Friday, 13 January 2012

Mário Cabral e Sá - Nas Margens do Mandovi Review (1978)

Ao agradecer a gentileza da oferta dum exemplar do livro com o título supra pelo prof. Eduardo de Sousa, não nos furtamos a seu rápido exame objectivo e sem ambages, único coadunante com o nosso feitio.

O autor que em dois dedos de conversas trai sua destacada ascendência familial e notório talento com insofrida iniciativa, continua afirmando-se atráves desta obra, um indiscutível valor intelectual servido de instrução variada e cultura polivalente a certo ponto autodidacta.

Apreciável poder descritivo, frase breve, vocabulário sóbrio ajustado às situações visando ao realce e mais das vezes também à graça elegante, com inegáveis êxitos aqui acolá tão diferentes doutras passagens.

A matéria na sua essência nada desconhecida no nosso meio: certos preconceitos dominantes da nossa mentalidade que ninguém tinha até hoje curado de combater expondo à luz do sol, embora com nula esperança de extirpar.

Do temperamento agitado, buliçoso, enigmático, onde a perversidade ambiente cavou fundo na alma por molde que poderia ocasionar dissimulação na conduta externa com endurecimento do coração – o ilustre autor, neste como nos anteriores escritos, de feição congénere à base, bem manifesta o cunho pessoal, reflexo do algo diferencial, típico do seu insinuante comportar e personalidade: a traduzir-se na forma em estilo e na substância em originalidade de observar, sentir, pensar e interpretar.

O título Nas Margens do Mandovi vai bem, mas a limitação no sub-título Retalhos do Meu Passado, afigura-se que alem de contrariar aqeuel, nega à nossa sociedade o apanágio genérico das incidências incisivamente retratas no contexto em fugidos quadros simbólicos, as quais não são apenas comuns à sociedade goesa hodierna (sem falar noutras) e sim a várias gerações, conforme a tradição oral e escrita, sem indagarmos a quantas remonte.

Tomando em linha de conta o subtítulo, nada havendo a dizer de esforço inventivo, nota-se que a imaginação trabalhou na exposição do assunto.

Perlustra-se com agrado, de corrida, uma leitura mas não faltam aí pontos em que meditar.

Pode a obra no aspecto de critica social, mutatis mutandis, andar parelhas com Jacob e Dulce de Gip para escarmento dos que ainda perfilham as mazelas increpadas, e informação dos curiosos de cá e fora.

Mais: acaso tais vícios cessem de subsistir, os vindouros de então percorrerão as páginas deste livro com estranheza de coisas incríveis, interrogando-se: é possível que assim fosse?

Mesmo de per si a publicação é gesto louvável na atmosfera de desencorajamento para esta ordem de manifestação, por ruinosa de ponto de financeiro.

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