Thursday, 6 June 2013

Pedro Correia-Afonso - Agostinho Fernandes (1973)

Foi através de “A Literatura Indo-Portuguesa” de Vimala Devi e Manuel de Seabra que eu vim a conhecer o Agostinho Fernandes e o seu romance “Bodki”. Eis o que aqueles dois autores dizem de um e doutro:

“Se não foi o primeiro romance adulto da Índia Portuguesa (referência ao “Signo da Ira” de Orlando da Costa), “Bodki” é, sem dúvida, o mais importante.

“Agostinho Fernandes traduz nesta obra a sua experiência de clínico numa pequena aldeia do interior de Goa. Trata-se de um romance em primeira pessoa, autobiográfico na medida em que a confissão pessoal tem lugar numa obra de arte. Recém-formado, o autor – ou antes a principal personagem – preterido num concurso para delegados de saúde por um colega menos classificado mas melhor apadrinhado, decide exercer medicina em Maxém, na zona fronteiriça. Toda a obra é a luta que se vê obrigado a empreender contra os mitos, as superstições da população hindu e católica. O seu primeiro cuidade é estabelecer uma reputação, a fim de poder criar influência com que deter o gadhi, o feiticeiro hindu que mantém aquela gente agarrada às suas superstições tradicionais.”

“Feita a sua reputação, ao protagonista não faltam doentes, principalmente a gente humilda da terra. Mas a luta contra a ignorância e a superstição é uma constante de todo o livrom, sobre cujo enredo, além disso, paira, do principio ao fim, a sombra aziaga e misteriosa da bodki, alvo de todo o ódio e frustração da gente da aldeia. Mas quem é a bodki? Sabê-lo é condição indispensável para a perfeita compreensão da obra. Agostinho Fernandes, cônscio de que está a escrever para um público desconhecedor das tradições religiosas hindus (o livro foi publicado não em Goa mas em Lisboa), põe a explicação na boca da própria bodki, que a trasmite à filha Kamala, a heroína do romance. Bodki é um substituto do sati, o sacrifício da viúva na pira funerária do marido. As viúvas que se recusavam a este sacrifício tinham de considerar-se mortas para o mundo. Rapavam a cabeça, vestiam sari branco e retiravam-se da povoação, passando a ser consideradas aziagas, amaldiçoadas, pela deusa Agni, a deusa do fogo, a quem não tinham obedecido.

“O tema, a luta contra a ignorância; a moral, de que só elevando o nível cultural do povo, é possível vencer nessa luta, estão admiravelmente delineados. A intriga é aliciante e Bodki é certamente um dos romances mais bem construído da moderna literatura portuguesa, e um dos poucos romances portugueses com possibilidades de conseguir vasta audiência internacional por mérito próprio” (as expressões parentéticas são minhas).

Compreende-se que, lida a apreciação dos autores de “A Literatura Indo-Portugueses” quando esta obra apareceu; eu tivesse o mais vivo interesse em ler o romance de Agostinho Fernandes. Mas como ninguém em Goa, que eu soubesse, possuía um exemplar da obra, foi só recentemente em Lisboa que pude ler o livro, depois de o adquirir por uma ninharia, 5 escudos, num passeio ao pé do Chiado, posto à venda no chão por um livreiro ambulante que ainda tinha pelo menos meia dúzia de exemplares, todos em primeira mão.

O romance, publicado por conta própria pelo autor, com capa de Anita Estibeiro, em 1962, um ano apenas, portanto depois do “Signo da Ira” ter-se-ia, pelos vistos, vendido mal, o que mostra que, sem embargo de tudo o que dele dizem Vimala Devi e Manuel de Seabra, esta primeira tentativa literária de Agostinho Fernandes não teve sequer em Portugal a audiência que seria de prever para “um dos romances mais bem construídos da moderna literatura portuguesa” e “um dos poucos com possibilidades de conseguir vasta audiência internacional”.

Há aliás um manifesto exagero e algumas inexactidões na apreciação crítica de Vimala Devi e Manuel de Seabra. Para apontar duas destas, trata-se realmente de um romance autobiográfico numa certa medida, mas o autor não é a principal personagem, pois a principal personagem, a heroína, como se diz mais tarde, é Kamala, a filha da bodki e ela mesma em vias de se tornar, de qualquer modo, uma bodki, por morte do amante, o pintor Singh, sique e não parse, como se infere do próprio nome.

Bodki será de facto um romance com uma “intriga aliciante” e que “decorre todo num ambiente de grande suspense e dramatismo, que prende e arrasta o leitor”, mas não se pode dizer que seja “um dos romances mais bem construídos” de (toda) a moderna literatura portuguesa. A meu ver, há mesmo uma sobrecarga de episódios, alem de divagações, os tais “longos solilóquios” discutindo os méritos da medicina, problemas de consciência, etc., que quebram a unidade da narrativa, faltando-lhe precisamente aquilo que mais se gaba no romancista, “uma notável e instintiva noção de “medida””.

Ainda bem, pois, que os dois críticos reconhecem que Bodki está longe de ser um romance perfeito e tem defeitos, “tem-nos principalmente de estilo e técnica. Vê-se claramente que a Agostinho Fernandes falta “ofício”. A linguagem é por vezes descuidada, pouco precisa... Não admira que assim seja, pois Agostinho Fernandes não é, ao que consta, um “literato”, não frequentou tertúlias nem discutiu problemas de técnica e estética literária, talvez não possua mesmo uma grande cultura literária. Agostinho Fernandes é um escritor nato, que viveu e escrever espontaneamente, longe de influências e de “literatos”. É precisamente isto que, em minha opinião, dele destingue, de modo assinalado, o outro romancista goês contemporâneo Orlando da Costa, autor do “Signo da Ira”, Prémio Ricardo Malheiros de 1962.

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