Monday, 23 December 2013

Walfrido Antão - Cartas de Goa para o Brasil: Meu Irmão Brasileiro (1968)


Eu não te conhecia ainda. É certo que havia lido alguma coisa sobre o outro lado do Atlântico, do Corcovado onde se não me engano o Cardeal Gonçalves Cerejeira aliás douto homem de letras inaugurou há anos um monumento a Cristo. Gertúlio Vargas e a sua revolução era tema de conversa entre estudantes do Liceu dos anos 1950 ávidos de folhear o “Cruzeiro” e a última página de Raquel de Queiroz. Porém foi mais tarde que a realidade brasileira se anunciou ou revelou duma forma trágica, grandiosa e humana. A Selva de Ferreira de Castro com toda a sua pujança deu-nos a imagem naturalíssima dos Seringueiros, das plantações de borracha, de homens e animais em cio igualados pelo mais raso condicionalismo factual da Natureza e das condições da vida. José Lins do Rego do romance São Bernardo de Pureza levou-nos até o Nordeste onde os mesmos problemas universais como os do trabalho, pio, sangue, sexo e lágrimas recebem uma nova dimensão, um novo estilo literário. O grande Jorge Amado da Gabriela, Cravo e Canela, do Jubiabá herói negro de noivas negras e mulatas amando livremente no areal e junto às docas onde marinheiros louros compravam em moeda estrangeira corpos virgens de noivas virgens, veio mais tarde. Manuel Bandeira, o maior poeta do Brasil moderno trouxe-nos aqueles versos que nunca mais esquecem: “Amanhã que é dia de finados/Vai ao cemitério/Leva três rosas bem bonitas/Ajoelha e reza uma oração/Não pelo pai/Mas pelo filho/Que o filho tem precisão/O que resta de mim na vida é a amargura do que sofri.”
Eu sei, meu irmão brasileiro, que o Atlântico é imenso e pesado como um sonho (segue na 4a página) poético de duas pátrias. A mesma natureza tropical, até as mesmas variedades de frutas como a manga ou o caju. Foi no Brasil que ficou a descansar na mão direita de Deus como diz o Santo Antero uma das maiores inteligências de Goa, sua voz mais eloquente, seu perfil mais romântico, sua ânsia de cientista e microbiologista de renome internacional Froilano de Melo. Froilano de Melo, que após a morte de Gandhi afirmou na Assembleia Nacional que “era um herói que havia elevado o culto da revolução até a culminância da santidade”, jaz esquecido hoje nesta terra que segundo o dizer do poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage será “ingrata madrasta de poetas”. Os medíocres há-os bastantes. Ah! É verdade, já me ia esquecendo desse prosador intimo, lírico, confessional de A Volta do Gato Preto: Érico Veríssimo, Veríssimo que nos entusiasmou quando da sua visita a Lisboa em busca de raízes do seu próprio passado, explicou-nos no Teatro D. Maria o problema dos modernos da literatura brasileira: “Nós não queremos imitar o modelo europeu da ficção. Porém, isso não quer dizer que as correntes modernas do surrealismo e do antiromance não tenham adeptos.”
Muita e variada é a vida, dizia D. Francisco Manuel de Melo. A vida é feita de mudanças. Mais do que nunca é necessário hoje o diálogo. Quem sabe, camarada existencial, se a tua pátria não seria um elo de um viver universal sem limitações da geografia e de dados políticos? Por enquanto, meu irmão brasileiro, apertemos as mãos sobre o Atlântico como um símbolo desesperado de compreensão e solidariedade humanas.

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