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Sunday, 2 November 2014

Leopoldo da Rocha - Caminhos de Luz por Alberto de Menezes Rodrigues (1963)

O autor, nosso distinto conterrâneo, publicou em 1958, em aprazível edição pela Tipografia Rangel, o livro acima intitulado, que mereceu louváveis referências do douto crítico Agostinho Veloso. Três novelas perfazem o livro e têm elas por título: “Almas plenas de sol”, “Vinde a mim” e “Audácia Vitoriosa”.

Numa época como a nossa, de sensibilidade muito esquisita, afeita a padrões de Hemingway, à análise introvertida de um Proust, à poesia em estado bruto que o realismo social como um Jorge Amado e, entre nós, Orlando da Costa tão bem exploraram, o género convencional de ‘bonitas’ histórias, simples, ingénuas, edificantes, muito bem construídas, são de molde a desagradar a certa casta de leitor.

Outros, como nós, amariam experiências ocasionais que este último tipo de leitura proporciona. Ao lermos livros como “Caminhos de Luz”, muita vez nos sentimos melhor, como que respirando um ar puro, da inocência dos campos, após uma alucinada digressão pela moderna cidade.

Monday, 15 July 2013

Agostinho Fernandes - Quadro Vivo (1955)

Um quadro vivo que parece raro porque é... clandestino. Recém-casados. Lar ideal. Ricos e felizes. Todos comentam: uma perene lua de mel.

Ele trabalha num escritório e ri-se: lembra-se do antigo namorado da sua esposa. Era efeminado, franzino e fora despedido quando este entrar em cena. Era uma vitoria. A primeira vitória. Não era, pois, verdade o que os seus colegas disseram. Não era idiota e gebo afinal. Até a mulher gostara... e casara. Agora ela só a ele amava, a ele, o marido. Este adorava-a. Idolatrava-a.

Ainda ontem ela dissera: vou ser mãe. Que satisfação. Que júbilo! Ele? Pai?! Morria de alegra!

Voltava sempre às Ave-Marias. Eram logo beijos e abraços... um nunca mais acabar.

Naquele dia pensou voltar cedo. Uma surpresa para a esposa adorada. Presentes. Chapéus. Perfumes, e umas rendazinhas para o bebé. Entrou como de costime, sem bater a quase desmaiou: ele conspurcando-lhe o sagrado tálamo nupcial. Ele, o efeminado, o que fora despedido!

Agostinho Fernandes - Haverá Vida no Sol?! (1955)

Ainda reinam controvérsias sobre o assunto. Contanto, é um facto mais ou menos assente: há possibilidades de existência de seres vivos no planeta Marte. Nada mais natural. Na verdade, como se pode admitir que de tantas planetas constituintes do sistema solar, de tantos astros conhecidos que pululam pelos espaços, e, de entre inúmeros que nem os mais poderosos aparelhos engendrados pelos cérebros humanos conseguem ver, ou sentir apenas, só o nosso planeta, seja habitado por seres vivos? Até parece um absurdo pensar que essa dádiva seja tão somente monopólio da Terra...

As mentes dos cientistas e investigadores ferveram e lá chegaram à conclusão de que havia possibilidades de vida no Marte... Mas, porque pensaram só no Marte? Com certeza porque é o planeta cujos condições, sob todos os pontos de vista, mais se aproxima das da Terra. Isto está bem se nós pensarmos na existência duma vida semelhante à nossa, mas, os restantes planetas podem ter seres vivos diferentes das no nosso, com outras necessidades, outras exigências...

Já é de todos sabido que os seres vivos tem um grande poder de adaptação. Vejamos o que se passa com esses seres ínfimos que nós chamamos bactérias. Tem a sua temperatura óptima onde proliferam maravilhosamente, mas estas mesmas bactérias podem viver a temperaturas mais altas ou mais baixas, desde que a passagem dum dado grau de calor ao outro seja gradual. Em resumo, acabam por se adaptar. Descobriu-se a penicilina e em voz alta declarou-se uma guerra fatal aos micróbios. A vitória durou pouco. Os nossos minúsculos inimigos tornaram-se resistentes a este prometedor antibiótico, isto é, adaptaram-se a ele...

Se, mesmo dentro do nosso planeta, a natureza dota os seres vivos de tão amplo espectro de adaptação, o que será em relação ao outro?...

O sistema solar é constituído de Mercúrio, Vénus, Terra, Marte, Júpiter, etc, girando todos em volta duma grande fonte calorífica que é o Sol... Alem de outras coisas, o qeu nos leva a duvidar da existência de vida noutros planetas são as largas diferenças de temperatura. Todos os planetas recebem o calor do Sol. É claro que o mais próximo dele receberá mais em relação ao seguinte. Como é que nós avaliamos este calor? Em relação ao calor da Terra. Quando dizemos que Vénus é mais quente, subentendemos que o é em comparação com a Terra. Da mesma forma, o Marte é menos quente.

Na Terra estamos habituados a ver seres que não resistem a um inframinimo e a um determinado inframaximo mas, lá por isso, não podemos dizer que Júpiter onde a temperatura não atinge o nosso mínimo, se no Vénus onde ela é superior a nosso máximo, não haja vida. A única coisa que podemos afirmar é que não pode haver seres vivos iguais aos da Terra.

O que dissemos da temperatura podemos agora generalizar para o resto. Assim, é possível, por mais absurdo que isso pareça, que nos planeta desprovidos de água haja seres vivos que possam viver sem ela, naqueles em que falta ai se viva na absoluta ignorância deste fluido e que na constituição física desta vida entrem elementos que nós ainda não conhecemos ou que não existem na terra e que lhes permitam adaptar ao meio em que vivem...

Quem sabe se há seres no estado líquido, se há seres voláteis ou em qualquer outro estado por nós ignorado?

O que pensarão de nós e do nosso planeta os possíveis habitantes desses mundos? Sabendo que a sua Ciência não excedeu a nossa, o mesmo problema misterioso que é hoje para nós sê-lo-á para eles também... Os seus cientistas devem estar a martelar a cabeça e os aparelhos para responder as perguntas: O “haverá vida noutros planetas?”, “haverá vida na Terra?”

O que dissemos dos planetas podemos prolongar até a miríade de astros, de próprio Sol onde a temperatura atinge cifras inacreditáveis... Quem sabe se no Sol não existem seres no estado gasoso?

Cedo ou tarde chegar-se-á à Lua... e ao Marte. O homem não descansará enquanto não ponha lá o pé... levará consigo tudo o que for preciso para se adaptar àquele meio... Não tardará muito que os demais planetas o tentam também... Também lá chegará...

...E qualquer dia, os nossos descendentes ainda ouvirão, no aeroporto interplanetário, diálogos como este:

- Adeus, querida. Trabalhos urgentes chamam-me a Platão. Espero que não me sejas infiel na ausência...

E a esposa algo comovida:

- Adeus, amado. Boa viagem e feliz regresso...

Ou então terão no jornal em letra minúscula como se fosse uma coisa vulgar... e os simpáticos noivos seguiram viagem ao Sul para lá gozarem a “lua de mel”...

- E lá haverá vida, diferente da nossa, não importa, mas haverá vida no Sol...

Tuesday, 21 May 2013

Agostinho Fernandes - Ladrão (1955)

Fora um galo anunciava a madrugada. Surgiu mais uma ideia: se fosse ao cofre do patrão? Havia lá tanto dinheiro que ele, com certeza, não daria pela falta de uma notinha de 5... Rounar?! Ele que até então fora dos mais honestos? Roubar ele?... Mas cinco rupias não empobreciam o patrão! Ele que apodrecia de rico!... Ladrão! – dizia-lhe uma voz lá dentro... Desistiu... O número 20338 tornou a aparecer... “Ele também rouba! Roubam todos!” Saiu decididamente da cama. A mulher ressonava. A coberta esburacada descobria-lhe os voluptuosos seios nus. Abre de mansinho a porta. O filho mais novo acorda e grita pela mãe... Não se importa com ele, sai. O tempo urge, a escuridão é providencial...

Rasteja cautelosamente pelos corredores. Há luz na cozinha do patrão. A sua sombra projecta-se enorme na alvura da parede. Recua... Ganha ânimo, avança. Os seus passos ressoam nas lajes. Soa-lhe ao ouvido, cada vez mais a voz íntima: Ladrão!... Ladrão!... O patrão dorme profundamente. Na cadeira está o casaco. As chaves estão no bolso.... A sua mão treme toda... As chavezinhas parecem geladas... O patrão mexe-se, dá uma volta na cama...

Abre o cofre. Um estrondo medonho! Silêncio a seguir... Valerá a pena? E se o número for falso?... Tira uma notinha de cinco! Surge-lhe neste momento uma outra ideia: e fosse até Pondá consultar o “gaddi”?... Quem tira cinco tira dez... Chega-se até à porta... Recua ainda... Ladrão! Ladrão!... Não é nada... É apenas o coração que bate mais forte!...

... Ouve-se o rodar dum carro. Desperta do seu sono! Oh! Era um carro particular... E o tempo avança...

... As palavras do Gaddi soavam-lhe ainda aos ouvidos: “Vai sair o número 20338. Vá depressa que talvez ainda consegue bilhete.” Dizia o sono, dizia o Gaddi, dizia a sua consciência! Não! Não podia ser falso! Ia ser rico!

Apareceu a carreira. Lançou-se a ela, mas esta vinha tão cheia que o condutor, não recebia nem mais um passageiro. Para cúmulo estava lá um polícia!

Era de estoirar! Paciência!... Mas se chegar tarde? Perderia tudo! Não! Impossível! De qualquer forma tinha que enriquecer. Poderia enfim adquirir um terreno muito seu e construir lá uma casinha.... Comprar umas eiras de terra e uma junta de bois... Não haveria mais vexames do patrão para a sua esposa.. Mandaria os filhos à escola. Talvez pudesse montar um pequeno negócio. Um barzinho, talvez. Conseguiria ter um criado para dar ordens, e, quem sabe? Talvez viesse a ter pança como o patrão... Mas o auto demora-se muito. Assim não pode ser... E pose-se a correr a toda a brida... Os membros martirizam-se e os pulmões não aguentam. Já corria há mais de 20 minutos. De repente ouve o ruído do carro... Felizmente vinha quase vazio... Mete-se nele e ordena ao condutor: a máxima velocidade. O carro quase que voa mas, ao homem impaciente parece que anda como lesma. Mais, mais!...

Chega enfim a Pangim. Soavam 9 horas. A extracção começava às dez. Tinha ainda uma hora para procurar as cautelas miraculosas. Como um louco andou aqui e acolá pelas ruas. Nem um vendedor de lotarias! Teriam morrido todos? Na praça, ninguém. Foi ao bazar. Nada! Foi ao cinema! O mesmo! Sem dar por isso chegou ao pé da Provedoria de Assistência Pública. Mole imensa de gente esperançosa. Encontrou-se com um vendedor de bilhetes: “Tem cautelas?” “Não. Estão esgotadas.” Correu ao outro. Esta tinha muitas. “Tem o número 20338?” “Tenho sim. Quantas cautelas quer?” “Dê-me o bilhete inteiro!...” Comprou. Azar! Era de extração seguinte!... Devolveu. Correu ao terceiro, correu a muitos outros. Ninguém tinha. Chegou ao pé dum velhote! “Você tem com certeza. Dê-me! Pago o duplo!”. “Eu tenho, mas...” “Mas (segue na 4a página) o quê? Eu quero!” “Não, não tenho..” Levantou-o pela gola do casaco: “Dê-me! Ao menos uma cautela! Pago-lhe cinco rupias!” “Não, não tenho.” “Rogo-lhe de joelhos! Única cautela!” “Não!” Desconsolado sentou-se no chão ao pé do velho... Beijou-lhe os pés: “Uma, só uma” “Não!” Estava alquebrado! Já não podia mais... E... ladrão!...

... Momentos depois saía o número 20338 e dois homens desmaiavam ao mesmo tempo. O velho vendedor de lotarias, pobrezinho, feito rico num instante e o homem honesto feito ladrão...

Friday, 28 September 2012

O Escritor Goês Orlando da Costa (1975)

Este escritor apresentou ao I Congresso dos Escritores Portugueses a seguinte comunicação intitulada “Reflexões sobre a liberdade de criação, condicionamentos e liberdades concretas”:

1) Ao abordar o tema proposto “Criação literária, sua especifidade ou Instrumentalidade” apontaria desde já uma pequena mas significante correcção. “Criação literária, sua Especificidade e/ou Instrumentalidade”.

Esta correcção assenta no facto de a alternativa criar uma falsa proposta de problema e por isso – mesmo admitindo-se à discussão a situação de alternativa – não se pode admitir a formula copulativa. Se a especificidade da criação literária pertence ao domínio da própria definição e expressão da criatividade do escritor, a sua instrumentalidade é uma característica, um valor, decorrente dela.

Assim, penso que abordar o problema da especificidade da criação literária é ter que chegar, necessariamente aos domínios da sua instrumentalidade, considerando que a actividade criadora do escritor envolve dois sujeitos e dois tempos necessários do conhecimento e da transmissão: o eu e o outro e, o a seguir, o necessário e o urgente.

2) A criação literária, no âmbito da sua originalidade, é um acto privado, não deixando de ser um facto social.

Um acto privado depende da consciência de um homem – neste caso do escritor – e esta consciência, por sua vez, depende de uma vida real, da sua quotidiana.

Ora, a vida quotidiana traduz uma “condição” subjacente: condição humana, condição social, não obstante factores específicos temperamentais de índole e carácter que são, sem dúvida, intervenientes na criação e porventura dos muito importantes e que dão o “tonus” aquilo a que poderíamos chamar correctamente a “individualidade da criação na liberdade de criação”.

Todos têm a sua “condição”. Os escritores também. A sua criação literária depende da consciência privada – dos seus limites – e da sua “condição” – contexto básico em que interferem factores mutáveis sócio-económicos e políticos. Na antinomia entre estas duas realidades, definem-se, efectivamente, as fronteiras mais ou menos estáveis do campo onde, com maior ou menor exercício de liberdade, se exprime a capacidade criadora do escritor, como homem “situado” que é.

E aqui convém frisar que esta capacidade do escritor e o seu conhecimento das necessidades apontadas pela sua “condição” são, além de tudo o mais, dentro do âmbito das condições de criação literária, responsáveis pela conquista incessante da liberdade – a liberdade daquilo que escreve e como escreve, das opções temáticas e dos modos de comunicação.

A especificidade da criação literária radica-se nessa liberdade de opções e capacidades individuais e, ao exprimir-se, essa criação passa de um nível de acto de responsabilidade privada a um nível de facto de responsabilidade social, tanto quanto provoca uma participação do público com que comunica.

3 – Mas a liberdade que a criação literária reclama e que um escritor a todo o momento tem de conquistar como é que é assumida? Isoladamente? Individualmente? Isoladamente, não. Individualmente, som, mas não apenas, porquanto a sua perspectiva – com todo o respeito pela sinceridade, coragem e coerência do escritor consigo próprio – está comprometida no exercício de uma liberdade que, quer queira ou não, o ultrapassa como sujeito individual. A liberdade de criação não é mais do que a consciência e conhecimento da própria necessidade de criar e comunicar, que, por sua vez, ao transformar-se em actividade, participa de um conjunto social.

E a necessidade de criar contém em si gérmenes combináveis de observação e da participação. Quando reflectimos e imaginamos não estaremos já a ser mais participantes do que apenas espectadores? Sem dúvida. Um escritor é, por natureza, um “espectador observador”. A sua capacidade criadora. Porém (de descobridor, de recriador – que é afinal toda a sua possibilidade inventiva de perspectivar a realidade), acaba por se revelar um instrumento mais ou menos activo na transformação do conhecimento do real humano.

Entenda se por real humano o mundo interior que todos temos e carregamos ao longo dos dias e dos anos e o mundo exterior, que aquele reflecte, e em que inseridos, marginalizados ou não, mas sempre “situados”, nós atravessamos ao longo dos mesmos dias e dos mesmos anos.

4 – No plano da criação literária esse real humano poderá ser definido como o convívio entre a consciência privada do escritor e as motivações e solicitações da realidade circundante – física e social, sensível, inteligível e transformável.

Ao falar em realidade social convém salientar o que anteriormente já se apontou como sendo a “condição” do escritor numa dada sociedade. Não se está a referir ao escritor como classe profissional, mas como homem social, isto é, como “parte de um processo social”. Da sua inevitável inserção numa dada estrutura em que relações sociais de um certo tipo dominam os fluxos da história, resulta que a sua actividade criadora consigo aquilo a que poderíamos chamar uma provocação de instrumentalidade no seio da sociedade, na medida em que não se pode abstrair a criação literária das vias de comunicação. A criação literária envolve indissociavelmente “aquilo que se comunica, a quem e como se comunica”.

Todo este processo propõe, efectivamente, ao escritor a saída da sua consciência privada, o transpor para um encontro de identificação da sua necessidade criadora com uma determinada ideologia. Projecta-o para uma possível consciência colectiva, para uma aferição constante entre a sua necessária liberdade concretas a que num dado momento histórico o ser social tem acesso activo, dentro das raízes culturais e dos problemas do povo que o integra, dentro da sua própria nacionalidade – única, via profunda para a universalidade.

E na aferição constante entre a liberdade de criação literária – que se exprime por uma linguagem que é um instrumento colectivo vivo – por linguagem novas que só criam e fecundam em situações novas ou em vias de renovação e as liberdades concretas que se situam em toda a sua extensão a inegável instrumentalidade da criação literária.

Essa instrumentalidade é, pois, técnica e ideológica. Enquanto técnica, sempre necessária e porventura urgentes por ser ineológica.

Nas capacidades criativas e expressivas de cada escritor, reside a especificidade da criação literária, ao mesmo tempo que é no conhecimento dinâmico da sua condição social no mundo e da responsabilidade oficinal que assume ao recorrer a uma via de comunicação que é a escrita, que se reconhece a sua instrumentalidade, a um tempo linguística e social.

Friday, 24 February 2012

Orlando da Costa - “Ao Escrever “O Signo da ira” paguei uma dívida para com a minha terra e a minha gente” (1962)

Com numerosoa assistência, mas sem desnecessários formalismos, o que veio sem dúvida propiciar o alegre convívio e a excelente camaradagem reinantes no jantar na “Cozinha Alentejana”, realizou-se a anunciada homenagem ao escritor dr. Orlando da Costa, recentemente distinguido com o Prémio Ricardo Malheiros, atribuído pela Academia das Ciências ao seu livro “O Signo da Ira”.

À direita e à esquerda do homenageado sentara-se, respectivamente, a senhora de Massaud Moisés, o professor catedrático e escritor de origem brasileira em visita ao nosso pais e especialmente convidado a participar deste jantar, e a escritora Lília da Fonseca.

Entre os assistentes, encontravam-se alguns destacados vultos das letras e artes portuguesas, além dos amigos e admiradores de Orlando da Costa, que lhe promoveram esta tão simpática quanto merecida prova de apreço.

No final, o escritor Urbano Tavares Rodrigues, que em belo improviso traçou o perfil psicológico e criador de Orlando da Costa disse calorosamente: “O Signo da Ira é um livro forte e puro onde se verificam indissociáveis a qualidade literária e a qualidade humana do seu autor; porque seja qual for o modelo estético ou a concepção sociológica adoptada pelo escritor, através do realismo critico, do realismo socialista ou do “nouveau roman”, o essencial para se conseguir um bom romance é ter talento. Mas –acentuou – algumas obras transcendem esse acabamento artístico, na medida em que se tornam, palpitantes documentos de comunicação humana – é o caso de “O Signo da Ira” que, paradoxalmente, apesar do seu título, se revela um livro de comunhão entre os homens, um livro do amor”.

Concluiu afirmando que a Academia das Ciências, ao honrar com o prémio “Ricardo Malheiros” “O Signo da Ira”, se honrara a si própria, assumindo uma nobre função reveladora dos valores do espírito nem sempre respeitados entre nós.

Falou, a seguir, o homenageado: “penso que incondicionalmente devo e posso repartir a minha alegria, a intocável serenidade interior deste momento com todos os presentes e com muitos ausentes”.

Referindo-se, depois, às suas ligações com o “Cancioneiro Geral”, prosseguiu: “No entendimento da confusão achei a clareza e na coragem a única virtude combativa. Nos meus tempos de juventude, dei tudo quanto podia dar em provas de atitude e em provas de testemunho e guardo para sempre a consciência serena de não ter mentido e de não me ter traído”.

Continuando a falar sobre o neo-realismo, disse ter-lhe ficado a dever a sua maturidade de escritor. Mais adiante, observou: “Tal como nas genealogias das famílias, os movimentos não se repetem; nenhuma aquisição sua se repete. Tudo se repercute. Tal como alguns outros autores e livros ultimamente publicados, considero-me e ao meu romance “O Signo da Ira”, uma repercussão actual, directa e conscientemente, do neo-realismo, na literatura de língua portuguesa”.

Aludindo, seguidamente, à liberdade de expressão, Orlando da Costa declarou: “Desejaria prestar a minha admiração aos intelectuais e escritores portugueses aqui presentes e aos ausentes que têm incansavelmente defendido, como algo de sagrado e indiscutível, o direito à livre expressão e à livre criação artística”.

Sunday, 25 December 2011

Jeanette - Uma Família Goesa (1957)

- O quer que lhe diga, Mann Zé! Reprovaram a Lena!

- Reprovaram? Mas como? Se já estava tudo tratado? Então julga que minto? Pergunta, aliás, à Beatriz, se não tratámos do assunto durante o jantar que “lhe” oferecemos! Essa é que está boa. Então jantou – só em vinhos setenta e cinco rupias!... E...

- Setenta e cinco?! Como? Se paguei setenta e cinco rupias e sete tangas?

- Promete-te Maria! Não pus na conta mais do que gastei. Não me lembrava das tangas. Mas não é isto o que interessa! Então fiz as despesas e...

- “Fiz as despesas”?! Pois eu é que paguei todas as contas e nem sequer comi o jantar! E a Lena reprovou! Que tempos estes! Então, a Lena, reprovaram, sem a mínima consideração por ti, pelas famílias de quem descendemos! E deixaram passar o filho do nosso carroceiro! Estás a ver para onde caminha o mundo?! Estás a ver?!

E a Dona Maria bateu o pé com tanta força na lage de cimento do balcão do seu Mano José – Mann Zé – que a camurça gasta do calçado cedeu e o tacão dobrou-se todo, provocando uma entorce que arrancou um “Jesus” da garganta da, já naquelas alturas, apopléctica Dona Maria. Esqueci-me de lhes descrever o pormenor “panorâmico” do balcão do Mann Zé – tão de chofre começou a conversa que a Dona Maria não deixou tempo para “observações” prévias. Imaginam, no entanto, um homem de estatura mediana com um leque de palmas ao lado, os dedos ocupados em desobstruir um cachimbo meio carcomido, sentado numa cadeira de lona de que não se sabia bem a cor com os pés por cima de um banquinho enquanto os chinelos descansavam até não serem chamados a cobrir os calos do venerando “herdeiro” das “tradições da família” – foi como o Zé estavas antes do tacão da Dona Maria curvar-se sob o peso da indignação que motivara o tacto do filho do carroceiro ter passado os exames! O balcão tinha uma só parede na qual se abria uma porta que dava para um corredor. Duas colunas, dois prismas rectangulares sustentavam-no nos extremos e dois poios de cimento e madeira fingiam, de cada lado, uma meia parede. Distava da estrada, que passava rente, os dez degraus que só galgando-os se podia subir. Foi por eles que a Dona Maria entrou ostentando um chapéu de sol de enormes dimensões – um “sombreiro” como lhe chamam – que de maneira nenhuma podiam tranquilizar um homem como o Zé, sofrendo de gota – reumatismo – designação airosa e aristocrática dos males que dificultam talqualmente a gota, o movimento livre das pernas. Vieram as “crioulas” quando convocados pelo aflito Mann Zé, que quando viu a mana baquear como a tirania, assustou-se e deixou cair o cachimbo – qual bicho, amigo da sissiparidade, que prontamente se fez em dois (não cachimbos, mas pedaços). Fizeram o curativo que consistiu em embeber trapos velhos em água de sal morna e aplicá-los na região dorida. A segunda fase, seria untar o tornozelo de óleo de coco.

- Patifes! – rosnou a Dona Maria fazendo um certo esforço para dominar a dor que a angustiava. O Mann Zé, ao lado, continuava impassível a desobstruir o cachimbo partido com seriedade e persistência dignas de servirem de exemplo aos que andam em tarefas similares no Canal de Suez

- Patifes! – rosnou outra vez a Dona Maria e desta, o poial vibrou, ao menos ao Mano assim pareceu. Perante tanta fúria pensou o pobre “paciente” de gota que era preciso agir já que reagir não poderia, com as pernas tão trôpegas. E se bem pensou melhor o fez.

Sopesou, lastimoso, os dois fragmentos do cachimbo e monologou:

- Era do meu avó! Depois foi meu pai! E agora.. é o que é... E admiram-se que já não respeitem as tradições.

Friday, 16 September 2011

Mário Cabral e Sá - O baile (1962)

Chegou a hora. A hora das mensagens que se lêem nos olhos. Das palavras que se não falam. Um a um todos os convivas se levantam. Há despedidas. Os convites de convenção, “para o lanche, amanhã à tarde”. Há olhares que se desviam, outros que se cruzam e se fixam. Os papás mordem charutos e dão palmadinhas nas costas das meninas dos compadres. As meninas examinam os semblantes dos filhos casadoiros de outrem, inscrevem apontamentos, na sua mente, sobre o que viram e não viram e magicam artes de conquistar o José Olívio – novo, filho único, uma nada estrábico mas rico. Que mais se quer?... Se a Annette tem namoro? Que o desfaça. Amor e cabana, sim senhores, muito bonito, mas é para outra gente... Há os últimos apertos das mãos e a revolta dos insubmissos.

Levanta-te, “Balalaica”. Chegou a hora. Hoje tens trabalho. Há cadeiras por arrumar. O chão por limpar. Urinóis por desentupir. E talvez ainda haja para ti restos de comida e cerveja choca nos fundos dos copos, esquecidos por baixo das cadeiras.

Levanta-te, também tu. Bem sei que não pudeste dormir. Mas sai da cama. Agora ou nunca! O papel está na caixa, ao canto esquerdo da secretaria. A caneta na algibeira do paletó de teu pai. Deixa o selo, o sobrescrito e a direcção por minha conta.

“Não sei por onde começar. Mas já o deves adivinhar. Afinal...”

“Ontem, como sabes, houve baile. A mamã não atendeu a nenhuma das mil desculpas que havíamos inventado para que nessa noite, até que enfim, mais uma vez, umas horas juntos. Sós, em casa, enquanto os meus pais estivessem no baile. Absolutamente sós. Eu e tu... A mamã insistiu e o papá quase me bateu. Que era filha de gente de bem. Que esse baile podia decidir o meu futuro! Maldito baile e maldito o futuro que ele decidiu!

“Desde as cinco da manhã de hoje, estou noiva. Essa terrível desgraça que antecipávamos, enfim deu-se! À porta da saída, os meus pais e os pais do Albano discutiram os últimos pormenores. Depois, no carro, disseram-me que estava noiva. Que o “rapaz” era uma jóia de homem – apesar do cretinismo que abunda nas suas faces gordas de querubim vesgo em férias terrenas. Que o “rapaz” é rico. Que o “rapaz” é filho único. Que o “rapaz”... que o “rapaz”, mil vezes maldito, é o meu futuro marido.

“Não quero esforçar-me em imaginar as tuas reacções à esta carta. Se muito já sofro de pensar em ti daria em doida. Antes desse! Mas talvez ainda nos vejamos. Não sei. Mas quanto não daria eu – oh, se pudesse! – para que isso fosse possível. Mesmo que haja infernos nesta vida e noutra.

“Sei que poderia e deveria ser mais forte. Que tudo devia arriscar pelo amor que nos une e agora nos separa. Desculpa-me Victor. Fui fraca. Como naquela noite em em que melhor nos conhecêssemos... Tu és bom. Tu és um homem diferente dos outros homens. Por isso continuarei a ser tua.

Hoje como sempre.

Tua
Annette”

Pois bem, Victor, aqui tens a carta. Sou testemunha da tua mágoa. Do desmoronar dos edifícios de felicidade que havias arquitectado. Por isso, estarei presente na hora da tua reabilitação. Na vida vencem os insubmissos.

E tu, “Balalaica” continua a varrer. Limpo o pó e os vómitos no bacio. Procura a dona do fio de ouro que apanhaste preso à borda do cortinado. E isso que tens na mão e esticas e largas, como se fisga fosse, é uma liga com que as Senhoras prendem as meias à coxa. Deita-a no lixo ou brincas com ela se quiseres. Diverte-te à custa da Dama Nobre que se descuidou...

Wednesday, 7 September 2011

Mário Cabral e Sá - O baile (1962)

Chegou a hora. A hora das mensagens que se lêem nos olhos. Das palavras que se não falam. Um a um todos os convivas se levantam. Há despedidas. Os convites de convenção, “para o lanche, amanhã à tarde”. Há olhares que se desviam, outros que se cruzam e se fixam. Os papás mordem charutos e dão palmadinhas nas costas das meninas dos compadres. As meninas examinam os semblantes dos filhos casadoiros de outrem, inscrevem apontamentos, na sua mente, sobre o que viram e não viram e magicam artes de conquistar o José Olívio – novo, filho único, uma nada estrábico mas rico. Que mais se quer?... Se a Annette tem namoro? Que o desfaça. Amor e cabana, sim senhores, muito bonito, mas é para outra gente... Há os últimos apertos das mãos e a revolta dos insubmissos.

Levanta-te, “Balalaica”. Chegou a hora. Hoje tens trabalho. Há cadeiras por arrumar. O chão por limpar. Urinóis por desentupir. E talvez ainda haja para ti restos de comida e cerveja choca nos fundos dos copos, esquecidos por baixo das cadeiras.

Levanta-te, também tu. Bem sei que não pudeste dormir. Mas sai da cama. Agora ou nunca! O papel está na caixa, ao canto esquerdo da secretaria. A caneta na algibeira do paletó de teu pai. Deixa o selo, o sobrescrito e a direcção por minha conta.

“Não sei por onde começar. Mas já o deves adivinhar. Afinal...”

“Ontem, como sabes, houve baile. A mamã não atendeu a nenhuma das mil desculpas que havíamos inventado para que nessa noite, até que enfim, mais uma vez, umas horas juntos. Sós, em casa, enquanto os meus pais estivessem no baile. Absolutamente sós. Eu e tu... A mamã insistiu e o papá quase me bateu. Que era filha de gente de bem. Que esse baile podia decidir o meu futuro! Maldito baile e maldito o futuro que ele decidiu!

“Desde as cinco da manhã de hoje, estou noiva. Essa terrível desgraça que antecipávamos, enfim deu-se! À porta da saída, os meus pais e os pais do Albano discutiram os últimos pormenores. Depois, no carro, disseram-me que estava noiva. Que o “rapaz” era uma jóia de homem – apesar do cretinismo que abunda nas suas faces gordas de querubim vesgo em férias terrenas. Que o “rapaz” é rico. Que o “rapaz” é filho único. Que o “rapaz”... que o “rapaz”, mil vezes maldito, é o meu futuro marido.

“Não quero esforçar-me em imaginar as tuas reacções à esta carta. Se muito já sofro de pensar em ti daria em doida. Antes desse! Mas talvez ainda nos vejamos. Não sei. Mas quanto não daria eu – oh, se pudesse! – para que isso fosse possível. Mesmo que haja infernos nesta vida e noutra.

“Sei que poderia e deveria ser mais forte. Que tudo devia arriscar pelo amor que nos une e agora nos separa. Desculpa-me Victor. Fui fraca. Como naquela noite em em que melhor nos conhecêssemos... Tu és bom. Tu és um homem diferente dos outros homens. Por isso continuarei a ser tua.

Hoje como sempre.
Tua
Annette”

Pois bem, Victor, aqui tens a carta. Sou testemunha da tua mágoa. Do desmoronar dos edifícios de felicidade que havias arquitectado. Por isso, estarei presente na hora da tua reabilitação. Na vida vencem os insubmissos.

E tu, “Balalaica” continua a varrer. Limpo o pó e os vómitos no bacio. Procura a dona do fio de ouro que apanhaste preso à borda do cortinado. E isso que tens na mão e esticas e largas, como se fisga fosse, é uma liga com que as Senhoras prendem as meias à coxa. Deita-a no lixo ou brincas com ela se quiseres. Diverte-te à custa da Dama Nobre que se descuidou...

Friday, 25 February 2011

Claudia das Neves - O Curumbim (1951)

Um curumbim, de profissão cavador tinha uma filha muito bonita. O homem tinha-se enviuvado quando a pequena era criança e agora, já crescidinha, era ela que tratava dos arranjos domésticos.

Um dia faltou o arroz para a panela. O pai recomendando à filha ir pedir m paili de arroz ao batcará, foi para o seu trabalho cotidiano.

Quando a rapariga foi à casa do batcará encontrou-se com o seu filho que gostou tanto dela e quebrando todas as leis de conveniência manifestou aos seus pais, o desejo de casar com a rapariga.

Os pais, embora magoados, tiveram que satisfazer ao rapaz nos seus desejos, porque era único filho. Mandaram chamar ao manducar para tratar do assunto.

Apareceu o homem à casa do batcará acatando a sua ordem não sabendo porém o motivo do chamamento. Conduzindo o curumbim à presença do batcará, este todo amável, oferece-lhe cadeira para se sentar, facto este que deixou confundido o pobre do manducar, pois, não era costume de os batcarás ofereceram cadeira aos manducares, ainda que fossem instruídos. Os manducares quando fossem a casa do batcará ou tinha que estar de pé ou sentar no chão.

Recusou o curumbim, atenciosamente, sentar-se na cadeira, mas o batcará tanto insistiu que ficou obrigado a sentar-se na cadeira ao lado do batcará. Então este disse-lhe do que se tratava.

Quando soube de pretensão do filho de batcará ficou passado... Ficou de dar resposta consultando à filha que, achando ser uma loucura da paixão não aceitou o pedido, porque pensou sensatamente, que passados os primeiros entusiasmos, seria desprezada pelo marido e a sua família, dada a condição social que os separava.

Desde esse dia vivia o rapaz muito triste, pegado à cama, sem comer sem beber; nem se divertir. O batcará ficou, vendo o estado do filho, irritado com a filha do curumbim, a quem quis matar, porém , custando-lhe pôr em execução um tal nefando plano fez-lhe uma proposta de difícil execução para ver se assim ao menos conseguia mudar-lhe de resolução.

Intimou-lhe fazer um cesto sem fundo e feito isto ir alem de de 7 mares, trazer 7 fiadas de coral e aparecer com cesto e fiadas no seu solar dentro de 15 dias. Não executando a ordem notificou que seria morta barbaramente.

A rapariga que era esperta e ajuizada foi ao batcará com cesto sem fundo e pediu-lhe uma tona sem fundo para sulcar os mares propostos. O batcará deu-lhe o barco requerido. Sentada nele foi pelos mares à busca de coral.

Chegada ao 7o mar pousou sobre o seu ombro um papagaio que lhe perguntou o motivo da esquisita viagem. Explicou-lhe a rapariga tudo o que se passou com ela. O papagaio, condoído da sua sorte, recomendou-lhe ir a casa dum feiticeiro que morava numa margem do rio, vestindo-se de rapaz. O homem lhe daria comida e agasalho. Usaria fiada de flores para a cabeça como coroa e observaria se elas murcham ou não. Levaria perto dum caldeirão onde está continuamente cozendo a manteiga tendo por hábito de perguntar ao hóspede se se a manteiga vaza pela fervura, deves responder que não importa que se vaze. Em seguida levar-te-á perto duma lagoa pedindo-te dar o salto ao que deves recusar. Então o feiticeiro daria um salto com toda força. Apareciam imediatamente à tona da água quantidade de fiadas de coral que a menina devia apanhar e desaparecer um instante. Não devia ela assustar se o feiticeiro perguntar à sua mãe se o hóspede lhe pareceu menina.

A menina fez à risca o que o papagaio lhe dissera. Apanhou as fiadas e deu aobatcará.

O feiticeiro, quando saiu de água, viu que o hóspede tinha desaparecido. Só então suspeitou que era menina. Metendo-se rapidamente num barco veio à sua procura. Descobriu a terra e sua casa pelo feitiço. Censurando-lhe puramente pelo seu disfarce, veio com ela para sua casa e casou-se com ela. Queira ou não queira a pobre da menina teve de fazer-lhe a vontade, mas sei que viveram muito felizes e... não sei mais do que isto.