Monday, 29 October 2012

Telo de Mascarenhas - O Tesouro Oculto (1975)

Findo o curso do Liceu, nas férias grandes, Dona Leocádia foi com o filho visitar a família de Luís Bernardo, parentes afastados que Carlos Manuel não conhecia ainda. E ao ver Rosália, de rosto oval de madona, dum moreno doirado, emoldurado de bandós negros, olhos vivos e expressivos, airosa e grácil, exuberante, sorridente e vibrante como uma corda tensa de violino, um doce enleio se apoderou do seu coração. Sentiu-se diante dela confuso e acanhado como um colegial. E os olhares furtivos de Carlos Manuel foram mais expressivos do que o mais belo poema lírico.

Quando estudante do Liceu Carlos Manuel fora um romântico impenitente; mas os primeiros rebates sentimentais da sua adolescência não tinham deixado vestígios nem causado danos ao seu coração.

Naquele primeiro encontro ele manteve-se distante e discreto sem deixar transparente o sentimento que lhe agitava a alma. Mas ela que, com o seu sexto sentido de mulher, adivinhara ter causado nele certo alvoroço, não se deu por achada e tratou-o com calma deferência e simulada indiferença, como se trata um parente de cerimónia.

Havia muito que as duas famílias não se visitavam. Mas agora que Carlos Manuel estava quase um homem, com dezoito anos feitos, precisava de conviver, de conhecer a parentela, de sair da concha em que sempre tinha vivido, e impunha-se à Dona Leocádia o dever de o apresentar aos parentes, e não fazer dele um ser esquivo e insociável como um animal bravio.

“Que curso vais fazer, Carlos Manuel? Com certeza não vais ficar só com o Liceu”, perguntou Dona Ubélia.

“Nesta terra onde não há muito por onde escolher, minha tia, só se pode ser Médico-Cirurgião ou então Adv., quero dizer, advogado provisionário, como toda a gente. Eu optei pela medicina, que para chicana não tenho jeito”, disse Carlos Manuel.

“É uma bela profissão para minorar o mal alheio”, observou Dona Ubélia.

“Eu estou a precisar dum médico na parentela para me curar dos meus achaques”, gracejou Luís Bernardo.

Rosália descera ao jardim, como era seu costume todas as manhãs, para colher flores de jasmim que, como minúsculos flocos de neve, salpicavam as moitas de jasmineiros junto do muro. Enfiava-as em grinalda com que enfeitava o cabelo apartado ao meio e apanhado atrás em carapito frouxo descaído na nuca, que lhe dava um ar langoroso e sonhador das heroínas dos contos de amor.

Carlos Manuel lhe dissera quando, no dia anterior, ela lhe aparecera com aquele penteado gracioso, circundado da enfiada de jasmina, como uma aureola: “Fica-lhe admiravelmente, bem esse penteado, Rosália. Por momentos tive a impressão de que eras uma figura animada dos frescos de Ajanta, caminhando para mim”.

Rosália sorrira e agradecera-lha, lisonjeada o galanteio.

Carlos Manuel desceu atrás dela ao jardim e disse-lhe: “Shakuntalá, no ermitério da floresta, devia ser como Rosália, amiga das flores e da natureza. E foi breve o seu idílio com o rei Dachanta. Também para mim chegou o momento de partir. O rei dera à filha adoptiva do eremita, como recordação, um anel com o seu nome gravado. E o quê me vais dar, Rosália, para eu me lembrar de si?”, perguntou-lhe Carlos Manuel.

“Nada mais lhe posso dar que valha tanto para mim como esta rosa, símbolo do meu nome e da minha afeição por si. Mas as rosas tem a vida efémera duma manhã e a sua lembrança morrerá com ela, certamente, e se esquecera de mim”, disse Rosália, pesarosa.

“Creia que, longe ou perto a sua imagem viverá sempre no meu coração e no meu pensamento”, asseverou Carlos Manuel.

“Com tempo veremos”, disse Rosália, com lágrimas na voz.

Dona Leocádia assomou à varanda e lembrou ao filho que eram horas de se porem a caminho. E a iminência da separação veio angustiar ainda mais os dois corações e interromper o breve idílio junto do jasmineiro.

Foi dolorosa a separação para os dois corações que mal preludiavam a eterna canção de amor. E Rosália sentiu pela primeira vez na sua vida, uma imensa dor no coração como se um punhal de indizível saudade o tivesse trespassado, traiçoeiramente. Perdera a habitual alegria de viver e andava triste e suspirosa, alheada e distante, gemendo em solilóquio: “Quando viras tu, quando?”.

A mãe perguntou-lhe um dia: “O que tens tu, menina, que andas a suspirar pelos cantos, como uma viúva?”.

“Não tenho nada, mãe. Então, o que é que eu havia de ter?”.

“Parece que ficaste com pena de não teres ido com a prima Leocádia”, disse Isabel, a irmã mais nova, em tom malicioso, olhando-a de soslaio, enquanto bordavam.

“Cala-te, minha pateta. Tu, que pareces que não partes um prato, sais-te com cada uma!” repreendeu Rosália com um sorriso triste.

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