Monday, 29 October 2012

Telo de Mascarenhas - Advogados e Solicitadores (1975)

Todas as tardes, por volta das seis, José Gregório fazia o caminho da estação para casa, de regresso de Margão, e costumava parar no balcão de Carlos Manoel para dar dois dedos de conversa ao amigo, com novidades frescas colhidas no botequim de David Camilo ou na sala de espera da gare do caminho de ferro e, às vezes, quando dispunha de tempo, para uma partida de xadrez.

José Gregório era vizinho de Carlos Manoel, e ambos, quase da mesma idade, tinham cursado o Liceu juntos. Feito o exame para advogado, e obtida a provisão, José Gregório abrira banca em Margão. Todos os dias ia ele com a pasta atulhada de papeis de demandista, tomar o comboio, na sua via-sacra quotidiana, para o escritório e para o tribunal. Arguto e hábil, de olhos vivos armados de óculos de grossas lentes faiscantes, tinha criado uma razoável clientela, alem da que herdara do pai, que fora um advogado consciencioso e honesto. Jogando habilmente os artigos do Código como jogava as pedras do xadrez, engrolava os juízes, novatos na profissão e desconhecedores das tricas e dos costumes forenses da terra, e conseguia fazer vingar as causas que lhe eram confiadas.

“Imagina tu, Carlos Manoel”, dizia ele uma tarde ao seu parceiro do xadrez, referindo-se aos Licenciados, oficiais do mesmo ofício, “aqueles senhores, lá por terem cursado Direito na Universidade fazem alarde do seu título de Doutor e pretendem saber mais do que nós, com o nosso simples exame de advogado”

“Não admira que assim seja, José Gregório”, observou Carlos Manoel. “Também nós, os médicos, com o nosso curso da Escola Médica de Goa, de via reduzida, no dizer do Dr. Brito Camacho, não podemos competir com os diplomados pelas Faculdades de Medicina”.

“Ora, bolas! Eu só queria ver a figura que fariam esses senhores togados, de enorme prosápia, perante os nossos grandes advogados doutros tempos, com o mesmo exame que nós, como o Avertano, Bruto da Costa, Lourencinho e outros, que mereceram louvores dos grandes mestres do Direito.”

“Esses, sim. Foram grandes advogados e podiam ombrear com os luminares do foro, em qualquer parte. Mas hoje em dia, sem desprimor para si, José Gregório, não temos nem grandes advogados nem grandes causas”

“Tens razão, Carlos Manoel. Concordo, plenamente, contigo. Infelizmente assim é. Nós, agora, vivemos de migalhas e não passamos de cepa torta. É sina nossa”

Rosália veio servir o chá, e José Gregório levantou-se muito cerimoniosamente, para a cumprimentar. Continuaram a jogar, até que Carlos Manoel, movimentando a rainha, deu cheque-mate no rei do parceiro, e disse: “Por hoje, basta. Já tens a tua conta, José Gregório”.

“Ora veja, minha senhora”, disse José Gregório, dirigindo-se à Rosália, “Veja como um médico descamba um advogado no xadrez e dizem que nós é que somos chicaneiros”.

“Bem dizem os ingleses – Lawyer is liar. Na língua que nós falamos não rima; mas deve ser verdade. A vossa chicana é mais de temer, porque pode levar à ruina os litigantes. Enquanto que a nossa, se chicana se pode chamar, é no inofensivo xadrez”.

Passaram a beber o chá louro e perfumado, que Rosália deitara nas chávenas.

“Na verdade, não há como mão de mulher para preparar um bom chá. Nós, os homens, somos desajeitados e sem gosto”, disse José Gregório, continuando a saborear a aromática bebida.

“Obrigada pelo elogio Sr. José Gregório”, disse Rosália, agradecendo.

Tomando o chá, José Gregório levantou-se para retirar, dizendo: “Agradecido pelo seu excelente chá, sra. D. Rosália. E agora, deixem-me ir, que devo ter gente em casa à minha espera. Não calculas, Carlos Manoel, como é espinhosa a profissão de advogado”.

“Espinhosa, sobretudo, para os teus clientes a quem tiras coiro e cabelo”.

“És dum sarcasmo mordaz, Carlos Manoel. O que vale é que não passa de boca”, disse ele sorrindo para o amigo e despediu-se; “Bem, até amanhã, à hora do costume”.

E lá se foi gingando, ajoujado, com a pasta atulhada de papeis de demandista.

Esperava-o, sentado no balcão, o procurador Belmiro, com dois clientes, para recorrer aos seus serviços para uma composição amigável numa disputa de limites, que o próprio solicitador suscitara e alentara com os seus conselhos tortuosos, esperando fazer disso uma mina de inconfessáveis proventos.

José Gregório era para o procurador Belmiro um advogado de recurso, de quem se valia para casos urgentes e embaraçosos, que não sabia solucionar, como aprendiz de feiticeiro que era, e por trabalhar por conta dum advogado de Margão.

“Então, Sr. Belmiro, que bico de obra temos nós hoje?” perguntou-lhe o advogado.

“Coisa de nada, Sr. José Gregório. Estes meus clientes querem ouvir a sua opinião para se resolver uma disputa sobre limites”.

“A minha opinião em casos desses só posso dá-la após prévia vistoria ao local. Mas a hora é imprópria”, disse José Gregório.

“Se o Sr. José Gregório não se importasse, podíamos ir lá agora, que é muito pertinho daqui. É que, um dos meus clientes retira-se amanhã para Bombaim”.


E como o caso de esbulho era patente, a disputa foi prontamente solucionada, comprometendo-se o esbulhador a corrigir a extrema.





O procurador Belmiro para se dar ares de pessoa atarefada, sentado sob alpendre de olas entrelaçados da sua casa, que fazia de escritório e servindo-se duma velha Remington, quase desconjuntada, desatava a escrever a toda a gente aquilo que lha dava na real gana – as autoridades civis, reclamando a destituição do regedor que não lhe fazia bom pêlo, dificultando-lhe as manigâncias: as autoridades eclesiásticas, suplicando-lhes a transferência do vigário, por denunciar nas suas práticas dominicais, os que não observavam o décimo mandamento: aos prováveis compradores de algum prédio à venda em hasta pública, apoucando-lhe o valor e o rendimento, para os afastar da concorrência, com o seu espírito de cambão inveterado, para compra-lo por tuta-e-mais.

O procurador Belmiro era uma espécie de gestor de negócios de defuntos e ausentes, mas mau prestador de contas. Para se furtar ao pagamento da renda de prédios que arrendava, desculpava-se alegando o desaparecimento do negociante do coco, sem lhe ter pago. Deixava relaxar as contribuições que eram de sua conta, para descontar na renda e procuradoria pelos serviços prestados para evitar a execução.

Ia assim aumentando a sua fazenda por artes de tricas e baldrocas, e engordando como um bom burguês, porque o seu sonho era ser também um batcará, como todos os grandes batcarás da terra e fazer-lhes sombra. Homem de poucas letras e algumas classes de inglês, metera ombros à vida com o fim de fazer rapidamente fortuna.

Um dia, um aldeão foi procurá-lo no seu “escritório” sob o alpendre, para lhe pedir um conselho. E como ele o tratasse por ‘Sr. Belmiro’, o solicitador abespinhou-se e disse-lhe:

“Dobre a língua, seu begarim, e trate-me por Sr. Doutor, porque eu sei muito mais de leis do que muitos advogados que por aí pululam, quase tanto como os Licenciados – esses senhores de grande prosápia que, quando peroram nos tribunais, vestem túnica negra, como se lhes tivesse morrido a avó torta. Forte danação! Sem aqueles charlatães, que bem que eu teria governado a vida! Não tenho grandes estudos, é certo; mas a manha e a chicana são o meu segredo:.

O pobre homem ouviu em silêncio e a pé firme a longa objurgatória do procurador Belmiro, sem lhe atinar o sentido. Mas quando compreendeu o sentido da expressão “governado a vida”, fez meia-volta e safou-se, apressadamente, com receio de que o solicitador mal-humorado o despojasse das úncias duas rupias que levava atadas na ponta do lenço, sob o pretexto de lhe ter dado um bom conselho.

Aljube, Janeiro de 1961

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