Thursday, 29 September 2011

RV Pandit - Cantei (1969)

Não olhas para as linhas
Dos meus versos
Nem para as palavras
Olhe para o seu sentido
Olhe para o quadro
E não a confusão das linhas

O artista traça linhas
Diversas, diferentes…
Verticais, obliquas, horizontais
Aproximadas, afastadas
Longas, curtas
Entrelaçadas…
Larga no meio espaço branco
Linhas paralelas, linhas divergentes,
Linhas convergentes, escuras
Umas dando relevo, outras sombra
Linhas negras, fundo branco
Linhas brancas, fundo negro...

É assim o quadro da vida humana
Sobre o fundo branco da existência
Linhas de prazeres e dores
Esperanças e desesperos
Amor e ódio
Bondade e inveja
Linhas de formas diversas
Brilhantes e escuras
Todas juntas perfazem o quadro
Da vida humana
O fundo da existência não importa...
As linhas dão sombra e relevo
Profundidade, largura, altura
Beleza e fealdade
Às duas dimensões do quadro
Dão a ilusão da terceira dimensão
Ao quadro de vida e morte
A ilusão de vida eterna
E, o que é importante,
Dão o sentido à vida...

Mas, o papel só não é quadro
Nem as cores, nem as linhas
As variedades de linhas não são quadro
Nem sombra, nem relevo
A confusão, labirinto de linhas, não é quadro
Nem é quadro a ilusão que
Essas coisas produzem

O quadro é tudo no conjunto
Assim é a minha canção.
A minha canção é o quadro
Da minha vida
Da minha vida relacionada
À dos meus amigos e inimigos
Tirai as linhas da canção
Ficarei “Eu”
Tirai a influência dos “Outros”
Será um Erro
Refinai as palavras
Ficará um resíduo
Das minhas palavras

Tirai a minha alma
A minha vida e a minha
Relação com o mundo,
Desaparecerá a minha poesia da minha canção
Ficará o pó das palavras
Leitor, a minha canção
É esquisita, extravagante
Minhas palavras, teu sentido
Meu espelho, tua imagem,
Ou vice versa
Eis a minha canção...

Minha cadência, tues tons,
Meu prazer, tua dor,
Meu ódio, teu amor
Meu pincel, tuas cores
Ou vice versa
Eis a minha canção

Nessa canção vê
Teu retrato, minha imagem
O tecido delicado da vida
Luz e sombra da Alma
Ou vice versa...

Mas se tu deitar fora
A tua simpatia
Para comigo
A poesia desaparecerá
Ficará somente... o papel
Um papel borrado, sujo
De se deitar fora!

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