Monday, 2 April 2012

Clara de Menezes - Escravo (n.d.)


Arou a terra ingrata p’ra o sustento
Inventando instrumentos com destreza,
Construiu fortalezas p’ra a defesa,
Dominou o impetuoso e ágil vento.

Fez-se no saber um grande portento,
Aprendeu a explorar o ar com presteza
E a singrar o mar com ligeireza,
Embora num progresso árduo e lento.

Ao Rei da Natureza não há segredo,
Nas terríveis batalhas não tem medo,
Nas Ciências, Letras e Artes teve sorte.

Procurou prolongar a sua vida,
Sustentando uma luta hábil, renhida,
Mas nunca logrará fugir à Morte.

Laxmanrao Sardessai - A Causa que Professo (1966)

Indiferença mórbida;
Desdém frio,
Noto em minha volta
Pela causa que professo,
É a causa da vida e morte
A que professo
Pelo silêncio da acção,
Pela elegância da palavra,
É a causa eterna do homem,
Porque é a causa de vida e morte
Mas é a causa que os nossos ignoram
Porque não têm tempo
E não têm paciência
Assim matam,
No furor da matéria
A alma da vida
Que é a causa que professo,
Apupado pelo desdém e indiferença.

Thursday, 15 March 2012

Pedro Correia-Afonso - A Cor Local na Obra de Orlando da Costa (1961)

A favor do impulso que a minha curiosidade recebeu das opiniões contrárias que ouvi sobre o livro, sem dúvida empolgante, de Orlando da Costa – “O Signo da Ira” – acabei de o ler em poucas horas. Li-o também cativado logo de princípio, pelo aviso prévio do autor:

“A narrativa que se segue trata de pessoas e factos imaginados. Nela apenas a terra pretende ser verdadeira e a natureza em que ela se integra e se exprime. Tudo o mais é pura obra de ficcionista, em que à evocação, por um lado, e à imaginação, por outro, se aliou um destino de tragédia, subitamente revelado a cada um dos personagens que neste romance morrem ou sobrevivem. É neste encontro com o sentido trágico, o desespero humano na salvação e na destruição, a trajectória secreta, os pólos tangíveis do signo da ira”


Quando cheguei ao fim do livro facilmente acreditei que pessoas e factos sejam imaginados. O hediondo Bab-Ligôr tinha de ser inventado, Rumão, o taverneiro receptador de furtos parece retrato apanhado ao vivo mas pode sem dificuldade dar-se por imaginado em certos traços. Porque é que Orlando da Costa acharia prazer em gerar mostroengos deste calibre é para mim um mistério. Pelo menos a saudade poderia tê-lo levado a encarreirar o romance por veredas mais aprazíveis, sob o signo do amor. Mas de gustibus, diz o ditado, non est disputandum.

Seja como for, o que após a leitura do livro e em face dos copiosos apontamentos que tomei à sua margem, posso afirmar sem hesitação que, precisamente, é a “terra” e “a natureza em que ela se integra e se exprime” que são neste romance o traço mais falso e inventado.

É bastante estreito o horizonte em que este episódio se desenrola. O povoado onde os curumbins e as curumbinas de sua invenção vivem a sua vida de tragédia e sofrimento, sem, pelos modos, uma nota sequer, uma tonalidade sequer de alegria e de vivacidade, deve ficar situado algures atrás da capela de S. Joaquim de Bordá, no bairro de Marlém. No curto espaço de tempo em que a novela se desenolve e atinge o seu desenlace, nenhum ser vivo – homens, búfalos e cães – se move para além dos sítios de Gogola dum lado, Torçanzori para outro e o largo onde se reúne, defronte da cadeia civil, a feira anual da Conceição. O horripilante Bab-Ligôr, gancar de Margão e confrade, deve viver nas proximidades da Redação de “A Vida”.

Mas a leitura do livro francamente não desperta em mim o menor sentido de ambiência familiar. Gastei muita sola de sapato calcurriando pelos sítios de Gogola, Fatordá, Marida, Agally, até para alem de Arlém. As pedreiras são-me tão íntimas como as morodas e as vanganas. Mas francamente nunca me ocorreu que “a laterite exposta ao sol estonteante” faça “lembrar carne viva”. Talvez recordada à distancia de algumas décadas de anos e de milhares de quilómetros. Vista de perto, não. A coisa mais rebuscada e forçada que se encontra nestas imagens que o valor constrói para, a seu modo, dar vida e cor ao seu estilo e ao seu tema. Muito interessante, muito agradável talvez aos olhos de quem o leia em Lisboa mas muito artificial para quem o leia colocado no centro mesmo da sua paisagem local. Em um sítio tem Orlando da Costa esta estupenda comparação: “as várzeas de cômoro e cômoro ficarão entumecidas e dóceis como uma fêmea cercada pelo desejo e pela saciedade”.

Esta impressão de artificialidade, este sentido de arbitrário começa-se a sentir logo de entrada porque a própria sinfonia de abertura com que, entre vibrações de arcos a rufar de tambores, Orlando introduz o seu espectáculo soa a falso aos ouvidos dos conhecedores. Se não vejamos:

“Quando chegam as monções de nordeste, diz-se que chegaram os terrais. Mal sentem esse cheiro a terra que todos os anos desce dos contrafortes dos Gates e percorre o mesmo caminho dos rios e pequenas cordilheiras até chegar às planícies mais baixas, os búfalos sabem que novamente a terra os espera.

Soprando as copas verdejantes dos cajueiros e das mangueiras e espanejando docemente as olas no alto dos coqueiros, os terrais vão deixando um rasto de fertilidade até encontrarem o mar. À sua passagem, a cacimba cai lentamente e vai ensopando a superfície das terras lavradias e humedecendo o capim das encostas e caminhos.”

Quando eu pretendi classificar no meu íntimo este romance de Orlando da Costa, no seu conjunto de situações imaginadas, de comparações outrées, de posições forçadas e suspeitando que o jovem autor pretende, no fundo, insinuar no espírito qualquer tese ou teoria peculiar, ocorreu-me – desculpe Orlando o dizê-lo com franqueza – o termo de nefelibata. O dicionário deu-me esta definição em sentido extensivo e depreciativo: ‘Indivíduo que dominado por um suposto ideal, não atende aos factos da vida positiva, nem às lições da experiência”.

Francamente falando, aqui até a metereologia de Orlando da Costa é nefelibata.

A monção (não as monções) do nordeste é a que sopra sobre nós a partir de Novembro (o episódio abre-se realmente a fins de Novembro). Ela traz o terral (não os terrais). A monção do nordeste é a nossa estação fria e seca e portanto os caudais que Orlando vê com os seus olhos de saudade descerem dos Gates e percorrem os mesmos caminhos que os rios etc. não existem senão na sua imaginação. Os terrais não deixam atrás de si nenhum rasto de fertilidade se por isto o autor que falar dos nateiros que as águas correntes largam no seu percurso. Só trazem prosaicamente constipações, recrudências de situações asmáticas e, em velhos que se descuidem, a congestão cerebral. A cacimba é um fenómeno real mas ela, não vai ensopando as terras lavradias. A pior coisa que a cacimba faz é molher as copas das mangueiras e fazer, segundo a expressão vulgar, “crescer a floração”. Neste ambiente de meteorologia descompassada, é francamente ridícula a definição que no seu breve glossário Orlanda dá da vangana “vangana é a semeação que aproveita os terrais.” Donde se verifica que Orlando se acha persuadido de que terrais são realmente cursos de água. Erra também quando, no mesmo glossário, chama serôdio à cultura do arroz que se faz no período de monção do sudoeste. Serôdio é um adjectivo português que, tratando-se de frutos, significa “o que aparece no fim da estação própria”. O termo que Orlando quer é soródio, peculiaridade de Goa, derivado do concani sorodd.

Mais uma confusão de Orlando: em fins de Novembro nem homens nem búfalos sentimos “esse cheiro à terra” nem o tal cheiro é trazido pelas águas descendo dos contrafortes dos Gates; sentimos este cheiro, uns com agrado – os agricultores, outros com repugnância – os que tem propensão para espirros e constipações, as primeiras chuvas de Abril ou de Maio, quando as pancadas de água em batendo na terra seca fazem saltar a fina poeira que nos fere as pituitárias.

Tudo isto é evidentemente uma série de gaffes, produto da sua condição de pessoa dominada por um ideal que não atende aos factos da vida positiva nem às lições de experiências, contanto que possa tirar efeitos literários. Há muitas dessas espalhadas pelo livro. Diz por exemplo às pp.15: ‘Todos os anos, por duas vezes, se cultiva o arroz. Somente nas casanas, terras baixas paludosas, que marginam os rios, a cultura interrompe de oito em oito anos, e os campos são utilizados para a salgação de peixe, deixando-se inundar de água e retemperando, assim, a força produtiva.”

Tendo guardado ainda uma reminiscência das coisas de Goa. Orlando tem dos seus tempos de infância algumas ideias vagas. Sabe que de algum modo as palavras salgação e peixe estão ligadas com as casanas, mas as duas palavras não estão ligadas entre si. O que se faz é a salgação das casanas com a introdução das águas salgadas dos rics e aproveita-se a ocasião para a criação e pesca de peixe. Também quanto às várzeas retemperaram as suas forças com a tal alagação, Orlando não deve sair do âmbito da sua missão de romancista constatando tais detalhes porquanto os agrónomos estão, aqui há anos, a clamar que a alagação dos campos só concorre para a sua deterioração e os únicos que aproveitam com a situação são os pescadores de água turva. Na verdade, provocam-se tais alagações porque o peixe rende mais que o arroz. Mas isto é outro assunto que de resto devia interessar ao criador do tipo “Bab Ligor”. Se o seu herói não fosse de Bordá de Margão mas de qualquer dessas aldeias marginais do Zuari, aposto que se ocuparia, no intervalo da sua faina de desinquietar as filhas dos mundcares, na rendosa campanha de... salgação de peixe.

Agora uma pergunta: merece ou não o género literário de que me estou ocupando a classificação de nefelibata?

Para responder cabalmente a esta pergunta, há que estudá-lo sob o ponto de vista da sua ambientação sociológica e religiosa. Será ou não esta igual ou semelhante à ambientação metereológica e agronómica?

Procuremos estudá-lo.

Apolinário Soares - Tempo (1981)

O tempo é útil, o TEMPO é dinheiro
Tenha juízo, seja matreiro;
Ele passa, voa depressa;
Mãos à obra é o que interessa.

Tudo volta, tudo impera;
Passa a doença, a saúde recupera;
Mas TEMPO passando nunca regressa,
Nem pessoa morta na vida ingressa.

Este mundo é para os que sabem aproveitar;
A vida é para os que querem trabalhar;
Mais vale tarefa bem feita,
Do que a incerta, em qualidade.

O trabalho dignifica o homem,
Acaba com a miséria e a fome;
Põe de parte a ociosidade
E constrói uma nova Sociedade.

Maputo, 1981

Telo de Mascarenhas - Jawaharlal Nehru, Homem de Boa Vontade (1975)

Em meados de Setembro de 1948 haviamos chegado a Nova Delhi, de regresso a Portugal, deslumbrados e curiosos de conhecer a vida da Índia Independent. Setembro é um mês ameno, com maciezas de veludo no ar, pronúncias do Outono, que é a estação mais deleitável do ano.

A um motorista do carro estacionado no parque de Hotel, um Sickh, de barbas façanhudas de Ali Baba, dou o endereço: “Panditji Ghar” (casa do Pandit). Em Nova Delhi todo o mundo conhece a casa do Primeiro Ministro Pandit Jawaharlal Nehru. Era como o “Abre-te, Sésamo!”. Uma palavra mágica que criava boa vontade e obtinha todas as facilidades.

A residência do Primeiro Ministro Nehru, no Teen Murti, rodeada de um vasto parque e jardins em plena floração, na manhã em que lá chegaremos, estavam cheios de sol e aromas. Canteiros de rosas vermelhas, amarelas e da cor de púrpura, flores favoritas de Nehru (talvez porque o seu nome, Jawaharlal, quer dizer rosa vemelha dedicada à Deusa Kali). Ele trazia sempre a florir na botoeira do seu Sherwani um botão de rosa.

Uma vez, volvidos anos, sobre a nossa entrevista e quando vivíamos em Nova Delhi, Nehru presidiu às cerimonias do Dia de Independência, no Forte Vermelho, com uma rosa amarela na botoeira do seu Sherwani. Como estivéssemos próximo, perguntamos-lhe:

“Desespero, Excelência?”

“De modo nenhum. Felicidade,” disse Nehru, sorrindo, talvez regozijado da nossa ignorância acerca do significado das cores na Índia. Segundo a convenção ocidental, amarelo significa desespero e desolação.

Naquele tempo, logo após Independência, havia grande escassez de géneros alimentícios em toda a Índia. Nehru, então, não só aconselhou o povo a cultivar hortaliça, cereais, como ele próprio os nos largos talhões do seu parque para suplementar sua mesa com tais géneros.

Quando Nehru acabou de conversar com um grupo de pobres refugiados, vítimas da partilha da Índia, na sala de espera, eu declinei a minha identidade e apresentei-lhe as credenciais (cartas que recebera em Portugal), e ele, prontamente, conduziu-me para a sala de visitas, ampla, confortável e soalheira, deitando sobre o jardim em flor, com as paredes ornamentadas com os retratos de quase todos os líderes asiáticos.

Após a conversa convencional entre duas pessoas que se conhecem pela primeira vez, o Primeiro Ministro perguntou-nos pelas novidades de Portugal e falou-nos em tom amargurado sobre a situação e do totalitarismo de Salazar e disse: “faremos todo o possível para libertar Goa das garras do colonialismo”. E acrescentou: “Valer-nos-emos primeiramente de meios diplomáticos e como ultima ratio , doutros meios aconselháveis pelas circunstâncias.”

“Após a Libertação que futuro de Goa, Excelência?”

“Goa será um estado autónomo dentro da Índia, preservando a sua língua e cultura e, até a língua e cultura portuguesas, seus usos e costumes, para que Goa e Pondicherri sejam duas janelas na Índia abertas sobre o Ocidente. Não queremos que Goa perca a sua identidade, as suas crenças e o seu modo de vida” asseverou Nehru.

O Primeiro Ministro Nehru era uma pessoa bastante azafamada, com mil problemas a solver no limiar da Libertação. Era também pessoa cheia de vida e dinamismo. Não quisemos abusar da sua bondade e cortszia com que nos recebera apesar de andar atarefado. Autógrafos numa fotografia sua e no “The Discovery of Índia”, duas lembranças suas, põem ponto final a nossa tão desejada entrevista.

Friday, 9 March 2012

Mário da Silva Coelho - À Memória de Mahatma Gandhi (1963)

Luta primordial, a eternal luta
Entre Deus e Satan, a luz e a treva,
Continua indecisa na disputa,
Na cegueira do prélio em que se cava.

Por toda a parte e em cada alma bruta,
De início como na época coeva,
Na perene batalha feia e abrupta
Ora aflora o bem, ora o mal se eleva.

Homem, o combatente de Satan!
Mas Deus é a verdade que perdura
Na alma e lhe aponta a próxima ma hã

A sempre, pela imperial noite escura,
À consciência humana, escrava e chã,
A voz de Deus – guerra a Satan! – murmura.

RV Pandit - Dois Poemas sobre Mahatma Gandhi (1968)

“Terra Imortal”

Terra
Onde os caminhos
Ensopados em sangue
Os corações ardendo
Em tormentos…

A humanidade
Aprodrecendo
No lodo da escravidão
Em cada casa…

Ali, naquela terra
Nasceu um Mahatma…
Mar de amor e de caridade
Que, do íntimo do seu coração
Deu o néctar a vida imortal
Os ensinamentos
Da verdade, caridade
Amor e dedicação
Que fez reviver
Milhões de cadáveres
Resurgir
Da pobreza e do inferno...

BEM a alto conservando
O estandarte da Liberdade
COMO o sândalo
Exaurindo-se
O prestígio da liberdade
Do trabalho, da abnegação
Exemplificando...

Sim, sim
É dele
Esta terra imortal...

“Terra Infeliz”

O santo
Cuja vida
Foi um sacrifício
Que nutriu
O amor da terra...
Cuja luz
Iluminou
Os quatro cantos da terra...

A cegueira, a ignorância
A arrogância e a falta da fé
A teimosia e a brutalidade
Fez verter o seu sangue
Nessa terra
Ai!... 

É a mesma terra infeliz!