus serviços para uma composição amigável numa disputa de limites, que o próprio solicitador suscitara e alentara com os seus conselhos tortuosos, esperando fazer disso uma mina de inconfessáveis proventos.

José Gregório era para o procurador Belmiro um advogado de recurso, de quem se valia para casos urgentes e embaraçosos, que não sabia solucionar, como aprendiz de feiticeiro que era, e por trabalhar por conta dum advogado de Margão.

“Então, Sr. Belmiro, que bico de obra temos nós hoje?” perguntou-lhe o advogado.

“Coisa de nada, Sr. José Gregório. Estes meus clientes querem ouvir a sua opinião para se resolver uma disputa sobre limites”.

“A minha opinião em casos desses só posso dá-la após prévia vistoria ao local. Mas a hora é imprópria”, disse José Gregório.

“Se o Sr. José Gregório não se importasse, podíamos ir lá agora, que é muito pertinho daqui. É que, um dos meus clientes retira-se amanhã para Bombaim”.


E como o caso de esbulho era patente, a disputa foi prontamente solucionada, comprometendo-se o esbulhador a corrigir a extrema.





O procurador Belmiro para se dar ares de pessoa atarefada, sentado sob alpendre de olas entrelaçados da sua casa, que fazia de escritório e servindo-se duma velha Remington, quase desconjuntada, desatava a escrever a toda a gente aquilo que lha dava na real gana – as autoridades civis, reclamando a destituição do regedor que não lhe fazia bom pêlo, dificultando-lhe as manigâncias: as autoridades eclesiásticas, suplicando-lhes a transferência do vigário, por denunciar nas suas práticas dominicais, os que não observavam o décimo mandamento: aos prováveis compradores de algum prédio à venda em hasta pública, apoucando-lhe o valor e o rendimento, para os afastar da concorrência, com o seu espírito de cambão inveterado, para compra-lo por tuta-e-mais.

O procurador Belmiro era uma espécie de gestor de negócios de defuntos e ausentes, mas mau prestador de contas. Para se furtar ao pagamento da renda de prédios que arrendava, desculpava-se alegando o desaparecimento do negociante do coco, sem lhe ter pago. Deixava relaxar as contribuições que eram de sua conta, para descontar na renda e procuradoria pelos serviços prestados para evitar a execução.

Ia assim aumentando a sua fazenda por artes de tricas e baldrocas, e engordando como um bom burguês, porque o seu sonho era ser também um batcará, como todos os grandes batcarás da terra e fazer-lhes sombra. Homem de poucas letras e algumas classes de inglês, metera ombros à vida com o fim de fazer rapidamente fortuna.

Um dia, um aldeão foi procurá-lo no seu “escritório” sob o alpendre, para lhe pedir um conselho. E como ele o tratasse por ‘Sr. Belmiro’, o solicitador abespinhou-se e disse-lhe:

“Dobre a língua, seu begarim, e trate-me por Sr. Doutor, porque eu sei muito mais de leis do que muitos advogados que por aí pululam, quase tanto como os Licenciados – esses senhores de grande prosápia que, quando peroram nos tribunais, vestem túnica negra, como se lhes tivesse morrido a avó torta. Forte danação! Sem aqueles charlatães, que bem que eu teria governado a vida! Não tenho grandes estudos, é certo; mas a manha e a chicana são o meu segredo:.

O pobre homem ouviu em silêncio e a pé firme a longa objurgatória do procurador Belmiro, sem lhe atinar o sentido. Mas quando compreendeu o sentido da expressão “governado a vida”, fez meia-volta e safou-se, apressadamente, com receio de que o solicitador mal-humorado o despojasse das úncias duas rupias que levava atadas na ponta do lenço, sob o pretexto de lhe ter dado um bom conselho.

Aljube, Janeiro de 1961