Thursday, 6 June 2013

Margarida de Lacerda - “A Lenda de Josafate e Barlaao” (1981)

A primeira vez que o nome de Buda se encontra mencionado no Ocidente é nos escritos de Clemente de Alexandria (cristão morto em 217) com a vorma Boutta nos Stromata.

No campo da filosofia, por exemplo, foi a profunda impressão que as ideias contidas nos Upanishads causaram em Schopenhauser que o fez escrever: Os Upanishads são a leitura mais compensadora possível no mundo. Tem sido o lenitivo e sê-lo-á da minha morte.

Gaston Paris pensava que as influências principais que geraram medieval, as canções de gesta e as literaturas modernas foram a antiguidade clássica, o cristianismo, as tradições celtas e os livros indianos.

Foi graças aos estudos orientalistas feitos no século passado que muitas das origens de géneros literários cultivados no Ocidente se revelaram e que até aí tinham sido atribuídas aos Persas, Árabes, Gregos que não teriam sido mais que os transmissores de tais correntes. Foram eruditos como Bournouf, Max Müller, Weber, Benfey Oldenberg, Bergaigne, Sacy, Deslongchamps, Muir, Zotenberg, Gaston Paris Bedier e tantos outros novos horizontes e investigação com as suas fascinantes descobertas e divulgação das literaturas da Índia que forneceu grande manancial de inspiração literária, nomeadamente os escritos de origem budista.

Na Índia, no dizer de Lin Yu-Tang, “a land and people intoxicated wth God”, foi a religião a principal preocupação desde tempos imemoriais; o conhecimento da alma divina e a maneira de atingir o que eles chamavam a libertação: Moksa para os Hindus, Nirvana para os Budistas. Por isso a literatura indiana está profundamente imbuída desse espírito religioso, e a grande parte das ciências estudadas pelos indianos girava em volta da religião e do sacrifício. A astronomia para determinar as influências benéficas aos cerimoniais, a gramática e a fonética para preservarem os textos sagrados dos Vedas, etc. As parábolas e fabulas, que tanta popularidade conheceram foram grandemente usadas para ensinar um preceito moral, uma regra de conduta para narrar episódios das vidas do Buda, mesmo quanto não tinha ainda atingido, na sua longa evolução a carreira humana para dar ensinamentos de politica, por vezes para ilustrar um moral utilitária – cujo mérito pode ser discutível sob o nosso ponto de vista.

Um dos capítulos mais fascinantes nesta história, das influências indianas nas literaturas ocidentais é sem dúvida o das fabulas e apólogos indianos e, a par deles a lenda do Buda, conhecida no Ocidente como a História de Barlaam e Joasaph ou Barlaão e Josafate.

É esta história de Barlaão e Josefate reconhecida como uma das mais flagrantes contribuições da Índia para as letras do Ocidente. Esta lenda teve grande voga desde a sua aparição e difusão do século XI em diante e conta pelo menos noventa versões em diferentes línguas. O seu estudo já fez correr no dizer de Jean Sonet, ondas de tinta e, apesar disso, ainda não está tudo dito a seu respeito, e de quando em quando aparece mais alguém que não pode resistir ao seu fascínio.

Este caso de lenda budista que aparece como história cristã no Ocidente, como um sermão dado para exemplo dos cristãos, especialmente dos monges, visto ela andar mormente em voga nos mosteiros, foi um caso único nos anais da História. Will Waynes afirma que este fenómeno é “one of the most remarkable things that ever happened in the history of religion.” Macdonnell: “one of the most astounding facts in religious history.”

Esta história, surgida nos alvores da Idade Média, teve o raro condão de servir, mediante ligeiríssimas adaptações de instrumento apologético e variadas religiões. É um caso inédito o desta lenda, que vestindo-se ora com outro encantou e catequizou os leitores das diversas raças, credos e seitas. Foi este livro tão apreciado não só devido à moral que encerra como também por o seu principal herói ser um príncipe de um reino longínquo, mas e principalmente por aquela moral exemplificada por numerosas parábolas que tanto apelam para a imaginação. Tal como o celebre livro de fábulas Calila e Dymna do qual nos ocuparemos outro lugar, o livro de Sindband veio-nos do Oriente em longa peregrinação através de traduções sucessivas e de acrescentamentos feitos pelos povos que iam conquistando e os iam adoptando.

No Ocidente esta influência nota-se marcadamente em Don Juan Lope de Vega Calderón, Boccaccio, Shakespear, La Fontaine e até em Tolstoi. Em Portugal, no que respeita à influência dos apólogos indianos, Vasconcellos Abreu descobriu o paralelismo que é indubitável entra a nossa Mofina Mendes, de Gil Vicente e a fabula sânscrita do Panchatantra o Mofino brâmane e o jarro de farinha nas quais por singular coincidência – que, segundo V. Abreu não se verifica em qualquer outra língua – ambos foram apelidados de Mofinos. Este mesmo tema econtra-se na celebre fabula de La Fontaine, “La laitière et le pot au lait à Perrette” na qual a influência indiana é magistralmente estudada por Max Müller.

Encontramos também entre outros influências do Oriente em Chaucer, Staparola, Doni Firenzuola, Eberard Rabelais e até nas canções de gesta.

É esta a lenda de Barlaão e Josafate a transposição ou antes disfarce do Buda em vestes cristãs e este fenómeno fez uma sensação enorme.

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