Tuesday, 21 May 2013

Nascimento Mendonça - Pôr-de-Sol (republished 1963)

Não sei porque em mim não sinto o coração
Calmo como a luz através das procelas/
Envolve-o a dor, o luto, a escuridão
E lembra um velhinho encostado ao bordão,
Sem poder fixar os olhos nas estrelas.

Hora má, de sombras e de desenganos!
Tanta luz astral, quem sabe se o cegou.
... Tu foste a sondar o insondável arcano
Da terra e dos sóis, meu coração humano!
Ai de quem foi rico, se a fome o esmagou.

Mas não pares, não. Sê como a água corrente,
As águas de um charco estagnam e apodrecem.
Como eras feliz quando foste veemente,
Enteado sempre na harmonia ardente
De milhões de mundos que não desfalecem!

O caminho é mau, todo espinhos. Embora!
Não triunfa jamais quem não sabe sofrer,
E nem sabe amar a rósea luz da aurora
A pobre criatura que a bonança implora
Dos monstros do mar que não quis combater.

A alma humana em vão, a vacilar, absorta,
O céu interroga e perscrutar deseja.
Se sente a beleza, toda a dor que importa?
Não se prende ao sol a triste folha morta,
Não pode voar o verme que rasteja.

A matéria, a força assombrosa, se existe,
É porque não para, nunca dorme exsangue;
Ao destino mau nunca se oferece triste
Como vítima inerme que jamais resiste
E não sente o ardor do desejo no sangue.

E o homem não hesita e treme como o vime,
Se resfria o globo e concentram-se os mares,
Não é como o insecto que a Natureza oprime;
Seu fado não é de sujeição ou crime,
Seu passado fulge de gemas solares.

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