Showing posts with label Padre Pedro Lobo. Show all posts
Showing posts with label Padre Pedro Lobo. Show all posts

Tuesday, 26 February 2013

Padre Pedro Lobo - O Sovina (1982)

Dizem que os escoceses são sovinas por natureza; mas há destes sob todos os céus porquanto a índole é a mesma onde quer que seja. Ser sovina é feitio com que cada um nasce, ou que cada qual adquire por força de hábito, que se torna segunda natureza. Como tudo o mais, sovinice tem graus. Conheci um. Bom homem religioso e escrupuloso, mas dessa religiosidade e escrupulosidade” que não vão para alem da epiderme, e se limitam a certas áreas da vida, ou como Cristo disse com muita piada, religiosidade que é capaz de coar um mosquito e engolir um camelo.

Trabalhou desde jovem com afinco e honestidade, entrou nas boas graças dos seus superiores e subiu aos poucos os degraus da burocracia. Gastou o mínimo, economizou o máximo e pôs o dinheiro a render o melhor possível.

Casou porque precisava de uma mulher que lhe fizesse todo o serviço domestico e lhe poupasse cozinheiro, lavadeiro, jardineiro, alfaiate e outro pessoal i.e. o correspondente dinheiro em salário e comida. Depois de alguns anos nasceu-lhe uma filha. “Primeira filha, maravilha”, diz-se, mas para ele foi esse um dia de luto, só de pensar que no futuro muito distante ela o privaria em dote duma parte considerável do vil metal que adorava e que tão somiticamente tinha amealhado. Apertou a cinta e pôs-se a economizar mais ainda, para enfrentar a negra eventualidade, que a má sorte lhe deparara, e que lhe era desde já um permanente pesadelo. Depois de ter matutado profundamente, resolveu conservá-la solteira, convencendo-se, como bom cristão, de que o estado de virgem era mais perfeito do que o conjugal. Quando viu que a mulher não o presenteava com mais prole, concluiu que a melhor maneira de guardar o dinheiro em casa era ter um genro comensal. Instrução primária, que graças ao Governo era gratuita, era mais que bastante para a filha que ia ser esposa e mãe. A mulher lhe ensinaria a cozinhar e a fazer outros trabalhos caseiros, de modo que a filha seguisse o mesmo teor de vida que ele tão fanaticamente impusera à mãe. Ele estaria lá para regular o orçamento e vigiar as despesas. O genro seria membro da família, mas não dono da casa. Pronto!

Vivia uma vida triangular – casa, igreja e repartição; não visitava ninguém para não ser visitado também, poupando despesas desnecessárias com comes e bebes. Pelo mesmo critério, não ia aos clubes e não assinara jornais, vestia-se pobremente, comia parcamente, vivia miseravelmente e economizava religiosamente, sacrificando o presente ao futuro.

A mulher, cada vez mais fraca e esvaída com as magras refeições e fatigantes ocupações, adoeceu seriamente. O avarento não quis consultar médicos, visto que eles e suas receitas, custam os olhos da cara, e tratou-a por herbolarios e curandeiros, e só quando ela piorou e o seu estado se tornou muito grave, levou-a a um hospital provinciano e fê-la admitir gratuitamente, como pobre. Quando ela morreu, o fona resignou-se ao destino, como bom cristão, convencido de que tinha feito por ela tudo quanto podia ter feito, e atirou as culpas nos médicos, que não souberam diagnosticar, ou não lhe deram remédios necessários para a curar. Consolou-se com o piedoso pensamento de que Deus sabe muito bem que uma mulher doente se ia um encargo custoso e uma boca improdutiva para alimentar, alem de ser uma cruz pesada para si própria. Para mais, a filha era já crescida e casadoira, capaz de arcar com as responsabilidades doméstica, para que fora bem treinada pela mãe.

Herdeira universal de uma grande fortuna, a menina, que ia perdendo aos poucos o viço da mocidade, devido à pobre alimentação e ao excessivo trabalho que agora se via obrigada a fazer sozinha, tinha naturalmente muitos pretendentes, mas o pai não aprovava nenhum deles, por melhores que fossem. Ele quer um genro tão forreta como ele, se fosse possível. Quando algum jovem entrevistado lhe assegurasse que trataria a sua futura esposa com todos os cómodos – boa mesa, bom guarda-roupa, enfim boa vida, - o unhas de fome, que já o desqualificara na sua mente, dizia-lhe: “Fico de pensar e escrever”. E não escrevia. Assim vieram e foram muitos.

Depois, apareceram outros, que, matreiramente mudaram de táctica. O velho oferecia-lhe tabaco e eles diziam que não fumavam; oferecia-lhes bebidas, e eles fingiam ser abstémios; convidava-os para almoçar com o fim de os observar, e comiam muito pouco; finalmente, ele, já algum tanto bem disposto, pedia-lhes para passar a noite, para poderem discutir futuros planos. Mas quando notasse, e sempre notava, qualquer pormenor que não lhe agradava, dizia: “fico de pensar e escrever”, e ali terminava o assunto. Desapontados, eles comunicavam uns aos outros, os detalhes da entrevista e discutiam a provável causa do mau êxito. Finalmente, um finório, munido de todas as informações colhidas daqueles que o tinham procedido na difícil empresa, apresentou-se modestamente vestido, em casa do avarento.

Começou o ritual esperado. O sovina ofereceu-lhe tabaco e este não só recusou, mas mostrou-se tão surpreendido que uma pessoa de tanta experiência e idade despendesse dinheiro tão precioso em coisa tão inútil. E acrescentou: “Embora novo, conheço bem o furo que o tabaco faz na algibeira da gente, reduzindo a fumo e cinzas as economias reunidas com tanto sacrifício e suor. De maneira que eu, para falar francamente, em tempo, fumava cigarros e charutos da marca “Que Me Dão,” mas comprá-los, isso não! Da mesma forma, ia a casa de amigos a hora em que é costumeiro oferecer bebida e bebia quanto me apetecia, mas comprá-las e, pior ainda, oferecê-las, isso eu nunca fazia, pois era crime contra a economia.”

Quando o velho ofereceu-lhe vinho, este sentenciou que esse líquido traiçoeiro já tinha liquidado enormes fortunas, e que ele se obrigara por um voto a Sta. Cunegundes a nunca pegar num cigarro ou num copo de vinho ou aguardente. Quando o velho quis oferecer-lhe ao menos uma chávena de chá, o maroto desculpou-se dizendo que chá, leite, açúcar e lenha que uma chávena implicava, é despesa perfeitamente dispensável nesta carestia: e para mais, o açúcar, que está tão caro, é causa de diabetes, que por seu turno consome drogas que custam um dinheirão. Ao almoço comeu tão pouco, que o velho censurou-o pela sua demasiada parcimónia. Ao que este respondeu: “Come-se para viver, i.e., o indispensável para conservar corpo e alma unidos. Só os glutões vivem para comer, e isso é um vício tão mau como fumar ou beber, pois além de custar dinheiro, encurta a vida. Para mais, a nossa Santa Religião nos ensina que a gula é um dos sete pecados capitais. Sei que é indelicado fazer reparos à mesa. Mas para que está o senhor a gastar tanto dinheiro em cebola, coco e azeite? Cozer hortaliça e fritar peixe em água é mais económico e não aumenta o colesterol, pois não? Economia, acima de tudo, eis o meu princípio.”

O fona enamorou-se deste jovem que filosofava a cada passo, prova de que pensava profundo e tinha fortes convicções. Era até teólogo: mas, contudo, convidou-o a passar a noite para se conhecerem melhor. Era o que este esperava. A ceia debicou como um passarinho, notando que as refeições da noite devem ser sempre leves, visto que o estômago trabalha menos quando deitado na cama. O velho não sabia como admirar tanta sabedoria em cabeça tão nova. Estava quase decidido a aceitá-lo como genro.

Depois da ceia, foram sentar-se no balcão, para deixar a menina livre para lavar os pratos e fazer as camas. O burlão sugeriu que fosse apagada a pequena candeia que o velho lá pusera, pois era desperdício de petróleo; ele mesmo foi e apagou a luz, não obstante os protestos fingidos do avarento, que tinha gostado da ideia. Ficaram os dois em completa escuridão. Depois de alguns minutos de cavaqueira, o jovem saltou do seu assento como que alguma coisa o tivesse picado. Assustado, o velho quis saber o que fora, e o maroto explicou que era seu hábito, quando estivesse sozinho ou na escuridão, abaixar as calças e sentar-se mas que desta vez se esquecera de o fazer. Intrigado com a revelação, o sovina indagou a causa desta esquisitice e o velhaco disse: “As calças gastam-se nos joelhos e nos fundilhos: no primeiro caso podem ser convertidas em calças curtas, mas no segundo caso ficam inutilizadas. Este hábito que tenho cultivado tem-me poupado muitas calças.

O sovina ficou tão impressionado, pois tal ideia nunca lhe passara pela mente, que resolveu casar a filha com esta jóia de rapaz que a Providência lhe mandara. Certo do consentimento da filha, disse ao figurão que o aceitava de boa vontade como seu futuro genro comensal, e que no dia seguinte os dois iriam ao vigário, ao registo civil e ao tabelião fazer as diligências necessárias, sem mais perda de tempo. Foi dar a filha a boa notícia e foram os três, cada um ao seu quarto, dormir, mas nenhum deles pregou olho, de felizes que estavam, o patife mais que todos.

Fez-se o casamento com a maior economia e o sogro passou ao genro e à filha toda a sua riqueza, convencido de que ela estava mais segura nas mãos de um homem mais económico e meticuloso que ele próprio. A convicção durou pouco. O genro virou a casaca e mostrou-se as suas verdadeiras coras. Fumava como uma chaminé, bebia como um peixe, comia como um cevado e obsequiava amigos como um nababo. Às recriminações do sogro respondia com uma sonora gargalhada. Uma bela manhã encontraram o velho morto na cama, com todas as regras. Suicídio ? Ataque cardíaco? Ninguém sabia. O vigário, o sacristão, dois coveiros, o genro e a filha foram os únicos que o entregaram à terra-mãe. Tal vida, tal morte. E a riqueza? Essa o genro perdulário comia-o mais sofregamente do que os vermes comiam o sogro usuário...

Monday, 18 February 2013

Padre Pedro Lobo - O Casamento (1982)

Havia um casamento na minha aldeia. O noivo, um limpa-pratos vindo do Golfo Pérsico, ia ter uma festa de espavento para celebra a vitória final do seu coração sobre os seus pais e mais parentela, que se opunham a que ele se casasse com a moça a quem namorava há alguns anos. É a eterna questão de castas e classes e desequilíbrios sociais, que surge sempre contra o casamento, mas nunca contra o namoro, mancebia e outras actividades compartilhadas.

Como sucede com todos quantos sofrem do complexo de inferioridade, o novo rico, que tinha a bazófia de dizer que trazia consigo mais notas bancárias do que as folhas do tamarindeiro secular do Dr. , em cujo prédio morava, viha apostado a celebrar bodas de arromba para deslumbrar os velhos ricos e fazer cócegas à freguesia inteira com uma sumptuosidade nunca dantes vista por estas redondezas.

Talvez por eu ter simpatizado com o noivo e efectuado um armistício na família, fui convidado a fazer o brinde, mas em português, ou pelo menos em inglês – ambas as línguas perfeito chinês para os nubentes e suas relações. É a bem conhecida mania do goês, nobre ou plebeu, rico ou pobre, instruído ou analfabeto, que pensa que o seu nível social sobe alguns degraus quando fala língua que não é sua. Aceitei o convite, mas sob condição que o brinde seria na nossa língua materna, pois antevia o auditório que me esperava, e não me dispunha a fazer o ridículo papel de falar em idioma desconhecido da grande maioria, só para satisfazer a vaidade do populacho, que quer empertigar-se, guindando em andas ou pernas de pau.

A ‘entrada’ era a uma hora depois do meio-dia. Fui lá uns minutos antes da hora marcada e encontrei a sala alugada já atulhada de um formigueiro de crianças de todas as ideias e tamanhos, e de gente em trajes tão variegados e disparatados, que seria mais exacto chamá-los carnavalescos. Para amostra: estava lá uma rapariga muito gorda, vestida de calças muito apertadas de amarelo muito berrante, e uma camisola preta de malha, demais pequena para um busto tão enorme, com uma caveira no peito e outra nas costas com este dístico em letras garrafais brancas: “Meet me at the graveyard!”

Ia chegando ainda mais gente, não em pares, como se fazia dantes, mas em bandos, capazes de encher a cógulo mais uma sala. É que basta haver uma função nas nossas aldeias, e nesse dia não se acende lume de fogão, e os pais com toda a sua filharada aterrisam lá como um enxame de gafanhotos com um só intento: beber e comer à tripa forra.

Por falta de assento, fui ocupar o sofá reservado para os noivos, pois hoje ninguém tem a delicadeza de oferecer o seu lugar a uma pessoa de idade ou respeitabilidade, graças a educação moderna ou, melhor, à falta de educação elementar não obstante a pletora de escolas e colégios, onde não se suplementa o que falta à educação caseira, nem se remedia as suas flagrantes lacunas.

(continua)

A ornamentação era de tal profusão, que não havia lá lugar para mais um festão ou para mais um balão. Nas paredes penduravam cartazes com caricaturas de homem e mulher em pelo e os seguintes letreiros: Amor é felicidade. Amor é intimidade. Amor é união. Amor é sexo. Amor é??? e coisas assim, sugestivas insinuantes, de mau gosto, terminando com mais esta obscenidade: Love is a 4-letter Word! para conspurcar a santidade do matrimónio, dando-lhe uma torcedura retintamente carnal..

Uma orquestra chamada “Relâmpagos e Trovões” pôs-se a afinar os intrumentos; duas guitarras eléctricas tocavam uns arpejos, um drummer fazia umas acrobacias com as suas baquetas “para se esquentar”, e um saxofone e um clarinete executavam uns gorjeidos. Isso durou por algum tempo, até que afinal um mulherão que desejava ouvir uma musicata, disse com um ruidoso bocejo: O que estão eles a tocar? Mas a esposa do Sr. Dr. X, com ares de pessoa muito entendida na arte de Mozart, explicou-lhe em surdina: “Oiça com atenção, é música clássica!”

O relógio marcava já duas horas e meia e os noivos não apareciam. A causa desta desaforada demora era que eles tinham ido a Panjim para se fotografar, pois todos os fotógrafos de Mapuçá, conforme eles eram uma turma de palermas que não prestavam para nada. No entanto, chegava mais gente, que conhecia melhor que eu a suposta pontualidade goesa; mas o que me intrigava mais era que aqueles que, como eu, tinham chegado a hora marcada, não se ralavam com a demora, que para eles era a coisa mais natural do mundo, e até contribuía para maior solenidade da ocasião. Para o inglês o tempo é dinheiro. Para o goês, que timbra em macaqueá-lo, o tempo não vale um chavo. O relógio é uma jóia para adornar o pulso, não para ser consultado, menos ainda obedecido. É inútil perder o tempo a filosofar. Cada povo é o que é, e o que desavergonhadamente teima em ser. Dizem em tamul: “Na terra onde se cultiva nudez, vestir langotim é estupidez.”

Finalmente os noivos chegaram uns minutos depois das três, radiantes de glória nos seus ricos trajes de noivado com a sua vistosa comitiva, e foram recebidos por entre um foguetório ensurdecedor, salvas de palmas e a fanfarra de instrumentos desavindos uns com os outros. Dirigidos por um mestre de sala trazido da freguesia vizinha e que só falava a língua de Milton, os noivos passearam pela sala a passo de caranguejo e receberem uma chuva de confetti trazidos do Golfo.

Depois do corte do bolo de noivado no meio de clarões que partiram de uma meia dúzia de máquinas fotográficas profissionais e amadoras, foi anunciado que eu ia fazer o brinde. Esfomeado e sedento, armado com um copo de vinho, dei uns passos para a frente e comecei, com visível surpresa dos ouvintes, o meu brinde... em concani. Até a esposa do Dr. X resmungou, para eu ouvir: “Pouca de vergonha!” Mas eu felicitei os noivos e suas famílias, desejei-lhes todas as ventras, falei do amoroso sacrifício que a vida conjugal demandava, a sua santidade e indissolubilidade, e tudo quanto a minha teologia conservadora me inspirou, e terminei, diplomaticamente, com as sacrossantas e mágicas palavras: “God bless the bridal couple. Vivam os noivos!” Foram precisamente estas duas frases em inglês e português que me valeram uma vigorosa salva de palmas e me absolveram da ignomínia de ter falado numa língua tão desprezível como a nossa língua-mãe. O sr. noivo fez em inglês (pois não!) o seu primeiro e possivelmente o seu último discurso, bem decorado e ensaiado: “Thank you. Enjoy yourself” – a mais breve e eloquente peça de oratória que ouvi, e que foi sublinhado por uma efusiva salva de palmas e uma ruidosa improvisao da orquestra, e lhe mereceu um enleiado olhar de admiração e apreciação da sua cara metade.

A felicitação dos noivos foi um pandemónio. Quebraram-se muitos copos de vinho, enodoaram-se muitos vestidos, pisaram-se muitos calos, acotovelaram-se propositadamente muitos bustos tentadores, desarranjaram-se muitas toilettes, e de tanto beijocar, de que foram vítimas, encheram-se de carimbos de lábios carminados as caras sorridentes dos felizes noivos. Uma demonstração de amor e amizade verdadeiramente democrática e popular como o nosso governo.

Enquanto se servia o queque, o meste de sala foi ao microfone e ribombou: “Queiram ouvir. Vou-lhes contar, especialmente aos noivos uma interessante anedota: Marido e mulher foram a uma coudelaria alugar um cavalo padreador para algumas éguas que tinham. Quando Inês foi apresentado um soberbo espécime, a mulher quis saber a sua capacidade prócriativa. Foi-lhe dito: “Umas dezes vezes ao dia.” Voltando-se ao seu homem, ela disse com visível desdém: “Ouviste meu desavergonhado?”. Quando o marido por sua vez perguntou: “Ele toma a mesma égua”, foi-lhe dito: “Certamente que não”. E ele, voltando-se para a mulher: “Ouviste, minha ciumenta?”. A reacção foi variada. 90 por cento não percebeu. Alguns deram uma gargalhada. Uns poucos, como eu, ficaram nauseados com uma grosseria desse calibre, saída da boca de um jovem cristão, por ocasião de um casamento cristão, numa festa em que cada convidado era cristão, e onde se encontrava um ministro de Religião, que acabara de falar da santidade conjugal de um casal cristão! Temos lá o barómetro a indicar quanto, pela nossa cumplicidade e tolerância, temos ajudado a bancarrota geral em bom senso e bom gosto, em boa educação e boas maneiras, em boa religiosidade e boa moral.

Começaram a dançar. Eu com poucos cavalheiros e senhoras éramos os únicos espectadores daquele redemoinho que voluteava pela sala numa nevrose colectiva. O que quer que a orquestra tocasse, não fazia nenhuma diferença aos supostos dançarinos. Eles saltitavam como macacos ou energúmenos, fazendo macabros trejeitos, meneado vente e ancas, entrechocando, as nádegas, e parecendo estar em delírio hipnótico. Alguns davam a impressão de estar em convulsões epilépticas e outros faziam uma coisa parecida com a dança de S. Vito. Como diz Júlio Dantas: “A dança tinha sido noutras épocas um simples passatempo, um pormenor de festas galantes, de distinção e de boas maneiras”. Hoje nada de elegância, ritmo, arte ou decência. Hoje não é preciso saber dançar; basta ter a coragem e a pouca vergonha de fazer o melhor ou o pior que a tal criatividade lhes inspira. É o resultado daquilo que se vê no ecrã. É o único modelo.

O entusiasmo dos jovens pegou-se aos mais idosos, e no meio da confusão geral viu-se homens gordos e pançudos agarrados a mulheres bojudas e obesas a andar aos trambolhões, pisando os pés uns aos outros, tropeçando, esbarrando e pensando que estavam a dançar. Lembrei-me daquilo que tinha lido, há anos, numa revista inglesa: num luncheon a que Churchill assistia alguém viu o corpulento Ministro de Trabalho a dançar e chamou a atenção do Primeiro Ministro de Sua Magestade Britânica. Churchill, com o seu inseparável charuto na boca, voltou-se e viu o seu colega a dançar mal com uma senhora muito volumosa e, no meio de uma gargalhada, comentou: isso não é uma dança. Isso é um dos movimentos laboristas!