Wednesday, 16 February 2011

Alfredo Bragança - Os Finados (1962)

Pelas densas escruridões nocturnas
Passam lá em cortejo enfileiradas,
Pálidas Sombras, tristes e enlutadas,
Como farrapos de Almas taciturnas.

Saindo das suas carcomidas urnas
Em dolorosos crepes embrulhadas,
Vão todas Elas, frias e geladas,
Com as faces chupadas e soturnas.

Perguntei, porém, ao cortejo fúnebre:-
Ó velhas Sombras, lívidas e mortas,
Pra onde ides acossadas de Tristeza?
- Vamos nós, ao gemer do Sino lúgubre,
Bater às vossas generosas portas,
Mendigando a Esmola duma Reza.

Alfredo Bragança - As Más-Caras (1964)

Três dias,
dias de bulício infernal,
são três dias de Carnaval…

Envergando o seu trajo carnavalesco,
reina supremo o deus Momo,
o pérfido mundo grotesco.

Por toda a parte vende-se
ilusório prazer,
prazer que vive um segundo,
vende-se hipocrisia,
vendem-se ambições e insultos ocultos.

- Máscaras e cocotes –
vendem-se sorrisos irónicos,
risadas sonoras e gargalhadas satânicas,
vende-se orgia e mais orgia,
orgia que, em doída azáfema,
compra o ávido Zé Povinho,
em honra do deus Momo.

Mas ao depois,
findos estes três dias,
pensamentos na Quaresma,
acocorado num solitário cantinho,
põe-se a chorar e a soluçar,
o pobre do Zé Povinho.
- Porque, porque choras,
meu Zé povinho,
a morte do deus Momo,
todo desfeito,
em frias cinzas da Quarta-feira?

Porque, porque cjoras,
se a má-língua sempre usa cocotes,
que são o sussurar,
de calúnias secretas,
se as nossas próprias caras,
são más-caras da Hipocrisia?

Porque choras, meu Zé Povinho,
se a Vida é um eterno Carnaval,
uma perene tragicomédia,
de brincos populares,
onde vão e vêm,
aparecem e desaparecem,
homens de ordem vária?

Porque, porque choras,
meu Zé Povinho,
se o Carnaval é apenas,
um esboço fotográfico,
da cria realidade da Vida?

Porque, porque choras?...

Maria Elsa da Rocha - Ouça (1967)

Ouça:
Como estou cansada
De ver Você desprezada
O Passado não foi bastante
P’ra nos convencer
Que o Futuro seria bem grande
Dando a Você um lugar adiante?

Ouça:
Como vai ser
Quando a saudade
Comigo for morar
E eu baixinho chorar
Por nada ter para dar
Para Você, meu bem querido,
Que todos me ensinaram a não amar?

Ouça:
Que devo fazer
Quando a lembrança de Você os castigar
Como de alguém
Que só carinho andou a mendigar
Deles, que amor tinham para lhe dar
Mas que fizeram questão de não dar,
Fizeram questão de a renegar?

Ouça:
Quando a garra adunca
Da maldita Ambição
Surgir mansinho, pingando fel,
P’ra apagar com ranhuras de sangue
O vinco mole de certos corações
Sim, então, que vai ser de nós?
Orfãos de Você, língua-mãe?

Tuesday, 15 February 2011

Bicaji Ganecar - O Goês de Amanhã, translated by Remígio Botelho (1969)

Não tenho de andar
Por terras e mar…
Chega-me o canto
Onde eu nasci,
E é só aqui
Meu menino santo
Dirá o goês
De amanhã

Nada maior
Que o meu amor
À Goa bela…
É só nela
Que hei de achar
Minha riqueza
E só hei de cantar a sua beleza
Dirá o goês
De amanhã

Tudo o que sou
Vem do seu nome
Que me matou
A sede a a fome
Beijo-lhe a mão
Em gratidão
Dirá o goês
De amanhã

Minha língua é
Só o concanim
Que lutou com fé
E alcançou o fim
E a sua vitória
É a nossa glória
Dirá o goes
De amanhã

É tudo para mim
A Goa amada
Enquanto assim
For separada
De tudo em redor
Sou eu o senhor
Dirá o goes de amanhã

E a débil planta
d’alegria santa
Cresceu cresceu
Até o céu…
E afastando a dor
Conseguiu tranpor
O cume risonho
Do seu sonho
Dirá o goês
De amanhã

Monday, 14 February 2011

Paraxurama Quensori - Os Dramas de Tagore (1961)

Como poeta, novelista e dramaturgo, brilhou Tagore para sempre, mas a alta expressão do seu sentimentalismo só se manifestou em exuberância nos dramas que escreveu e representou no palco. Ainda hoje há poucas pessoas cultas que teriam compreendido a fundo os dramas de Tagore.

Muitas delas acham que os seus dramas são inadaptáveis para o palco por serem excessivamente sentimentais e com alta dosagem de lirismo. Importa porém aprofundar e compreender o que Tagore teria querido manifestar através dos seus personagens. Uma das principais razões para a frustração dos apreciadores dos dramas de Tagore é a preocupação errada acerca do ideal do dramaturgo. Falando com toda a franqueza, é-me penoso manifestar que as peças teatrais de Tagore traduzidas em línguas europeias são muito mal representadas nos palcos europeus.

Mas todos aqueles que têm a felicidade de as ler no original sabem quão ternas e sentimentais elas são.

Não sei até que ponto Tagore teria influído nos escritores da língua portuguesa. O que sei é que no Brasil ele teve um acolhimento melhor que em Portugal.

Não sei se as peças teatrais de Tagore foram representadas no palco português. Suponho que só o Chitra pode ser levado em cena no palco de Goa, mas muito mutilado e deveras deformado.

Num estudo bem elaborado sobre as peças teatrais de Tagore, o escritor Sombhu Mitra diz o que segue:

“As peças teatrais de Tagore têm sido muito atacadas por críticos de reputação como dramas de inacção similares em espírito e inspiração aos de Maeterlinck. Mas eu acho que tanto a discrição como a comparação é mal concebida. Temos que ver a representação bem produzida de Ratakkarabi para compreendermos quão diferentes são os dramas de Tagore das criações abstratas de Maeterlinck”.

Este drama de Tagore é um quadro vivo da crise da civilização contemporânea do mundo. Ele trata do horrível dilema do homem moderno nas garras da sociedade acquisitiva e materializada.

Os dramas de Tagore apresentam nitidamente o reflexo de diversos complexos que atacam a sociedade moderna e diversos movimentos políticos e revoluções sociais por que ela passou. Por exemplo, Dhanajoy Bairagi é um personagem arquétipo. Ele traça claramente o seu movimento de não pagamento de impostos, muitos anos antes de Gandhi incidentalmente nos ter familiarizado com o seu célebre movimento.

E, não obstante estes retratos vivos exibidos no palco, há quem ache que os dramas de Tagore são anémicos.

É que a maior dificuldade encontrada para a nítida compreensão das peças teatrais de Tagore está em o espectador compreender o subjectivismo do dramaturgo.

A Jatra tem sido uma das vigorosas formas do teatro popular de Bengala que Tagore aproveitou admiravelmente para expor ao público os seus altos dotes de dramaturgo de raça.

Não haja dúvida que o espectador vulgar que não leu o drama de Tagore antes de ir ao teatro, não está capaz de compreender cabalmente o seu simbolismo.

As convenções do palco do teatro popular Jatra de Bengala foram aproveitados por Tagore para representar no palco certos conceitos filosóficos e morais como: Destino, Consciência e o Mal.

E é muito curioso ver conversar todos eles um com o outro, individualmente, individualizados em dramatis personae, não como alguém vê num filme cinematográfico a sequência de um sonho mas pelo modo típico de Tagore. Esta é a feição típica do teatro popular bengalês.

Basta notar cuidadosamente o diálogo entre Nandini e Bishu no Raktakarabi ou seguir atentamente as reacções psíquicas da rainha Sudarsana e Kanchiraj no Rajá para se nos convencermos das afirmações acima feitas.

Ao aproximarmo-nos das peças teatrais de Tagore é necessário esvasiarismos os nossos cérebros do peso morto de certos preconceitos acerca dos ideais do autor e bebermos com as mentes frescas o mel doce do seu lirismo e da sua poesia filosófica.

Rui Peregrino da Costa - Língua Portuguesa (n.d.)

Última flor de Lácio, inculta e bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela…

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trem e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo
Amo-te, ô rade e doloroso idioma,

Em que da voz maternal ouvi: “meu filho!”
E em que Camões chorou, no seu exílio
O génio sem ventura e o amor sem brilho!

Sunday, 13 February 2011

Joaquim de Oliveira - Review of Alberto de Menezes Rodrigues's “Caminhos de Luz" (1958)

Não resta dúvida de que Goa atravessa presentemente uma profunda crise de ordem cultural. Estamos convencidos de que esta crise em razão de múltiplos factores, tem um carácter transitório, mas importa denunciá-la com propósitos objectivos no plano intelectual. Nas artes, nas letras, no teatros, nos próprios e hesitantes programas da rádio, etc., reflecte-se notoriamente um estado de coisas que bem merece ser encarado superiormente no sentido de maior elevação de tais actividades culturais. Goa não é só paisagem, ruínas, fotografia; observa-se a luta dos que trabalham ao longo das praias, dos cais, das minas, das extensas campinas desta Goa exuberante. Existem problemas locais de grande importância que estão à espera de ser objectivados. Em que buraco se meteram os poetas, os escritores e artistas capazes de nos dar a vida do homem goês?

O último livro que me foi enviado não foge à regra das considerações expostas. O facto de o Sr. Alberto de Menezes Rodrigues classificar Caminhos de Luz como “novelas” não significa que as suas composições realmente o sejam. O primeiro quesito que um escritor deve ter presente é, pelo menos, o conhecimento dos géneros literários. Um romance, uma novela e um conto têm a sua arquitectura própria. Foram novelistas o nosso Camilo, contistas um Tchecov, um Maupassant, uma Catarina Mansfield, etc, e são actualmente extraordinários contistas e novelistas um Hemingway, um Saroyan, um Caldwell, um Steinbeck. Todas a novelística, desde a sua origem até ao presente, segue uma linha evolutiva de que é preciso ter em conta as suas principais coordenadas. É isto que o Sr. Alberto Rodrigues parece ignorar, de contrário não chamaria novelas às suas hesitantes composições buriladas ao jeito de uma Rosa ao Adro... Chamasse-lhe narrativas, lendas, etc, e a coisa escapava. A primeira composição “Almas plenas de sol” quase se encaminhava com uma novela no primeiro andamento; mas o autor perdeu-lhe o fôlego, rematando-a com digressões na paisagem e sem conflitos de maior. De resto, quando a realidade é produto de uma imaginação de gabinete ou mero quadro alegórico com fins moralísticos (o caso de Roberto, p. Ex.) torna-se-lhe difícil a sua estruturação ficcionista, ainda que queira imprimir-se-lhe um cunho de veracidade.

Isto quanto à forma e técnica do livro do Sr. Rodrigues.

Quanto ao fundo... “Caminhos de Luz” visa a intuitos apologéticos no âmbito da problemática católica. Em vez de se colocar à margem da obra como qualquer escrito imparcial, transferindo as suas ideias ou teses para os personagens, o autor caminha com eles num plano perfeitamente simétrico. É isto o que se chama arte no serviço, aliás em desacordo com certos defensores de uma Arte Pura, com exclusão de propaganda. Mas tais doutrinadores não têm razão, pois que a arte serve as ideologias (politicas, religiosas, etc.) e consequentemente, o homem. O que pode discutir-se ´´o valor das ideologias, seu processo de divulgação, contradições, etc. Sob este aspecto não cabe aqui essa destrinça; temos de observar, no entanto, que o autor força bastante a nota apologética, traduzindo mais propaganda que arte. Tanto o ecletismo de Roberto como o ateísmo do Dr. Mário são de um simplismo ingénuo, inconcebível. Um grande médico, homem de muito carácter como se diz, embrenha-se num sistema filosófico ateu. Isto não impede que a sua vida seja de alta dignidade e coerência; mas, por motivos de casamento, converte-se de um dia para o outro, especialmente porque um amigo lhe envia As Grandes Teses da Filosofoia Tomista cuja leitura, automaticamente, o mete no bom caminho que não seguia. Há nisto como se vê, um simplismo a toda a prova. Se o Sr. Alberto Rodrigues algum dia leu O Drama de João Barois (cujo autor de Prémio Nobel morreu há pouco) terá observado que problema humano de uma conversão é mais complexo, exige, pelo menos, uma arquitectura novelística em que o drama de consciência se desenrola num gráfico oscilatório bastante doloroso, e não em queda vertical como o autor o liquidou. Toda a obra literária digna de crédito tende a projectar os problemas quaisquer que eles sejam, num plano universal; ora, se o ateísmo é um problema universal, não é com uma tese local simplista que fica resolvido; de contrário bastaria que o Dr Mário tivesse lido As Grandes Teses da Filosofia Tomista mais cedo, o que muito bem poderia ter feito quando andou pela universidade e se interessou pelos problemas filosóficos.

Devemos ainda notar que as narrativas de Caminho de Luz estão eivados de artificialismo (de que as cartas são exemplo), há falta de vivência humana e de densidade artística para que se imponha como documento literário de valor. Não lhe descobrimos um fundo caracteristicamente goês, isto é um clima, uma alma, uma cor local específica, embora num ou noutro ponto haja recortes de paisagem tropical.

À parte estas restrições, o livro está moldado numa prosa bastante correcta, enriquecida ainda com localismos de linguagem que mais o valorizam. O Sr. Alberto Rodrigues denota possuir certas facilidades de tema, practica um estilo bastante sugestivo que lhe permitiria a elaboração de obras de mais larga representação humana. Agradecemos-lhe o exemplar enviado e fazemos votos para que nos dê um novo livro – um livro em que a realidade goesa venha à superfície nos seus aspectos mais exuberantes e para a reprodução da qual o autor se encontra apetrechado de qualidades literárias fundamentais.