Thursday, 20 November 2014

Laxmanrao Sardessai - Gaudó (1965)

Tu és o filho do areal,
Filho dilecto da terra
Filho genuíno das eras pristinas,
Que a viram desbravada
Por teus antepassados
Que, pela vez primeira,
Cortaram as florestas
Aplainaram os acidentes
E a colonizaram para ta legar,
Glorioso legado que, como filho dedicado,
Sabes preservar dando-lhe
O amor que só tu podes guardar
Na tua alma simples e abençoada.
E abnegado és porque o teu coração
Não conhece a recompensa monetária,
Para ti o arecal é o amor
Florido e frutificado
E ele, por sua vez, oferece-te
Todo o tesouro enterrado.
As arequeiras, quais virgens delicadas,
Abrem sobre a tua cabeça
Inúmeros guarda-sóis para te resguardar
Contra os rigores do sol.
E as árvores de chanfas,
Brancas ou amarelas,
Perfumam o ambiente da tua herdade
E as correntes da água,
Serpenteando por toda a parte,
Beijam com veneração os teus pés.
Tu cavas e regas
E nunca no teu espírito
Dás guarida aos cálculos materiais,
És frugal nos teus hábitos,
Como os rishis, teus avoengos,
O teu corpo quase nu,
Simboliza o esplendor da natureza
Que, à maneira duma mãe,
É para ti generosa,
Ó irmão! Quem me dera
A ventura de, em tua companhia,
Ir cavar!

Sunday, 2 November 2014

Ventura Pereira - Mulher! (1960)

(Da conferência do autor sobre sobre ‘Terra Bendita’ de Pearl Buck)

Não é no infrene rodopio de danças
E no ruído e frenesi de folganças;
Não é ao ritmo cadenciado de tangos vaporosos
Nem nos teatros à ribalta de camarotes luxuosos,

Que tu és bela, ó Mulher deste século de enganos
Não é nos salões doirados que tu brilhas e irradias,
Nem com figurinos exóticos e cosméticos ufanos,
Que a tua beleza e elegância evidencias;

Mas és bela quando o perfume e fulgores da Virtude
Espalhas alegria qual anjo do lar em plena magnitude.

És grande quando amparas do pai e da mãe a velhice
E quando acodes na pobreza os infelizes;
És sublime quando velas à cabeceira de enfermos as crises
E sempre que o teu coração ao pronto alheio se abrisse.

Então, sim, és realmente bela, grande e sublime,
Cantando a Canção do Trabalho e a alegria do Lar,
Atenuando o infortúnio e aliviando o penar
Suavizando o sofrimento e a dor que oprime;

E cuidando o teu espírito e minimizando de outros os ais,
Avocas em abundância as bênçãos divinas,
E elevando as almas a DEUS, te sublimas
E te elevas a ti as alturas celestiais.

Laxmanrao Sardessai - Suspiros (1966)

A brisa da noite
Traz-me suspiros,
Longos e profundos,
De entes desconhecidos
Dispersos pelas aldeias
Em cabanas tristes.
Carpindo misério,
Ao lado dos pais velhos
Que saudaram largamente
O dia da Independência
E sorriram largamente,
Esqueceram as horas pungentes
Que passaram no terror,
Semeado pelas armas portuguesas.
Suspiros longos e profundos
De entes abandonados,
De meios de vida destituídos
Que, durante longos anos,
Vegetaram nas prisões
Ou erraram pelos ermos e florestas
Comunicando aos seus irmãos
A mensagem da liberdade
Abandonaram os lares
Aos acasos da sorte
Correndo perigos tremendos
Lavando vida de misérias.
Raiou, enfim, a nova era
Mas suspiros profundos
Ainda saem de corações doridos!
Suspiros que anelam
O bem dos pais velhos
E dos irmãos e filhos,
Votados à miséria
Pela indiferença dos cegos
Que florescam na glória do poder.



Leopoldo da Rocha - Caminhos de Luz por Alberto de Menezes Rodrigues (1963)

O autor, nosso distinto conterrâneo, publicou em 1958, em aprazível edição pela Tipografia Rangel, o livro acima intitulado, que mereceu louváveis referências do douto crítico Agostinho Veloso. Três novelas perfazem o livro e têm elas por título: “Almas plenas de sol”, “Vinde a mim” e “Audácia Vitoriosa”.

Numa época como a nossa, de sensibilidade muito esquisita, afeita a padrões de Hemingway, à análise introvertida de um Proust, à poesia em estado bruto que o realismo social como um Jorge Amado e, entre nós, Orlando da Costa tão bem exploraram, o género convencional de ‘bonitas’ histórias, simples, ingénuas, edificantes, muito bem construídas, são de molde a desagradar a certa casta de leitor.

Outros, como nós, amariam experiências ocasionais que este último tipo de leitura proporciona. Ao lermos livros como “Caminhos de Luz”, muita vez nos sentimos melhor, como que respirando um ar puro, da inocência dos campos, após uma alucinada digressão pela moderna cidade.

Friday, 17 October 2014

Laxmanrao Sardessai - Prazer (1966)

O meu prazer é puro e infinito
Porque é absoluto.
Para fruir o prazer
A mãe precisa do filho,
O avarento do dinheiro,
O folgazão do vinho
Mas eu desfruto o prazer
Do prazer de todos eles
Quando vejo os brincos das crianças
O deslizar duma vela,
Pelo mar ou rio
O murmúrio duma fonte,
O vôo duma ave,
Pelo azul celeste
Ou duma nuvem ligeira,
A queda da água
Das alturas dum monte,
Os balouços da arequeira
Aos caprichos do vento
O romper da alva
Num incêndio de cores,
Quando vejo tudo isto
Um prazer puro e absoluto
Inunda o meu ser.



Monday, 13 October 2014

Hipólito de Menezes Rodrigues - Histabílis (Poemeto) (1968)

Rosa que estás na roseira,
Sorrindo à minha desgraça
Lembra-te que neste mundo
“Tudo muda, tudo passa”

Passa a desgraça mais crua,
Morre a ventura mais linda,
Surge o que menos se espera,
O que mais se estima finda.

Escuta: eu também fui belo
Fresco como os laranjais,
Robusto como os coqueiros,
Alegre como os pardais.

Também no meu pobre peito,
Vi uma roseira florir,
E sob o sol de amarguras,
Seca e triste se sumir.

***

E vê, minha ingénua rosa,
Tu que me estás a sorrir,
Como neste eterno enigma
Ninguém sabe o que há de vir

Vê, como passa a ventura...
Vê, como surge a desgraça...
Neste mundo, minha flor
“Tudo muda, tudo passa”

Clara de Menezes - Anseio (1976)

Amar-vos, como é doce, meu Jesus,
Mormente, nesta Quadra do Natal!
A manjedoura dura do curral
Viste irradiar fulgente luz.

Teu olhar de Menino me reduz,
Apoquenta-te o frio, ó Príncipe Real?
Mas por mim, bicho vil, sofres o mal
Ensina-me a aguentar a minha cruz.

Aumenta mais e mais a provação
Guiando-me pela tua divina mao,
Descobre-me os segredos da crua dor.

Imolar-me na ara p’lo inimigo,
Acabando assim meus dias contigo

É o meu anseio de louca pelo Amor