Friday, 26 October 2012

Laxmanrao Sardessai - Ouço os Teus Passos, Senhor

Eu ouço teus passos, Senhor,
Na brisa suave da manhã
Vejo o esplendor do teu sorriso
Na luz áurea do sol nascente,
As aves e as árvores
Acarinhadas pelo vento
Comunicam-me o teu canto misterioso
E, a chuva abundante,
Inunda-me da tua graça infinita,
A tua generosidade, sinto-a, Senhor,
Nos rebentos que saem espontâneos da terra
E o azul celeste retrata
A tua alma universal
Vejo isto...
E me curvo reverente
Perante a tua omnipotência
Mas quando vejo uma velhinha,
Carcomida e benta,
Oferecer a um pobrezinho
O arroz da sua tigela,
Lágrimas borbulham nos meus olhos
Retratando o infinito amor
De que palpita toda a criação!

Friday, 12 October 2012

Evágrio Jorge - Menezes Bragança (1966)

Recai hoje o 28o aniversário do falecimento de Menezes Bragança que foi justamente considerado o Maior de Todos os jornalistas de Goa.

Nasceu aos 15 de Janeiro de 1878 em Chandor, filho de Juveniano Menezes de Calapur das Ilhas, advogado que chegou a exercer o cargo de Juiz de Direito. A família de sua mãe, Stael de Bragança, não tendo deixado descendente masculino, fez estabelecer o genro no seu solar e impôs ao neto os apelidos tanto do pai como da mãe. As duas casas eram ricas em posses materiais como em dotes intelectuais. Porém, Luís teve a infelicidade de perder o pai aos 7 anos de idade.

Seguindo o praxe do tempo, Luís fez os seus estudos no Seminário de Rachol e depois no Liceu. Aqui, com excepção da marata, obteve distinção em todas as outras disciplinas. Entrou a seguir na Escola Médica, onde era um dos primeiros dois alunos distintos. Mas logo no primeiro ano foi acometido de febre tifóide, tendo de convalescer por um ano. Aproveitou deste ano para leitura mais vasta e universal. Ganhou gosto de ler as melhores obras literárias. Conhecendo várias línguas como latim, português, francês, e inglês, e tendo franca queda para literatura e ciência, procurou estar ao par das melhores correntes nestes dois campos. Sendo rico, podia abalançar-se a trazer os mais recentes livros e revistas da Europa, que recebia regularmente.

Com os conhecimentos assim adquiridos, o seu talento privilegiado floriu precocemente e, antes de atingir vinte anos de idade, escrevia para jornais como O Heraldo e

(Segue na segunda página)

Nacionalista e enfileirava-se entre os intelectuais do tempo.

Influenciado por Rénan e os enciclopedistas franceses, Menezes Bragança seguiu o trilho de livre pensamento. Animado pelos ideais de Igualdade, Fraternidade e Liberdade, fez-se o paladino da democracia. Em um tempo fez parte do Corpo Redactorial de O Heraldo.

Quando Portugal declarou-se República, por cuja causa se batera denodadamente, Menezes Bragança aspirou melhores dias a Goa e ofereceu o seu apoio ao primeiro governador da República Couceiro da Costa. Pensaram muitos ao tempo que Menezes Bragança fizera-se pró-governamental. Mas, quando verificou que um outro governador, Freitas Ribeiro espezinhava os direitos dos goeses Menezes Bragança serviu-se da sua pena para o atacar.

O seu jornal “O Debate” batia-se pela democracia e pelas liberdades da terra. Esse jornal além de exercer grande influência no governo, preparou uma geração de espíritos progressivos. Não há um só assunto que não tenha versado. E cada assunto que versava, fazia-o com uma superioridade única.

Afim de canalizar as aspirações populares pelos métodos constitucionais, Menezes Bragança serviu-se do Congresso Provincial de Goa. Foi eleito presidente deste organismo em tenra idade. Foi também escolhido para sócio do Instituto Vasco da Gama.

No tempo da ditadura, Menezes Bragança serviu-se do jornal Pracasha para atacar o governo bem como para criar a consciência livre no nosso povo. Racionalismo, ciência e democracia, era os ideais que o norteavam. Batia-se por eles com denodo, mas nunca se rebaixou-se aos ataques pessoais. Era admirador de Jesus, o doce rabi de Galileia, mas não aceitava a Igreja com a única e genuína depositária da doutrina. Insurgia-se conta a injustiça, fosse ele afligida num pobre ou num padre. Era de opinião que devíamos aceitar todas as coisas boas de Europa e também que devíamos prestar atenção aos novos ventos que sopravam da Índia.

Menezes Bragança pugnou valentemente pelos direitos do povo goês. Batendo-se pel República Democrática, tornou-se jus à gratidão da maioria hindu da nossa população, que até então vivia espezinhada. Quando o Governo português fugia de nos outorgar a prometida autonomia administrativa, propôs a abstenção das urnas. Finalmente quando Dr. Salazar brindou-nos com os epítetos de indígenas e assimilados e arrogou à Nação Portuguesa o direito “de possuir e colonizar domínios ultramarinos”, propôs no Conselho de Governo a seguinte moção:

“A Índia Portuguesa não renuncia ao direito que têm os povos, de atingirem a plenitude de sua individualidade, até virem a constituir-se unidades capazes de dirigir os seus destinos, visto ser um direito originário, da sua essência orgânica.”

Uma vintena de anos passados sobre esta moção, a Índia Portuguesa ganhou o direito originário de liberdade. Foi este o maior tributo à sua obra.

Lino Abreu - Os Goeses (1966)

Já se suponha escrava a alma goesa,
De luta incapaz, já sem hombridade,
Na masmorra do Ócio eterna presa,
Jamais sonhando a sua liberadade.

Deita então a cobiça na “Fraqueza”
Olhar que não conhece a saciedade:
“Tão só! E p’ra mais tão fraca a Princesa!”
Fácil é tê-la toda a eternidade!”

Mas não tarda ela a ver o claro dia
Romper nos que julgava escuros céus,
E a “fraqueza” tornar-se em valentia:

Bravos viu lendo ao mundo feitos seus
E onde pensava bravas não havia
Quantas Joanas d’Arc! Quantas, meu Deus!

Sunday, 7 October 2012

Versos de RV Pandit (1963)

“O Meu Rico Amigo”

O meu corpo
É despido
De roupas...

E
São farrapos
As poucas roupas
Que visto.

Não me despreza,
Por isso.
Pela Pobreza
Das minhas roupas.

O sol me veste
Com tecidos de oiro...
E a Lua
Com tecidos de seda
Cor de pérola...

De cobrir o corpo
Dia e noite
Com tais tecidos
Deus me deu
A grande fortuna!

Deus me deu
E só a mim,
Não se esqueça.

“Um faísca só”

A lâmpada
Está
Cheia de azeite...

O pavio
Imerso no azeite...

Está
Tudo pronto
Para receber a Luz.

Mas...

Entre o azeite
E o pavio
Falta a faísca
Que os há de incendiar
Escuridão em toda a parte

Assim
Entre o corpo social
E o pavio do seu coração
Para humanizar a sociedade
Falta só uma faísca

Sem ele...
Nunca haverá luz

Tradução do original concani por Mucunda Quelecar.

Mucunda Quelecar - Um Acontecimento no Mundo Literário de Goa (1968)


Viram a luz da publicidade, no dia 25 do corrente mês, cinco livros de poesias do poeta goês, RV Pandit.

Exprimir em palavras o que o génio dum poeta sentiu e traduziu na sua linguagem é talvez uma das tarefas mais difíceis que há; “é preciso ser-se um Milton” diz-se. Para apreciar o poeta RV Pandit não tenho senão uma qualidade: é ser goês e amar Goa como ele.

O sr. Pandit escreveu os versos não tendo em mira a publicidade, mas simplesmente para o desabafo do seu temperamento de artista, extremamente sensível ao mundo que o rodeia. Ele acalentou durou dez anos essas manifestações que traduziam a sua alma de poeta. Acontecimentos posteriores fizeram com que o poeta achasse necessário e oportuno que os seus versos saíssem à luz da publicidade!

Os cincos livros do poeta RV Pandit marcam uma época na vida da literatura e pensamento goeses. Em si, esses livros representam uma revolução na vida goesa. O sr. RV Pandit é um goês no mais íntimo das suas fibras e quando ele fala, é Goa que fala pela sua boca.

O sr. Pandit identifica-se com tudo o que Goa possui. Não há objecto, forma ou feição que lhe tenha escapado. É admirável a sua penetração em todos os detalhes da vida goesa. Tal penetração só é possível a quem ama entranhadamente a sua terra.

O sr. Pandit é goês e é revolucionário. Os seus versos atestam o facto de que ele atravessa todas as convenções literárias e sociais para atingir a verdade latente em que se vê.

No prefácio a um dos livros “Ailem toshem gailem” (I sang as it came, Eu canto como me apraz) diz o poeta laureado Baqui Borcar: o poeta Pandit, ao contrário doutro poetas não respeita a tradição. Quando eu li os versos de Pandit fiquei perdido numa floresta mas quando avancei fiquei encantado com a majestade natural dela. Essa era a voz do aborígene goês que até hoje não tivera uma oportunidade de se exprimir.

Lembrei-me de Walt Whitman, os versos de Pandit tem um estro, uma imaginação, uma revolta, uma ironia e uma tendência marcada para o sublime”.

Uma característica desse poeta é o seu anseio pela justiça social e o seu humanitarismo.

Outro livro seu aparece sob o título “Mogem Utor Gaudiachem (A Mminha fala dum Gaudó). O autor está tão identificado com a vida dum gaudó que ele exprime tudo o que essa entidade goesa representa. O gaudó é filho da terra, a sua base de sustenção.

Mas a sociedade não o considera, e todavia ele é imortal e passa por todas as vicissitudes sociais sem se alterar.

Sou um gaúdo – diz o poeta. Os outros são grande gente, mas eu sou um gaudó desprezível. Mas há uma coisa em mim. Podeis esmagar-me! Mas não fico pulverizado. Sou o mesmo homem, hoje e amanhã.”

Falando dele diz outro poeta goês Dr. Manohar Sar Dessai: “RV Pandit fala a linguagem dum gaudó. Ele é o filho aborígene de Goa. Goa tem passado por vários regimes políticos, várias mudanças económicas, mas o gaudó tem-se conservado firme. Ele é a base da nossa sociedade. Tem uma vitalidade inexaurível.”

Outros três livros são: Uitalem tem rup dhartalem (Form that will remain), Dharturechem Kavan (Song of the Earth) e Chandraval (Phases of the Moon). Todos esses cinco livros representam o génio versátil e polifacetada do artista e poeta que é o sr. RV Pandit.

Eles não só assentaram um marco miliário na literatura goesa na sua língua mas quando a língua de Goa for reconhecida no mundo, haverá para a nossa terra um prémio internacional.

Laxmanrao Sardessai - Não Desanimes (1965)


Não desanimes, rapaz,
Porque os teus maiores estão
Desanimados e retirados.
O ideal que arde
Nos teus olhos e lábios,
Vale muito mais
Do que a sabedoria e erudição
Que são como os ventos
Que passam.
Enquanto o teu ideal
É como a semente
Às vezes, invisível
Que no solo grela, germina
E lança raízes fundas.
Não desanimes, rapaz!

Friday, 28 September 2012

Floriano Barreto - Velha Goa (1968)

Rainha do Mandovi, ó empório gigantesco
Que assombraste as nações com o teu esplendor,
Um manto d’amargura envolve a tua fronte,
Já não resplandece a luz no teu vasto horizonte
Senão para mostrar-te uns despojos de dor.
Sumiu-se para sempre a tua glória passada
E a fama universal do teu nome temido.