Wednesday, 4 March 2015

Laxmanrao Sardessai - Avante, Goeses, Avante! (1966)

Avante, goeses, avante!
Que está próxima a batalha
Que decidirá a vossa sorte.
Estão do vosso lado
A Verdade e a Justíça,
A Honra e a Dignidade
E, doutro lado,
A ambição do mando,
A cupidez nojenta,
Indignidades sem conta,
A mentira e a doblez,
A traição e a maquinação.
É a luta entre dois princípios
O princípio do bem
E o princípio do mal.
Depende de vós a vitória
Dessa batalha imposta
Ao vosso povo pacato
Em nome da Democracia
Que entre nós está moribunda.
Na sua nudez a pergunta é esta:
Que quereis?
Viver na vossa terra
Ou lançar-vos ao mar?
A que miséria a Democracia
Vos lançou, santo Deus!?
Viver ou morrer?
Morrer é, de certo, diluir-se
Um povo na mole heterogénia doutro.
Vós, através da longa história,
Prezastes a honra e a dignidade.
Proclama ao mundo
Que sois um povo distinto.
A vossa língua e os vossos costumes
O vosso temperamento
E a vossa cultura,
A vossa humanidade
E o vosso intelecto
Não são para serem
Apagados ou suprimidos
Da face da terra.
Não! Não!
Cave-vos, goeses,
Repelir a afronta
Esquecer por amor
Dos vossos avoengos,
Vossas rixas e ódios,
E as vaidades que vos minam,
Provar que os goeses têm um único partido,
Partido duma Goa una e livre,
Arrojai aos ventos
As diferenças que vos dividem,
Que mesquinhas ambições alimentais
Quando o povo é arrastado para o abismo!
Em que miseráveis partidos
Vos entretendes
Quando o inimigo procura
Calcar-vos, reduzir-vos à poeira,
Que criminosa negligência a vossa,
Quando as fileiras do inimgo
Se cerram
Para os fins da peleja.
Amigos! Sacudi, sem demora,
A letargia e a modorra!
Abraçai os ignorantes e os pobres
Preparai-os com sacrifícios
Para a luta.
Levei a cada casa
A mensagem da guerra –
Guerra contra ambições do mando - !
Sacrificai tudo!
Para salvar a terra,
Terra de vossos pais
E de vossos filhos.
Terra que está
Em iminente perigo
Por culpa dos vossos.
Avante, goeses, avante
E a vitória será vossa!

Tuesday, 17 February 2015

Walfrido Antão - A Telefonia e a Língua Portuguesa: Uma Contribuição Válida ou de um Programa da ‘Peoples High School’ (1982)

“O Indiano é individualista e por isso o sistema democrático dá-se bem na Índia”- Indira Gandhi falando recentemente em Londres

“Vamos abrir uma janela sobre a cultura ocidental” – Mahatma Gandhi

“É bom, é saudável, cada um orgulhar-se da sua língua mãe, mas odiar uma outra língua é fanatismo de pior espécie

“Minha pátria é a língua portuguesa!” – do poeta António Barahona, referenciado num artigo por Dr. Carmo Azevedo.

Martinho Noronha, sacerdote e intelectual que conhece como raros em Goa ao lado de Carmo Azevedo, Mário Cabral e Sá, o segredo, o mistério da Palavra Portuguesa, teve um dia esta resposta realista quando lhe foram pedir para fazer uma conferência sobre o “Futuro da Língua Portuguesa em Goa”: “Olha, primeiro não sou um astrólogo para predizer o futuro e depois, de momento, o que me interessa é fortalecer a minha língua - o konkani”. Não sei até que ponto o cultivo da língua portuguesa pode afectar o desenvolvimento da literatura konkani, mas estou convencido da verdade das palavras do Mahatma – “É preciso abrir uma janela sobre a cultura ocidental...”

Entre as instituições de ensino secundário na língua inglesa que tomaram o risco e a coragem de introduzir o português como língua secundária encontra-se a prestigiosa e coroada de louros “People’s High School” do Prof. Surlakar em Fontainhas. A professora encarregada de ensinar o português em casa nem por assim dizer tem contacto algum com a cultura portuguesa é uma jovem senhora da cidade, Celina Velho e Almeida, que começou a sua vida académica no velho Liceu tendo passado o 7o ano de letras grupo C e mais tarde feito o BA e Master of Education na Universidade de Bombaim.

Como me notou o Pe. Filinto Cristo Dias a quem referi estes casos de devoção à língua portuguesa – é um verdadeiro apóstolo. Sem alarde, na rotina do dia a dia por entre bancos escolares e a palmatória ausente, a palavra portuguesa volta a ecoar a mensagem de um Humanismo que chegou à Índia em 1498...

Nestas condições foi um acto de Reconhecimento e justiça a apresentação no programa Renascença de um acto de variedades dos alunas da escola People’s High School sob a direcção da sua Profa. Celina Velho e Almeida.

A abrir o Programa, Ninfa Fernandes declamou uma bem substanciosa poesia que talvez não ficasse muito a calhar num programa de meninos, mas senões desses não desfeiam a beleza do esforço humano. Sulana Costa revela-se como um voz para a canção popular portuguesa e a sua participação é digna de nota. Mas Sadhna Mahtme impôs-se-me como a expressão da adaptabilidade do gênio hindu a uma cultura estrangeira, a louçania fresca da inocência usando da palavra portuguesa como um meio de comunicação com os rádio-ouvintes, a voz da Índa falando de uma outra Pátria onde há meninas também que sonham e amam a Índia na caminhada para a Pátria Universal de um ‘horizonte sem fronteiras’ como queria o nosso poeta Orlando Costa.

Nesta época de aproximação de culturas, Indiana e Portuguesa, e quando a Gulbenkian pretende patrocinar a ida a Portugal de 3 jovens goeses, levamos ao conhecimento do Público e em especial, da sociedade da Língua Portuguesa, cujo Coordenador Local, Dr. Carmo Azevedo, com certeza deve estar a processar as sugestões sob o critério na escolha dos representantes indianos.

Felicitamos sinceramente a Profa. Celina Velho e Almeida que não obstante as preocupações do ensino da língua portuguesa toma cuidado em amorosamente transmitir toda a Poética ou Palavra Portuguesa, talvez contribuindo para o ideal da Pátria Universal.

Remígio Botelho - De Profundis (1968)

E o Dia veio
Levar-lhe ao seio
Da terra amada,
E lá foi ela –
A doce estrela
Da madrugada.

Lá foi ela –
A alma bela
De sonhador
Ungida
E possuída
De luz e cor.

Alma tão plena
De poesia
A alegria
Da morena
Que apanha
Lírios brancos
Pelos flancos
Da montanha;
A mansidão
Da lua cheia
Que vagueia
Na amplidão
E o fervor
Dos rishis
Ardendo de amor
Em lâmpadas rubis.

Ardendo ainda
De saudade
Da ilha linda
Onde passara
A mocidade –
A seara

Que ondeia
Pela aldeia
Casas de Deus
Que se elevam
Até os céus;
E os oiteiro
Onde rezam
Os cajueiros.

Lá foi ela
Para o além...
Mas dela
Inda nos vem
Um ardor
Abrasador
E risonho –
A flama
Que o proclama
Veleiro do sonho
E do luar,
No altar
Da História



E da Gl

Wednesday, 4 February 2015

Laxmanrao Sardessai - Zalach Pahije (1965)

Se Deus é do mundo o pai,
Desta terra o é Nath Pai
Porque nos ensinou a pronunciar
“Zalach Pahije”!

Deus antes da criação,
Pronunciou ‘Fiat lux’
Mas, após a eleição,
Vassantrao Naik
“Zalach Pahije”!

Deus guia o universo inteiro
Para a salvação
E Esvantrao Chavan
Esta mimosa terra
Para a perdição
Com o seu mantra
“Zalach Pahije”!

Sou um ignorante
Mas, em vez de instrução,
Sempre me impingem
“Zalach Pahije”!

Sou um indigente
E persegue-me a fome
Mas dão-me, volta e meia,
“Zalach Pahije”!

Sou um enfermo
E sofro da malária,
Mas ministram-me
Dia e noite doses
“Zalach Pahije”!

Sou um manducar
E para ser batcar
- Dizem – devo rezar
“Zalach Pahije”!

Sou um eleitor
E prometeram-me
O paraíso inteiro
Contanto que diga
Sem cessar
“Zalach Pahije”!

Sou um mestre-escola
Mas forçado – sina minha! –
A ensinar
A crianças inocentes
“Zalach Pahije”!

Na nossa aldeia
Quem não tem ocupação
E nos negócios alheios
Mete o seu bedelhom
É conhecido como
“Zalach Pahije”!

Aparece nos templos
E nas escolas,
Nos bares e nos bazares,
A odiosa coruja
De “Zalach Pahije”!

A maneira de fantasma
Que persegue a sua vítima,
Persegue em toda a parte
O goês inocente –
O fantasma –
De “Zalach Pahije”!

Tem entrada
Em todos os círculos
Quem possui
O santo e a senha
De “Zalach Pahije”!

Suga o sangue
Do pacato cidadão
A sangue-suga nojenta
De “Zalach Pahije”!

Do coração soturno
Do falido MG
Sai o rouco mugido
De “Zalach Pahije”!

O álcool de alto grau
Faz ao embriagado
Vomitar bílis
Contra quem quer,
Assim tem sido
O “Zalach Pahije”!

Desvirtua e deshonra,
Abandalha e corrompe
O slogan assolador
De “Zalach Pahije”!

Conflitos na família
Conflitos na sociedade,
Conflitos com os amigos,
Conflitos com os vizinhos,
A raiz de todos eles
Está no “Zalach Pahije”!

A mentira e a hipocrisia,
O crime e a aleivosia
São fruto vergonhoso
De “Zalach Pahije”!

O fantasma hediondo
Que profana a dignidade
Vilipendia o amor,
Cospe no passado
E adultera o futuro
É “Zalach Pahije”!

O fantasma hediondo
Que profana a dignidade,
Vilipendia o amor,
Cospe no passado
E adultera o futuro
É “Zalach Pahije”!

Se, ó goês, queres
Viver em paz e harmonia,
Repele quanto antes
A ignominia fatal
De “Zalach Pahije”!

Levanta-te e trabalha
E não está longe o dia
Em que volte
Para a terra da sua origem
A peste maldita
De “Zalach Pahije”!

Laxmanrao Sardessai - A Minha Velhice (1966)

- Estás velho, amigo –
Duvido. Mas tenho sessenta, sim –
- Não basta para ser velho?
- Não! Tenho a fescura da relva
E o vigor da palmeira
Tenho o fulgor do sol
E a ligeireza do vento
Tenho a esperança da alvorada
E o ideal do sonho
Tenho a clareza da fonte
E a firmeza do monte
Tenho a ternura do santo
E o fogo do raio
- Mas donde lhe vêm esses raros dons?
- Da tua bondade, amigo.
E da tua vasta simpatia
Que, como tu, milhares me dispensam.

Tuesday, 3 February 2015

Alberto de Menezes Rodrigues - Falam os Terrenos Incultos (1972)

Séculos e milénios decorreram
Desde que começamos a existir
E ninguém se importou de nós
Nenhum homem nos veio arrotear
Para aproveitar
A nossa força criadora
Nós somos em grande número situados
Em várias partes desta linda Goa
E não poucos de nós fomos beneficiados
Com um solo muito rico,
Que pode produzir searas luxuriantes!
Nós ansiamos por vos levar, ó goeses,
A meta da prosperidade.

Cresce erva, crescem plantas inúteis,
Extraindo do nosso seio
Os alimentos que necessitam
Todos nos abandonaram!
Todos nos abandonaram!

Quando, anualmente, o ribombar do trovão
Anuncia a chegada do Inverno
Para a fecundação
Da terra,
A nossa ansiedade atinge o auge.
Depois, sentimos as carícias,
O frescor,
Das águas que se despenham do céu,
Cantando,
- Magnífica dádiva do Senhor
Ao povo goês! –
Mas nunca lobrigamos ninguém,
Nenhum ser humano.

Que venha operar
Segundo o divino plano,
Desbravando-nos,
Lavrando-nos,
Semeando-nos,
Para que tenhamos a ventura
De nos desentranhamos
Em messes e verdura.

Agora que uma nova era raiou
Para este pedaço do Concão,
Nós recorremos a vós,
Senhores governantes
Pedimos vos digneis volver
Os vossos olhos para nós
E satisfazer
O nosso anhelo.
Desejamos a nossa inclusão
Na reforma agrária que foi anunciada,
A fim de sermos cultivados.
E, se o conseguimos,
Nós vos ajudaremos, com prazer,
A resolver,
O grande problema,
Concernante a Goa,
Em que estamos a cogitar:
A auto-suficiência alimentar.

Telo de Mascarenhas - Ganesh Chaturthi (1971)

Raiou o dia
Alegre e festivo
Com foguetes a estralejar
Em todos os lares
Na manhã de sol esquivo,
Para festejar
Ganesh Chaturthi,
O Divino Ganapoti,
Guloso de bons manjares,
Deus protector e soberano
Das searas já espigadas
Nesta quadra do ano.

Ganesh é festejado
Neste dia
Propiciador,
E invocado
Como Deus inspirador
Da Arte e Poesia.

Com cabeça de elefante
E ventre abaulado
De guloso e tunante,
Percorre a terra montado
No rato,
Temível ‘assura’,
Implacável roedor
De todo o género
De cultura.

A imagem da Divindade
É conduzida em procissão
Em vistosos andores
Pelas ruas da aldeia
E da cidade,
Ao som de címbalos e tambores,

Para o mergulho ritual
Nas águas do rio ou do mar,
Onde ficam a vogar
Grinaldas votivas
De flores.

Na noite delirante
Fogos de Bengala
Incendeam o ar;

O cheiro do agarvati
Deleita e regala.

Finda a festividade
Fulgurante
De luzes e ouropéis,
Ficam a ressoar
Os cânticos dos fiéis:
“a Ganesh namaskar!
Vinde para o ano, Ganapoti,
Para abençoar a próxima Novidade”