Monday, 25 March 2013

Alberto Cotta - Epistolas 1 (1983)

Sentada ao pé duma janela escancarada à brisa do poente, estava Bena, uma guapa rapariga das suas 18 primaveras o muito. Entretinha-se a bordar um pano de cetim branco esticado na teara colocada sobre os joelhos e encostada ao espaldar duma cadeira à sua frente.

Pertencia a um colégio onde estudava a arte de bordar e talhar, dirigido por uma professora já de idade razoável a quem a experiência adquirida pelo tempo e aliada a uma sólida instrução fazia digna de superintender o estabelecimento que dirigia.

Órfã de pais desde tenra idade, Bena não tivera outro amparo além do irmão e cunhada. Zuleima, sua irmã mais nova que ela também internada do mesmo colégio, era sua fiel companheira. Uma não podia passar sem outra – tão amigas eram.

Bena era a cabeça, Zulema o braço, aquela a pastora esta a ovelha embora de génio arrebatado mas que fácil lhe era voltar ao aprisco, quando desgarrada sob o sisudo bordão da sua pastora. A própria Zulema reconhecia, quando serena, amansada já, o lado benéfico daquele jugo, como ela o qualificava, embora revoltasse no auge de furor. E a tempestade passava desfeita em bonança de arrenpendimento. Deste modo Bena era a Zulema irmã e mãe.

O sol declinava já quase no ocaso, voltavam gralhas ao abrigo e o operariado da lida cotidiana ao remanso do lar.

Súbito Bena deixando o trabalho ergueu-se pressuroso. Tão depressa correu infantilmente pelo jardim fronteiro por entre canteiros de roseiras, jasmina e dálias que crotons multicores ensombravam hospitaleiros.

“Aí vem o mano, ai vem ele!” disse louca de prazer.

E lá está ela ao pé do irmão, individuo alto espadaúdo, bigodes fartos vestido a militar. Chamava-se Francisco da Costa e era oficial do exército em serviço na povoação de X vindo a Pangim por motivo do Estado, motivo que lhe dera ensejo para visitar as irmãs.

“E Zulema?” disse o recém-chegado mas Zulema que o vira vinha já correndo para eles sorridente e ligeiro.

“Pelos modos”, aventurou Bena, cingindo com os braços a cintura proeminente do irmão, pelos modos nem pensa em levar-nos para essa terra de X... e cá estamos há mais de três longos meses sem ver a cunhada e os sobrinhos.

No Maio, minhas prendas no próximo Maio. E que teremos então festa na minha terra de X.

Maio, Junho, Julho, e Setembro!

Outubro, Novembro e Dezembro, rematou Zulema.

A presença da directora interrompeu-lhe a avalancha de meses.

Depôs a conversa decorreu amena para os três irmãos, posto que a directora se retirou após os cumprimentos de estilo. Falaram sobre mil assuntos, choveram mil perguntas as quais o irmão respondeu como podia.

Mas estávamos a falar do Maio, Junho... arriscou Bena voltando-se à carga.

Nada, no Mio próximo, no Maio! Replicou-lhe o tenente que sem esperar por mais correu escada abaixo com risco de se resvalar.

Bena do peitoril da janela repetia alto – No Maio, mano!

E ele virando-se para ela, tornando a girar nos calcanhares, gritou a rir: “No Maio, no Maio!”

Bena imóvel ainda seguio-o com a vista até vê-lo desaparecer atrás da casaria da cidade. Então a expansiva alegria momentânea transformou-se-lhes em amarga nostalgia, principalmente para Bena que não se movera do lugar.

A presença de pombas nos beirais das casa próximas distraiu-a da fixidez do pensamento quedando-se a segui-las no seu caprichoso esvoaçar de telhando em telhado, de muro a muro para de novo pousarem no ponto de partida. Achou divertido aquilo que lhe valeu uma distracção.

Mas como tudo no mundo tende a finalidade e as brancas pombinhas esvoaçaram além eclipsado-se e Bena retirando-se da janela correu ao jardim onde as companheiras de mãos dadas cantavam alegres e descuidosos.

A presença de Bena fê-las hilariante. Choveram epigramas e risotas, e houve uma que saindo do grupo correu ao repuxo de água no centro do jardm para borrifá-las de água importada nos côncavos das mãos. A. A esta seguiram outras e tão depressa o alegre bando molhou-se sob o pesado aguaceiro que o sol agonizante circulou de pérolas.

O movimento excessivo trouxe-lhe a canseira e cada qual acomodou-se em assentos improvisados arquejantes e balofas mas que não impedia de se rirem pela graça que acharam.

Por fim o sol escondeu-se e neblina vespertina toldando o poente anunciou a noite, mas pura, transparente, cintilante de estrelas.

O campanário da Igreja da cidade tangeu ave-marias e o bando recolheu-se à voz da professora do alto da escadaria. Mesmo a subi-la não faltaram ditos alegres e risos reprimidos – bem-aventuradas mocidade sempre viçosa e discuidosa!

Assim no trabalho, no recreio e na própria disciplina encontrava Bena o suave e o belo da vida humana. Era feliz por assim o julgar.

O acordar às cinco da madrugada pura e ridente empregada de perfumes, de estranhos e novos cada dia e inebriantes encantos: trabalho cotidiano com múltiplas variantes, as horas de recreio e mil nadas que adquirem proporções benfazejas para quem sabe compreendê-las, constituíam alegrias perenes para ela que com pouco se contentava, e essa mesma pequenez de desejos fazia-a feliz.

Tal era vida para Bena.

Monday, 18 March 2013

Laxmanrao Sardessai - Ódio (1966)

Invade-me, às vezes, um tédio
Que cresce... cresce...
E se torna ódio.
E então choro... desolado!
Odiar... os irmãos que amo,
A quem sempre desejei
Ventura e calma,
Paz e fama,
E paraíso perfeito.
Mas cresce em mim,
Insensível, gradual... o ódio,
Sentimento que não nutri
Por um inimigo em sonho
E ódio aos irmãos
De sangue e tradição
Ódio aos goeses! Meu Deus!
Porque? Não mo perguntem
Por amor de Deus!
Só lhes digo que sofro
Como uma mãe
Que vê seus filhos queridos
Resvalaram para o abismo
E insensivelmente
Lhes vota ódio.

João Fernandes - Gauddés em Marcha (1973)

Na sua marcha veloz e ascensional, assim como o tempo renova incessantemente, assim também os gaudés de Goa em 21 de Setembro próximo findo, organizaram-se e reivindicaram os seus direitos cívicos e políticos reconhecidos pela Constituição.

Porém, a organização basilar dos seus direitos cívicos e políticos, conforme as sugestões e directrizes por eles indicadas na referida sessão do 21, consistem no seguinte:

Que eles devem ter todos os direitos e regalias quer materiais, intelectuais, espirituais e ainda corporais, numa só união, porque sem esta não pode haver força – porque embora o sábio Legislador indú Manu tenha consagrado nos seus “Institutos” a divisão de sociedade indiana em castas ou classes, estabelecendo para cada uma delas certos preceitos que naqueles nebulosos tempos talvez tivessem a sua razão de ser mas que, hoje não podem nem devem manter-se, porque a instrução e ilustração tem-se penetrado em camadas as mais ínfimas das classe, havendo entre eles Advogados, Médicos, Engenheiros, Professores, Escritores etc., como por exemplo o Dr. Ambedkar, o arquitecto da Constituição.

Que o Governo deve tomar e resolver o assunto por forma a que na futura Assembleia Legislativa eles tenham pelo menos dois assentos ou lugares reservados, como seus representantes e também quanto à instrução tanto o Ensino Primário como Ensino Secundário – gratuitamente porque mesmo que a Instrução Primária seja gratuita não têm eles possibilidades financeiras para mandar os filhos à escola pois há certos a quem ainda falta o pão quotidiano! Nesta parte, ainda eles reclamam insistentemente que devem ficar beneficiados com os subsídios necessários quanto à Instrução Secundária Superior e assistência financeira para o progresso da sua classe.

De resto, não havia necessidade de até fazer as sugestões como se fizeram no referido dia 21, porque automaticamente, impendia ao Governo o dever de fazer cumprir a Constituição sem, distinção de castas, classes e credos.

Porém, sabe-se que a Sub-Comissão do Conselho Informal que estava encarregada do estudo das classes atrasadas, já tinha proposto que a classe dos gaudés, indistintamente da religião, fosse incluída nas classes esqueduladas ao abrigo do Art. 3.32 (XII) da Constituição, e com maioria dos votos, esta sugestão fora apreciada por iniciativas louváveis dos seus membros. E, porque o Governo, pondo de parte todas estas sugestões e apoios tomou numa decisão que os desprotegidos da sorte, Gaudés, fossem afastados das facilidades que lhes confere a Constituição.

Acha quem escreve estas linhas que, se o Governo não tomou medidas adequadas por forma a satisfazer os seus referidos anseios, é porque porque desvirtuou a verdade a verdade por órgãos da informação e isto poderá trazer incalculáveis consequências.

Em média, o número da população dos Gaudés dos Territórios da União de Goa, Damão e Diu oscila entre 50.000 e 60.000 e estes estão dispersos em diversas partes, incluindo sítios montanhosos em busca do seu pão. Se todos estes tivessem residência nos centros urbanos poderiam ter conhecimento do que se passava por este mundo fora, e tendo este conhecimento natural e logicamente teriam imediatamente curiosidade de escolher pelo menos dois membros na Assembleia Legislativa.

A classe dos Gaudés é constituída presentemente de Gaudés Indús, os Gaudés Convertidos e os Gaudés Curumbis, sendo por conseguinte constituído de quatro grupos. Dentre aquelas a dos Gaudés Indús e dos Gaudés Convertidos, a situação é razoável.

Quanto às restantes duas – é ainda pior do que a daqueles a quem nós chamavos rebotalhos ínfimos da sociedade, isto é Harijans, Depressed Classes.

Encarado todo este problema sob o ponto da vista lógico e moral parece-me que por falta de devido apoio e estímulo a classe dos Gaudés revertidos, cada vez está a voltar ao estado de degeneração em vez de o ser para regeneração, porque depois do ano de 1928, e no louvável intuito daquele que o fez converter, ninguém se importou nem trabalhou para levar a efeito o fim desejado e a iniciativa teve em vista!

Não só isto. Mais ainda: a class dos Gaudés, que são chamados o Curumbis infelizmente não foram contemplados e beneficiados dessas regalias, visto estes terem sido considerados no meio social como os Harijans.

Quem escreve estas linhas é um dos da referida classe, com alguma instrução e ilustração e que a bem dos interesses da sua classe trata desta questão em público.

Mécia Elvina de Sousa - Amor da Pátria (1963)

Foi numa noite brumosa e nevoenta, como são geralmente nesta época as noites nas regiões montanhosas do Himalaia.

Num casebre desgarrado, à beira do caminho de ferro, a tiritar de fio junto da lareira, estava o Ramá, um jovem ainda imberbe, velando a cabeceira do pai enfermo que jazia na sua enxerga meio apodrecida, a um cantinho da habitação.

Seria meia-noite, quando muito... Súbito, uma detonação forte reboou pelas quebradas da serra, abalando a pobre cabana desde as fundações.

Ramá salta de repelão do seu cantinho, esgueirando a cabeça pela porta entreaberta e procura inquirir a origem do estranho fenómeno.

Nada enxergando pelo vão da porta, Ramá sai do eirado da casa a ver se descortinava algum vestígio do misterioso abalo. A serração da noite não permitia ver um palmo diante do nariz. A neve inclemente açoitava-lhe o rosto enregelado pelo frio cortante da noite.

Mas agora caíra tudo em silêncio, cortado apenas, de longe em longe, pelo mugido intermitente de uma cascata longínqua a despenhar-se das alturas para o fundo vale de tenebrosas furnas. Seria o sinal de avanço do inimigo que se dizia ter ultrapassado a fronteira? Ou seria acto de sabotagem dos traidores da Pátria, camuflados talvez em vigias do caminho de ferro?

Tinha de apurar a verdade, custasse o que custasse, embora tivesse de jogar nisso a sua vida.

Embrulhando-se na sua capa surrada de pele, um gorro de lã grosseira na cabeça, Rama lá foi seguindo com a sua lâmpada de furta-fogo, a caminho da ponte donde lhe parecia ter partido o infernal estrondo.

O frio gélido da noite penetrava até a medula dos ossos. Era o sopro glacial do Himalaia, a álgida mensagem dos picos de neve perpétuos que se erguiam alterosos de todos os lados. Uma espessa camada de neve cobria o atalho, dificultando a marcha já de si penosa.

Ia-se aproximando agora da terrível cascata, cujo bramido cavo e soturno embravecia de momento a momento com as catadupas da chuva que caía ininterrupta desde o cair da tarde. Uma rajada de vento agreste quase que o ia despenhando, ribanceira abaixo. Equilibrou-se como pode e, lutando conta a fúria dos elementos, lá foi avançando a custo, a tiritar de frio, e eis que, chegado à testa da ponte, vê horrorizado o abismo enorme que se abria a seus pés. A ponte em toda a sua extensão fora destruída por mão criminosa, certamente a soldo do inimigo.

- Deus do Céu! Bradou, num grito lacinante de angústia, a pobre criança, lembrando-se que daí a momentos passaria por lá o comboio a transportar armamento e tropas para a fronteira.

- Que seria dos nossos soldados?

Não havia tempo para hesitações. Corre, voa célere à sua cabana. Dir-se-ia que uma rajada furiosa de vento o impelia pela ladeira íngreme. Cabriolava de rocha em rocha, quase de olhos fechados.

Mais uns saltos apenas e ei-lo no umbral do seu casebre, esbaforido a comprimir o peito com as mãos.

Empuxa com violência a porta que cede ao poderoso impulso de braços nervosos e entra de roldão no recinto onde jazia o pai enfermo que desperta sobressaltado com a algazarra.

Uma voz dentro, desabafa de um fôlego, perante o pai estremunhado do sono, a terrível mensagem que levava.

- Temos que acudir a tempo para evitar a catástrofe – rematou ofegante o jovem.

- Vai, vai depressa, meu filho – gemeu o pai.

E depois com a vez sumida com o sofrimento, acrescentou: está aí no canto do meu baú uma lanterna verde-vermelha dos guardas do caminho de ferro. Vai com ela dar o sinal de alarme à aproximação do comboio... Avança quanto puderes. Quanto mais longe, tanto melhor... já compreendes o resto.

Ramá não quis ouvir mais... Acende a lanterna do pai e salta para a linha férrea, resolvido a enfrentar todos os perigos para salvar a vida dos soldados.

Impelido por uma força oculta, o rapaz parecia ter asas nos pés, na ânsia febril de avançar ao encontro do comboio. Percorria nesse momento a linha férrea no trecho perigoso de uma curva brusca a orlar um precipício medonho. Nem por isso Ramá refreava a sua louca corrida.

Súbito, num dos torcículos do caminho, enxerga o foco intenso da lanterna central da locomotiva, que vinha avançando vertiginosamente para o rapaz.

Postado no meio da linha férrea com mãos convulsas, Ramá agita febrilmente a minúscula lanterna com luz vermelha a dar rebate do perigo iminente.

Ouve-se o chiar agudo dos freios da locomotiva a travar a marcha vertiginosa do comboio. Neste instante o clarão intenso do foco da locomotiva, já próxima, bate em cheio nos olhos de Ramá, que, ofuscado pela luz deslumbrante, salta fora da linha para evitar o embate. Porém, o pulo, formado na precipitação da fuga, foi tão desastrado na precipitação da fuga, foi tão desastrado que o pobre rapaz, desequilibrando-se, deslizou pela beira escorregadia da estreita orla e num instante sumiu-se nas trevas do abismo hiante que se lhe abria aos pés...

No dia seguinte foram encontrar o cadáver do pobre rapaz, reduzido a uma mole informe, no fundo do precipício... Oferecera a sua vida em holocausto pela causa santa da sua querida Pátria.

Alfredo Bragança - Uma Lenda do Ganesh (1962)

Se Lacxmi é a deusa de fortuna e prosperidade, Saraswati é o deus de sabedoria e inteligência, a quem os intelectuais imploram inspiração e auxílio no momento de escrever seus poemas ou prosas, fazendo-os preceder do seguinte tributo de homenagem “Om Shri Ganesha namah” (Reverência a Ganesh). Assim Jayadeva, um dos famosos poetas de Pancharantnas (cinco jóias) invocou-o no seu poema lírico-dramático Gita Govinda sendo nisto imitado pelo próprio poeta inglês Sir Edwin Arnold no seu “The Indian Song of Songs”.

Diz uma lenda religiosa que estando ausente Sivá, o terceiro deus da Trindade, também conhecido sob outros nomes nas diversas seitas, o qual fora de peregrinação às brancas regiões celestes dos flocos nevados dos Himalaias, a sua esposa Parvati teve um belo dia a ideia de moldar de barro uma figura, com auxílio da água lustral que deslizava do seu corpo a banhar-se segundo os ritos religiosos, Parvati incutiu-lhe espírito, assim nasceu Ganesh. Ora esta figura, transformada acto contínuo, num robusto jovem, todo cheio de vida, uma bela estampa de rapaz afinal foi incumbido pela ‘mãe’ Parvati da missão de guardar fielmente, os aposentos e a sua residência, opondo-se à entrada de quem quer que fosse.

Volvidos doze anos, volta Sivá da sua peregrinação aos Himalaias: mas encontrando à porta o fiel guardião Ganesh que o não conhece e assim não o permite entrar segundo as ordens da “mãe” Parvati, Shivá, com a sua adaga faiscante, vibra-lhe um único golpe cintilante e a cabeça do pobre Ganesh, rola pelo chão numa arrepiante poça de sangue. Aos ruidosos, sinais de encontro dual, sai para fora a deusa Parvati que, com olhos naturalmente rasos de lágrimas e contando ao seu esposo Shivá como ti (segue na 2a pagina) nha criado Ganesh, suplica-lhe que o ressuscita. Shivá, porém não querendo trazer a cabeça doutro individuo, decepa a cabeça ao melhor elefante e coloca-a no corpo acéfalo do Ganesh – razão por que ele é representado agora com a cabeça elefantina, tendo nas quatro mãos que significam o poder, um machadinho, um dente, um ladú e um certo tridente.

A par desta lenda, há outras – como a que diz respeito às fases da lua – acerca de Ganesh, inspirador dos bardos e dos intelectuais, deus das artes e... amigo da guloseima.

Bicaji Ganecar - Sonho d'Amor (1969)

Ao ver-te andar tão cheia de graça
Tanta coisa em mim se passa
O sangue a correr
Acelerado
A mente a querer
Sentar-se ao lado,
E pensar, pensar
Quando te adorar.

O vento a beijar
Teu cabelo liso
E um ritmo preciso
No teu andar...
Com o fulgor
De tanta graça
Se enche a taça
Do nosso amor.

Para eu compor
Esse canto de amor
Tive de abrir
Meu coração
Inda a florir
Para cantar
Essa canção
Em teu louvor.
E rivalizar
O sonho
Tão risonho
Do nosso amor.

Traduzido do original concani por Remígio Botelho.

Augusto do Rosário Rodrigues - Goa Doirada (1980)

Goa! Rua Direita – um mar de gente!
Cheiro a cravo e canela, e erva cheirosa;
Fidalgos, chatins, frades; de repente
Quedam vendo uma jau passar dengosa.

Casal nobre: o marido sempre ausente
Por amor duma naire mui ciosa;
A mulher um Romeu adolescente
Recebe, de saiote cor de rosa.

Há roncos lá no Cais da Ribeira;
Elefantes d’el rei puxam madeira.
Reinol já pobre implora um xerafim.

Luís Vaz de Camões e seus amigos
Portugueses de fibra, dos antigos,
Vendo isso exclamam: Goa! Eis o teu fim...