Friday, 16 September 2011

Mário Cabral e Sá - O baile (1962)

Chegou a hora. A hora das mensagens que se lêem nos olhos. Das palavras que se não falam. Um a um todos os convivas se levantam. Há despedidas. Os convites de convenção, “para o lanche, amanhã à tarde”. Há olhares que se desviam, outros que se cruzam e se fixam. Os papás mordem charutos e dão palmadinhas nas costas das meninas dos compadres. As meninas examinam os semblantes dos filhos casadoiros de outrem, inscrevem apontamentos, na sua mente, sobre o que viram e não viram e magicam artes de conquistar o José Olívio – novo, filho único, uma nada estrábico mas rico. Que mais se quer?... Se a Annette tem namoro? Que o desfaça. Amor e cabana, sim senhores, muito bonito, mas é para outra gente... Há os últimos apertos das mãos e a revolta dos insubmissos.

Levanta-te, “Balalaica”. Chegou a hora. Hoje tens trabalho. Há cadeiras por arrumar. O chão por limpar. Urinóis por desentupir. E talvez ainda haja para ti restos de comida e cerveja choca nos fundos dos copos, esquecidos por baixo das cadeiras.

Levanta-te, também tu. Bem sei que não pudeste dormir. Mas sai da cama. Agora ou nunca! O papel está na caixa, ao canto esquerdo da secretaria. A caneta na algibeira do paletó de teu pai. Deixa o selo, o sobrescrito e a direcção por minha conta.

“Não sei por onde começar. Mas já o deves adivinhar. Afinal...”

“Ontem, como sabes, houve baile. A mamã não atendeu a nenhuma das mil desculpas que havíamos inventado para que nessa noite, até que enfim, mais uma vez, umas horas juntos. Sós, em casa, enquanto os meus pais estivessem no baile. Absolutamente sós. Eu e tu... A mamã insistiu e o papá quase me bateu. Que era filha de gente de bem. Que esse baile podia decidir o meu futuro! Maldito baile e maldito o futuro que ele decidiu!

“Desde as cinco da manhã de hoje, estou noiva. Essa terrível desgraça que antecipávamos, enfim deu-se! À porta da saída, os meus pais e os pais do Albano discutiram os últimos pormenores. Depois, no carro, disseram-me que estava noiva. Que o “rapaz” era uma jóia de homem – apesar do cretinismo que abunda nas suas faces gordas de querubim vesgo em férias terrenas. Que o “rapaz” é rico. Que o “rapaz” é filho único. Que o “rapaz”... que o “rapaz”, mil vezes maldito, é o meu futuro marido.

“Não quero esforçar-me em imaginar as tuas reacções à esta carta. Se muito já sofro de pensar em ti daria em doida. Antes desse! Mas talvez ainda nos vejamos. Não sei. Mas quanto não daria eu – oh, se pudesse! – para que isso fosse possível. Mesmo que haja infernos nesta vida e noutra.

“Sei que poderia e deveria ser mais forte. Que tudo devia arriscar pelo amor que nos une e agora nos separa. Desculpa-me Victor. Fui fraca. Como naquela noite em em que melhor nos conhecêssemos... Tu és bom. Tu és um homem diferente dos outros homens. Por isso continuarei a ser tua.

Hoje como sempre.

Tua
Annette”

Pois bem, Victor, aqui tens a carta. Sou testemunha da tua mágoa. Do desmoronar dos edifícios de felicidade que havias arquitectado. Por isso, estarei presente na hora da tua reabilitação. Na vida vencem os insubmissos.

E tu, “Balalaica” continua a varrer. Limpo o pó e os vómitos no bacio. Procura a dona do fio de ouro que apanhaste preso à borda do cortinado. E isso que tens na mão e esticas e largas, como se fisga fosse, é uma liga com que as Senhoras prendem as meias à coxa. Deita-a no lixo ou brincas com ela se quiseres. Diverte-te à custa da Dama Nobre que se descuidou...

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