Tuesday, 22 January 2013

MSM - A Professora (n.d)

Tlim... Tlim... Tlim...

Ana, ainda tonta de sono, ouviu o som do despertador que a acordava todos os dias.

Que ruído seria aquele? Parecia um barulho longínquo, qualquer som que lhe chegava, amortecido e suave aos ouvidos.

Mas já estava desperta agora e tomava consciência do que a cercava. Uma aguda sensação de monotonia e solidão apertou-lhe o coração. “Meu Deus!” -pensou Ana – Sempre a mesma coisa!” O despertador acordava-a, ela levantava-se, vestia-se, tomava o café e ia para a escola. Voltava, almoçava, descansava um bocadinho e tornava a ir. O trabalho acabava às 6 horas. Depois lia até a hora do jantar, e, logo depois ia para a cama; e era sempre a mesma coisa; não havia nada, nenhum facto que viesse modificar este programa tão igual.

Ana levantou-se, rezou e abriu a janela do quarto; a brisa matinal acariciou-lhe as faces e uma frescura agradável agitou-a. Encostou-se ao vão da janela e deixou-se ficar assim quieta.

O jardim da casa, ao lado, estava cheio de flores: uma sinfonia de cores que era um encanto para os olhos e um deleite para a alma – lindos cravos brancos e vermelhas, perpétuas brancas e lilases e, em volta, muito bem podados, arbustos de ganné-fulam, carregados de cachos de flores brancas que exalavam o seu cheiro forte e característico.

Uma aragem suave agitou as plantas e as olas dos coqueiros que estavam perto e, a acompanhar este quadro tão rico de cores, a música suave dos passarinhos, uns exprimindo mágoas sentidas outros alegrias exuberantes.

Ana, porém, a nenhuma destas tentativas e encantadoras manifestações da natureza ligava atenção. Recordações pungentes que ela sempre fazia por esquecer, assaltaram-na naquele momento.

Lembrou-se da tia, com quem vivera desde a morte dos pais, o que acontecera quando ela tinha apenas 3 anos. Era uma senhora rígida e fria, para quem os carinhos e gentilezas eram coisas absolutamente desnecessárias. Quando Ana cresceu, a tia lançou-lhe uma vez à cara o pão que ela lhe dava. Mas a órfã sabia que o pai lhe deixara meios suficientes para viver e respondeu com firmeza e dignidade: “Se a tia não me quer em sua casa, eu vou-me embora; eu sei que o meu querido pai me deixou o necessário para viver”.

Mas isto não convinha à má mulher, pois ela beneficiava dos rendimentos da órfã. Respondeu que não era conveniente que a sobrinha saísse da sua casa e aqui acabou o incidente.


Ana tornou-se assim retraída e taciturna. Na escola as colegas admiravam a sua inteligência brilhante, e ela ajudava-as no que podia. Ana tinha sede de ternura e ansiava por dedicar a alguém os sentimentos que entesourava no coração. Pensava ser professora. Amaria os seus alunos e eles compensá-la-iam do abandono que sofrera na vida.

Mas um dia tudo mudou. Ana tinha então 18 anos e estava no último ano do curso. Numa festa de escola conhecera um rapaz que se mostrara enamorado dela. Ana que era prudente por natureza e se tornara quase desconfiada com os desgostos por que passara, desta vez deixara-se prender. Para ela, coitada, aquele sentimento era a luz no meio da sua triste vida; mas depressa a luz apagou-se, deixando-a mais triste e só. Aquele homem abandonara-a esquecendo todas as promessas que lhe fizera.

Para Ana foi um choque terrível. No entanto corajosamente continuou a estudar, passou o exame final, sendo a primeira do curso, e foi leccionar para uma aldeia do interior.

Este episódio deixara-lhe funda marca na alma. A desilusão como que lhe endurecera o coração. Tudo a deixava indiferente, os alunos respeitavam-na e ela contentava-se com lhes ensinar as lições; não podia procurar-lhes a alma porque ela própria se sentia um corpo sem alma.

Ana despertou bruscamente do seu devaneio. Sacudiu a cabeça como que a afugentar inoportunas lembranças e correu a vestir-se, tomou à pressa uma chávena de café e precipitou-se para a escola. Gostava de chegar mais cedo para arrumar as coisas e receber os alunos, mas nesse dia chegou à hora.

Começaram as lições. Ana, enquanto fazia o ditado, costumava andar entre as filas das carteiras; e nesse dia, a certa altura, reparou que uma rapariguita, a Francisca, estava a chorar. Ana geralmente fingia que não via qualquer sinal de dor nos seus alunos para não ter de os consolar. Mas nesse dia, levada por não se sabe por que força, aproximou-se da Francisca e perguntou-lhe: “Que é que te aconteceu?” A pobrezinha, chorando mais violentamente, disse: “A minha mãe... a minha pobre mãe está muito doente,” Ana comoveu-se, depois de muitos anos, as lágrimas vieram-lhe aos olhos perante aquela sincera manifestação de dor e murmurou: “Não te aflijas, minha filha, a tua mãe há-de melhorar”, e fez-lhe uma festinha na cara.

Os alunos olhavam-na admirados, pois tinham-se acostumado às maneiras calmas e indiferentes da sua professora.

Para Ana aquele simples acontecimento foi uma mensagem. Quebrou-se o dique que lhe continha as emoções; compreendera que o sofrimento existe para todos e nós não nos devemos deixar vencer por ele, mas vencê-lo.

Compreendeu sobretudo a verdade destas singelas palavras: “A felicidade é um perfume; quando derramamos sobre as pessoas que nos rodeiam, algumas gotas dele também nos salpicam.”

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