Sunday, 14 December 2014

Leopoldo Garcez Menezes - Jardim de Allah (1952)

No lindo jardim de Allah
De mil noites e de fadas,
Dançam moiras encantadas
Sob um luar e opala.

Os seus olhos são punhais
Através do lindo véu,
E os seus corpos sensuais
São das huris lá do céu.

Vem comigo, meu amor,
Que m’estás a enfeitiçar,
A acalma-me esta dor
Com a luz do teu olhar.

Paraiso oriental
Que encanta e enebria,
Jardim de luz e magia
Como não há outro igual.

Deixou-me extasiado
Nem sei minh’alma que sente,
Quero viver ao teu lado
No jardim eternamente.

No teu regaço, ó flor,
Peço-te p’ra m’embalar,
Que este meu sonho de amor
Só contigo há-de findar.

Eduardo Monteiro - O Velho Mar (1961)

... O Mar vinha cansado e bramia...
Enrolada num calmo entardecer,
A praia ouvia-lhe os gemidos amodorrados
Num suave estremecer de colorações de anil...
Escutava, serena, os ralhos de um pai já velho,
Que a roda dos tempos tornara rabujento,
Num gesto condescendente de filha submissa.
Eram os soluços de sempre!

... A lassidão de um monstro que, enganado correu mundo.
Soçobrou embarcações e náufragos,
Enraivecido flagelou rochedos
E arrancou do seio escaldante dos desertos
Maldições terríveis e segredos;
A confissão sincera de um penitente
Que, manso, vai pedir durante a noite
O perdão álgido de remotas areias e paragens;

A alegria infantil, a ingenuidade
De um colosso poderoso
Que brincava com as árvores da beira-mar
E as arrancava
Julgando inocente o seu brincar;

Em suma, o grito de revolta de um ser ludibriado
Que, depois de correr todo o mundo, cai em si,
E encontra corpo seu onde tinha começado...

... É noite alta. A praia escuta. Os búzios repetem,
Fiéis trombetas à ordem do Mar. Só as palmeiras vizinhas,
De cabeleira desgrenhada, parecem discordar,
As suas palmas dançando na aragem
Assobiam mansinho, numa pateada surda,

Os feitos do Velho Mar!

Walfrido Antão - De Mobor a Agonda (Canácona) ou Desenvolvimento, Para Quem? (1982)

“O problema hoje não é de ECOLOGIA ou de extração da AREIA das praias de MOBOR, mas o de Desenvolvimento, para quem? E à custa de quem? 200 famílias, milhares de pescadores e lavradores de palmeiras não vão gozar de um hotel de cinco estrelas com piscinas e aeródromos...

Mas não sei, às vezes é tão difícil escolher numa situação existencial: seria melhor a excavação na Praia para levar a AREIA ou um hotel?”

Era uma noite magoada de 76 ou 77. Vieram contar-me a mãe proletária de Francisco Rodrigues, o grande idealista pioneiro dos movimentos ecológicos em Goa, havia sido presa em Margão porque mãe e filho lutavam contra a excavação da areia em Mobor. Ao longo dos anos, desde Cavelossim a Utordá, fizeram greves de fome, comícios, até arrancamos promessas ao Congresso em 77 e 80 que lutariam para acabar com a Extracção da Areia. Na década dos 0, como as lembranças acorrem ao calor do reencontro com a terra alienada em Sancoale, o Arquitecto Urbano Lobo e Mathany Saldanha levantavam o problema da mortandade de peixe em Velsão devido aos efluentes do Reservatório Bhiase e o exczema das crianças. Outra década, outro ânimo de luta, porém, o mesmo idealismo frente aos salafrários Relações públicas, como diria Jorge Amado.

As notícias vêm filtradas em rumores. De Agonda em Canacona falam os peixes e as praias, um Hotel de cinco estrelas, quem sabe um casino, um aeródromo, loucas recepcionistas-secretárias para todo o serviço, como exige um projecto de tão grande valor. Mas esse desenvolvimento da região extrema do Sul de Goa, a quem vai favorecer? Certamente, os pescadores e os lavradores de palmeira não poderão frequentar ambiente de tanto luxo, nem necessitam tal luxo na carestia em que vivem, aliás todos os goeses. Mas dirão os tais salafrários: a terra tem de ser desenvolvida e entre as opções de uma Hidroelectrica, uma estação nuclear, minas de areia e um Hotel, o Hotel salvará a ecologia da região e será um benefício a longo prazo. Um outro argumento aduzido é o de que a lavra de palmeira não é uma industria e os filhos dos lavradores com a democratização do ensino acham muito mais proveitoso ir ao Golfo como mecânicos contabilistas, etc do que subir a descer a palmeira duas vezes ao dia e usar um alambique antigo com a lenha tão cara.

Profissões tradicionais, herdadas dos pais a filhos quase sempre na mesma família às de Ramponkares e lavradores de palmeira à sura, a dúvida que se impõe nesta época febril de desenvolvimento é a da continuação destas profissões frente a mecanização dos barcos de pesca, portos piscatórios, armazéns-frigoríficos nas praias e fábricas de aguardentes regionais como o Feni e o Caju. São dúvidas dolorosas e angustiantes para quem pensa o decorrer do processo de desenvolvimento com súbitas notificações na Gazeta Oficial expropriando terrenos e teimosamente recusa-se a aceitar que daqui a cinco ou dez anos os goeses serão como os East Indians (os tais norteiros) de Bombaim. Neste contexto de conta-corrente do desenvolvimento vale a pena lembrar o sistema de Prioridades e lamentar na ausência de um Plano sistemático organizado por uma equipe de especialistas e de um Governo capaz (na voz do líder da oposição, Adv. Ramakant Khalap, temos um Governo que abdicou dos seus poderes perante o Administrador deste Território), toda a espécie de salafrários tipo Relações Públicas pode levar avante quaisquer projectos desde que esteja pronto a pagar comissões e tenha contactos... no topo da pirâmide dos poder.

Nestas condições, urge aos homens de liderança e quantos são ouvidos e amados pelas massas, desde Morgim até Agonda (ambas aldeias de pescadores) decidir se para além do negativismo da agitação pura e simples e dentro dos parâmetros do amor à Terra – defesa das profissões tradicionais e do habitat – tradição e progresso para salvar a ecologia – mudança e desenvolvimento, há possibilidades de aceitar o menor mal como é o caso de um hotel versus uma fábrica de, por exemplo, ácido sulfúrico, desde que esse mal menor trate de reabilitar quantos vão perder o lar, o tecto e o habitat. No caso de Mobor, como me explicou o ex MLA e distinto advogado Ferdino Rebelo, o que se objecta é a extensão da área expropriada – 15 laques de metros quadrados e não o projecto que tem as suas vantagens. E naturalmente há que defender o aspecto humano das famílias de Mobor – 135 famílias que vão ficar sem texto e outros tantos lavradores de palmeiras. Em Agonda também, o homem tem de ser defendido.

A terra e o homem e que se não repita o crime de Sancoale, onde o camarão desapareceu para todo o sempre e o Arsénico e o Ácido sulfúrico são os ingredientes da fauna marítima... Que haja flexibilidade e tolerância e em nome do Desenvolvimento, salafrários das relações públicas não acabem com as nossas profissões tradicionais e o direito ao habitat. Que Goa continue.

Thursday, 11 December 2014

Laxmanrao Sardessai - O Socialista (1965)

Proclamas incessante o teu socialism –
Que para ti não é mais que uma arma
Para angariar votos dos parvos e lorpas
Cuja ignorância o astuto brâmane
Explorou durante séculos
Em seu proveito.
Mas tu és mais astuto que o brâmane.
O brâmane ignorava então o socialismo
Que tu sabes utilizar ardilosamente
E misturando-o com a democracia
Logra produzir uma alquimia
Que o brâmane astuto poude imaginar nunca
Ele explorava sim, mas dezenas.
Tu exploras milhares de operários,
Que suam ou tiritam para acumularem
Montes de minério de que tu, sentado
No palácio recebes laques em ouro!
Eles pobres vivem ainda em cabanas
E merecem tratos de galés!
Só os teus lábios proferem o socialismo.
Mas os teus actos proclamam
Que tu és mais opulento e insaciável
Do que os antigos monarcas
Que em si viam
O povo, a nação e o mundo!

Thursday, 20 November 2014

Laxmanrao Sardessai - Gaudó (1965)

Tu és o filho do areal,
Filho dilecto da terra
Filho genuíno das eras pristinas,
Que a viram desbravada
Por teus antepassados
Que, pela vez primeira,
Cortaram as florestas
Aplainaram os acidentes
E a colonizaram para ta legar,
Glorioso legado que, como filho dedicado,
Sabes preservar dando-lhe
O amor que só tu podes guardar
Na tua alma simples e abençoada.
E abnegado és porque o teu coração
Não conhece a recompensa monetária,
Para ti o arecal é o amor
Florido e frutificado
E ele, por sua vez, oferece-te
Todo o tesouro enterrado.
As arequeiras, quais virgens delicadas,
Abrem sobre a tua cabeça
Inúmeros guarda-sóis para te resguardar
Contra os rigores do sol.
E as árvores de chanfas,
Brancas ou amarelas,
Perfumam o ambiente da tua herdade
E as correntes da água,
Serpenteando por toda a parte,
Beijam com veneração os teus pés.
Tu cavas e regas
E nunca no teu espírito
Dás guarida aos cálculos materiais,
És frugal nos teus hábitos,
Como os rishis, teus avoengos,
O teu corpo quase nu,
Simboliza o esplendor da natureza
Que, à maneira duma mãe,
É para ti generosa,
Ó irmão! Quem me dera
A ventura de, em tua companhia,
Ir cavar!

Sunday, 2 November 2014

Ventura Pereira - Mulher! (1960)

(Da conferência do autor sobre sobre ‘Terra Bendita’ de Pearl Buck)

Não é no infrene rodopio de danças
E no ruído e frenesi de folganças;
Não é ao ritmo cadenciado de tangos vaporosos
Nem nos teatros à ribalta de camarotes luxuosos,

Que tu és bela, ó Mulher deste século de enganos
Não é nos salões doirados que tu brilhas e irradias,
Nem com figurinos exóticos e cosméticos ufanos,
Que a tua beleza e elegância evidencias;

Mas és bela quando o perfume e fulgores da Virtude
Espalhas alegria qual anjo do lar em plena magnitude.

És grande quando amparas do pai e da mãe a velhice
E quando acodes na pobreza os infelizes;
És sublime quando velas à cabeceira de enfermos as crises
E sempre que o teu coração ao pronto alheio se abrisse.

Então, sim, és realmente bela, grande e sublime,
Cantando a Canção do Trabalho e a alegria do Lar,
Atenuando o infortúnio e aliviando o penar
Suavizando o sofrimento e a dor que oprime;

E cuidando o teu espírito e minimizando de outros os ais,
Avocas em abundância as bênçãos divinas,
E elevando as almas a DEUS, te sublimas
E te elevas a ti as alturas celestiais.

Laxmanrao Sardessai - Suspiros (1966)

A brisa da noite
Traz-me suspiros,
Longos e profundos,
De entes desconhecidos
Dispersos pelas aldeias
Em cabanas tristes.
Carpindo misério,
Ao lado dos pais velhos
Que saudaram largamente
O dia da Independência
E sorriram largamente,
Esqueceram as horas pungentes
Que passaram no terror,
Semeado pelas armas portuguesas.
Suspiros longos e profundos
De entes abandonados,
De meios de vida destituídos
Que, durante longos anos,
Vegetaram nas prisões
Ou erraram pelos ermos e florestas
Comunicando aos seus irmãos
A mensagem da liberdade
Abandonaram os lares
Aos acasos da sorte
Correndo perigos tremendos
Lavando vida de misérias.
Raiou, enfim, a nova era
Mas suspiros profundos
Ainda saem de corações doridos!
Suspiros que anelam
O bem dos pais velhos
E dos irmãos e filhos,
Votados à miséria
Pela indiferença dos cegos
Que florescam na glória do poder.