Sunday, 11 August 2013

Rui de Erasmo Jaques - Consolidando Laços Culturais (1977)

Mão amiga trouxe-me “O Heraldo” com as admiráveis linhas que me dedicas. Na verdade foi com emoção e alegria que li e reli o teu conceito sobre interdependências de duas Pátrias. Emoção por saber de quem vinha, de meu dilecto amigo Walfrido Antão, filho do saudoso e nunca esquecido Dr. João Camilo Antão. Como ele estará satisfeito por saber que os filhos prosseguem com honra e orgulho a tradição da família!

Alegria por saber que o teu ideal é acompanhado por Alguém em Portugal. Refiro-me à Sua Excelência o Senhor Presidente da República, General António Ramalho Eanes. Vivendo nesta querida Goa nos anos de 58 e conhecendo-a bem, o então Tenente Ramalho Eanes, ouvi da sua boca, dias antes de minha saída, num jantar de amigos, quanto o aprazia ver um intercambio total entre Índia e Portugal, mas principalmente, entre Goa e Portugal – dada as grandes afinidades que existem entre os dois Povos. Tu, o Dr José Rangel, que foi companheiro no Liceu da minha saudosa Vanda, o Dr. Carmo de Azevedo, o Eng. Francisco Pinto de Abreu, a Selma Vieira Velho – minha afilhada – como tantos outros que, tentam tornar mais sólidos os elos que ligam Índia e Portugal.

Nós, pobres homens, que procuramos transmitir aos nossos filhos a cultura brilhante de uma civilização que outrora florescia em todo o mundo – opulenta, fecunda a cintilante – e que hoje renasce das suas próprias cinzas com as frágeis criaturas que vejo pulular por todas essas escolas nas aldeias, vilas e cidades de Goa! Se as crianças são o esteio de uma Nação, não há dúvida que Goa, digo que a Índia tem um futuro brilhante diante de si... Mas há necessidade de transmitir a essa mocidade os gloriosos feitos dos seus antepassados, para que vejam neles, o orgulho de um povo com personalidade própria.

É bom conhecido de todos que o povo indiano possui antiquíssimos textos filosóficos de que S. Tomás de Aquino não teria dúvidas em se servir se esses textos tivessem sido conhecidos na Europa da Idade Média. A única finalidade de todos essas obras filosóficas que começaram a aparecer em princípios do primeiro milénio antes do Cristo é atingir o conhecimento da verdade suprema – Goana. É esta, naturalmente, a finalidade de toda a filosofia – o saber. Existe, porém, uma grande diferença entre o sistema indiano e o sistema ocidental. No Ocidente quando estudamos filosofia, principiamos pelo raciocínio, isto é, a lógica; passamos depois para o estudo do mundo visível (cosmologia) e o mundo ultravísivel (metafísico); continuando pelo estudo da alma humana (psicologia) das suas relações morais (ética)l; e fundamos o curso filosófico com o estudo de Deus (teologia). O método indiano é totalmente diferente. O estudo começa com Deus, continua com Deus e acaba com Deus. Deus é tudo. O resto não tem nenhum interesse para o filósofo indiano. Porquê? Porque Deus é o único ser que verdadeiramente existe. EKAMEVA ADVYTA “não há nada depois de Deus”.

Ora, meu caro Walfrido, há necessidade cada vez mais de o Ocidente – que caminha, como bem dizes, para um existencialismo atroz e devastador – beber nesta Índia um pouco de humanismo, onde todo o povo, desde os tempos mais longínquos, se acha imbuído de que Deus se espelha na alma humana. E consequência lógica dessa ideia é o dever que homem tem de imitar Deus. Quando no “Gita” Krishna explica a Arjuna como se acha completamente desligado de todas as coisas do mundo, diz-lhe (IX, 9: VI, 46), isto é: desliga-te tu também de tudo, e faz-te como eu.” Também Cristo, por palavras idênticas, exprimiu anos depois, o mesmo conceito. Mas esquecendo, o Ocidente dorme, e a Índia, esta Índia, renasce para futuro grandioso da sua antiquíssima civilização e com a preocupação que todo o indiano tem de conhecer Deus, inspirou aquela preciosa oração que desde século VI antes de Cristo em que se escreveram os Upanishadas, milhares de indianos repetem diariamente com verdadeiro fervor:

Do não ser ao ser guiai-me;

Das trevas à luz guiai-me;

Dar morteà imortalidade, guiai-me

(Bradaranya Ka Upsnishad 1-3-28)

Há necessidade, meu caro Walfrido, que as duas Pátrias se unam em elos cada vez mais fortes para que o Homem não se perca:

No mar tanta Tormenta e tanto dano

Tantas vezes a morte apercibida;

Na terra tanta guerra, tanto engano,

Tanta necessidade aborrecida!

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde será segura a vida curta,

Que não se arme e se indigna o Céu

Contra um bicho da terra tão pequeno.

Camões, Canto I, est. 606

Ao terminar, concluo com um abraço evocando a saudação que o poeta do Ramaiana pôs na boca do guerreiro para sua mulher, saudação que dirijo a todos os amigos de Goa: a bandeira que me acompanha segue comigo para a frente, mas adejando ao vento para trás é como o meu coração que por ti palpita.

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