Monday, 23 December 2013

Walfrido Antão - Diálogo: A Morte e a Vida ou um Bilhete a uma Maria Enfermeira (1967)

Vai tarde este bilhetinho. Devia ir pelo Natal. Mas antes tarde do que nunca. O problema importante é o do sentimento, de verdade, de gratidão. E assim ele lá vai com votos por que 1968 lhe traga alguma justiça nos direitos que lhe assistem na sua nobre e humanitaríssima missão, menos pesadelos e coragem para lutar. E rosas. Muitas rosas para tornar a vida alegre.

Vive hora alta de glória a Escola Médica de Goa onde meu saudoso pai ganharia ciência e luz para lutar em Cabo Verde e no Brasil contra a malária e outras epidemias e nesta hora de saudosas evocações ninguém melhor do que a Enfermeira sabe o segredo dessa escola – médicos que com vencimentos modestos não regatearam sacrifícios para salvar vidas, a ciência e competência desses heróis anónimos da Dor que não papagueiam fórmulas importadas do anglo-saxão em naus coloniais, a intuição, enfim o que em certa gíria se chama “faro clínico”. Todo o mundo de ciência desde Clínica até Cirurgia.

E tu, boa e carinhosa Enfermeira, lá ficasta a veste alva, as mãos desinfectadas, um certo carinho no olhar, o compromisso da Dor, uma picadela sem vontade e mais que uma palavra, muitas palavras de consolação. Por vezes soro, outras vezes comprimido, às vezes uma noite de vigília à cabeceira de quem vive a catalepsia (segue na 2a pagina) de uma difteria ou o coma de um trombose, enfim trabalhos de uma parturiente.

A vida corria lá fora, sorria-te quem sabe um convite de uma amiga. Porque ficavas? Qual a razão da tua permanência junto à cama No.43 ou No.27? Não podias como é moda agora misturar dois caolinos? Não podias arranjar uma saída com um soporífero? Não. Era outra tua formação, outra a Escola onde havias formado, outros valores, outra ética profissional.

Haviam-te ensinado mestres como Froilano de Melo e outras que ser Enfermeira é ser Irmã de Dor. E por isso lá ficavas lutando contra a Morte tão absurda enquanto a Vida florai lá fora sem pecado e sem peias.

Tinhas uma missão e cumpriste-a com zelo de uma missionária, devoção de uma crente e a graça de Mulher.

Missão, qual missão agora? E as promoções que tardam, as escalas denegadas, os horários para certas privilegiadas, diz alguém na mesa ao lado (ai, a minha mesa do café como eu gosto dela – tão agreste tão irregular como um sonho desbastado ao luar). O vizinho ao lado fala como num monologo e as palavras sabem a verdade.

A história que vou contar é antiga. Éramos estudantes e quase com um pé na Europa. Amadeu escrevia uma crónica para o Natal com a pena criando à cabeceira do seu filho doente no Hospital. E se não me falha a memoria, ele falava também de ti, Enfermeira ou Irmã da Dor.

Passaram anos, o mundo alterou as coordenadas geográficas e éticas e a Escola Médica de Goa que tantos heróis da Dor criou vai completar 125 anos. Heróis não do “Digest”, das súmulas da Anatomia ou da pílula da Psicologia (o que saberão eles de um Freud, de um Jung, de um Charcot, de um Negrão Pardo nosso amigo do Brasil de quem tive a honra de fazer uma crónica?) mas do Homem Integral situado na doença ou na terapêutica.

Vai esta já longa. Que continuas a tua missão seja qual for a posição do catavento, são votos do Ano Novo de Antão.

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