Monday, 13 October 2014

Walfrido Antão - Dialogo: Aquele Suspiro Malandro ou o “naturismo” de António Ataide (1980)

Perguntaste-me outro dia, leitor amigo, o que significava aquela palestra do venerando ancião de Goa Barónio Monteiro que à falta de um alti-falante deixo na margem deixo na margem da classe dos “reservados” ou “primeira classe” como se faz com bilhetes da comédia popularuncha de um M. Boyer (o dinheiro, o vil metal, as contas correntes dos Clubes são muito para quem até queira conseguir companheira, não é assim leitor amigo?). Conheço o intelectual mas não ouvi.

Conheço António José Ataíde há anos. 61, creio. Vinha da Europa onde havia conhecido um Roque Machado divulgador da teoria hindu das “Descobertas” como diz Carmo Azavedo. Trazia um sonho a cura pela Natureza. Aqueles banhos ao sol, aquela carícia ao luar, aquele entusiasmo do Desporto. O sexo vinha mais logo.

Para quantos de nós vivemos na Europa não a ambição, de um diploma que pudesse arredondar as contas correntes de Bancos de juro fortíssimo mas sim a angústia do descalabro de valores, o existencialismo era a única saída. Como afirmava Vergílio Ferreira, aliás escritor de mérito, “nós não escolhemos a existência. Foi um desejo de “autrui”. Cabe a nós escolher.”

Referindo-se à hipótese de Alberto Camus de que o único problema verdadeiramente filosófico era o do suicídio, Virgílio Ferreira opinava que dada a certeza fundamental da Morte valia a pena viver a lonjura da solidão da vida. No desespero, na angustia e revolta. A Morte e o presente ou seja a vida como diz Teles. Para Amadeu engolfado no atrito da lógica racional e do materialismo “possorcar” de caixa de fósforos, o problema é diferente.

E neste ínterim surgiu António José Ataíde. Não um marido ou senhor de cheques. Apenas um divulgador do que a Natureza ensina para preservar a pela ou tecido fibroso. Esposo fiel de uma portuguesíssima senhora, António José Ataíde quer reaver o débito das gerações transmontanas de “linguiça” e de copos de três como método de higiene alimentar.

Lembro-me que um dia li na Revista “Natura” alguns artigos sobre o regresso às raízes. Não raízes de “palha” ou coisa que valha mas algo diferente. Um retorno não à propriedade privada de bens materiais mas um encontro com o destino.

Que António José Ataíde traga com a sua revolução alimentar higiene – saúde um sopro de via nova sem bacalhoeiras de malfado.

Bacalhau como o fado tem o seu destino...

Luís Furtado - A Um Herói (1980)

Na verde aldeia de Velção,
Situada à beira mar
Veio ao mundo um herói
Que brilhou aqui e em além mar

Foi uma alma multifaceta,
Um primoroso poeta,
Um veterano jornalista,
Era brilhante a sua caneta

Um grande herói patriota,
Que sempre ao perigo fez frente,
“Ao inimigo nunca voltou a cara”
Até um dia da sua vida poente

Um homem de rija fibra,
De antes quebrar que torcer,
Por essas suas convicções,
Teve muito nesta vida que sofrer.

Esses versos são dedicados a memoria do saudoso Dr Telo Mascarenhas por um dos seus admiradores e amigos no 1o aniversário do seu falecimento.

Bicaji Ganecar - A Fábrica da Literatura (1971)

Tomei um quilo
De inspiração
Meio grama
De rima
Quatro quilos
De ritmo,
Dez quilos
De beleza.
Cinco onças
De piada
E fiz uma
Poesia!
E ela saiu
Da era atómica!

Thursday, 9 October 2014

Walfrido Antão - Aquele Suspiro Malando ou o 'Naturismo' de António Ataíde (1968)

Perguntaste-me outro dia, leitor amigo, o que significava aquela palestra do venerando ancião de Goa Barónio Monteiro que à falta de um alti-falante deixo na margem deixo na margem da classe dos “reservados” ou “primeira classe” como se faz com bilhetes da comédia popularuncha de um M. Boyer (o dinheiro, o vil metal, as contas correntes dos Clubes são muito para quem até queira conseguir companheira, não é assim leitor amigo?). Conheço o intelectual mas não ouvi.

Conheço António José Ataíde há anos. 61, creio. Vinha da Europa onde havia conhecido um Roque Machado divulgador da teoria hindu das “Descobertas” como diz Carmo Azavedo. Trazia um sonho a cura pela Natureza. Aqueles banhos ao sol, aquela carícia ao luar, aquele entusiasmo do Desporto. O sexo vinha mais logo.

Para quantos de nós vivemos na Europa não a ambição, de um diploma que pudesse arredondar as contas correntes de Bancos de juro fortíssimo mas sim a angústia do descalabro de valores, o existencialismo era a única saída. Como afirmava Vergílio Ferreira, aliás escritor de mérito, “nós não escolhemos a existência. Foi um desejo de “autrui”. Cabe a nós escolher.”

Referindo-se à hipótese de Alberto Camus de que o único problema verdadeiramente filosófico era o do suicídio, Virgílio Ferreira opinava que dada a certeza fundamental da Morte valia a pena viver a lonjura da solidão da vida. No desespero, na angustia e revolta. A Morte e o presente ou seja a vida como diz Teles. Para Amadeu engolfado no atrito da lógica racional e do materialismo “possorcar” de caixa de fósforos, o problema é diferente.

E neste ínterim surgiu António José Ataíde. Não um marido ou senhor de cheques. Apenas um divulgador do que a Natureza ensina para preservar a pela ou tecido fibroso. Esposo fiel de uma portuguesíssima senhora, António José Ataíde quer reaver o débito das gerações transmontanas de “linguiça” e de copos de três como método de higiene alimentar.

Lembro-me que um dia li na Revista “Natura” alguns artigos sobre o regresso às raízes. Não raízes de “palha” ou coisa que valha mas algo diferente. Um retorno não à propriedade privada de bens materiais mas um encontro com o destino.

Que António José Ataíde traga com a sua revolução alimentar higiene – saúde um sopro de via nova sem bacalhoeiras de malfado.

Bacalhau como o fado tem o seu destino...

Saturday, 21 June 2014

Laxmanrao Sardessai - O Brâmane (1965)

- Quem és, ó passante,
Que vais cabisbaixo e triste
Qual farrapo humano!
És algum fidalgo?
- Não! Não!
- Quem és, ó passante,
Que tens as faces cavadas
E a expressão desolada?
És algum exilado?
- Não! Não!
- Quem és, ó passante
Que andas trémulo
Sem força nas pernas?
És vitima de alguma enfermidade?
- Não! Não!
- Quem és, ó passante
Que pareces um ente miserável
Sem luz nos olhos?
Teria algum importuno ceifado
A vida dalgum ente querido?
- Não! Não!
- Quem és, ó passante
Que pareces um avarento
A quem em um instante
Tivessem os criminosos
Roubado o espólio acumulado?
- Não! Não!
- Quem és tu, ó passante
- Que pareces um ente desprezado
- Qual sofredor politico.
A mendigar depois de, por longo tempo,
Oferecer à sua pátria
O suor e o sangue?
Não! Não!
- Então quem és tu, ó passante?
Serás um espectro?
- Sou brâmane.
- Então que brâmane és?
Sou daqueles brâmanes
Que na dominação estrangeira
Procuraram força e poder
Para o engrandecimento pessoal.
Vejo agora tudo mudado!
Nem direitos nem poder!
- Direitos e poder,
Assentes na injustiça e tirania?
Estamos na democracia, Brâmane.
Ela precisa de teus serviços!
Olha para ti o ignorante e o doente,
Cada aldeia é terra virgem,
Ela te acena.
Tens inteligência, força e dinheiro
Vai e trabalha solitário
Nas aldeias onde medra a ignorância,
Direito e poder virão depois!
Serve teus irmãos
Sê pequeno e humilde,
Trabalha na escuridão,
Durante meses e anos
E um dia serás forte e grande!
- Quem és tu, ó desconhecido
Que me guiaste nesta escuridão?
-Sou hoje Gaudó,
Outrora Brâmane!
Vem amigo, vem trabalhar,
Que a cabeça do Brâmane
E o braço do Gaudó
Têm de se juntar
Para esta terra se levantar!

Laxmanrao Sardessai - Inferno (1965)

Os teus olhos são um inferno,
Não te zangues – dizem os outros,
Mas, se o são,
Eu vejo nesse inferno
Só o Paraíso…
Porquê? Perguntar-me-ás,
Pois te digo. Vejo nele –
No inferno dos seus olhos –
A vastidão dos Céus
A profundeza dos mares
E a majestade dos Himalaias.
Que mais queres?
E, para mais, vejo neles
Retratando o meu ingénuo ser!

N. B. Sar Dessai - Bhisma (1966)

Tu tens de casar comigo – disse o célebre Rei Xantanú à Deusa Gargá, quando esta se lhe apresentou em forma humana, intoxicando-lhe os sentidos com a sua ternura super-humana.

O Rei oferece-lhe em troco do seu amor, o reino, a riqueza e tudo o resto, ainda mesmo a sua vida.

Gargá respondeu-lhe:

Ó Rei, eu posso tomar-te por consorte, mas mediante as seguintes condições: nem tu, nem ninguém me preguntará quem eu sou, nem donde venho; também não me impedirás de fazer o que entender fazer, quer seja o bem, quer seja o mal; nem zangar-te-ás comigo seja por que for; nada de desagradável e recriminatório tu dirás. No momento em que tu violares qualquer destas condições, eu abandonar-te-ei. Concordas?

O Rei concordou impaciente e a deusa tornou-se sua mulher e passou a viver com ele.

O coração do rei estava captivo da modéstia, da graça e do resoluto amor que ela lhe nutria.

Xantanú e Gangá viviam uma vida de perfeita concórdia, sem mesmo se lembrarem da passagem do tempo. Ela deu à luz muitas crianças; de cada vez que lhe nascesse um bebé ela levava-o ao Ganges e deitava-o ao rio, depois do que voltava para o Rei com a cara sorridente.

Xantanú horrorizava-se com esta conduta diabólica mas sofria-a em silêncio, lembrado da promessa feita. Muitas vezes ficava ele a pensar quem seria ela donde vinha e porque agia como uma bruxa sanguinária. E, não obstante, não proferiu sequer uma palavra de recriminação. Desta feita, chegou ela a matar sete crianças. Quando nasceu a oitava, e esteve ela prestes a deitá-lo ao Ganges, Xantanú, não mais podendo suportar, gritou:

“Espera, espera, porque estás tu resolvida a dar esta horrível e desnatural morte às tuas próprias crianças?” – com este grito de alarme, o Rei impediu-a de executar o seu desígnio.

Ó grande Rei, disse ela, tu estás esquecido da promessa feita, o teu coração está agora mais votado às crianças do que a mim, tu já não precisas de mim, e por isso eu vou-me embora. Eu já não mato esta criança, mas ouve (4a pagina) a minha história antes que me julgues:

Eu que me vejo obrigada a desempenhar este odioso papel por virtude das imprecações proferidas por Vassista, sou a Deusa Ganga, adorada dos deuses e dos homens. Vassieta praguejou os oito Vassús desejando-lhes um nascimento no mundo dos homens, e, comovido pelas súplicas deles, determinou que seria eu a mãe deles no mundo dos homens. É de ti que eles nasceram, e ficou-te bem que assim tivesse sucedido, pois tu irás às regiões mais elevadas, em recompensa dos serviços que prestaste aos oito Vassús. Eu cuidarei desta tua última criança por algum tempo, depois do que devolver-ta-ei como meu presente.

Dito isto, a Deusa desapareceu com a criança. Foi esta a criança que mais tarde se notabilizou como Bhisma.