Saturday, 5 November 2011

José Rangel - Sob o Signo da Calma (1961)

“... por fatalidade deste signo do escritor que nos obriga a fertilizar a obra que edificamos com a seiva amarga do nosso próprio sofrimento” – Joaquim Paços d’Arcos.

Não creio que, por esses últimos tempos, livro algum tenha despertado tão grande interesse e entusiasmo entre nós, mormente na academia, como O Signo da Ira de Orlando da Costa.

Nas minhas andanças pela capital, em encontros fugidios e em demoradas conversas, aparte um ou outro comento enraivecido ou enojado à volta da “Grande Porca” de Bordalo, tivo ensejo de o ver debatido, em díspares comentário, mas todos a uma, de acordo num ponto: sentiram mais amor à sua terra, por terem entrado em mais íntimo contacto com ela...

Se os sentidos se inflamaram ante o descritivo colorido do aspecto, digamos material do homem e os corações se condoeram com o duro circunstâncias que enquadra e movimenta as personagens, tornando agro o seu viver, a isso se sobrepôs, na admiração pela obra, o sortilégio do perfeito recorte de figuras de carne e osso, plenas de intensidade emocional e riqueza humana, sofre um fundo paisagístico pletórico de cor e de verdade, enternecendo-os até o âmago do seu ser...

Antes de entrarmos de analisar, pela rama embora, a estrutura do romance, adentro das coordenadas em que se move, falemos um pedaço do autor, sem receio de incorrermos em erro, tomando para base, além duns ligeiros apontamentos pessoais, no próprio romance e o meio que o condiciona.

Moço ainda, com 18 anos apenas, deixa a sua terra, numa idade em que impera a emoção, e o espírito, pouco analítico, propende para generalizações de casos isolados que álacre ou dolorosamente o vincaram, levando na retina fundamental, um estado de coisas algo degradante.

No espírito medularmente lírico (já revelado em obra poética marcante), e por conseguinte altamente vibrátil e ressoante a todas as gradações do sentimento, sazonado pela experiência vivida e trabalhado pela cultura, essa reminência do passado se retesa e se corporiza, entra-lhe no sangue e nos nervos, toma-lhe o coração e o cérebro, em suma, se faz vivência.

Esboça-se nele um “monólogo interior”, sem o qual não há obra de arte que valha, e elabora-se a urdidura romanesca, em que a falta duma observação directa e perspicaz da realidade, a milhentas léguas da vista mas não do espírito é suprida pela intuição.

E ele o põe no papel (tinha que o pôr para evitar a frustração), levado, a cima de tudo, pela sua vocação de escritor (já manifestada), que só realizando desmistificadamente a sua missão de homem e de artista, plenamente se realiza.

“Transfigurar em beleza a própria miséria, a própria desgraça, a própria descrença, é afirmar uma crença do destino da alegria, uma esperança de vitória (...) O artista é um humilde instrumento a realizar um valor que o supera. Porque a Arte é do homem: do que cria e do que espera por essa criação”, escreveu o grande romancista Virgílio Ferreira.

Vamos agora ao romance.

O romance, para ser apreciado na sua verdadeira contextura, é mister encará-lo à luz dum critério que englobe todos os aspectos que constituem a sua trama: “o encadeamento da efabulação, a descrição dos cenários sociais ou da natureza, a doutrina, a própria linguagem, o predomínio da razão ou do sentimento” (Cruz Malpique) tendo o critico (para Sainte-Beuve, todo o leitor é um critico) de se colocar numa atitude de vigilante equanimidade e receptividade.

Como já se frisou, O Signo da Ira entronca no Neo-Realismo que, alargando e modificando as perspectivas humanas e sociais rasgadas pelo Realismo que Eça definira como “larga e poderosa Arte, fazendo um profundo e subtil inquérito a toda a sociedade e a toda a vida contemporânea”, cria uma nova estética que bebe a seiva de inesgotável riqueza, do húmus local, em que tem as raízes, mas clarificada e depurada pelo filtro do humano, na sua dimensão psicológico-social.

“Uma nova consciência se impôs” - escreve Armando Bacelar em “Vértice” – “um sentido de descoberta do humano nas realidades nacionais e regionais (...) porque a preocupação da cor local e da descrição dos particularismos regionais se sobrepõe um acentuado amor do humano, numa tentativa absorvente de extracção do resíduo universal e do sentido vivo das relações e dos quadros.”

Sem queremos entrar no cerne do romance, para lhe fazer uma real critica judicativa, a que nos falta competência, e que já se fez, em artigos lúcidos e brilhantes, não podemos negar, sem sermos estreitos de critério, que O Signo da Ira é uma obra que possui valência artística e humana.

Técnica romanesca bem cuidada, em que o autor, tendo insuflado vida às suas personagens com hálito próprio, erguidas com um forte poder evocador e de penetração psicológica, intencionalmente se apaga, para se meter na vida deles, com os seus instintos e sentimentos, reacções e conflitos, numa harmoniosa unidade de acção, sem intromissões forçadas e de doutrina que lhe quebrem o ritmo e o natural e lógico desenvolvimento, servida por um estilo vivo e cálido, justamente moldável à “situação”, enriquecida de uma pujante vegetação de imagens, no geral felizes, nas quais o homem, e a Natureza, dada em soberbas pinceladas, se articulam e se fundem, tudo integrado num “clima” fundamentalmente poético com laivos de dramatismo

(continua na 6a página)

No tocante a cenários sociais, já frisámos como é que Orlando da Costa forjou a textura do seu romance, mais pela intuitiva, pois na idade cronológica e mental em que a semente peneirou não lhe teria sido possível mergulhar no problema para o abarcar na totalidade.

Se se critica, e com razão, que à “nova estética” se sobrepõe, por vezes, a “nova mística social”, conferindo ao romance neo-realista um carácter panfletário e roubando-lhe o conteúdo humano, temos para nós, após leitura do livro, que o autor quis consciencializar não uma tese em si (criando o soi disante “romance de educação”) mas a sua atitude de espírito, duramente temperado, frente ao homem, engrenado numa estrutura social, para ele incompatível social, para ele incompatível para a sua dignificação como ser individual social.

Analizando o contexto social do romance, escreve o Dr. João Gaspar Simões, um dos mais brilhantes críticos literários da actualidade portuguesa: “”O Signo da Ira” é, assim, um romance neo-realista no sentido mais rigoroso da expressão, embora sem falsas interpretações doutrinárias da luta de classes, mas sujeição ao atavismo das castas e à fatalidade das secas, um romance, neo-realista como se nos antolha o neo-realismo quando praticado da sua estrita doutrina de escola humanista ou de ampla compreensão das desgraças sociais.”

Se é necessário que o romancistas não evada do que o rondeia, a fim da sua obra ter a crédibilité como queria Bourget, para ela ser “uma coisa viva, um pedaço de carne palpitante arrancado ao corpo da realidade”, será ela pobre de fôlego e permanência, se for apenas mera pastiche da vida real.

Pois, a verdadeira arte romanesca consiste na transposição literária ou melhor na recriação, que é filha da imaginação e da sensibilidade, sendo a verosimilhança literária muito diferente da realidade em si.

“O romancista” – di-lo Joaquim Paço d’Arcos – “do mundo real leva, para o seu reminiscência das figuras que viu, dos seres que conheceu, das coisas com que lidou. Mas não as aproveita integralmente. Esmaga essas figuras, dilui esses seres, destrói essas coisas. Umas e outras comprime e amalgama, num esforço de trituração mental.”

Com essas lembranças de vultos que passaram, de lágrimas que tombaram, de vidas ou objectos perdidos, de pequenos nadas e de grandes coisas, de momentos banalíssimos e de horas altíssimas – com tudo isso romancista forma o barro donde em seguida, arranca novas figuras, por seu cérebro e suas mãos desenhadas, ergue novos cenários e cria novos sentimentos. E nessas figuras nada há, das que a sua observação fixou para que depois o cérebro as triturasse e ao vil barro as reduzisse. Nada há, porque não reproduzem uma única das figuras anteriormente enxergadas; e tudo há, porque foram erguidas com a carne e o sangue, os sentimentos e as baixezas destas, tal como do húmus igual do solo nasce a flor ou o canto disforme.”

E Fernando Namora assevera: “A verdade da literatura nada tem que ver com a veracidade dos acontecimentos, tal como a vida os forjou. A vida troça da coerência – mas nem por isso consegue impedir-nos que, ao recriá-la, lhe imponhamos uma disciplina.”

Por outro lado, nunca me seduziu transcrever fielmente a realidade. A realidade deve ser apenas uma sugestão. Daí em diante, quanto mais nos afastamos dela, maior será o nosso poder de autenticidade”

E Adolfo Casais Monteiro escreve:

“Os romancistas não são “exemplos”; só o homem inteiramente destituído de senso artístico e de “amor” de arte lê romances para saber como se deve comportar – ou até para saber como comportou o autor. Nem se deve buscar na sua leitura o “retrato” da sociedade. Talvez aquele que tenha lido todos os romances que jamais se escreveram tenha o direito de supor e só de supor, que ficou a conhecer a sociedade universal como um todo. Não, cada romance é uma “amostra”, não é padrão. Não é uma lição, é uma tentativa de penetrar no segredo do homem, de comunicar um dos muitos sentidos em que a vida e as coisas se nos podem manifestar.”

Três notáveis e profundos depoimentos, em longa citação, para esclarecer o problema, de criação literária.

E, para finalizar esses ligeiros considerações que nos acodem ao bico da pena, e que só agora trazemos dados os nossos afazeres do dia-a-dia cheio, abordemos, ao de leve, o problema do realismo, com atitude pictórica, de ex- (continua na 5a página) pressão físico-material do homem.

Um escritor pornográfico é aquele que descreve cruamente a realidade, demorando-se especificadamente no aspecto sexual, apenas com a finalidade de “especular com o vício.”

São os romances fotográficos do sórdido bas-fond, mesquinhas na intenção, tessitura e implicação humana, animados de um sopro de erotismo e animalidade, que em pocket-books andam espalhados aos milhares neste mundo.

O realismo tem outra intenção: transpor a realidade, na sua expressão psico-social, para o plano da criação literária, sem lhe desvirtuar o verdadeiro sentido: o homem tem de ser encarado, não apenas no seu aspecto religioso, nem somente como “Homem Político” de Aristóteles nem “Homem Económico” de Karl Marx, nem “Super Homem” de Nietzsche, mas como “Homem de Carne e Osso” de Unamuno.

Pergunta-se: poder-se-á criar uma arte real que apenas se cifre no aspecto psicológico e sociológico e esqueça o material?

Responde por nós, com a sua alta autoridade de romancista consagrado...[missing] zão; na prática, porém, exigem do romancista uma visão universal acautelada por tantos filtros mortais, que terminam por dar razão aos estetas.”

E depois de afirmar que não é possível evitar a “impureza irremediável” em “arte tão profana” como é a do romance, cuja matéria é “toda a massa humana”, cita os ossos de Bernanos que, da descrição “da diabólica Mouchette”, e de Graham Greene, ao descrever “a hipersexuada Sara”, não conseguiram “apresentar o mal sem o mostrar”.

E remata:

“O Pe. João Mendes, ao julgar possível o aprofundamento do mal sem descrição exterior, mantém-se na esfera dos princípios e fala da “empresa como tal.”

Mas eu, que me encontro na triste esfera, da coisa concreta a executar, atrevo-me a pensar que a “empresa como tal”, é, mais, uma vez, aquele “óptimo possível de que se ri o razoável existente”, como eu disse há tempo a universitários de Coimbra. E assim caímos, concretamente na tal “impureza irremediável” de toda a arte profana (...)

Perante esta conclusão prática, o romancista católico de duas uma: ou escreve o que tem para escrever por confiar na sua consciência e na misericórdia do seu Deus ou desconfia da consciência e portanto da misericórdia, e, doente de escrúpulo, deixa de escrever, pura e simplesmente, repetindo a renúncia de Racine. No século XVII, o facto podia não parecer grave; mas agora, quando todos procuram reparar as desastrosas consequências da demissão dos cristãos no plano do social, haverá ainda alguns que, por amor aos princípios, não queiram ver as tristes consequências práticas que resultariam de igual demissão no plano da literatura?”

Muito mais haveria a dizer do romance O Signo da Ira, se quiséssemos trazer à luz da análise muita sombra que paira agoirenta sobre o destino dos comparsas do romance.

Incontestavelmente, Orlando da Costa, senhor duma vigorosa voz e altivamente firme na estrada que trilha, desenvolve vertical e horizontalmente um problema de feição tipicamente local, mas com os olhos sem fronteira, enriquecendo o património cultural goês, feito mais de academismo e de conformismo intelectual (salvo honrosas excepções), com o poema em prosa do “canto comum”, que com os seus claros-escuros, ficará a pesar como o sinal dos tempos...

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