Showing posts with label Evágrio Jorge. Show all posts
Showing posts with label Evágrio Jorge. Show all posts

Wednesday, 5 December 2012

Evagrio Jorge - Orgulho da Grei (1969)

“Je suis né dans l’Inde orientale, dans ce pays qui fut le berceau de poesies, philosophies et des histoires…

J’appartiens à cette race qui composa Mahabaratta et inventa les échecs – deux œuvres qui portent en elles quelque chose d’eternel et d’infini…

Je demande pour l’Inde la liberté et la lumière!”

A – Quem foi Francisco Luís Gomes ? Onde nasceu ? Onde viveu ? Que fez ele em vida ?

B – Francisco Luís Gomes foi um goês ilustre, nascido em Navelim de Salcete aos 31 de Maio de 1829. Formado médico pela Escola Médica de Goa, dentro dos curtos 40 anos de vida, foi parlementar, economista, historiador, escritor e humanista.

A – Parlementar foi-o Francisco Luís Gomes, de 1861 até a sua morte em 1969 e nessa qualidade defendeu a liberdade, pugnou pelas regalias cívicas e fez a defesa dos humildes e protegidos. Eis algumas passagens lapidares dos seus eloquentes discursos:

C – Tenho amor aos príncipios, amor inabalável e forte. E se este amor precisasse de alguma recomendação tinha-a nas palavras que me dirigiu um dos grandes homens desta terra. Há mais de dois anos o sr José Estevam, abraçando-me e ao sr. Tomás Ribeiro disse-nos estas palavras: Rapazes, não sacrifiquem nunca os princípios aos homens. Não há homem nenhum que valha um princípio.

B – E esta outra passagem que se provou profética: ‘As revoluções antigas derrubavam os feudos, os privilégios, os fortes, os poderosos; as revoluções futuras hão-de levantar os pequenos, os humildes e os pequenos. As revoluções passadas fizeram pequenos os grandes; as revoluções futuras hão-de fazer grandes os pequenos. As revoluções passadas eram os furacões que abatiam os castelos e os confundiam com o pó da terra; as revoluções futuras devem ser os terramotos que levantem as camadas ínfimas e as tornem primeiras . As revoluções passadas foram o “deposuit potentes”, as revoluções futuras devem ser o “sursum corda”. As revoluções passadas emanciparam as classes, as revoluções futuras hão-de libertar as massas, emancipando as indústrias, barateando subsistências e propagando a instrução”.

B – Logo a seguir disse isto que se aplica também às condições actuais do nosso pais:

C – “As liberdades económicas! Eis aí a bandeira, à cuja sombra se podem fundir e aliar-se os partidos em Portugal. Estamos nas liberdades politicas mais adiantados do que muitas nações de Europa, não assim nas económicas. A liberdade é indivisível como a túnica de Cristo. Podem roubá-la mais não a podem dividir. Metade de liberdade não é uma liberdade, é privilégio.”

A – Como economista, Francisco Luís Gomes escreveu três trabalhos de alto valor, que produziram eco em Londres e Paris, sendo apreciado por economistas de nomeado como Stuart Mill, Michel Chevalier e Garnier. A Sociedade dos Economistas de Paris ofereceu-lhe um “fauteuil” distinção que até lá fora concedida apenas a quatro estrangeiros: Gladstone, Mingheti, Stuart Mill e Lobedz.

B – Como historiador e biógrafo, a sua obra em francês “Le Marquis de Pombal – Esquisse de sa vie publique” é um monumento imorredouro à sua elevada noção de historiador, superior visão e belo espírito critico. Com um admirável poder de síntese, Francisco Luís Gomes apreciou nas 377 páginas deste livro a vida portuguesa de 27 anos do Governo de Pombal, nos seus mais diversos aspectos. É considerado ainda hoje o melhor livro que se publicou sobre o grande ministro de D. José, segundo depoimento de escritores como Pinheiro Chagas, Oliveira Martins e Teófilo Bragança.

A – E, finalmente, como escritor e humanista, o romance “Os Brahamanes” ficará para a eternidade não só como o primeiro romance escrito por um goês, mas como uma obra prodigiosa dum grande luminar da nossa terra.

A- O que levou Francisco Luís Gomes a escrever o romance “Brahamanes”? Qual foi o ideal que o norteou na execução dessa obra? Quais as dificuldades que experimentou ao bolar o livro?

B – Revelou o autor da dedicação do livro do “Gazeta de Portugal”, António Augusto Teixeira de Vasconcelos. Eis o que escreveu:

“O livro que ofereço a V. Excia é uma colecção de artigos escritos a lápis e em tudo semelhantes a estes que eu enviava da câmara dos deputados para a tipografia da “Gazeta”, e que V. Excia tinha depois o incómodo de iluminar. O romance, digo-o aqui em segredo, é apenas a forma, o disfarce com que pretendi introduzi-lo nas estantes e obter-lhe pousada mais larga do que é costume conceder aos jornais que aos primeiros raios de sol se derramam por toda a parte mas que em nenhum ficam de assento mais de vinte e quatro horas, quanta luz tinham se lhes apaga, quanto valor possuíam se lhes de deprecia: ei-los confundidos no dia seguinte com as varreduras, e colhendo só desprezos. Sobre esta razão acrescentava-se outra para mim de maior momento: é que o romance tem domínios seus, vastos e exclusivos, e o jornal não pode entrar neles, senão disfarçado, como nos missionários de cristianismo entravam algum dia nas terras dos pagãos. Se pelo mal imitado dos trajes eu não puder lograr o meu fim podem os guarda-barreiras rir-se da minha ousadia, mas peço-lhes que tenham bastante consciência e coração bastante para me respeitar a intenção: que em nobre empresa a que me queda é nobre”

B – E quanto ao ideal que o autor se propunha defender, escreveu ele o que se segue:

C - “É necessário que os princípios da liberdade, igualdade e fraternidade, eternos na sua duração sejam também universais na sua aplicação, que traduzidos em instituições, leis e costumes se estendam por toda a superfície do globo, e penetram até as suas últimas camadas. Só então a regeneração do homem será completa. Proclamando o aqui em voz alta e desejando-o com toda a energia do meu coração, não cuido que seja seduzido por uma miragem social. E que o fosse, mesmo assim eu não ganharia pouco, porque é essa uma das tais utopias benéficas e esplêndidas que despertam com grande poderio o nosso ânimo, que elevam os miseráveis acima dos seus misérias e os afortunados acima do seu egoísmo e transportam a uns e outros às alturas do Sinai, donde só se descortina a bandeira hasteada no cume do Calvário, que é a bandeira da humanidade.”

B – Quanto às dificuldades que encontrou no seu caminho, disse:

“Isto de ser romancista não é cousa fácil como de fora e à primeira vista parece...

Vou pois contar a V. Excia lisamente e com verdade o que me aconteceu ao urdir o enredo deste romance. Criava dois, três, quatro personagens, insuflava-lhes vida, vestia os o melhor que podia, ensinava-lhes gestos e maneiras, depois contemplava-os com inefável prazer e direi mesmo com certo orgulho. Pareciam-me tão belos! Nisto tocava ao almoço, e eu ia almoçar. Não me demorava nem meia hora porque tinha saudades da minha gente.

Voltava, mas Santo Deus, que mudança! Os personagens eram todos feios; os trajes assentavam-lhes como mascarada, e as suas falas sentia-as frias como o gelo. Indignado e cheio de furor, pegava no cutelo e zás, trás, zás, trás, matava tudo. Era horroroso o espectáculo que tinha então diante dos olhos: cabeças decepadas, braços amputados, dedos partidos, sangue, ruínas, vésperas sicilianas, enfim... E só depois que moderei os meus instintos homicidas e agrilhoei os meus braços, é que pude andar e terminar este romance...

A – Qual foi o acolhimento que o mundo literário deu ao romance “Os Brahamanes”? Que disseram dele os escritores portugueses do tempo?

B – Quando o romance saiu, foi acolhido com ovações por escritores da primeira plana.

O grande escritor António Feliciano de Castilho disse dele o seguinte:

D – “Elegância de estilo, vernaculidade de frase, orginalidade de pensamento, facilidade de forma e um dizer sempre simpático e fluente – são qualidades que distinguem esta mimosa produção e que fazem futurar o seu autor uma das mais fulgurantes estrelas da nossa plêiade literária”

B – Pinheiro Chagas, outro escritor de renome, referiu-se desta maneira ao romance do nosso conterrâneo:

D - “O romance não só é um livro bem escrito, mas também é interessante romance. As peripécias complicam-se, o enredo prende a atenção e o estilo fluente, a palavra imaginosa, mostram que o autor soube conservar a virgindade de sua fantasia no meio das lutas parlamentares e de aridez das lucubrações económicas.

As paragens são pintados com mão de mestre. Sente-se que o sr. Francisco Luís Gomes, no meio de civilização europeia, vota sempre e os olhos com profunda saudade para as florestas flagrantíssimas e os ridentíssimos quadros da sua terra natal.

O romance do sr. Gomes é uma soberba estrela e com esse livro desde já o talentoso deputado conquistou um distinto lugar na nata dos nossos romancistas.

B – ‘Le Courier de Lisbonne’ que se propunha tornar conhecidas no estrangeiro as obras primas da literatura portuguesa, traduziu para francês o apreciado romance publicando-o em folheto. Foi posteriormente traduzido do português e publicado por um jornal londino.

Música

A – De que trata, afinal, este tão falado romance? É interessante o seu entrecho? Atraente a narrativa? Vivas as descrições?

B – O Dr Agostinho Fortes apreciou0o abrindo um discurso que fez em Lisboa em 1929 por ocasião do centenário de nascimento de Francisco Luís Gomes.

D – ‘Na realidade não sei que mais admirar em ‘Os Brahmanes’, se a riqueza e o apropriado da linguagem, se o bem delineado e conduzido da acção, se a beleza e magnanimidade dos concertos, se a firme justeza dos caracteres, se a grandiosidade do intuito? Há em os Brahamanes o reflexo da magnificência da Índia, dessa Índia de sonho, dessa Índia do além, dessa Índia tão criadora literariamente que nos deu as duas grandes epopeias Ramaiana e Mahabharata dessa Índia de Shacuntalá, de Sivá o tipo mais idealmente belo e mais inexcedívelmente moral. A acção de “Os Brahamanes” é simples mas grandiosa perpassando nela o tumultuar das paixões e ódios das raças que outros vão há que só lhes assemelhe em intensidade e rancor e o desdém olimpicamente altaneiro das castas superiores dum brahamane por um sudra ou mata ainda por um pária cuja só única vista macula, a alva pureza dimanada do Brahamane. Mas ó consolo das almas bem-formadas, todo este ódio todo este desdém se esboroa e derrete à vez suavíssima da virtude; bem como o rancor que parecia insaciável de Magnod se liquifez à luz quente da grandeza de ânimo de Fr. Francisco, o missionário exemplar que edifica converte.

B – É certo que o romance perdeu hoja a sua actualidade. A Índia de 1969 é o pólo oposto da Índia de 1869. A Índia dum século atrás era um pais decadente, prostrado, crucificado na cruz infame da dominação estrangeira. Mas mesmo então os seus fakirs vaticinavam: “A pátria de Manu, depois de correr como uma moeda às mãos de Alexandre, Tamerlão, Albuquerque, Dupleix e Clive, deve voltar aos seus antigos senhores.”

Levou o largo espaço dum século para se provar verdadeiro o vaticínio. A revolta de 1859 – primeira guerra de independência – foi sufocada pelos ingleses. Referendo-se a ela, uns escassos nove anos depôs, escreveu Francisco Luís Gomes no capitulo 16o do romance:

C – “Os homens imparciais, que fazem questão da liberdade e não das raças, querem a Índia para a Índia, e detestam todos os déspotas, chamem eles nababos ou Cloves. Deve merecer as simpatias da Europa o país que formulou a democracia no jogo de xadrez – o país que formulou a democracia no jogo de xadrez, o pais que cantou com a voz dos anjos as sublimidades do céu e com a voz do rouxinol todas as belezas da terra, no seu poema Mahabharata, verdadeiro Himalaia da literatura.

B – As soluções que Francisco Luís Gomes, na melhor das intenções, propugnara para o renascimento da sua pátria, não se provaram de todo necessárias. A religião cristã e a instrução desempenharam, sim, um papel no ressurgimento do nosso povo. Mas duma forma geral e básica foi o génio imorredouro da nossa cultura ancestral e as potencialidades latentes de nossa raça que se afirmaram mais uma vez. Os séculos 19o e 20o viram gigantes de pensamento e acção como Keihub Chandra Roy, Ramakrisha e Vivekananda, Dedebai Nacraj, e Lokmanya Tilak, Rabrindranath Tagore and Mahatma Gandhi. Subhas Chandra Bose e Jawaharlal Nehru viram estes gigantes surgirem do seu solo e levantarem o país do torpor em que se encontrava. A Índia está hoje livre, e marcha triunfante na senda do progresso.

MÚSICA

C – Escassos três anos haviam decorrido sobre a publicação de “Os Brahamanes” e o seu autor que, como que pressentindo a morte, ia trabalhando sem descanso, sentiu-se exausto e combalido. Os médicos esgotaram todos os seus recursos.

Lembra-se então dos ventos da pátria: “é meu inimigo este doce clima da Europa”, diz, e embarca para a Índia. Mas a Parca cruel atinge-o em pleno Mar Mediterrâneo. A noticia é recebida com sensação e dor nos continentes.

Tomás Ribeiro cantou-lhe assim a glória:

Morres, fugir do sol! Furtar-se à glória
Quem tão mimoso foi dos seus afagos
Quem no abismo sem fim dos sonhos vagos
Passara a vida, a transbordar de luz.

Friday, 12 October 2012

Evágrio Jorge - Menezes Bragança (1966)

Recai hoje o 28o aniversário do falecimento de Menezes Bragança que foi justamente considerado o Maior de Todos os jornalistas de Goa.

Nasceu aos 15 de Janeiro de 1878 em Chandor, filho de Juveniano Menezes de Calapur das Ilhas, advogado que chegou a exercer o cargo de Juiz de Direito. A família de sua mãe, Stael de Bragança, não tendo deixado descendente masculino, fez estabelecer o genro no seu solar e impôs ao neto os apelidos tanto do pai como da mãe. As duas casas eram ricas em posses materiais como em dotes intelectuais. Porém, Luís teve a infelicidade de perder o pai aos 7 anos de idade.

Seguindo o praxe do tempo, Luís fez os seus estudos no Seminário de Rachol e depois no Liceu. Aqui, com excepção da marata, obteve distinção em todas as outras disciplinas. Entrou a seguir na Escola Médica, onde era um dos primeiros dois alunos distintos. Mas logo no primeiro ano foi acometido de febre tifóide, tendo de convalescer por um ano. Aproveitou deste ano para leitura mais vasta e universal. Ganhou gosto de ler as melhores obras literárias. Conhecendo várias línguas como latim, português, francês, e inglês, e tendo franca queda para literatura e ciência, procurou estar ao par das melhores correntes nestes dois campos. Sendo rico, podia abalançar-se a trazer os mais recentes livros e revistas da Europa, que recebia regularmente.

Com os conhecimentos assim adquiridos, o seu talento privilegiado floriu precocemente e, antes de atingir vinte anos de idade, escrevia para jornais como O Heraldo e

(Segue na segunda página)

Nacionalista e enfileirava-se entre os intelectuais do tempo.

Influenciado por Rénan e os enciclopedistas franceses, Menezes Bragança seguiu o trilho de livre pensamento. Animado pelos ideais de Igualdade, Fraternidade e Liberdade, fez-se o paladino da democracia. Em um tempo fez parte do Corpo Redactorial de O Heraldo.

Quando Portugal declarou-se República, por cuja causa se batera denodadamente, Menezes Bragança aspirou melhores dias a Goa e ofereceu o seu apoio ao primeiro governador da República Couceiro da Costa. Pensaram muitos ao tempo que Menezes Bragança fizera-se pró-governamental. Mas, quando verificou que um outro governador, Freitas Ribeiro espezinhava os direitos dos goeses Menezes Bragança serviu-se da sua pena para o atacar.

O seu jornal “O Debate” batia-se pela democracia e pelas liberdades da terra. Esse jornal além de exercer grande influência no governo, preparou uma geração de espíritos progressivos. Não há um só assunto que não tenha versado. E cada assunto que versava, fazia-o com uma superioridade única.

Afim de canalizar as aspirações populares pelos métodos constitucionais, Menezes Bragança serviu-se do Congresso Provincial de Goa. Foi eleito presidente deste organismo em tenra idade. Foi também escolhido para sócio do Instituto Vasco da Gama.

No tempo da ditadura, Menezes Bragança serviu-se do jornal Pracasha para atacar o governo bem como para criar a consciência livre no nosso povo. Racionalismo, ciência e democracia, era os ideais que o norteavam. Batia-se por eles com denodo, mas nunca se rebaixou-se aos ataques pessoais. Era admirador de Jesus, o doce rabi de Galileia, mas não aceitava a Igreja com a única e genuína depositária da doutrina. Insurgia-se conta a injustiça, fosse ele afligida num pobre ou num padre. Era de opinião que devíamos aceitar todas as coisas boas de Europa e também que devíamos prestar atenção aos novos ventos que sopravam da Índia.

Menezes Bragança pugnou valentemente pelos direitos do povo goês. Batendo-se pel República Democrática, tornou-se jus à gratidão da maioria hindu da nossa população, que até então vivia espezinhada. Quando o Governo português fugia de nos outorgar a prometida autonomia administrativa, propôs a abstenção das urnas. Finalmente quando Dr. Salazar brindou-nos com os epítetos de indígenas e assimilados e arrogou à Nação Portuguesa o direito “de possuir e colonizar domínios ultramarinos”, propôs no Conselho de Governo a seguinte moção:

“A Índia Portuguesa não renuncia ao direito que têm os povos, de atingirem a plenitude de sua individualidade, até virem a constituir-se unidades capazes de dirigir os seus destinos, visto ser um direito originário, da sua essência orgânica.”

Uma vintena de anos passados sobre esta moção, a Índia Portuguesa ganhou o direito originário de liberdade. Foi este o maior tributo à sua obra.

Sunday, 25 December 2011

Jubileu de Evágrio Jorge (1975)

Passa amanhã, o jubileu de oiro do diário concani Uzvadd, motivo por iniciativa de uma comissão constituída para o efeito, haverá uma sessão de homenagem sob a presidência do sr Tito Menezes, Comissário Judicial, no Clube Nacional, às 18:30 horas.

Nascido em 6 de Março de 1925 em Carmona, feitos os estudos primários na sua aldeia, matriculou-se no Liceu tendo estudado até o 6o ano.

Atraído desde muito novo para o jornalismo, trabalhou como assistente do Editor, adv. Amadeu Prazeres da Costa em “O Heraldo” e mais tarde no “Diário de Goa”. Editou também em Bombaim o quinzenário concani ‘Azad Goem’, de que foi editor em chefe o finado Tristão de Bragança Cunha, “Pai do Nacionalismo Goês.”

Envolvido no movimento da libertação de Goa desde o início, ofereceu satyagraha em Cuncolim em 7 de Novembro de 1946 e foi condenado a mês e meio de prisão, cumprindo a pena na cadeia de Quepém.

Preso de novo em 15 de Agosto de 1946, foi encarcerado na fortaleza de Aguada, julgado pelo Tribunal Militar e condenado a 5 anos de prisão rigorosa, sendo porém posto em liberdade em 1950, graças a amnistia concedida pelo Ano Santo.

Perseguido pela Polícia, passou para Bombaim, onde depois de trabalhar no quinzenário “Azad Goem”, serviu na secção concani dos Serviços Externos da All-India Rádio, em Nova-Delhi, de onde, depois da libertação de Goa, passou para a estação de Bombaim e finalmente para a de Pangim.

Tendo começado a escrever aos 14 anos, publicou os seguintes folhetos: “Santos ou Arruaceiros” sobre as conversões forçados, “Salazar’s rule over Portugal and the Goa case”, “Salazar ani Goem” etc.

Colaborou largamente em “O Heraldo” e outros jornais e publicou no “Navhind Times” uma série de artigos sobre filhos ilustres de Goa. É desde 1970 editor do diário concani Uzvadd.

Tomou a iniciativa da celebração do centenário da morte de Francisco Luís Gomes, sendo secretário da sua comissão e foi ultimamente eleito presidente da comissão de recepção da 3a. Conferência de Escritores Concanis.

Por esta faustosa data apresentamos ao sr. Evágrio Jorge as nossas calorosas felicitações com votos sinceros por longos anos de vida felizes e prósperos.

Wednesday, 28 September 2011

Evágrio Jorge - Vimala Devi e a sua actividade cultural (1970)

A prometido é devido. Anunciei há dias a recepção do último livro de poesias de Vimala Devi, Hologramas e prometi referir-me a ele nestas colunas.

A literatura é o espelho da vida. As duas são inseparáveis como a figura e a imagem ou a figura e a sombra. Qualquer referência a Hologramas será abrupta se não me referir aos dois livros anteriores de Vimala Devi e mesmo ao pouco que sei da sua vida.

Vimala Devi nasceu numa família católica goesa de Britona, na outra margem do rio Mandovi, que espera ser um subúrbio de Pangim logo que se complete, o mais tardar no próximo ano, a mui demorada ponte. Nasceu em 1932. Fez a sua estreia neste jornal e no antigo vespertino “Diário da Noite”. Cerca de 1958 ter-se-ia abalado para Portugal, casada com um escritor português. Em 1960 fez uma viagem ao Brazil para organizar recitais de folclore goês, que também apresentou na RTP e na Emissora Nacional de Radiodifusão de Lisboa. Foi incluída no volume “Goa, Damão e Diu” da “Antologia da Terra Portuguesa”.

Vive presentemente em Londres, fazendo companhia ao seu marido que trabalha na secção portuguesa da BBC. Em Londres teve uma exposição individual de pintura e colabora assiduamente nos programas da BBC.

À parte os seus livros que serão objecto de detida referência mais adiante, Vimala Devi é conhecida de todos quantos escrevem este formoso idioma português pela correspondência individual que manteve com eles, pedindo este e aquele pormenor dos seus escritos para um importante estudo mesológico da literatura indo-portuguesa, de que é co-autora. Pelo grande empenho que ela tomou nessa obra – prometida para breve não há dúvida que ser que será um repositório exaustivo da actividade literária goesa em português.

Toda esta actividade operosa no campo de letras e artes cria jus à nossa admiração e estima. Cá está uma conterrânea colocada noutra conjunção de latitudes e longitudes – geográficas e outras – entretida num trabalho positivo, criador, tanto do benéfico de Goa como de Portugal. Temos que seguir-lhe o exemplo. Temos de fazer aqui em Goa qualquer coisa de positivo para encaminhar o trabalho literário dos poucos poetas, contistas, prosadores que ainda temos, para as grandes revistas e casa editoriais portuguesas do mundo. Temos que encorajar traduções da literatura clássica indiana e dos autores modernos indianos (RK Narayan, Rama Rao, Kamala Markandaya, Nayantura Shgal, Kushwant Singh, Raj Ananda e outros). Será fácil obter editores para essas obras. Já três livros de Kamala Markandaya – ‘Trabalho sem Esperança’, ‘Um Íntimo Furor’ e ‘Um Silêncio do Desejo’ – estão a circular em tradução em Portugal e Brasil há alguns anos.

Outro trabalho que urge é encorajar a nova geração a aprender o português. No meu tempo de estudante os jornais dedicavam páginas para o tirocínio literário da juventude – Gente Nova, Página da Mocidade e Os Novos eram os títulos destas páginas. Publicou-se também uma interessante revista O Académico. Na era pos-libertação, a atracão do Governo e da sociedade há de naturalmente concentrar-se em incrementar o aprendizado do inglês, hindi e marata, tão necessários para o intercâmbio vital com o resto da Índia. Isso não impede que os amigos da língua portuguesa – entre os quais eu sempre me contei – trabalhem em seu prol, nas linhas indicadas. Mas andamos entretidos noutras contradanças... de êxitos nulo.

Não que o Governo não esteja a auxiliar, por muito que pese aos detractores dele. A “All-India Rádio” de Pangim tem um programa literário semanal para o qual os escritores locais são convidados e pagos. A Universidade de Bombaim sempre veio aceitando a língua portuguesa como língua de estudo. Agora o Post-Graduate Centre de Goa – núcleo da futura Universidade de Goa – tem uma Secção de Português. Os vários Colleges ensinam português e se muitos estudantes não se aproveitam desta facilidade, a culpa do excessivo espírito oportunista da nossa gente...

Desculpem-me esta digressão. Reina hoje tal confusão de ideias no nosso meio que se fica obrigado a aproveitar de casa oportunidade para desanuviar as mentes das muitas dúvidas e suspeições que nelas se encastelam...

Fica para a próxima vez a apreciação dos livros de Vimala Devi.

Part 2

O livro de contos ‘Monção’ da Vimala Devi é quase uma versão do seu livro de versos Súria em outra modalidade literária. Nos treze contos que este livro encerra, a vida goesa está retratada com fidelidade – incluindo os hindus e cristãos com as suas inevitáveis castas, e os paklé e os descendentes que desapareceram já do nosso cenário.

O conto ‘O Genro-Comensal’ lembra-nos do interessante romance de Gip, ‘Jacob e Dulce’, com as suas peripécias na cidade de Breda (Bordá). Lança muita luz sobre a forma como se arranjam os casamentos em Goa, começando por indagar a casta dos futuros nubentes, os seus teres e haveres, como se estabelece o genro-comensal (ghor-zanvoim) e como ele tem que sacrificar uma grande parte da sua personalidade em troca dos bens da noiva.

Nattak, Dhruva, Pandmini, A Droga, Fidelidade, estes contos revelam conhecimento da vida e psicologia hindu. A vida dos pescadores também está bem retratada. Na “Recordação do Tio Salú”, um pescador velhinho que morreu no dia seguinte ao Natal, Vimala Devi desabafa mais uma vez a sua saudade pela terra natal:

“Um templo de saudade pode chamar-se a tudo que trago dentro de mim. Gira à minha volta, agora em torvelinho – um torvelinho – um torvelinho que dói – toda a minha infância na velha aldeia à beira do Mandovi, onde o tempo parece que tinha parado e se vivia como mil anos atrás, como sempre.”

E pouco mais alem:

“Boa aldeia, boa gente, bons manducares, pescadores, curumbins, farazes, velhos e velhas, católicos, hindus, rapazinhos de langotim sujo com quem tanta vez joguei a cabra-cega ou os goddés, rostinhos morenos e vivos, que me davam gostosos chinchré dos tamarindos para roer na escola”.

Um outro aspecto desta saudade pela terra natal apresenta-o a escritora no conto “O Futuro e o Passado”, em que Carlos Sequeira, depois de fazer muito dinheiro na África, passa a matutar:

“... Tentou recordar a velha casa, as ruas esburacadas da aldeia, os manducares tristonhos, os curumbins, as suas canções alegres... De que lhe servia ser rico, de que lhe servia de ser uma pessoa importante numa terra que não era a sua, onde não havia ninguém com quem tivesse brincado em criança?...”

É triste comentário à vida dos cristãos de Goa o facto de que a escritora não pode retratar fielmente a sua vida sem trazer à baile o facto de eles estarem divididos em brâmanes, chardós e sudras. No conto “Os filhos de Job”, a forreta de Lavin-bai, quando ligeiramente admoestada pelo Dr. Caxinata sobre os seus deveres sociais, fulmina nestes termos:

- “Defende a dignidade desta gente, esquecendo-se da minha, que é superior. Repare que sou brâmane, como o doutor!...”

Há problemas a que a Libertação põe termo, como o súbita pretensão do descendente Eucaristiano de passar a ser europeu, a excessiva humidade e submissão dos manducares, cujo simples gesto de se sentarem nas cadeiras era ressentido, a exploração da mão de obra (cfr. ‘Vénus e os seus braços’).

No conto ‘A Droga’, um dos protagonistas pergunta enfurecido: “Outra vez a droga! Sempre a droga para finalizar o amor entre uma católica e um hindu!...”

Porque não poderá ser de outra maneira legal, sem vergonhas nem drogas?

Rosa começou a soluçar sobre peito de Caxinata.”

Antes, se não fosse a droga, era a conversão dum dos protagonistas à religião doutro, que era a mais das vezes a religião católica.

Que solução iria a Libertação dar a este problema de boy meets the girls of his liking? A solução ideal seria cada um manter-se na religião que professa e em que acredita. Porque só assim formaremos uma sociedade única, indiana, na base da nossa nacionalidade. Fora de Goa os goeses, tanto hindus como cristãos, já se casam para além de suas sociedades e de suas castas. Os hindus goeses estão casados com panjabis, maisoreanas, maharasatrianas, etc. Os católicos, entre cristãos de outras denominações, sikhs, hindus e mussolmanos. Não levará tempo para o processo se desenvolver com a mesma velocidade portas a dentro...

Chego agora para o último livro de versos de Vimala Devi, Hologramas, Edições Atlântida Editora de Coimbra, o livro é um luxo de produção. Quarenta páginas em papel espesso, capa branca envernizada, mas os poemas são curtos, diminutos, e todos se lêem em cerca de dez minutos.

Mas o carácter do livro é totalmente diferente dos primeiros dois. Já não é a Vimala indiana-goesa, que fala, direi mesmo que nem sequer é a poetisa portuguesa. É um produto de Londres, desse Ocidente estranho hodierno cuja uma manifestação vemos hoje nos visitantes da nossa praia de Calangute.

Kipling dissera que o Oriente e o Ocidente nunca se encontrariam. Com o avanço do Oriente embora lento, nos domínios de Ciência e Tecnologia parecia que o abismo estava prestes a cobrir-se. Mas agora o Ocidente, cansado, parece afastar-se para domínios imprevistos...

Li e reli os poemas. Acho algo difícil compreendê-los. Talvez seja necessário viver-se nos meios que os inspiraram, para se compreender perfeitamente:

Cá vai um exemplo:

Ânsia telemetrica

Do espaço que foi pela curva do orbito do sonho metálico

Transicional

Ciclo nos passos de luz

De Apolo atrofísico

Compreenderam alguma coisa? Pois bem, tentem saborear este outro escolhido também à toa:

Em cada desejo

Subterrâneo mais um dia tenso

Como o desejo sem sexo

Que se mistura com fumo

De estupefaciantes

Cobrindo o vazio triste de néon

Aquém do sonho anfíbio

Que se transmuta em chamas

Podemos compreender vagamente que este tem alguma relação com a filosofia dos hippies.

Algumas criticas já saídas talvez nos ajudem a compreender o livro e a mudança operada na sua autora.

O poeta Mário António escreveu dele o que segue:

“Não é a poetisa de Goa que aqui vemos: simplesmente a poetisa, se se insistir em expressar uma radicação, a poetisa europeia (...) Trata-se de um livro profundamente europeu ou ocidental: percorrem-no – entre dezenas de referências à mitologia ocidental - as linhas de força de mitos que são os que ajudaram a definir a Europa ou a Ocidente, ao mesmo tempo que se propõem alguns dos mitos que são dos que já antecipam o seu futuro”.

O semanário “Debate” escreve que “Hologramas” é resultado de uma experiência de um mundo diverso do que inspirou os seus dois primeiros livros, um mundo, o europeu, no qual se sobrepõe a uma mitologia milenar mas ainda presente, uma mitologia que diremos ser já do futuro.”

E João Gaspar, que tivera palavras encomiásticas para o livro Súria, escreve a respeito do último livro dizendo que Vimala Devi pretende:

“... com base em experiências de poesia inglesa, superar o condicionalimso pós-baudelaireano. Com efeito, é em Hologramas de Vimala Devi, residente em Londres, que se manifesta qualquer coisa como um refluxo de inspiração científica, associação, em breves esquemas métricos, de reacções possivelmente assimiladas a fenómenos físico-psiquicos...”

“... O que tudo prova mais uma vez que o goês é destro na assimilação das culturas alheias e é capaz de mostrar-se livre dos “conceitos atávicos” entre os povos no meio dos quais habita, sejam eles Kanadigas de Maiçore ou os Maharastrianos de Bombaim, os portugueses de Lisboa ou os Londrinos...”

Hats off à gentil senhora goesa que nos meios exigentes de Europa, mantém-se às alturas da sua rica tradição milenária e nunca se deixa de lembrar do seu torrão natal e sua gente.

Monday, 20 June 2011

Evágrio Jorge - Os Brahamanes (1967)

Francisco Luís Gomes foi um goês ilustre; nascido em Navelim, de Salcete, aos 31 de Maio de 1829. Formado pela Escola Médica de Goa, dentro dos curtos 40 da sua vida, foi parlamentar, economista, historiador e escritor.

Parlementar foi Francisco Luís Gomes, de 1861 até a sua morte em 1869, e nessa qualidade defendeu a liberdade, pugnou pelas regalias cívicas e fez a defesa dos humildes e desprotegidos. O seu carácter era de antes quebrar que torcer. Afirmou uma vez no parlamento:

“Tenho amor aos princípios. E se este amor precisasse de alguma recomendação, tinha nas palavras que me dirigiu um dos grandes homens desta terra. Há mais de dois anos, o Sr. José Estevam, abraçando-me ao Sr. Tomás Ribeiro, disse-nos estas palavras: “Rapazes, não sacrifiquem nunca os princípios aos homens. Não há homem nenhum que valha um princípio”

Foi deveras profético este seu vaticínio:

“As revoluções antigas derrubavam os feudos, os privilégios, os fortes, os poderosos; as revoluções passadas fizeram pequenos os grandes; as revoluções futuras hão-de fazer grandes os pequenos. As revoluções passadas eram os furacões que abatiam os castelos e os confundiam com o pó da terra; as revoluções futuras devem ser os terramotos que levantam as camadas ínfimas e as tornam primeiras. As revoluções futuras hão-de liberar as massas emancipando as indústrias, barateando as subsistências, propagando a instrução!”

Como economista, Francisco Luís Gomes escreveu três trabalhos de alto valor, que produziram ecos em Londres e Paris, sendo apreciados por economistas de nomeada como Stuart Mill, Michel Chevalier e Garnier. A Sociedade dos Economistas de Paris ofereceu-lhe um “fauteuil”, distinção que até lá era concedida apenas a quatro estrangeiros: Gladstone, Minghetti, Stuart Mill e Eobedz.

Como historiador e biógrafo, a sua obra em francês: “Le Marquis de Pombal: Esquisse de sa vie publique” é um monumento imorredouro à sua elevada noção de historiador, superior visão e belo espírito critico. Com um admirável poder de síntese, Francisco Luís Gomes – apreciou na 377 página deste livro, a vida portuguesa de 27 anos do governo de Pombal, nos seus mais diversos aspectos. É considerado ainda hoje o melhor livro que se publicou sobre o grande ministro de D. José, segundo o depoimento de escritores como Pinheiro Chagas, Oliveira Martins e Teófilo Braga.

E, finalmente, como escritor e humanista, o romance ‘Os Brahamanes’, cujo centenário de publicação racaiu em 1966, ficará para a eternidade, não só como o primeiro romance escrito por um goês, mas como uma obra prodigiosa dum grande luminar da nossa terra.

Escreveu-o o seu autor, não com grandes pretensões literárias, mas apenas para servir de veículo às suas ideias progressivas. E quais são estas ideias? Ei-las nas palavras do próprio Gomes:

“É necessário que os princípios da liberdade, igualdade e fraternidade, eternos na sua duração, sejam também universais na sua aplicação; que, traduzidos em instituições, leis e costumes, se estendem por toda a superfície do globo e penetram até as suas últimas camadas. Só então a regeneração do homem será com completa. Proclamando-o aqui em voz alta e desejando-o com toda a energia do meu coração, não cuido que seja seduzido por uma miragem social. E que o fosse, mesmo assim eu não ganharia pouco, porque é esta uma das tias utopias benéficas e esplêndidas que despertam com grande poderio o nosso ânimo, que elevam os miseráveis acima das suas misérias e os afortunados acima do seu egoísmo, e transportarem a uns e outros às alturas do Sinai, donde só se descortina a bandeira hasteada no cume do Calvário que é a bandeira da humanidade.”

O romance teve um extraordinário acolhimento da parte da impresa e dos literatos portugueses e foi logo traduzido para francês e inglês.

O grande escritor António Feliciano de Castilho disse dele o que segue:

“Elegância de estilo, vernaculidade de frase, originalidade de pensamento, facilidade de forma e um dizer sempre simpático e fluente são qualidades que distinguem essa mimosa produção e que fazem futurar em seu autor uma das mais fulgurantes estrelas da nossa plêiade literária”

O Dr. Agostinho Fortes apreciou-o assim no discurso que fez em Lisboa em 1929, por ocasião do centenário de Francisco Luís Gomes:

“Na realidade, não sei que mais admirar em “Os Brahmanes”, se a riqueza e o apropriado da linguagem, se o bem delineado e conduzido da acção, se a beleza e a magnanimidade dos conceitos, se a firme justeza dos caracters, se a grandiosidade do intuito. Há em “Os Brahmanes” o reflexo da magnificência da Índia, dessa Índia de sonho, dessa Índia do além, dessa Índia tão criadora literariamente que nos deu as grandes epopeias Ramaiana e Mahabharata, dessa Índia de Xacuntalá, de Sitá, o tipo mais idealmente belo e mais inexcedívelmente moral. A secção de “Os Brahmanes” é simples mas grandiosa, perpassando nela o tumultuar das paixões e ódios de raças que outros não há que se lhes assemelham em intensidade e rancor, e o desdém olimpicamente altaneiro das castas superiores, dum brâmane por um pária, cuja só única vista macula a alva pureza dimanada do Brahma. Mas, o consolo das almas bem formadas, todo esse ódio, todo esse desdém se esboroa e derrue (sic) à luz suavíssima da virtude e do bem, como o rancor que parecia insaciável de Magnod se liquefaz à luz quente da grandeza de ânimo de Frei Francisco, o missionário exemplar que edifica e converte”.

É certo que o romance perdeu hoje a sua actualidade. A Índia de 1966 é o pólo oposto da Índia de 1866. A Índia dum século atrás era um país decadente, prostrado, crucificado na cruz infame da subjugação. Mas mesmo então os seus faquires vaticinavam: “A pátria de Manu, depois de correr como uma moeda às mãos de Alexandre, Tamerlão, Albuquerque, Dupleix e Clive, deve voltar aos seus antigos senhores (os indianos)”.

As soluções que Francisco Luís Gomes, na melhor das intenções, propugnava para o renascimento da sua pátria, não se proveram de todo necessárias. A religião cristã e a instrução desempenharam, aí, um grande papel no ressurgimento da nossa gente. Mas duma forma geral e básica, foi o génio imorredouro da nossa cultura ancestral e as potencialidades latentes da nossa raça que se afirmaram mais uma vez. O século XX viu gigantes de pensamento e acção, como Ramacrishna e Vivekapanda, Dadabai Naoroji e Lokmanya Tilak, Radindranath Tagore e Mahatma Gadhi, Subhas Chandra Bose e Jawaharlal Nehru, viu esses gigantes surgirem do seu solo e levantarem o seu país do torpor em que se encontrava. A Índia está hoje livre e marcha triunfante na senda do progresso...

Escassos três anos haviam decorrido sobre a publicação de “Os Brahmanes”, e o seu autor que, como que pressentindo a morte, ia trabalhando sem descanso, sentiu-se exausto e combalido. Os médicos esgotaram todos os seus recursos.

Lembra-se então dos ventos da Pátria: “É meu inimigo este doce clima da Europa” diz, e embarca para a Índia.

Mas a Parca cruel atinge-o em pleno Mar Mediterrâneo. A notícia é recolhida com sensação e dor nos dois continentes.

Tomás Ribeiro cantou-lhe assim a glória:

“Morrer! Fugir do sol! Furtar-se à glória

Quem tão mimoso foi dos seus afagos

Quem, no abismo sem fim dos sonhos vagos

Passará a vida, a transbordar de luz”

Thursday, 16 June 2011

Evágrio Jorge - Xacuntalá (1965)

Xacuntalá é filha de um Rixi e de uma Apsará. Mestre Cannvá, encontrando-a abandonada numa floresta logo que nascida, recolhe-a no Eremitério e toma-a para sua filha adoptiva. E aí ela cresce junto de duas companheiras da mesma idade, de quem se torna muito amiga: Anassuiá e Priamvadá. Caçadores infestam o bosque do Eremitério e matam uma gazela que amamentava um filho. Xacuntalá encontra o pequenino animal, órfão de mãe, e cria-a enternecidamente, como faria e um filho. De uma vez, em que as três amigas regavam as flores que Xacuntalá ama como se fossem irmãs, Anassuiá prediz-lhe que ela encontrará uma dia um homem poderoso que o fará muito feliz, mas o seu horóscopo reza que um infortúnio pesa no seu destino. Mestre Cannvá, o pai adoptivo de Xacuntalá, vai em peregrinação aos mais afamados templos impetrando os deuses para que esconjurem aquele mau signo. O Rei Dushianta anda a caça, perto do Eremitério. Quando apontava a flecha à pequenina gazela, é surpreendida pelo sacerdote do Eremitério que o exorta a não matar o dócil animal. O Rei cede aos rogos do sacerdote, e este augura-lhe que será um dia, ele ou um filho seu, um Monarca Universal. Encantado com a formosura de Xacuntalá, o Rei resolve não sair do Eremitério. O Rei está maravilhado. As três amigas oferecem-lhe frutas e flores, bailam para seu recreio. Xacuntalá, sente que, no seu coração virginal, desperta, pela primeira vez, uma emoção desconhecida. Priamvadá revela-lhe que ela está apaixonada pelo Rei e diz-lhe que a forma de saber se o Rei está também apaixonado por ela é fazer um estrofe. Xacuntalá escreve, com a ponta da unha, numa folha de lótus, a seguinte poesia, que Priamvadá dependura duma árvore:

“Não Sei
Que sente o teu coração
O meu
Ficou preso a ti
Da mesma maneira

Que aliança ao lodão
A Vanadassini
A Mangueira
Desde a hora
Em que te vi”

O Rei lê a poesia e declara que está apaixonado por Xacuntalá. Para penhor da sua constância, dá-lhe o seu anel que é um talismã e tem o poder mágico.

O rei casou com Xacuntalá segundo o rito védico, para o qual nada mais era preciso que a vontade mútua dos nubentes. Xacuntalá é feliz. As suas companheiras participam da sua ventura. Decorrem suaves as horas no Eremitério. Ao despontar do sol, rezam à Súria a oração da manhã. O rei pinta o retrato de Xacuntalá. Um mensageiro, porém, da Corte, vem, inesperadamente, chamar o Rei da parte da sua mãe para celebrar o jejum em comemoração dos antepassados. O rei hesita ente as solicitações imperiosas do seu coração e o cumprimento do dever sagrado com os antepassados. O rei parte para a corte. Xacuntalá sofre rudemente com este afastamento. Entretanto Durvassa, um Rixi, austero, de ânimo duro, vingativo e colérico, visita o Eremitério. Xacuntalá é abismada na sua mágoa, não cumpre os deveres de hospitalidade com Durvassa. O severo Rixi, irritado por esta falta de atenção, lança uma maldição sobre Xacuntalá.

Vai passando o tempo. E o Rei, que prometeu dar notícias suas dentro de três dias, não voltou nem recado manda. Xacuntalá julga-se abandonada e fina-se de sanidade. Vestiu-se de luto. Sente-se morrer... Impetra Suriá a que não abandone nesse transe aflitivo. As amigas consultam um Vidente e este revela que Xacuntalá concebeu do Rei um filho que trará um estigma de soberania. Ele será um Monarca Universal. Mestre Cannvá não tardará a regressar do Eremitério. As duas companheiras e Gautami, a superiora do Eremitério, vivem numa dolorosa ansiedade, na perspectiva de que Mestre Cannvá se irritará com o sucedido. Gautami anda rabugenta, mal-humorada, e imputa, injustamente, às duas amigas de Xacuntalá que viria a ser um dia uma Rainha. Mas quando lhe revelam que o Rei não voltou há quatro luas, sente-se contrariado. Recorda-se, então, que um infortúnio haveria que ser sofrido por Xacuntalá. Priamvadá informa-o de que Durvassa veio ao Eremitério e que Xacuntalá, preocupada com a partida do Rei para a corte, não cumpriu os deveres de hospitalidade com o rigoroso asceta. Cannvá reconhece que era esse o infortúnio que pesava sobre o destino de Xacuntalá. E a hora solene de sacrificar o Fogo. Procedem, no altar ao rito sagrado. O Sacerdote impetra Agni para que esconjure o malefício de Durvassa e resgate Xacuntalá de maldição. Cannvá tira um bom pronuncio da forma como corre a cerimónia e resolve ir à corte entregar Xacuntalá ao Rei. Xacuntalá despede-se comovidamente do Eremitério. Partem todos para o Palácio. Mas, no caminho, o Xacuntalá perde o anel que o Rei lhe deu.

O Rei não reconhece Xacuntalá. Esquece por completo dos dias passados com ela. Como um riternello fatídico, ouve-se, de vez em quando, a Canção da Abelha

“Abelha, abelha
Como és volúvel!
Depressa esqueces
A pobre flor
Que te deu o mel
Do seu amor

Abelha, abelha
Como és volúvel
Como o amor.”

Porém, um dia chega à Corte um pescador com o anel perdido, que ele achara no ventre dum peixe. Volta a memória do Rei do tempo passado no Eremitério em companhia da meiga Xacuntalá. O Rei manda chamá-la à sua presença e pede-lhe mil desculpas pela perda da memória e aceita-a como Rainha, no meio de estrondosa festa.

Wednesday, 18 May 2011

Evágrio Jorge - Bocage (1966)

Festejou-se, em 5 de Setembro do ano findo, o segundo centenário do nascimento de Bocage, grande figura da literatura portuguesa do século XVIII.

Na sua obra há de tudo: odes, canções, sonetos, apólogos. Epigramas, poesias comovidas e versos fesceninos, atribuindo-se também ao seu feitio picaresco todas as anedotas de que há memória, com sabor picante. Os seus sonetos são maravilhosas peças literárias.

O facto passou despercebido neste meio, que só há cinco anos, se libertou do jugo português. Mas o jugo politico é uma coisa e outra o intercâmbio cultural, a que todos os povos devem aspirar, para maior aproximação da humanidade e a realização do ideal de um Mundo Unido (One World).

Acresce a circuntância de Bocage ter pisado este solo, de ter estado entre nós dois anos e pico e de ter deixado anotadas observações picantes a respeito das mazelas da sociedade goesa de então.

Notas biográficas

Nascido em 1765, filho dum português e duma francesa, Manuel Maria Barbosa du Bocage cedo manifestou propensão às letras. Findo o ensino secundário, assentou praça no regimento de infantaria de Setúbal, sua cidade natal. Em Setembro de 1783 teve passagem para a armada real na classe de guarda-marinha e ingressou na Academia Real de Marinha de Lisboa.

É na capital portuguesa que começa a granjear fama como poeta, principalmente pelos seus imprevistos. A sua tendência para a sátira e o seu espírito irrequieto trazem-lhe os primeiros desgostos.

Em 14 de Abril de 1786, Bocage embarca para a Índia na nau Nossa Senhora da Vida, nomeado Guarda-Marinha para o Estado da Índia. Não se sabe porque se teria abalançado a essa viagem pelo Oriente, se pelo desejo de imitar Camões e de evocar glórias que inspiraram os Lusíadas ou se por ser um simples espírito aventureiro. O certo é que deixou o país e com ele a sua bem-amada Gertrúria:

Deixar, amado bem, teu rosto lindo

Teus afagos deixar, tua candura

Tanto me oprime, que da morte escura

Sobre mim negras sombras vem caindo.

Podemos ter alguma ideia dos seus anseios por estes versos:

... Um vivo ardor de nome, e fama

À nova região me atrae, me chama

Os mares vou talhar, cujos furores

Descreve o gran cantor...

Quer a sorte, propicia a meu desejo

Manda-me a Honra, cujas aras beijo,

Que como férvido brio

Contemple os muros da invencível Diu.

Nos climas, onde mais do que na história

Vive dos Alburquerques a memória;

Vou ver se acaso a meu destino agrada

Dar me vida feliz, ou morte honrada. 

A nau em que viajava atracou, de passagem, no Rio de Janeiro, onde o governador recebeu-o com grande afabilidade e apresentou-o à melhor sociedade. Durante as poucas semanas que lá esteve, captou simpatias, insinuou-se, prendeu corações.

Gana aos mestiços 
A 29 de Outubro, aporta a Goa – terra da Índia que captara a sua imaginação e que bem cedo lhe traria grandes desilusões. É que Bocage veio encontrar aqui uma sociedade estratificada em uma variedade de castas, não só as castas seculares da gente da terra (com quem aliás parece não ter entrado em contacto), mas a prosápia dos mestiços e dos reinóis que, mal postos os pés na Índia, tratavam de passar por fidalgos.

Em uma dúzia de sonetos que compôs sobre o assunto, Bocage fala de dificuldade insuperável de

Exterminar de Goa a senhoria 
Vou reproduzir em seguida dois sonetos deste género, dos mais virulentos (parece que o poeta tinha gana somente ao mestiço):

Das terras a pior tu és, ó Goa

Tu pareces mais ermo, que cidade;

Mas alojas em ti maior vaidade

Que Londres, que Paris, ou que Lisboa!

A chusma de teus ínculas pregoa


Que excede o grão Senhor na qualidade;

Indo quer senhoria; o próprio frade

Alega, para ter lá, a justiça da c’roa!


De timbres prenhe estás, mas ouro e prata

Em cruzes, com que dantes te benzias

Foge a teus infanções de bolsa chata


Oh que feliz e esplêndida serias

Se algum fusco Merlim, que faz bagata

Te albarcasse a pardaus as senhorias!


Lusos heróis, cadáveres cediços

Erguei-vos dentre o pó, sombras hauradas

Surgi, vinde exercer as mãos mirradas

Nestes vis, nestes cães, nestes mestiços!


Vinde salvar destes pardais castiços

As searas de arroz, por vós ganhadas;

Mas ah! Poupei-lhes as filhas delicadas

Que elas culpa não têm, têm mil feitiços;

De pavor ante vós no chão se deite

Tanto fusco rajá, tanto nababo,

E as vossas ordens trémulo respeite:


Vão para as várzeas, leve-os o Diabo:

Andem como os avós, sem mais enfeite

Que o langotim, diâmetro do rabo 


Bocage residiu em Goa vinte e oito meses. Matriculou-se, por duas vezes na Aula Real da Marinha, mas viu se forçado a interromper a frequência, de uma vezes em razão duma doença grave, ocasionada pelos excessos de beber e fumar.

Quando se restabeleceu dessa letal doença, ficou soçobrado com a notícia chamada Conspiração dos Pintos, a primeira tentativa de revolta dos goeses contra o domínio português, com o fim de expulsar os europeus e estabelecer uma república constitucional. Essa revolta devia deflagrar a 10 de Agosto de 1787, mas foi abafada a tempo devido à denúncia e defecção de alguns.

Eis como Bocage, na Epístola a Josino, descreve o perigo a que esteve exposto – ele e a sua guarnição:

Ah Josino fiel! Que horror faz guerra

Aos tristes olhos meus nestes lugares,

Onde me pôs a Sorte, onde me encerra!


Sem medo à fúria dos terríveis mares

Vim do culto, benéfico ocidente

Viver com tigres, habitar palmares.


Aqui tórrida zona abafa a gente,

Ferve o clima, arde o ar e eu o não sinto,

Que tu, fogo de Amor, és mais ardente;


Aqui vago em perpétuo labirinto

Sempre em risco de ver o maligno braço

No próprio sangue meu banhado e tinto;


Mas caso dos perigos eu não faço

E é que posso temer, quando procura

Rasgar da frágil vida o ténue laço?


Uma alma infame, um bárbaro inimigo

Da fé, das leis, do trono, um desumano

Credor de eterno, de infernal castigo


Tendo embebido seu furor insano

Na falsa gente brâmane inquieta,

Que amaldiçoa o jugo lusitano,


Contra nós apontava a mortal seta:

E já destes, oh réus de atroz maldade,

Em vis teatros o final suspiro


Eis, amigo, a recente novidade,

Que da remota Goa ao Tejo envio

Nas murchas, débeis asas da saudade.

No idílio Nereida, Bocage diz-nos que entrou em combate nas alturas de Chaúl. Seria em virtude destes serviços prestados que foi promovido a tenente de infantaria para o regimento da Praça de Damão, aonde parte a 14 de Março e chega a [missing] de Abril de 1789. Passados dois dias apenas, ausenta-se pela porta do campo, com o alferes Manuel José Dionísio, com destino a Macau.

Quais seriam os motivos dessa deserção?

Pelos modos, vários.


Decadência de Goa

Logo no princípio, vê a decadência de Goa, da sua pristina glória:

Por terra jaz o empório de Oriente

Que do rígido Afonso o ferro, o raio

Ao gran filho ganhou do gran Sabayo

Envergonhando o deus armipotente:


Caiu Goa, terror antigamente,

Do naire vão, do pérfido malaio,

De bárbaras nações!... Ah! Que desmaio

Apaga o márcio ardor da lusa gente?


Os séculos d’heróis! Dias de glória?

Varões excelsos, que apesar da morte

Viveis na tradição, viveis na história!


Albuquerque terrível, Castro forte,

Meneses, e outros mil, vossa memória

Vinga as injúras, que nos faz a sorte. 

Não teria achado em Goa a Índia dos seus sonhos, de um lado uma terra assimilada, aportuguesada, cristã, com uma sociedade homogénea como a de Portugal, e de outro, bárbaro pais, bárbaras gentes com quem dissera iria trocar do Tejo a margem deleitosa.

A sua posição subalterna de simples Guarda-Madrinha tê-lo-ia conservado longe da sociedade rigidamente hierarquizada do tempo – brâmanes, chardós, mestiços e reinóis. É como, a cada passo, fustiga:

Tens várias casas, armazéns de ratos,

Tens febres, mordexins em demasia,

De que escapamos a poder de tratos:


Mas a tua pior epidemia,

O mal, quem em todos dá, que produz flatos,

É a vã, a negregada senhora. 

Essa torrente de versos mordazes sobre os habitantes de Goa tornaram-no odiado por quase todos. E as suas setas não pouparam ninguém. O próprio Governador, D. Frederico Guilherme de Sousa foi ferido no poema erótico A Mantegui. A referência era a uma senhora de Damão, filha de francês e de mestiça, D. Ana Jacques Mondotegui, apelido este que Bocage por eufonia transformou em Montegui. Bem prendada, gentil e bela, esta senhora possuía admiradores e apaixonados. Entre eles contavam-se o Governador e o poeta Bocage, que lhe dedicou alguns versos.

Exaltado e impaciente, faltava-lhe preparação e pachorra para estudar a fundo a religião, a cultura, os usos e costumes do povo indiano. Daí versos como estes da citada Epistola a Josino:

Enche-me, sim, de horror o culto impuro

Ídolos vãos, sacrílegos altares,

Vis ceremónias deste povo escuro.


Eterno Deus! Não longe de teus lares

Tépida nuvem de maldito incenso,

Dado ao negro Satã, perturba os ares


Que intolerância tens, monarca imenso!

Por mais crimes, senhor, que o mundo faça,

Tudo releva teu amor intenso


Deus, ah desce dos céus, potente graça

Difunde a santa luz, a santa crença

Pelos cegos mortais, que o erro enlaça! 



O nosso clima quente, trazendo no seu encalço várias doenças, como febres e mordexins, tê-lo-ia aborrecido até ao extremo, sobretudo depois da grave enfermidade de que dá assim conta ao seu Josino:


Volto, Josino, a ti, letal doença,

Do báratro surgiu, veio intimar-me

A antiga, universal, cruel sentença:


Negras fauces abriu para tragar-me,

Porém cedeu, rugindo, à voz divina

Quem a vida, a meu pesar, quis conservar-se. 



A sua amada 
A nostalgia teria também asfixiado a sua alma de romântico. Na sua debandada à Índia, teria talvez intervindo o cálculo de melhorar a sua sorte e desposar Gertrúria, sua primeira paixão. Na epístola que lhe dirigiu declarou com franqueza:

Vim, só por me fazer de ti mais digno,

A climas, do meu clima tão remotos. 


No soneto que lhe dedica ao partir para a Índia declara:

Com todo o seu poder não pode a sorte

Tua imagem riscar desta alma aflita!

Mas cedo entra a desconfiança no seu espírito atribulado:

O Terra! Oh Céu! Mentiram-me os brilhantes

Olhos seus, onde achei suave abrigo;

Quão fáceis de enganar são os amantes! 


Num outro soneto é ainda mais claro:

Inda em meu frágil coração fumega

A cinza desse fogo em que ele ardia;

A memoria da tua aleivosia

Meu sossego inda aqui dessassossega. 



No seu coração arde a chama da Dúvida e do Ciúme:


Vê-se arder, fumegar sulfúreo lume

Que estrondo! Que pavor! Que abismo infando

Mortais, não é o inferno, é o Ciúme!

Mas eis aqui um sonho puro:

Sonhei que nos meus braços inclinado

Teu rosto encantador, Gertrúria, via;

Que mil ávidos beijos me sofria

Teu níveo colo, para os mais sagrado.


Sonhei que era feliz por ser ousado

Que o sizo, a força, a voz, a cor perdia

Num êxtase suave, em que bebia

O néctar nem por Jove inda lidado:


Mas no mais doce, no melhor momento,

Exalando um suspiro de ternura

Acorda, acho-te só no pensamento:


Oh destino cruel! Oh sorte escura!

Que nem me dure um vão contentamento!

Que nem me dure em sonhos a ventura! 



E logo outra vez a dúvida:


Receio que, por minha adversidade,

Novo amante sagaz e lisonjeiro

Macule de teus votos a lealdade:


Ah! Crê, bela Gertrúria, que o primeiro

Dia, em que eu chore a tua variedade,

Será da minha vida o derradeiro


Eu deliro, Gertrúria, eu desespero

No inferno de suspeitas e temores.

Eu da morte as angústias e os horrores

Por mil vezes sem morrer tolero;


Pelo céu, por teus olhos te assevero

Que ferve esta alma em cândidos amores;

Longe o prazer de ilícitos favores!

Quero o teu coração, mais nada quero.


Ah! Não sejas também qual é comigo

A cega divindade, a sorte dura,

A vária deusa, que me nega abrigo!


Tudo perdi; mas valha-me a ternura.

Amor me valha, e pague-me contigo

“Os roubos, que me fez a má ventura” 


Quem era essa Gertrúria? Gertrúria é alteração de Gertrudes, primeiro nome de D. Gertrudes Homem de Noronha Eça, filha do coronel de infantaria João Homem da Cunha de Eça, Governador da Torre do Outão, em Setúbal.

Teria Gertrúria permanecido fiel ao poeta, que a colocara firme no nicho do seu coração desde os primeiros momentos em que lá entrou, durante a sua viagem à Índia e à China e até o seu regresso à pátria?

Antes de responder a esta pergunta crucial, ouçamos mais um soneto pungente de Bocage:

Do Mandovi na margem reclinado

Chorei debalde minha negra sina,

Quel o mísero vate de Corina

Nas tomitanas praias desterrado:


Mais duro fez ali meu duro fado

Da vil calúnia a língua viperina;

Até que nos mares da longínqua China

Fui por bravos tufões arremessado:


Atassalhou-me a serpe, que devora

Tantos mil, perseguiu-me o grã gigante

Que no terrível promontório mora;


Por bárbaros sertões, gemi vagante;

Falta-me inda o pior, falta-me agora

Ver Gertrúria nos braços doutro amante! 


E assim aconteceu. Quando em 1790 regressou de Macau a Portugal, com grande vontade de abraçar os parentes e os amigos e, acima de tudo, tornar a ver a sua Gertrúria, fica ferido por um golpe fundo ao saber que Gertrúria o trocara pelo irmão Gil, formado em leis em Coimbra, e que o seu próprio pai acariciara este enlace!

Esta tripla traição desnorteia-o por completo. Vagueia ao acaso, dorme nas celas dos conventos ou em quartos dos amigos. Outras amantes vão entrando no seu coração: Marília, Armia, Anália, Márcia, sei lá! Torna-se a alma de Lisboa, conquista um auditório que o ouve com simpatia e arroubos, publica o primeiro volume das suas Rimas, é convidado a fazer parte da Academia das Belas Letras ou Nova Arcádia.

A par de admiradores cria também adversários graças aos seus versos satíricos. Estes aproveitam das ideias novas de liberdade que sopravam da França e de que o poeta era franco partidário, para o encarcerar. A epístola Parvorosa Ilusão da Eternidade serviu-lhes de pretexto. Passou-se isto a 10 de Agosto de 1797.

Os anos de prisão fizeram-lhe bem. Acalmaram um pouco a excitação nervosa, o génio impetuoso, e proporcionaram-lhe tempo para lidar com livros valiosos e doutos trades (sic). Depois de sair do cárcere, foi tratar da sua irmã Maria Francisca, desamparada dos seus, tornando-se um verdadeiro chefe de família.

E a 21 de Dezembro de 1805, pelas 10 horas e um quarto da manha fechava os olhos à existência este poeta assombroso que tomara o grande Camões como modelo:

Camões, grande Camões, quão semelhante

Acho teu fado ao meu, quando os cotejo!

Igual causa nos fez, perdendo o Tejo,

Arrostar c’o sacrilégio gigante:


Como tu, junto ao Ganges sussurante,

Da penúria cruel no horror me vejo;

Como tu, gostos vãos, que em vão desejo

Também carpindo estou, saudoso amante:


Ludíbrio, como tu, da sorte dura,

Meu fim demando ao céu pela certeza

De que só terei paz na sepultura:


Modelo meu tu és... Mas, oh tristeza!

Se te imito nos transes da ventura,

Não te imito nos dons da natureza. 



É desta envergadura o poeta português, a que presto hoje a minha homenagem.

Saturday, 12 February 2011

A Minha Primeira Composição – Premchand (tradução de Evágrio Jorge, 1968)

Ao tempo eu tinha cerca de treze anos de idade. Não sabia hindi, tinha uma paixão pelas novelas em urdu. Maulana Sharar, Pandit Ratan Nath Sarsber, Mirza Ruswa, Maulvi Mohamad Ali de Hardoi eram os romancistas populares da época. Todas as vezes que tivesse à mão quaisquer obras suas, esquecia completamente os assuntos da escola e não descansava sem que as lesse de capa a capa. Naqueles tempos as novelas de Reynold estavam muito em voga e suas traduções em urdu eram publicadas em sucessivas edições e vendiam-se como bolos quentes. Também estas eram da minha predilecção. O saudoso Hazrat Ryas, um poeta de renome que faleceu há pouco, traduzira uma novela de Reynolds sob o título de “Haram Sara”, enquanto o director do seminário de Lucknow, ‘Oudh Punch’, um dos imortais entre os humoristas indianos – Maulana Sajad Hussain – traduzira outra novela de Reynolds com o título “Shokha ou Tilasmi Fanus”. Li todos estes livros naqueles dias. Nunca fiquei enfastiado com Ratan Nath Sarshar, embora tivesse acabado de ler todas as suas novelas.

Naqueles tempos meu pai vivia em Gorakhpur, onde eu frequentava a sétima classe, ou terceiro ano como era então conhecido, da Escola Missionária local. Havia um livreiro de nome Buddhilal, em Reti. Costumava frequentar a sua livraria e ler as novelas do seu depósito. Mas como não podia sentar lá todo o dia, levava cópias de “Chaves” aos textos em inglês e de “Notas” e vendia-se entre os estudantes da minha escola. Em compensação por este trabalho, o livreiro deixava-me levar para casa as novelas que quisesse ler. Quando acabasse com a colecção de novelas da livraria lia as traduções da “Purana” publicadas por Nowal Kishore Press bem como vários volumes de “Tilssmi Hoshruba” – um volume grosso de contos românticos. Até então estavam publicadas dezassete deles, e cada um não tinha menos de duas mil páginas de grande formato. Além destes dezassete volumes lera não poucos daqueles volumes que haviam sido publicados em outras ocasiões. Pode-se concluir daqui quão fértil era a imaginação do autor. Diz-se que estes contos tinham sido escritos por Maulana Faizi em língua persa para a diversão de Akbar. Quanto disto era verdade, ninguém poderá dizer. Talvez em nenhuma outra língua existirá uma obra tão grandiosa. É uma verdadeira enciclopédia. Mesmo que alguém tivesse de tirar uma cópia durante o período duma vida inteira de trêira (sic) vintenas de anos, ele não o poderia fazer. Quanto mais difícil não teria sido a sua composição?

Naquela época um tio dum parente meu costumava visitar-nos frequentemente. Embora estivesse avançado na idade, continuava solteiro. Possuía uma pequena herdade e uma casa, mas sem mulher essas coisas não tinham valor para ele, e por isso não tinha apego a elas. Visitava todos os parentes na esperança de que eles lhe arranjariam uma consorte. E para esse fim estava sempre pronto a gastar cem ou duzentas rupias. Era de facto de surpreender que não se tivesse casado, pois tinha um físico vigoroso, bigodes compridos, estatura média e compleição trigueira. Tinha o vício de fumar cânhamo, donde os seus olhos eram invariavelmente vermelhos. Era religioso à sua maneira. Fazia oblação de água a Xiva todos os dias, e abstinha-se de comer peixe ou carne de galinha.

Até que enfim caiu na esparrela em que os solteiros geralmente caem. Foi vitima dos raios Cupido, disparados dos olhos duma “chamar” (fara zoa), que costumava fazer bolos de bosta em casa, dar água e palha aos bois e fazer outros trabalhos desta natureza. Era jovem e traquinas e como as mulheres da sua classe, também duma face sorridente e de natureza divertida. Era o caso dum porco querer ser um modelo de beleza! O seu coração sedento tropeçou no momento em que viu o caudal de água doce. Logo, no meio, duma conversação, começou a brincar com ela. Ela não levou tempo para compreender as suas intenções, pois não era tão simplória. Passou a ser “coquette” a arranjar o seu cabelo com mais óleo, mesmo que fosse de gergelim, lustrar os seus olhos com coltrio e pintar os seus lábios. Entrou mais lassidão no seu trabalho. Por vezes ela simplesmente entrava em casa por um momento e saia logo, ou lançava um olhar sobre ele numa tarde e desaparecia. O resultado era que ele tinha que tratar dos bois e fazer outros trabalhos. Porque sentia que não podia afoitar-se a incomodá-la. Até que afinal nascera amor no seu coração. Pela festa de Holi, de acordo com o hábito, ele tinha que lhe oferecer um presente, mas este ano, deu-lhe um bonito sari de rico material e mais dispendioso, e uma espórtula quatro vezes maior. As coisas foram tão longe que praticamente a criada tornou-se dona de casa.

Uma tarde os “Chamars” reuniram o seu “panchayat”. Os sócios não temiam o tio do meu parente só porque ele era mais rico ou influente do que eles. Pois, o que eles ressentiam era o flagrante contraste entre a conduta de seu pai, que nunca olhara a uma mulher na sua vida (o que de resto não era verdade), e a sua, pois ele olhava desavergonhadamente às mulheres da classe servil. Eles acharam que a persuasão não daria resultado. E esperavam, ao contrário, que ele criasse alguma situação séria. Acharam que podiam corrigir tudo duma pancada. Decidiram por isso ensinar-lhe uma lição que não pudesse esquecer por toda a vida. As questões de honra só podem derimidas (sic – ser redimidas?) com sangue mas o castigo também pode arrumar e arruma-os até certo ponto.

No dia seguinte, à tarde, quanto Champá, a criada, entrou na casa, ele fechou a porta do quarto interior.

Os “Chamars” que esperavam por uma oportunidade destas, começaram a bater à porta exterior. Ao principio ele pensou que talvez, um seu manducar tivesse vindo vê-lo e, achando a porta fechada, tivesse ido embora. Mas quando ouviu o barulho feito pela multidão ficou perplexo. Olhou pelo buraco da chave e viu cerca de vinte ou vinte cinco “Chamars”, arrumados de pais, procurando forçar a porta. Que fazer? Não havia forma de fugir, nem de esconder Champá. Compreendeu que teria de fazer face a dificuldades. Não esperava que a sua amante havia de procurar uma situação destas tão cedo, aliás seria cauteloso, em oferecer a sua coração a ela. Pelo seu turno, Campa picava-o dizendo: “De qualquer forma o Sr. não tem muito a perder, é a minha honra que ficará manchada. A minha gente não me deixará viva. Pedi-lhe com mãos postas para não fechar a porta. Mas o Sr. estava tomado de paixão. O Sr. está de facto, bem servido, porque sujou a própria cara”.

Pobre tio! Ele nunca havia experimentado uma coisa destas. Se no seu lugar estivesse um perito no jogo, havia de deparar com cento e um expedientes para se sair da dificuldade. Mas ele ficou completamente atrapalhado. Ficou no pátio interno recitar as suas escrituras.

Fora da porta m murmurinho foi crescendo até que a aldeia se reuniu aí. O brâmane, o thakur, o kayasta todos vieram ver a força e dar uma boa tareia no delinquente. O que podia ser mais engraçado de que descobrir um homem e uma mulher fechados num quarto juntos! E por mais humilde ou altamente colocado que um homem fosse, o público não perdoaria. Foi chamado o carpinteiro, aberta a porta com instrumentos e o tio, depois de uma busca foi achado no depósito de palha. Champá foi vista de pé no pátio interno, a gritar. Logo que se abriu a porta, ela correu e bom correr. Ninguém lhe disse uma palavra sequer. Mas aonde podia o tio correr? Ele sabia muito bem que não havia saída para aí. Preparou-se por isso para receber qualquer castigo que lhe fosse infligido. E teve um castigo exemplar! Todo o instrumento a que se pudesse lançar mão – sobreiro, paus, sapatos, murros, pontapés – foi utilizado até que enfim caiu estatelado e eles, tomando-o por morto, deixaram-no só. Mesmo que sobrevivesse, arguiram ele não poderia continuar a viver na aldeia porque a sua herdade passaria para a posse doutra pessoa.

A notícia deste infeliz acontecimento chegou-nos nas asas do boato. E eu saboreei-o imensamente. Dei uma gargalhada estrondosa quando procurei imaginar a cara do tio enquanto era sovado pelos aldeões.

Por cerca de um mês, bebeu, para tratamento, uma mistura de melaço e açafrão. E logo que pôde andar, veio ter-se connosco porque queria instaurar na nossa cidade um processo crime contra os seus coaldeanos pelo assalto de que fora vítima.

Se apresentasse algum arrependimento ou humildade, talvez me simpatizasse com ele, mas era tão vaidoso como sempre. Ameaçou informar o meu pai acerca do meu apego por novelas e por teatro como para me ameaçar – uma coisa que não podia aturar. Porque agora tinha factos seguros contra o seu carácter.

Enfim, um dia, incorporei tudo quanto sucedera ao pobre diabo num drama que mais tarde li aos meus amigos. Todos eles sorriram a valer quando ouviram. Senti-me encorajado. Tirei uma cópia dele e deixando-a debaixo do chumaço do tio, fui à escola. Estava meio divertido e meio receoso na minha própria mente. Estava curioso de saber que o meu tio diria depois de ler o drama. Por isso, aquele dia, o meu coração não estava nos meus livros, mas em casa. Logo que terminou a escola segui para casa. Mas quando cheguei perto hesitei. Receei que o meu tio me desse bordoada. Mas estava seguro de uma coisa – que não me daria senão uma bofetada, pois não era dos tais que toleravam estas coisas.

Mas imaginem! O tio não estava lá na cama onde costumava estirar as suas pernas. Teria ido dentro de casa? Olhei pelo quarto mas só reinava silêncio lá. Não havia indício dos seus sapatos, roupa e trouxa. Perguntei aos membros da família e fui informado que o tio regressou à sua casa, sem tomar refeição, para um assunto urgente...

Saí dai e dei rigorosa busca ao quarto para desencantar o meu primeiro drama e minha primeira composição mas não pude achá-la em parte alguma. Não sei se o tio lançou-o ao fogo ou levou consigo ao céu!