Saturday, 12 February 2011

Renato de Sá’s Review of “Flor Campestre” (1968)

O conhecido poeta Alberto de Menezes Rodrigues acaba de dar à publicidade um livro de contos e novelas sob o título geral de “Flor Campestre”, numa bela edição da Tipogragia Rangel.

São contos e narrativas, de maior ou menor extensão em que o drama de certas vidas é narrada com objectividade e leveza de estilo.

Aqui no primeiro conto “Flor Campestre”, trata-se de um jovem médico, de avantajada condição social que se apaixonou por uma jovem aldeã que certa manha surpreendeu donairosa ao regressar a casinha humilde com o cântaro de água a saltitar no antebraço e como diria o ronha da aldeia “revelando mais e escondendo menos...” a entoar uma terna canção.

Porém isso é simples platonismo ou a cousa caminha de vento em poupa perguntava um realista das redondezas.

Alberto de Menezes Rodrigues descreve o ambiente da aldeia em que decorre a acção do conto, as horas duras que o jovem médico tem de passar numa luta de verdadeira tração entre o preconceito social e as preocupações da família da jovem camponesa que procura arrumar o futuro da filha com um moço que se ajusta mais à sua condição, luta tremenda que o consome, mas em que o destino por fim pondo-se de permeio realiza a almejada aliança.

Perguntar-se-ia porém ao autor desse conto: assim teria acontecido de facto?

Todavia é o autor que no-lo narra, e temos de admitir que não seria cousa insusceptível de suceder nesta vida.

Alberto de Menezes Rodrigues
-x-

Num outro conto que se intitula “Lua-de-Mel em Caxemira” que tem por fim um desfecho fatal e depois sob outras circunstâncias uma Lua-de-Mel; as “Belezas Naturais do Mundo” ou “Dádiva do Céu” em que após anos de esterilidade se volta a página atormentadora da vida de um casal e ainda a tragédia Celeste todas essas constituem narrativas sentimentais da existência para muitas das quais a vida jamais sorri.

Nas páginas do livro que estamos a revistar surgem aqui e além quadros campestres e recortes de paisagem goesa evocada com sentimento e vibração da alma: Calangute com o seu vasto areal batidos pelas vagas alterosas do Índico, uma casinha recortada ao fundo duma duna onde teve lugar um devaneio amoroso, o cruzeiro de Bambolim, a encosta que conduz para o mar, vista a hora do recolhimento quando uma voz melodiosa ressoa naquela verdajante solidão:

“Meu Deus,/E tantas gotas desperdiças/Pelas charnecas áridas, nos montes/Nos areais e campos e caminhos/Onde há florinhas brancas a brilhar!"

Outros quadros matizam ainda estes solilóquos: a faina campestre, o espectro da estiagem que consome o homem do campo, depois ainda, as searas reluzentes ao sol etc., toda essa terna evocação de paisagens conhecidas, onde se desenvolvere a acção das suas narrativas, dão ao novo livro de Alberto de Menezes Rodrigues um doce sabor e de onde se espelha ao mesmo tempo o travo de melancolia do seu espírito, aliás, já manifesto, em algumas páginas da sua obra de poeta.

RV Pandit - O Número Dez (translated from the Konkani by Mucunda Quelecar)

Deus,
Uma vez,
Deu números
Às coisas venenosas.

Coube
O número um
À ambição humana.
Dois à traição
E à sua malquerença.
O número três,
À intrujice,
O número quarto.
Cinco,
Ao ódio.
À inveja
Número seis.
Sete
À intriga.
À leviandade feminina
Número oito.
E nove
Á arrogância dos homens.
E, vendo
Que os primeiros
Nove números
Foram ganhos
Pela peçonha humana,
A cobra
Deseperou...
E começou
A chorar...
Porque não tinha valia
O seu veneno
Perante outros maiores...
Então Deus,
Compadecido
Marcou sobre a sua fronte
O último número
O número dez!

A Minha Primeira Composição – Premchand (tradução de Evágrio Jorge, 1968)

Ao tempo eu tinha cerca de treze anos de idade. Não sabia hindi, tinha uma paixão pelas novelas em urdu. Maulana Sharar, Pandit Ratan Nath Sarsber, Mirza Ruswa, Maulvi Mohamad Ali de Hardoi eram os romancistas populares da época. Todas as vezes que tivesse à mão quaisquer obras suas, esquecia completamente os assuntos da escola e não descansava sem que as lesse de capa a capa. Naqueles tempos as novelas de Reynold estavam muito em voga e suas traduções em urdu eram publicadas em sucessivas edições e vendiam-se como bolos quentes. Também estas eram da minha predilecção. O saudoso Hazrat Ryas, um poeta de renome que faleceu há pouco, traduzira uma novela de Reynolds sob o título de “Haram Sara”, enquanto o director do seminário de Lucknow, ‘Oudh Punch’, um dos imortais entre os humoristas indianos – Maulana Sajad Hussain – traduzira outra novela de Reynolds com o título “Shokha ou Tilasmi Fanus”. Li todos estes livros naqueles dias. Nunca fiquei enfastiado com Ratan Nath Sarshar, embora tivesse acabado de ler todas as suas novelas.

Naqueles tempos meu pai vivia em Gorakhpur, onde eu frequentava a sétima classe, ou terceiro ano como era então conhecido, da Escola Missionária local. Havia um livreiro de nome Buddhilal, em Reti. Costumava frequentar a sua livraria e ler as novelas do seu depósito. Mas como não podia sentar lá todo o dia, levava cópias de “Chaves” aos textos em inglês e de “Notas” e vendia-se entre os estudantes da minha escola. Em compensação por este trabalho, o livreiro deixava-me levar para casa as novelas que quisesse ler. Quando acabasse com a colecção de novelas da livraria lia as traduções da “Purana” publicadas por Nowal Kishore Press bem como vários volumes de “Tilssmi Hoshruba” – um volume grosso de contos românticos. Até então estavam publicadas dezassete deles, e cada um não tinha menos de duas mil páginas de grande formato. Além destes dezassete volumes lera não poucos daqueles volumes que haviam sido publicados em outras ocasiões. Pode-se concluir daqui quão fértil era a imaginação do autor. Diz-se que estes contos tinham sido escritos por Maulana Faizi em língua persa para a diversão de Akbar. Quanto disto era verdade, ninguém poderá dizer. Talvez em nenhuma outra língua existirá uma obra tão grandiosa. É uma verdadeira enciclopédia. Mesmo que alguém tivesse de tirar uma cópia durante o período duma vida inteira de trêira (sic) vintenas de anos, ele não o poderia fazer. Quanto mais difícil não teria sido a sua composição?

Naquela época um tio dum parente meu costumava visitar-nos frequentemente. Embora estivesse avançado na idade, continuava solteiro. Possuía uma pequena herdade e uma casa, mas sem mulher essas coisas não tinham valor para ele, e por isso não tinha apego a elas. Visitava todos os parentes na esperança de que eles lhe arranjariam uma consorte. E para esse fim estava sempre pronto a gastar cem ou duzentas rupias. Era de facto de surpreender que não se tivesse casado, pois tinha um físico vigoroso, bigodes compridos, estatura média e compleição trigueira. Tinha o vício de fumar cânhamo, donde os seus olhos eram invariavelmente vermelhos. Era religioso à sua maneira. Fazia oblação de água a Xiva todos os dias, e abstinha-se de comer peixe ou carne de galinha.

Até que enfim caiu na esparrela em que os solteiros geralmente caem. Foi vitima dos raios Cupido, disparados dos olhos duma “chamar” (fara zoa), que costumava fazer bolos de bosta em casa, dar água e palha aos bois e fazer outros trabalhos desta natureza. Era jovem e traquinas e como as mulheres da sua classe, também duma face sorridente e de natureza divertida. Era o caso dum porco querer ser um modelo de beleza! O seu coração sedento tropeçou no momento em que viu o caudal de água doce. Logo, no meio, duma conversação, começou a brincar com ela. Ela não levou tempo para compreender as suas intenções, pois não era tão simplória. Passou a ser “coquette” a arranjar o seu cabelo com mais óleo, mesmo que fosse de gergelim, lustrar os seus olhos com coltrio e pintar os seus lábios. Entrou mais lassidão no seu trabalho. Por vezes ela simplesmente entrava em casa por um momento e saia logo, ou lançava um olhar sobre ele numa tarde e desaparecia. O resultado era que ele tinha que tratar dos bois e fazer outros trabalhos. Porque sentia que não podia afoitar-se a incomodá-la. Até que afinal nascera amor no seu coração. Pela festa de Holi, de acordo com o hábito, ele tinha que lhe oferecer um presente, mas este ano, deu-lhe um bonito sari de rico material e mais dispendioso, e uma espórtula quatro vezes maior. As coisas foram tão longe que praticamente a criada tornou-se dona de casa.

Uma tarde os “Chamars” reuniram o seu “panchayat”. Os sócios não temiam o tio do meu parente só porque ele era mais rico ou influente do que eles. Pois, o que eles ressentiam era o flagrante contraste entre a conduta de seu pai, que nunca olhara a uma mulher na sua vida (o que de resto não era verdade), e a sua, pois ele olhava desavergonhadamente às mulheres da classe servil. Eles acharam que a persuasão não daria resultado. E esperavam, ao contrário, que ele criasse alguma situação séria. Acharam que podiam corrigir tudo duma pancada. Decidiram por isso ensinar-lhe uma lição que não pudesse esquecer por toda a vida. As questões de honra só podem derimidas (sic – ser redimidas?) com sangue mas o castigo também pode arrumar e arruma-os até certo ponto.

No dia seguinte, à tarde, quanto Champá, a criada, entrou na casa, ele fechou a porta do quarto interior.

Os “Chamars” que esperavam por uma oportunidade destas, começaram a bater à porta exterior. Ao principio ele pensou que talvez, um seu manducar tivesse vindo vê-lo e, achando a porta fechada, tivesse ido embora. Mas quando ouviu o barulho feito pela multidão ficou perplexo. Olhou pelo buraco da chave e viu cerca de vinte ou vinte cinco “Chamars”, arrumados de pais, procurando forçar a porta. Que fazer? Não havia forma de fugir, nem de esconder Champá. Compreendeu que teria de fazer face a dificuldades. Não esperava que a sua amante havia de procurar uma situação destas tão cedo, aliás seria cauteloso, em oferecer a sua coração a ela. Pelo seu turno, Campa picava-o dizendo: “De qualquer forma o Sr. não tem muito a perder, é a minha honra que ficará manchada. A minha gente não me deixará viva. Pedi-lhe com mãos postas para não fechar a porta. Mas o Sr. estava tomado de paixão. O Sr. está de facto, bem servido, porque sujou a própria cara”.

Pobre tio! Ele nunca havia experimentado uma coisa destas. Se no seu lugar estivesse um perito no jogo, havia de deparar com cento e um expedientes para se sair da dificuldade. Mas ele ficou completamente atrapalhado. Ficou no pátio interno recitar as suas escrituras.

Fora da porta m murmurinho foi crescendo até que a aldeia se reuniu aí. O brâmane, o thakur, o kayasta todos vieram ver a força e dar uma boa tareia no delinquente. O que podia ser mais engraçado de que descobrir um homem e uma mulher fechados num quarto juntos! E por mais humilde ou altamente colocado que um homem fosse, o público não perdoaria. Foi chamado o carpinteiro, aberta a porta com instrumentos e o tio, depois de uma busca foi achado no depósito de palha. Champá foi vista de pé no pátio interno, a gritar. Logo que se abriu a porta, ela correu e bom correr. Ninguém lhe disse uma palavra sequer. Mas aonde podia o tio correr? Ele sabia muito bem que não havia saída para aí. Preparou-se por isso para receber qualquer castigo que lhe fosse infligido. E teve um castigo exemplar! Todo o instrumento a que se pudesse lançar mão – sobreiro, paus, sapatos, murros, pontapés – foi utilizado até que enfim caiu estatelado e eles, tomando-o por morto, deixaram-no só. Mesmo que sobrevivesse, arguiram ele não poderia continuar a viver na aldeia porque a sua herdade passaria para a posse doutra pessoa.

A notícia deste infeliz acontecimento chegou-nos nas asas do boato. E eu saboreei-o imensamente. Dei uma gargalhada estrondosa quando procurei imaginar a cara do tio enquanto era sovado pelos aldeões.

Por cerca de um mês, bebeu, para tratamento, uma mistura de melaço e açafrão. E logo que pôde andar, veio ter-se connosco porque queria instaurar na nossa cidade um processo crime contra os seus coaldeanos pelo assalto de que fora vítima.

Se apresentasse algum arrependimento ou humildade, talvez me simpatizasse com ele, mas era tão vaidoso como sempre. Ameaçou informar o meu pai acerca do meu apego por novelas e por teatro como para me ameaçar – uma coisa que não podia aturar. Porque agora tinha factos seguros contra o seu carácter.

Enfim, um dia, incorporei tudo quanto sucedera ao pobre diabo num drama que mais tarde li aos meus amigos. Todos eles sorriram a valer quando ouviram. Senti-me encorajado. Tirei uma cópia dele e deixando-a debaixo do chumaço do tio, fui à escola. Estava meio divertido e meio receoso na minha própria mente. Estava curioso de saber que o meu tio diria depois de ler o drama. Por isso, aquele dia, o meu coração não estava nos meus livros, mas em casa. Logo que terminou a escola segui para casa. Mas quando cheguei perto hesitei. Receei que o meu tio me desse bordoada. Mas estava seguro de uma coisa – que não me daria senão uma bofetada, pois não era dos tais que toleravam estas coisas.

Mas imaginem! O tio não estava lá na cama onde costumava estirar as suas pernas. Teria ido dentro de casa? Olhei pelo quarto mas só reinava silêncio lá. Não havia indício dos seus sapatos, roupa e trouxa. Perguntei aos membros da família e fui informado que o tio regressou à sua casa, sem tomar refeição, para um assunto urgente...

Saí dai e dei rigorosa busca ao quarto para desencantar o meu primeiro drama e minha primeira composição mas não pude achá-la em parte alguma. Não sei se o tio lançou-o ao fogo ou levou consigo ao céu!

RV Pandit - A Virtude Peregrina (1963)

Ia em peregrinação
A virtude…
No caminho
O vício encontrou.
Este, sorridente,
Amigável,
Disse à virtude…
“Passemos a noite
Juntos
Na estalagem.
Dia seguinte,
Manhã cedo,
Após um banho
Vamos visitar
Os deuses…”
A virtude reflectiu um pouco
E disse:
“Pode ser…”
De si para si.
Pensou:
“O diabo não é
Tão feio
Como o pintam”
Noite inteira
Os dois
Folgaram
Dançaram e riram
Em orgia…
O dia seguinte
Passaram
Em sono pesado.
Desde então
Até hoje
A virtude
A Deus não visitou…
E Deus, à espera,
Pensando:
“A virtude ainda não veio!
Porque sera?”

Telo de Mascarenhas - Dois Poemas (1975)

Canto de Vitória

Grande ou pequena,
rica ou pobre,
esta Terra é nossa,
uma herança ancestral;
nós lutámos e sofremos
para a LIBERTAR.

Único anseio nos guiou
na nossa luta insane
sem tréguas e sem quartel,
na alegria e na dor:
fazer ressurgir Goa
com o seu prestino esplendor;

Fazer da Nossa Terra
um manancial
de leite e mel:
dar um palmo de terra
a todos, para cultivar;
um tecto para abrigar
os deserdados sem lar

Esta Terra é nossa,
legitimamente nossa,
uma herança ancestral;
nós lutámos e sofremos
para a RESGATAR.

Não consentiremos
que politicos sem escrúpulos
façam da Nossa Terra
um tabuleiro de xadrez
para o jogo dos seus interesses
sujeitando-nos ao revês
de perder o que ganhamaos.

Esta Terra é nossa,
legitimamente nossa,
uma herança ancestral;
nós lutamos e sofremos
para a LIBERTAR.

No seio da Mãe-Índia
nós queremos viver
como seus legítimos filhos que somos;
mas em nome da UNIDADE
não venham subverter
a nossa IDENTIDADE.

Do mesmo modo que lutamos
com os nossos dominadores
nós lutaremos
com os nossos exploradores.

Esta terra é nossa,
legitimamente nossa,
uma herança ancestral;
nós lutámos e sofremos para a RESGATAR.

Grande ou pequena,
rica ou pobre,
esta Terra é nossa,
orgulhamo-nos dela.

Num solar ou num tugúrio
nós sabemos viver
com altivez e orgulho,
porque esta Terra é nossa,
legitimamente nossa;
uma herança ancestral
nós lutámos e sofremos
para a LIBERTAR.

A Unidade
Balkrishna, dá-me a tua mão.
Somos filhos da mesma mãe,
gerados no mesmo ventre,
tu Hindu e eu Cristão.

Manuel António, meu irmão,
nós demos o corpo ao manifesto
com coragem e decisão;
mas são os dúbios que colhem
os frutos da LIBERTAÇÃO.

Por Allah, eu juro;
soa o traço de união
entre o Hindu e o Cristão,
no passado, no presente, no futuro.

A nossa raiz é a mesma,
somos três elos
da mesma geração.

Por isso nós demos a mão,
na luta da Libertação.

Friday, 11 February 2011

Leonardo da Rocha's 1963 review of Vimala Devi's Monção

Consola verificar que na triste conjuntura em que se debate a língua portuguesa em Goa, escritores nossos se esforçam por preencher as lacunas herdadas no género literário de obras de ficção goesas. Orlando da Costa em O Signo da Ira marcou um vigoroso passo e sugiram lentamente outros na peugada, afirmando-se com não pouco talento.

Chega-nos ora à mão o livro de contos, intitulado Monção da nossa distinta conterrânea Maria Teresa de Almeida, que assina pelo pseudónimo literário de Vimala Devi. Oriunda de uma ilustre família de Britona, Teresa de Almeida radicou-se, faz anos, em Portugal e é ora casada com o conhecido escritor português Manuel de Seabra, autor de vários livros, como Terra de Ninguém (romance), O Retrato Esboçado (novela), O Fogo Sagrado (romance) etc.

Já quando em Goa, e muito jovem, Vimala Devi mostrou o seu pendor para as letras em apreciados escritos, publicados na imprensa local. Mas a obra que lhe grangeou unânimes aplausos da crítica foi o pequeno livro de poemas Súria (1962). No dizer do critico literário do influente Diário de Noticias, Súria assinala “um sério caso poético, uma poesia que vem colocar a autora entre os mais puros valores revelados nos últimos vinte anos”. E João Gaspar Simões, para citar só este, descobriu na poética de vimala Devi “um acento fundo de sensualidade mística, de pureza conturbada” pelas tentações em surto na carne de uma mulher.

É deveras curioso que tanta aclamação critica não animasse a autora a prosseguir no caminho da poesia, para lá de uma mera tentativa experimental, pois no ano seguinte ao da publicação de Súria, Vimala Devi dá à estampa Monção, um feixe de contos que, na fachada da própria capa, se denominam contos de Goa, ainda em concani, por sinal pouco feliz, escrito em devanágri.

Vimala Devi afronta pois, desta feita, o difícil veículo de expressão do short-story e se transporta à ambiência humana nossa, de Goa. A empresa é, na realidade, arrojada. Não só o género exige do artista grande capacidade de síntese, como o regionalismo a que a autora lança mão, requer seja manejado numa dosagem bem equilibrada em vista a um fim superior, qual é o da tradução duma humanidade típica, dum ser anímico dum povo, duma gente. Consegue-o a autora?

Uma notável galeria de tipos, como hindus, católicos – curumbins, pescadores, batecares, mestiços – é verdade nos oferece o livro de contos de Vimala Devi. O estilo é simples e agradável no descritivo, que a autora se esforça por manter objectivo e fiel. Eis como nos pinta Pangim na época do Ganês: “Acorria gente da toda a parte, mesmo da União Indiana, enchendo as ruas e as lojas de panos coloridos. Homens tisnados, de puddvém, batiam os mercados; mulheres delgadas, de saris berrantes, cobertas de manilhas de oiro, cucume bem rubro, adornavam-se com colares de zaiéus e compravam guloseimas. Pangim transformava-se numa aguarela estranha, mergulhada em aromas vivos de betle e chondor-vatt” (p.83).

A autora foi igualmente feliz em intuir aquelas situações que mais possibilidades oferecem de espelhar a realidade goesa.

Não obstante, fica-nos após a leitura, a impressão de que esta realidade se apresenta vaga e imprecisa. Não vemos focada bem a funda aquela face autêntica de Goa que esperávamos. Sentimos predominar a topografia, o regionalismo exótico, visto de fora, sobre a recriação do genuíno ambiente goês com as situações humanas e seus tipos bem analisados e não meramente esboçados.

Passando ora a uma análise mais particular. A história de “O Genro Comensal” gira à volta do velho casarão onde viviam desesperadamente solteiras quatro manas já entradas na idade, em companhia de algumas criadas velhas, do tempo de papá. “Porque não havia varões na família, a casa ia extinguir-se. E as quatro manas Fonsecas resignadas carpiam a mágoa de verem uma família de tão vetustas tradições (de Margão) mergulhar no vazio, desaparecer sem herdeiros ou continuadores” (p.33). Mas assim não sucedeu, graças a Deus, um casamento sempre se arranjou...

É um dos melhores contos que, pela veia satírica, foca um pitoresco problema do nossa vida social, certamente hoje em vias de acabar. O processo recorda algo de Jacob e Dulce. Eis, como pano de amostra, o diálogo entre o raibari (Ti-Aureliano) e o noivo (Franjoão). O noivo apura os teres e haveres da casa da futura noiva:

- Ainda tem o prédio de Divar?

- Sim.

- Quantos candis de bate dá?

- Sete.

- E coco?

- Dois mil cocos.

- E mais? Bananas, mangas, jacas?

- Também. Há outras propriedades.

- Onde?

- Em Dongrim.

- O que produz?

- Arroz. Várias qualidades. E muita manga, em Benaulim.

- Tem mangas em casa? Mangas ou chupadeiras?

- Qual! Manga boa. Xavier, fernandina. É boa casa. Brâmanes bem antigos, bem sabes. Aquilo tudo fica para Teodolinda.

- Sério?

- Claro. O que elas querem é um homem de carácter, que se dá bem com elas e traga respeito a casa!

Franjoão baixou a cabeça pensativo. (p.43)

De idêntica veia é o conto “A Subvenção” onde a mania de outrora de se identificar com o europeu-português assume um tom grotesco no comportamento do ‘descendente’ Eurcaristino, Terceiro Oficial de Fazenda. Aqui a maneira esquemática do tratamento da história e a sensação de anedota que fica no fim, tiram bastante à tese em si feliz, merecedora de melhor elaboração.

Em “Nâttak”, “Druva”, “Padmini” e “A Droga”, o mundo social e a psicologia do hindu goês despertam o interesse da autora. O último desses contos narra a história do amor proibido de dois amantes, Rosú e Caxinata, no contexto do código implacável que deita barreiras entre cristãos e hindus. Embora, à primeira impressão, nos agradem estas histórias, no plano de arte realizada, a uma demorada análise, não deixam de nos trair uma Vimala diletante, a que tivesse o prurido de abrir o véu ao mundo hindu só com as leves reminiscências hauridas de um superficial contacto que une os cristãos e hindus em Goa.

Enfim, contos como “Filhos de Job”, “Vénus e Sues Braços” tiram efeito artístico duma exploração literária do pauperismo existente em certas camadas nossas. Para alguns leitores de agora os casos humanos descritos, em cor tão berrante, talvez se desfiguremdépassés e só porventura viverão na memória de uma época que se foi. Todavia, mitigada desta ou daquela forma, a miséria de irmãos nossos lá está, trágica na sua impotência, comovente no silêncio da resignação. E há para nós arte e beleza nestas histórias em que sentimos a dor partilhada por um coração feminino, terno e sensível, da escritora e poetisa Vimala Devi.

I wish to thank Leopoldo da Rocha for his permission for me to reproduce this review. To anyone out there with an interest in Goan writing in Portuguese, I suggest you read Leopoldo da Rocha's recently published Casa Grande and that you look up his own blog:
http://lusogoanus.wordpress.com/ 

Laxmanrao Sardessai - "Na Mão de Deus..." (1966)

Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou, afinal, o meu coração,
Cantou assim Antero de Quental,
O poeta português, mas em vão,
Poeta filósofo, torturado pela dúvida,
Pela interrogação.
Pobre poeta, que, num momento de exaltado
Disse o que na verdade nunca sentiu
Nem nunca realizou...
O seu coração, atormentado, dilacerado,
Nunca alcançou a paz, o descanso
A que aspirava, indo pousar na mão de Deus,
Na sua mão direita...
Pois, foi procurar na morte esse descanso
Pondo termo à sua existência genial,
Foi poeta-filósofo, sim...
Mas não pôde conciliar
A poesia da vida com a filosofia do Universo.
Se eu fosse Antero, diria:
“Na mão de Deus, na sua esquerda
Descansou, afinal, o meu coração...
A deusa é a minha amada em carne e osso
E não uma imaginação... uma ilusão.
Na sua mão, na sua mão direita,
Mão de carne, mas mão divina
Onde corre a raiva de ternura e compaixão,
Onde o amor palpita como o pulso
Onde toda a graça da sua alma
Se torna manifesta
Nessa mão se levou o bálsamo
A tantos corações amargurados
E guiou pela senda do dever,
Através das trevas,
Tantos espíritos desvairados,
Eu encontrei o descanso,
E que é da sua mão esquerda?
Essa, meu querido leitor, está entretida
Em afagar-me, acariciar-me
E nós, ambos, um dia,
Quando a morte nos vier chamar,
Iremos juntos descansar
Na mão esquerda de Deus
Que o poeta filósofo ainda deixou intacta!

The original "Na Mão de Deus" by Antero de Quental can be found here: http://ocanto.esenviseu.net/apoio/maosdeus.htm