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Tuesday, 22 January 2013

RV Pandit - Presença Divina (1968)

Nós, os homens
O mundo não vemos
Duma só vez.

Vemo-lo em trechos...
Parcialmente,
Vemo-lo quando muito
Na extensão duma milha
Tão fraca é a nossa visão.
Nem lunetas, nem telescópios
Podem ajudar a nossa visão fraca.

Vai o homem à estratosfera
Mas não vê claro

Se o homem pudesse ver
Ao mesmo tempo
Tudo o que passa
Por todo o mundo...

Nos picos dos Himalaias
Nas selvas da África
Nos fundos dos mares
De Norte a Sul
Do Oriente a Ocidente...

Só então...
O Homem teria
Uma visão fugaz de Deus!

Wednesday, 5 December 2012

RV Pandit - O Meu Lar (1969)

O fogo é para fogão
Assim sou para a minha casa

Hoje.. aqui
Amanhã acolá
Depois de amanhã?
Deus sabe onde!

Em toda a parte
Onde as cinco essências
Da minha vitalidade
Florescem...

Lá...
Seja dentro do quatro paredes
Seja numa cabana de olas
É o meu lar...

No momento
Em que o pavão da minha mente
Poisa no ramo, no telhado
Onde canta, dança e ri...
A árvore, a canção, a toada
É o meu lar.

Entre o céu e a terra
É o meu lar.

Onde eu estou
Rindo, chorando, iludido
É o meu lar.

Deitei-me fora
É um fogão sem fogo.

Sunday, 7 October 2012

Versos de RV Pandit (1963)

“O Meu Rico Amigo”

O meu corpo
É despido
De roupas...

E
São farrapos
As poucas roupas
Que visto.

Não me despreza,
Por isso.
Pela Pobreza
Das minhas roupas.

O sol me veste
Com tecidos de oiro...
E a Lua
Com tecidos de seda
Cor de pérola...

De cobrir o corpo
Dia e noite
Com tais tecidos
Deus me deu
A grande fortuna!

Deus me deu
E só a mim,
Não se esqueça.

“Um faísca só”

A lâmpada
Está
Cheia de azeite...

O pavio
Imerso no azeite...

Está
Tudo pronto
Para receber a Luz.

Mas...

Entre o azeite
E o pavio
Falta a faísca
Que os há de incendiar
Escuridão em toda a parte

Assim
Entre o corpo social
E o pavio do seu coração
Para humanizar a sociedade
Falta só uma faísca

Sem ele...
Nunca haverá luz

Tradução do original concani por Mucunda Quelecar.

Mucunda Quelecar - Um Acontecimento no Mundo Literário de Goa (1968)


Viram a luz da publicidade, no dia 25 do corrente mês, cinco livros de poesias do poeta goês, RV Pandit.

Exprimir em palavras o que o génio dum poeta sentiu e traduziu na sua linguagem é talvez uma das tarefas mais difíceis que há; “é preciso ser-se um Milton” diz-se. Para apreciar o poeta RV Pandit não tenho senão uma qualidade: é ser goês e amar Goa como ele.

O sr. Pandit escreveu os versos não tendo em mira a publicidade, mas simplesmente para o desabafo do seu temperamento de artista, extremamente sensível ao mundo que o rodeia. Ele acalentou durou dez anos essas manifestações que traduziam a sua alma de poeta. Acontecimentos posteriores fizeram com que o poeta achasse necessário e oportuno que os seus versos saíssem à luz da publicidade!

Os cincos livros do poeta RV Pandit marcam uma época na vida da literatura e pensamento goeses. Em si, esses livros representam uma revolução na vida goesa. O sr. RV Pandit é um goês no mais íntimo das suas fibras e quando ele fala, é Goa que fala pela sua boca.

O sr. Pandit identifica-se com tudo o que Goa possui. Não há objecto, forma ou feição que lhe tenha escapado. É admirável a sua penetração em todos os detalhes da vida goesa. Tal penetração só é possível a quem ama entranhadamente a sua terra.

O sr. Pandit é goês e é revolucionário. Os seus versos atestam o facto de que ele atravessa todas as convenções literárias e sociais para atingir a verdade latente em que se vê.

No prefácio a um dos livros “Ailem toshem gailem” (I sang as it came, Eu canto como me apraz) diz o poeta laureado Baqui Borcar: o poeta Pandit, ao contrário doutro poetas não respeita a tradição. Quando eu li os versos de Pandit fiquei perdido numa floresta mas quando avancei fiquei encantado com a majestade natural dela. Essa era a voz do aborígene goês que até hoje não tivera uma oportunidade de se exprimir.

Lembrei-me de Walt Whitman, os versos de Pandit tem um estro, uma imaginação, uma revolta, uma ironia e uma tendência marcada para o sublime”.

Uma característica desse poeta é o seu anseio pela justiça social e o seu humanitarismo.

Outro livro seu aparece sob o título “Mogem Utor Gaudiachem (A Mminha fala dum Gaudó). O autor está tão identificado com a vida dum gaudó que ele exprime tudo o que essa entidade goesa representa. O gaudó é filho da terra, a sua base de sustenção.

Mas a sociedade não o considera, e todavia ele é imortal e passa por todas as vicissitudes sociais sem se alterar.

Sou um gaúdo – diz o poeta. Os outros são grande gente, mas eu sou um gaudó desprezível. Mas há uma coisa em mim. Podeis esmagar-me! Mas não fico pulverizado. Sou o mesmo homem, hoje e amanhã.”

Falando dele diz outro poeta goês Dr. Manohar Sar Dessai: “RV Pandit fala a linguagem dum gaudó. Ele é o filho aborígene de Goa. Goa tem passado por vários regimes políticos, várias mudanças económicas, mas o gaudó tem-se conservado firme. Ele é a base da nossa sociedade. Tem uma vitalidade inexaurível.”

Outros três livros são: Uitalem tem rup dhartalem (Form that will remain), Dharturechem Kavan (Song of the Earth) e Chandraval (Phases of the Moon). Todos esses cinco livros representam o génio versátil e polifacetada do artista e poeta que é o sr. RV Pandit.

Eles não só assentaram um marco miliário na literatura goesa na sua língua mas quando a língua de Goa for reconhecida no mundo, haverá para a nossa terra um prémio internacional.

Monday, 24 September 2012

Monday, 10 September 2012

RV Pandit - O Inverno (1969)

Já vou...
Já vou...

Cra... Cra... Cra...
Dispersando as nuvens
Espalhando pela terra
Pérolas e jóias
Vou montando
No cavalo luminoso
Da faísca

Demorar quatro meses
Sobre a terra
Germinar sementes
Dar vida nova
À terra ressequida

A riqueza, na Terra oculta
Multiplicar...
Para a fazer sorrir
Faço chorar o firmamento.
Sou o inverno.

Cra... Cra... Cra...
Choco nuvens de néctar
Bátegas de néctar
Por toda a terra
Até que a plantazinha
Da várzea
Mande o arroz
Para os celeiros,

O meu estrondo
Começado em Junho
Vai até Setembro

Trago comigo
A eterna bênção divina

Já vou
Já vou.

Wednesday, 22 August 2012

RV Pandit - Casa, Minha Casa! (1963)

Que é uma casa?
A casa é...
Um caixão de quatro paredes,
Onde o homem,
Desde que nasceu
Até o último estertor da morte,
Enclausurado fica.

É casa isto?
Não. É uma gaiola...

Um papagaio,
Atreito à sua gaiola,
Não voando em liberdade...

Não voando de ramo a ramo,
De árvore a árvore
De mato a mato...
Não voando para parte alguma,
Girando em volta da gaiola...
Palrando...

Mesmo assim,
Seria
Somente
Um papagaio na gaiola.

Mas... o papagaio
Voa em liberdade
O passado esquecendo,
Se, por acaso, encontra
Aberta a portinha da gaiola...

Mas, o homem...
Desde que nasceu
Até a morte,
Gira somente
Dentro das quatro paredes
Da sua gaiola
Palrando
“Casa... minha casa...”

Até a morte.

Monday, 16 July 2012

RV Pandit - A Lua (1963)

Lua,
Teu brilho suave
Torna doido o meu Animo,
Mas o teu amor
Inconstante?

Lua cheia
Um encanto!
Mas dias depois…
Um touro bravo
Com chifres em riste…

Lua,
Tu és bela e boa
Em tudo,
Menos uma coisa...

Na inconstância
Do teu amor.

Thursday, 14 June 2012

RV Pandit - O Sangue do Escravo (1962)

Era uma festa dos vermelhos,
À qual assistiram
Todos os vermelhos do mundo:
O vermelho perfumado da flor,
O vermelho áureo do céu matutino,
O vermelho do arco-íris
E o vermelho do rio turvo,

O vermelho dos dedos pintados,
O vermelho flamante da gravata,
O vermelho dos lábios “abolim”,
O corar da virgem casta,

O vermelho sanguíneo do poder insolente,
O vermelho róseo do nascer da liberdade,
O vermelho sufocante da luta nacional
E todos os vermelhos do mundo...

Mas, quando a festa começou...
Um vermelho infeliz foi visto num canto:
Era a cor do sangue dum escravo algemado.

Tradução de Mucunda Quelecar

Saturday, 19 May 2012

RV Pandit - A Chuva (1968)

Vem ó chuva
Trepidando
Em torrentes

Veio a chuva
Inundou os campos
Correu pelos campos
Dessedentou a terra
Germinou as sementes
Reviveu a várzea
Plantazinhas cresceram
Lavradores alegraram

Refreia-te um pouco, ó chuva
Deixa endurecer o lago
Aurear a espiga

O ouro entrarão em casa
Os lavradores comerão

Comerão os lavradores?
Como? Antes que levem
À boca a côdea
Virão demónios. Virão agentes
Para cobrar as dívidas
Do ano presente e do ano passado
De muitos anos atrás
Contas escritas em velhos livros
Compensação de três gerações

A várzea inundada
No tempo dos Ranes
Colheita perdida

Antes de saldar a conta
Outra inundação
Outra dívida
Dívida e juros

O meu avô morto
Antes de pagamento

Juros de dívida
E dívida de juros
Nos livros de contas do batcará

Caíram em peso
Sobre o peito do meu pai
E o mataram...

Antes que os juros daquela dívida
Rendessem mais juros
E incidissem sobre mim

O bisavó, o avô e o pai
Do batcará, já eram mortos

Hoje
Morreram todos os antepessados
Meus e os do meu batcará
Mas os livros de contas
De três gerações
Estão seguramente guardados
Nos cofres do batcará

Naqueles livros
Dívida e juros
Juros, de juros de dívida
Tem criado uma grande confusão
Um montão de dívidas
Nos livros do batcará

O agente do batcará
Ficará à minha porta
Ao tempo de colheita
Com uma longa folha de contas
Para arrecadar tudo
Arroz e palha
Os agentes levarão tudo
De que é que os lavradores viverão?
De que viverão os lavradores?
Se antes, os demónios
Tudo levarão?
Hão de partir tudo
Levar tudo...

Festa em casa do batcará
Lamentações em nossa
E lágrimas quentes dos meus filhos
Na canja fria...

Chuva vem de novo
Encher a lagoa de batcará
Para vangana
E chuva, vem
Vem na minha várzea
Só uma vez, meu amigo,
Para comigo chorar!

Thursday, 5 April 2012

RV Pandit - Uma Faísca Só (n.d.)

A lâmpada
Está
Cheia de azeite...

O pavio
Imerso no azeite...

Está
Tudo pronto
Para receber a luz.

Mas...

Entre o azeite 
E o pavio
Falta a faísca
Que os há de incendiar
Escuridão em toda a parte

Assim
Entre o corpo social
E o pavio do seu coração
Para humanizar a sociedade
Falta só uma faísca
Sem ela...
Nunca haverá luz!

Traduzidos do original concani por Mucunda Quelecar.

RV Pandit - Ó Meu Rico Amigo (n.d.)

O meu corpo
É despido
De roupas…

E
São farrapos
As poucas roupas
Que visto.

Não me despreze,
Por isso,
Pela pobreza
Das minhas roupas.

O sol me veste
Com tecido de oiro...
E a Lua
Com tecidos de seda
Cor de pérola...

De cobrir o corpo
Dia e noite
Com tais tecidos
Deus me deu
A grande fortuna!

Deus ma deu
E só a mim,
Não se esqueça.

Traduzido do original concani por Mucunda Quelecar

Friday, 9 March 2012

RV Pandit - Dois Poemas sobre Mahatma Gandhi (1968)

“Terra Imortal”

Terra
Onde os caminhos
Ensopados em sangue
Os corações ardendo
Em tormentos…

A humanidade
Aprodrecendo
No lodo da escravidão
Em cada casa…

Ali, naquela terra
Nasceu um Mahatma…
Mar de amor e de caridade
Que, do íntimo do seu coração
Deu o néctar a vida imortal
Os ensinamentos
Da verdade, caridade
Amor e dedicação
Que fez reviver
Milhões de cadáveres
Resurgir
Da pobreza e do inferno...

BEM a alto conservando
O estandarte da Liberdade
COMO o sândalo
Exaurindo-se
O prestígio da liberdade
Do trabalho, da abnegação
Exemplificando...

Sim, sim
É dele
Esta terra imortal...

“Terra Infeliz”

O santo
Cuja vida
Foi um sacrifício
Que nutriu
O amor da terra...
Cuja luz
Iluminou
Os quatro cantos da terra...

A cegueira, a ignorância
A arrogância e a falta da fé
A teimosia e a brutalidade
Fez verter o seu sangue
Nessa terra
Ai!... 

É a mesma terra infeliz!

Friday, 13 January 2012

RV Pandit - Um Novo Coração (1968)

Um rico
Uma vez
Depositou o seu coração
Num banco
Juntamente com o dinheiro

E...
Desde então
Ela anda
Com o livro de cheques
Em vez do coração.

RV Pandit - Um Desastre (1969)

Morreu hoje um homem,
Irmão de oito irmãs
Sobrinho único de três tios
Tio de dúzias de sobrinhos
Filho único dos pais
Neto único de dois avós
Primo cunhado de muitos
Luz de duas grandes famílias!

O seu nascimento
Foi uma grande festa.
Criado e alimentado
Com extremo carinho
Amado de todos
Grande esperança
Grande menino.

Herdeiro de grandes bens
Muito instruído.
Quanto dinheiro gasto
Na sua iniciação
No seu casamento
Livros, viagens
Vestuário, medicamentos...
Despesa imensa!

Consumiu
Vitaminas
Frutas e vegetais
Leite, manteiga, carne
Iguarias saborosas
Em toneladas...
O seu corpo
Forte e gordo.

A sua força
Para que serviu?
Nunca ele a usou
Pela sua terra
Pelos seus irmãos
Nunca e nunca...
Nunca gastou
Uma gota de sangue
Por alguém.


Tratou com muito desvelo

O seu corpo

Lindo vestuário

Perfumes caros

Óleos, e pomadas,

Mas nunca serviu...

Ninguém.



Hoje esse montão de carne

De cento e cinquenta e oito

Libras

Jaz... inerte!

Em vão as milhares de rupias

Que se gastaram

Na sua manutenção!



Muitas casas se levantariam

Com o dinheiro que se gastou

Nesse homem

Escolas, hospitais, livrarias

E centros culturais

Centenas de pobres e órfãos

Teriam amparo e instrução



Mas não...

Gastou-se o dinheiro

Nesse homem preguiçoso, inútil

Uma vida sem sentido



Numa terra pobre

Como o BHARAT

Quanto dinheiro, viveres, roupa

Gastos em vão?



Gastou-se em vão

Neste montão de cento e cinquenta e oito libras

E em troca

Ele nada deu

Absolutamente nada

Nada a si

Nem aos outros.

Viveu tantos anos

E afinal... hoje

Morreu

Em vão... em vão.



Irmãos, desculpai

Com o coração largo

Esse corpo inerte,

Mas não vertei lágrimas

Guardai-as

Para outro homem de valor.



Esse homem que hoje morreu

Não faz falta ao mundo

Pelo contrário

É um a menos

Dentre os quatrocentos crores

Um peso a menos

Sobre a Terra.



Morreu um homem, sim?

Realmente?

Pois é um grande desastre

Morreu um homem?

Pois parece-me

Ele deve ser eu mesmo!!!

Tuesday, 6 December 2011

RV Pandit - Cada Gota do Teu Sangue (1968)

Os inimigos
Da liberdade
Disparam
Contra o teu coração?
Para te tirar a vida?

Faz do teu coração
Um escudo
Sê doido
E avança
Pela liberdade.

As balas
Entram
No teu corpo?

Ai! Meu irmão
Não faças caso
Avança
Até cair
Pela Liberdade!

Jorra teu sangue
Pela terra?
Ai! Meu Deus.
Não importa
Avança sempre
Até a morte
Pela liberdade.

Cada gota do teu sangue...
Pela terra esparzida
Pedira
O sangue
Das gerações
Que virão atrás...

Pedirá sempre
Por séculos
Vigilante
No caminho
Da Liberdade

Cada gota
Do teu sangue
Trará brilho...
A bandeira, tricolor
Brilhará
No caminho
Da liberdade

E pedirá
Gotas do teu sangue,
Quente,
A terra
Os rios... de lágrimas
As flores
Te comemorarão
Por séculos
No caminho
Da liberdade.

Faz do teu peito
Um escudo
E avança
No caminho
Da liberdade
Pela liberdade!

Friday, 7 October 2011

Thursday, 29 September 2011

RV Pandit - Cantei (1969)

Não olhas para as linhas
Dos meus versos
Nem para as palavras
Olhe para o seu sentido
Olhe para o quadro
E não a confusão das linhas

O artista traça linhas
Diversas, diferentes…
Verticais, obliquas, horizontais
Aproximadas, afastadas
Longas, curtas
Entrelaçadas…
Larga no meio espaço branco
Linhas paralelas, linhas divergentes,
Linhas convergentes, escuras
Umas dando relevo, outras sombra
Linhas negras, fundo branco
Linhas brancas, fundo negro...

É assim o quadro da vida humana
Sobre o fundo branco da existência
Linhas de prazeres e dores
Esperanças e desesperos
Amor e ódio
Bondade e inveja
Linhas de formas diversas
Brilhantes e escuras
Todas juntas perfazem o quadro
Da vida humana
O fundo da existência não importa...
As linhas dão sombra e relevo
Profundidade, largura, altura
Beleza e fealdade
Às duas dimensões do quadro
Dão a ilusão da terceira dimensão
Ao quadro de vida e morte
A ilusão de vida eterna
E, o que é importante,
Dão o sentido à vida...

Mas, o papel só não é quadro
Nem as cores, nem as linhas
As variedades de linhas não são quadro
Nem sombra, nem relevo
A confusão, labirinto de linhas, não é quadro
Nem é quadro a ilusão que
Essas coisas produzem

O quadro é tudo no conjunto
Assim é a minha canção.
A minha canção é o quadro
Da minha vida
Da minha vida relacionada
À dos meus amigos e inimigos
Tirai as linhas da canção
Ficarei “Eu”
Tirai a influência dos “Outros”
Será um Erro
Refinai as palavras
Ficará um resíduo
Das minhas palavras

Tirai a minha alma
A minha vida e a minha
Relação com o mundo,
Desaparecerá a minha poesia da minha canção
Ficará o pó das palavras
Leitor, a minha canção
É esquisita, extravagante
Minhas palavras, teu sentido
Meu espelho, tua imagem,
Ou vice versa
Eis a minha canção...

Minha cadência, tues tons,
Meu prazer, tua dor,
Meu ódio, teu amor
Meu pincel, tuas cores
Ou vice versa
Eis a minha canção

Nessa canção vê
Teu retrato, minha imagem
O tecido delicado da vida
Luz e sombra da Alma
Ou vice versa...

Mas se tu deitar fora
A tua simpatia
Para comigo
A poesia desaparecerá
Ficará somente... o papel
Um papel borrado, sujo
De se deitar fora!

Wednesday, 14 September 2011

RV Pandit - Espiga (1962)


A espiga
Abana a cabeça?
Diz: não, não?
Nada receis.

Há-de recusar
Pouco tempo...
E depois
Há-de vergar

Há-de vergar
E cair
No regaço
De alguém

E depois?

Há-de dançar
Na peneira
Banhar na volli
E rir
Na panela

E depois...

Há-de entrar
Voluntariamente
No corpo de alguém
Para lhe matar a fome!!

Alfredo Bragança - O grande poeta RV Pandit (1968)

Alguns dias depois da estrondosa aclamação que R.V. Pandit, o poeta festejado de Goa, recebeu com uma condecoração honorífica das Filipinas, passo a falar dele no que mais me impressionou na sua poesia de alto recorte literário.

R.V. Pandit, autor de quatro livros em inglês e sete em Konkani, tendo também deixado gravados os seus pensamentos em artigos em marata e inglês focando temas de actualidade social e cultural. Redigiu com proficiência a revista marata Bharati em 1953. Obteve o grau de Bacharelato, e apesar de ser estudante de ciências, bem cedo revelou o seu pendor pelas letras. Já versejava em inglês aos 15 anos. Divulgou ao depois os seus poemas em marata. Porém, só mais tarde sob a mais profunda influência dos grandes pensadores como Tagore e Kakasaheb Kalelkar é que Pandit descobriu-se, e em 1954 principiou a dar expressão plástica aos sentimentos, pensamentos e anseios de grande poeta que é na nossa língua-mãe Konkani.

RV Pandit é, sem sombra de dúvida, um “grande” poeta. É grande porque é autor de muitas obras? Não. É grande porque os seus poemas foram vertidos para hindi, kanada, inglês e português ou porque escreveu em algumas delas? Não. Pandit é grande porque é pequeno. E ser pequeno é inteirar-se dos sentimentos e anseios dos pequenos, amá-los a pugnar pelos mesmos.

A paz que o “Gauddó” procura em vão através das longínquas Nações Unidas, como se patenteia no seu poemeto “Hanv Ek Ihan Munis” (Sou um Homem Pequeno) ou a tranquilidade interna que ele próprio anseia, só pode consegui-los no bem-estar dos pequenos. No mesmo poemeto volta a bater na mesma tecla: não obstante toda a sorte de correntes e esforços para nivelar as diferenças, tudo se condensa na diferença principal – de o opressor contra o oprimido. Dum lado, os arranha-céus, e doutro os “zhopddis” da Índia, os “slums” da Inglaterra, os “ghettos” da América e as “favelas” do Brasil.

Tudo isto indica que o Pandit não está a sonhar na Torre de Marfim, nem tão pouco a inspirar-se nos livros. Ele é grande porque é formado pela Universidade da Vida. Como poeta ele penetra no âmago da vida dos pobrezinhos, sente o seu coração palpitar pelos humildes que bradam pela codeia de duro pão. Refereindo-se ao poemeto “Hanv Ek Ihan Munis”, diz o Hugh McKinley que escreveu uma longa apreciação literária no “Athens Daily Post”, que o tal poemeto “actua como uma bomba napalm sobre as nossas ilusões e afastamento da responsabilidade activa”; e condensando a sua critica literária, acrescenta: ‘nos versos do Sr. Pandit temos uma expressão quente destes temas que criam a vida: o lar, a família, o amor conjugal, a ordem e a glória da natureza.”

A personalidade do R.V. Pandit cresce com raízes no solo. Ela cheira à terra vermelha. Os seus poemas são plantas regadas com o suor dos “gauddé.” O seu coração pulsa pelo sofrimento dos “Kunbis” e

(segue na 2a pagina)

Dos pobres campesinos. Ele vê tudo sob o prisma do realismo nu da existência. Mesmo a sua imaginação não libra voos como a dos bardos românticos. A sua imaginação é bem térrea. Eis o motivo por que a sua poesia é inspirada, em grande parte, na cultura folclórica de provérbios e superstições. Não só ele ausculta os sentimentos e pensamentos dos “gauddés”, mas identifica-se com eles ainda na expressão. A sua colectânea de poemas “Mujem Guit Gauddeanchem” é toda simplicidade, despida de ornamentos artificias. E a simplicidade é grandeza, escreveu algures o Victor Hugo. O Pandit canta noutro passo que a grandeza da palha reside no seu crescer por si mesmo à chuva e ao sol.

Quando vemos o “Bhatkar-Saukar”, sr. Pandit ao volante do seu carro e morando no Altinho, a primeira pergunta que nos aflora nos lábios: “É o mesmo Pandit que se identifica com os “gauddé”? Sim, “ecce homo”. Contudo Pandit não verseja na Torre de Marfim. Algumas vezes por semana, o Pandit vai comisturar-se com os seus co-aldeanos, a arraia-miúda em Palém de Siridão. Não se sente à vontade longe deles.

O amor aos humildes abarca toda a humanidade, e o apelo dos seus poemas é universal. Na sua cadência se sente o rítmico bater do coração que geme e sofre por uma dura côdea de pão. Eis o espírito de fraternidade que extende o seu círculo dum canto a outro do mundo:

“Tum ani Hanv,

Dogui bhav bhav,

Bhashek lagun

Dusman zaliat”

Noutro poema, “Hem Mhujem Ghor”, o espírito universitária de poeta canta “hoje e cá, amanhã lá, depois não sei onde”.

Os poemas de Garcia Lorca constituem uma tela em que se projecta fielmente o panorama da Espanha. Onde está a Espanha, lá está o imortal Lorca. Enquanto viver a Goan (Koncão) lá estará o Pandit sempre vivo na memória Pandit também pinta com palavras o cenário soberbo de riachos, mangueiras e coqueiros. Porém, não cantou como Lorca que a Morte é sombra da Vida, Lorca que morreu tragicamente na Guerra Civil da Espanha em 1936 com apenas 38 primaveras. Pandit conta hoje 50 anos.

A fé inabalável nos destinos da humanidade leva-o a arrancar os seguintes versos chamejantes cheios de visão profética:

“Aiz nam faleam

Tumkam amchi yad zatoli

...

Ami tumche bhavuch

Tumche prem korpi.

...

Ani tea dissa

Soglo sonsvar – hem ek rashtr

Sogle rong, kelle gore,

Hanchi ekutch zat – mnnis zat

Ekuch dhorm – mnnis dhorm

Oxem tumkam distolem –

Tea dissachi hanv vatt polle tam”

Outro poema em que anuncia que tudo se faz por Deus, rescende à grinalda de Tagore a Deus enquanto noutro passo o poeta não deixa de se insurgir contra o formalismos, como no-lo atesta “Fatrachi Puza” (Adoração à Pedra). Acho que devia lançar ao limbo de obscuridade poucas poesias de pouco quilate como “Mudoi” (O Capital de Amor) e “Nova Torecham Kalliz” (Nova Espécie de Coração). Porém, o seu verso livre é admirável, lembrando-nos sempre do insigne poeta da democracia Walt Whitman. Que mais poesias de povo venham à luz da pena dum dos poetas mais representativos de Goa de todos os tempos, R. V. Pandit.