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Monday, 15 July 2013

José Rangel - O Poeta e o Amor (à volta do livro 'Destino' de Judite Beatriz de Sousa) (1955)

A poesia é a quintessência do do sentimento humano. E ela a intérprete fiel e sagrada de toda a gama de sentimentos que palpitam na alma humana.

Nos seus versos, que têm, por vezes, a extensão dum sorriso ou duma lágrima, todo um mundo de volúpia e sofrimento, de anseios que arroubam, de desilusões que ferem.

Se na prosa, o homem pode elevar às alturas a sua arte, é na poesia que ela se sublime, quando tocada pela asa de espiritualidade, por aquela unção religiosa que a envolve por vezes, dum halo e misticismo...

O poeta é um ser superior, por que ultra-sensível. Qualquer sentimento, o mais banal, vibra nele com uma intensidade dolorosa, e se constela dum manto de estrelas, que espargem poalhas de luz, cujo brilho, não ilumina, muita vez, os olhos prosaicos, porque a distância que os separa é imensa...

É por isso, que o poeta é considerado um ser à margem das realidades tangíveis da vida e é apodado de sonhador...

Não! O poeta não vive de quimeras. Mas arrancando da realidade a sua própria carne que lateja e uiva, tece-lhe uma grinalda de flores, envolve-a de um manto diáfano de fantasia, para cobrir a nudez forte da verdade... E como o olhar humano não é bom psicólogo, e vê as coisas pela rama, isso o leva a julgar que o mundo do poeta é fictício, ilusório...

O poeta é um iluminado. Com aquela visão profunda que perscruta a alma dos homens e das coisas, ele ausculta em pequenos nadas da vida, o mistério que vive nele.

Que tem de extraordinário, um sorriso que se entreabre cândido e meigo ou um suspiro que se evola choroso e compungido? É tão banal! Mas o poeta entrevê através a névoa que os cobre, almas que ora se banham de alegria, em que há sonhos doirados que se corporizaram, promessas ridentes que se cumpriram, ora estremecem de amargura e dor, ante sonhos desfeitos, esperanças desfolhadas..

E como estas pequenas emoções, têm reflexo invulgar na sua alma, elas carreiam para o seu estro, pérolas, que lhe servirão, para tecer o seu poema.

Como todo o ser humano, o poeta também tem o seu ideal, de que faz o móvel da sua vida, dando-lhe todo o calor da sua alma fremente, e o iluminando daquela luz interior tão suave e tão bela que vive imaculada no sacrário do seu coração.

Mas o seu ideal, é por vezes, incompreendido. Ele sofre com isso. A sua alma amarfanha-se de dor, que lhe anavalha a alma.

Mas, é o próprio sofrimento que o eleva àqueles édenes de beleza a que o seu coração aspira, onde vive uma paz serena e luminosa, que dulcifica a alma e santifica a dor. É ele que cria as estrofes mais belas e mais sentidas.

Diversos sentimentos fazem vibrar a lira do poeta. Mas nenhum deles arranca dela acordes tão maviosos, como esse sentimento subtil e indefinível, que tendo a razão de ser em si próprio, viva do seu próprio sangue que lhe dá cada vez nova seiva; o Amor.

Sentimento dos mais elevados, que fremem na alma do poeta ele exala-o e o transfigura, tornando-o um ser diferente dele próprio.

Sentimento universal, que caldeia no mesmo cadinho, almas nos pares, a palpitarem do mesmo anseio, ele vive de braço dado com a Dor, quando este anseio vive isolado e incompreendido, quando a chama que ilumina uma alma, ao revés de aquecer outras almas só depara com gélida frieza...

O poeta, então, não procura apagar esta chama, mas fazendo dela a lâmpada a alumiar-lhe o estro, vai arrancando do seu alaúde, as mais sentidas endechas. E só depois de extravasado, às vezes duma forma irregular e impulsiva, todo o fogo que arde na sua alma e restar dele só cinzas e o olor duma saudade, é que o poeta depõe por momentos a sua lira, para a retomar e qual paladino do seu coração, continuar a trilhar por outras veredas, à busca de novos rumos para o seu Ideal...

Vem estas considerações ao bico da pena, á propósito do livro de poemas, que a jovem poetisa Judite Beatriz de Sousa acaba de dar à luz da publicidade.

Poetisa de alto quilate, que tem feito a nossa admiração pelos seus versos prenhes de beleza, de há muito esperávamos, que de dispersiva que era a sua lira, ela se enfeixasse num livro de versos, que espelhasse a sua verdadeira, alma de Artista e Mulher.

E cá temos agora “serena, clara, carinhosa, palpitante de viva emoção e humana beleza” a cantar aquilo que na sua alma mais vibrou: o Amor.

Seguindo a máxima de imortal Goethe “faz da tua dor um poema”, ela dá-nos hoje, poemas de admirável contextura, em que a elevação do pensamento e sentimento se alia à singeleza da frase e onde estua uma alma superior, qeu amou, com aquela acrisolada paixão que só os artistas podem ter e por isso mesmo sofreu e hoje se entrega à tristeza e ao abandono.

“O que amei foi tanto e há tanto tampo

Eu tenho as mãos cheias de abandonos...

E todo o mistério de dramas ocultos

A doer os meus olhos tarjados de mágoa”

Estes poemas constituem um longo estendal de amarguras, cuja leitura nos faz comungar do mesmo sentimento que a torturou, mais parecendo que é a nossa alma que neles suspira de dor...

“O meu poema é a minha grande dor

Porque é a mesma dor de toda a gente!”

Só os compreenderá, quem os possa sentir na sua carne e no seu sangue, ou parafraseando Júlio Dantas, é preciso lê-los com aquela mesma ternura com que foram escritos, para beijar a mão que os traçou.

Nestes poemas, sobressai, não só a beleza dos versos mas principalmente a beleza da alma da Mulher, embora eles nos dêem só uma parte dessa alma, pois as palavras por mais eloquentes que sejam, nunca podem traduzir à justa todo um rosário de anseios suspensos, lutas inglórias, e negros desesperos que se agitam na alma humana e os melhores poemas são aqueles que nunca se puderam escrever...

Fernando Namora, p poeta do “Mar de Sargaços” teve este desabafo doloroso, no final dum dos seus versos: “Ah! Covardes versos: nada dizeis do que sinto!”

Nos seus versos, a autora parece seguir a corrente modernista, em que “cada um vive consigo, entrega-se livremente à sua revelação, manifesta-se de acordo com o seu temperamento” e “o “único elo que os liga a todos entre si é o desejo de sinceridade, de quererem ser inteiramente eles, de cada um procurar um seus versos dar-nos a sua maneira própria de sentir, de pensar e de dizer”, sem se sujeitar a cânones estereotipados a que um poeta nunca pode confinar-se, renovação essa que, iniciada por Eugénio de Castro, continuada por António Nobre e ampliada por Mário de Sá-Carneiro e Fernando Pessoa, tem hoje poetas de gema num José Régio, Mário Dionísio, Fernanda de Castro, Mário Beirão, José Gomes Ferreira e outros.

Irmã gémea na poesia de Florbela Espanca (a que a comparou Mário Issac que prefacia o livro), essa “filha da charneca erma e selvagem que é o Alentejo, a Soror Saudade como lhe chamou o poeta Américo Durão, embora os ambientes de ambos sejam diferentes, elas se tocam e se irmanam porque viveu nelas o mesmo sentimento amalgamado de lágrimas.

Não pretendemos, com estas palavras, bordar considerações críticas à volta da sua alma, que não temos fôlego para tanto, mas tão somente, focando à verdadeira luz à sua alma de Mulher e o sentimento que nela germinou e tão bem frutificou, dar-lhe a nossa plena adesão espiritual, a quem cantou com tanta beleza é verdade, sentimentos que não são nossos.

Este livro é o primeiro passo na senda íngreme e dolorosa que é a glória. Temos a certeza que Judite Beatriz de Sousa, com a grandeza do seu espírito e a sinceridade do seu coração, saberá lutar contra todas as vicissitudes e ganhará a palma de glória que é a suprema aspiração de todos os artistas.

Monday, 11 February 2013

José Rangel - Lonjura (1978)

Para Orlando da Costa
Ser, e não ser –
É a vivência do Goês?
Raízes cá,
Alma lá,
Será vida de entremez?

Não há
Dilema
Nem traição
Para os que
Têm como lema
A ascenção
Do Povo
Aqui, acolá –
Um mundo novo!

Encarnaste
O ideal
Dos que sofrem
Pela liberdade;
Defrontaste
Os esbirros do Poder,
Para reivindicar
A espoliada dignidade.

E hoje, vens,
Homem feito,
Refeito,
Mas não defeito
Entre duas pátrias;
Pois, ambas
Se fundiram em grandeza
No teu espírito –
Que se revelou em obras
Plenas de beleza.

Raízes cá
Espírito lá –
É sina
Do Goês,
Cujo labor fecundo
Cobre a redondez
Do Mundo.

Alma peregrina
Em ti
Confia e espera
A tua Terra
Pequenina...

Wednesday, 5 December 2012

José Rangel - Lactário (1960)

“Deixei vir a mim as criancinhas”
Dorida soluça a Vida:
Almas níveas,
Boquinhas mimosas,
Pálidas de sofrer
À mingua de leite;
Mães chorando
De pungente amargura,
Luto nas almas,
Desespero...

Luz bruxoleante
Ilumina o negrume;
Nasce a esperança
Em corações que sofrem.

Jovens em flor,
Sedentos do Ideal,
Filhos da Ciência
Que arranca a Vida
Dos braços da Morte,
Almas abertas
À dor dos que gemem,
Lutam e criam.

Apoia a humanidade
A cruzada bendita.

Grão de mostarda
Lançado à terra,
Germina e floresce
Em árvore frondosa
Que alimenta e achonchega.

Sorriem as crianças,
Alegram-se as mães,
Ilumina-se o lar,
Eleva-se o mundo...

Palpitam corações
De eterna gratidão.

Jovens altivos,
Ardentes, sonhadores...
Vibrando de alegria,
Estuando de amor.
Vivem uma das horas
Mais belas
Da Vida.

Thursday, 30 August 2012

José Rangel - Meta (1978)


Arde-te o peito
Em ânsias de luz?
Segue direito
Onde a verdade te conduz!

Bebe a fundo
A Beleza
Que vibra no mundo
Da Natureza.

E à vazia mão
Que trémula se estende
Dá a bênção do pão
E a palavra que prende.

Abre a porta
Ao ente que não mascara;
Mas à grei hipócrita
Fecha-a à cara.

Abraça o Bem,
Estreita-o ao coração;
E para o Além,
Dirige a tua visão.

Alma candente,
Que lutas destemida,
É na sarça ardente
Que se sublima a vida!

Saturday, 19 May 2012

José Rangel - Autocrítica (1978)

Senhor, Deus meu!
Hóstia sagrada
No tabernáculo do meu sangue,
Nervo do meu nervo,
Suor do meu suor,
Vida da minha vida.
Sou livro aberto face ao Mundo,
Que me vê e me julga,
Ante o qual não me curvo,
Mas respeito-o,
Pois nele o meu viver,
Se entrechoca e se tempera.
De consciência alerta,
Que ora me impele ora me retrai,
Se me impus a dolorosa missão
De humilda pregoeiro da Fé,
Cônscio da minha imensa fraqueza,
Que o meu amor por Ti
A torna em força.
No báratro da Justiça
Vejo suspensa a minha vida,
Sentindo a Tua palmada
Quando me desvio,
Sentindo o Teu afago
Quando me endireito.
E nesse angustiante balanço
Me mantenho e caminho,
Vendo a Tua grandeza,
E a minha pequenez.
Em Ti, por Ti e para Ti
Vivo,
Hoje, amanhã, sempre!

Thursday, 1 March 2012

José Rangel - Síntese (1977)

“Goa has a distinct personality and it would be a pity if this was taken away” – Jawaharlal Nehru

Labuta insana,
Na colmeia humana!
Levaste
E levantaste
O nome
Da tua Terra;
Suportaste
Agruras de fome
Em tempo de guerra;
Recriaste
A imagem do teu torrão
Em época de paz
Em alheias plagas,
E as chagas
Da nostalgia do teu coração
Dulcificaste
Com o bálsamo que o amor natal traz.

Duas grandes civilizações,
Ricas de pensamentos e acções,
Deram carácter ao teu ser.
Por isso é dos outros prazer
Em ti ver
A mística do Oriente
E a vibração do Ocidente.

Cantas com a mesma alma
Mandós, ovis, dhalos e fados;
Com naturalidade vestes a gama
De trajes variegados.
Tu és: Hindu, Cristão, Moiro;
Mas o teu ethos é o mesmo.
E este tesoiro
Não se formou a esmo.

Pois vives em invejável harmonia
Com o teu semelhante;
E nessa atmosfera de sinfonia
Cresces, trabalhas, e segues avante!

Ouve, meu irmão:
Peço não te rales
Com o chauvinismo
A pôr-se em bicos de pés,
E a acusar-te de desnacionalismo.
São complexos da frustração.

Tu és goês e indiano,
E sempre te orgulhaste de o ser.
Não foi Gilberto Freyre, o mestre lhano,
Que falou de o Ocidente e o Oriente em ti conviver?
Por que temeis o ataque doidivano,
Se tens o imortal Nehru para te defender?

Saturday, 5 November 2011

José Rangel - Sob o Signo da Calma (1961)

“... por fatalidade deste signo do escritor que nos obriga a fertilizar a obra que edificamos com a seiva amarga do nosso próprio sofrimento” – Joaquim Paços d’Arcos.

Não creio que, por esses últimos tempos, livro algum tenha despertado tão grande interesse e entusiasmo entre nós, mormente na academia, como O Signo da Ira de Orlando da Costa.

Nas minhas andanças pela capital, em encontros fugidios e em demoradas conversas, aparte um ou outro comento enraivecido ou enojado à volta da “Grande Porca” de Bordalo, tivo ensejo de o ver debatido, em díspares comentário, mas todos a uma, de acordo num ponto: sentiram mais amor à sua terra, por terem entrado em mais íntimo contacto com ela...

Se os sentidos se inflamaram ante o descritivo colorido do aspecto, digamos material do homem e os corações se condoeram com o duro circunstâncias que enquadra e movimenta as personagens, tornando agro o seu viver, a isso se sobrepôs, na admiração pela obra, o sortilégio do perfeito recorte de figuras de carne e osso, plenas de intensidade emocional e riqueza humana, sofre um fundo paisagístico pletórico de cor e de verdade, enternecendo-os até o âmago do seu ser...

Antes de entrarmos de analisar, pela rama embora, a estrutura do romance, adentro das coordenadas em que se move, falemos um pedaço do autor, sem receio de incorrermos em erro, tomando para base, além duns ligeiros apontamentos pessoais, no próprio romance e o meio que o condiciona.

Moço ainda, com 18 anos apenas, deixa a sua terra, numa idade em que impera a emoção, e o espírito, pouco analítico, propende para generalizações de casos isolados que álacre ou dolorosamente o vincaram, levando na retina fundamental, um estado de coisas algo degradante.

No espírito medularmente lírico (já revelado em obra poética marcante), e por conseguinte altamente vibrátil e ressoante a todas as gradações do sentimento, sazonado pela experiência vivida e trabalhado pela cultura, essa reminência do passado se retesa e se corporiza, entra-lhe no sangue e nos nervos, toma-lhe o coração e o cérebro, em suma, se faz vivência.

Esboça-se nele um “monólogo interior”, sem o qual não há obra de arte que valha, e elabora-se a urdidura romanesca, em que a falta duma observação directa e perspicaz da realidade, a milhentas léguas da vista mas não do espírito é suprida pela intuição.

E ele o põe no papel (tinha que o pôr para evitar a frustração), levado, a cima de tudo, pela sua vocação de escritor (já manifestada), que só realizando desmistificadamente a sua missão de homem e de artista, plenamente se realiza.

“Transfigurar em beleza a própria miséria, a própria desgraça, a própria descrença, é afirmar uma crença do destino da alegria, uma esperança de vitória (...) O artista é um humilde instrumento a realizar um valor que o supera. Porque a Arte é do homem: do que cria e do que espera por essa criação”, escreveu o grande romancista Virgílio Ferreira.

Vamos agora ao romance.

O romance, para ser apreciado na sua verdadeira contextura, é mister encará-lo à luz dum critério que englobe todos os aspectos que constituem a sua trama: “o encadeamento da efabulação, a descrição dos cenários sociais ou da natureza, a doutrina, a própria linguagem, o predomínio da razão ou do sentimento” (Cruz Malpique) tendo o critico (para Sainte-Beuve, todo o leitor é um critico) de se colocar numa atitude de vigilante equanimidade e receptividade.

Como já se frisou, O Signo da Ira entronca no Neo-Realismo que, alargando e modificando as perspectivas humanas e sociais rasgadas pelo Realismo que Eça definira como “larga e poderosa Arte, fazendo um profundo e subtil inquérito a toda a sociedade e a toda a vida contemporânea”, cria uma nova estética que bebe a seiva de inesgotável riqueza, do húmus local, em que tem as raízes, mas clarificada e depurada pelo filtro do humano, na sua dimensão psicológico-social.

“Uma nova consciência se impôs” - escreve Armando Bacelar em “Vértice” – “um sentido de descoberta do humano nas realidades nacionais e regionais (...) porque a preocupação da cor local e da descrição dos particularismos regionais se sobrepõe um acentuado amor do humano, numa tentativa absorvente de extracção do resíduo universal e do sentido vivo das relações e dos quadros.”

Sem queremos entrar no cerne do romance, para lhe fazer uma real critica judicativa, a que nos falta competência, e que já se fez, em artigos lúcidos e brilhantes, não podemos negar, sem sermos estreitos de critério, que O Signo da Ira é uma obra que possui valência artística e humana.

Técnica romanesca bem cuidada, em que o autor, tendo insuflado vida às suas personagens com hálito próprio, erguidas com um forte poder evocador e de penetração psicológica, intencionalmente se apaga, para se meter na vida deles, com os seus instintos e sentimentos, reacções e conflitos, numa harmoniosa unidade de acção, sem intromissões forçadas e de doutrina que lhe quebrem o ritmo e o natural e lógico desenvolvimento, servida por um estilo vivo e cálido, justamente moldável à “situação”, enriquecida de uma pujante vegetação de imagens, no geral felizes, nas quais o homem, e a Natureza, dada em soberbas pinceladas, se articulam e se fundem, tudo integrado num “clima” fundamentalmente poético com laivos de dramatismo

(continua na 6a página)

No tocante a cenários sociais, já frisámos como é que Orlando da Costa forjou a textura do seu romance, mais pela intuitiva, pois na idade cronológica e mental em que a semente peneirou não lhe teria sido possível mergulhar no problema para o abarcar na totalidade.

Se se critica, e com razão, que à “nova estética” se sobrepõe, por vezes, a “nova mística social”, conferindo ao romance neo-realista um carácter panfletário e roubando-lhe o conteúdo humano, temos para nós, após leitura do livro, que o autor quis consciencializar não uma tese em si (criando o soi disante “romance de educação”) mas a sua atitude de espírito, duramente temperado, frente ao homem, engrenado numa estrutura social, para ele incompatível social, para ele incompatível para a sua dignificação como ser individual social.

Analizando o contexto social do romance, escreve o Dr. João Gaspar Simões, um dos mais brilhantes críticos literários da actualidade portuguesa: “”O Signo da Ira” é, assim, um romance neo-realista no sentido mais rigoroso da expressão, embora sem falsas interpretações doutrinárias da luta de classes, mas sujeição ao atavismo das castas e à fatalidade das secas, um romance, neo-realista como se nos antolha o neo-realismo quando praticado da sua estrita doutrina de escola humanista ou de ampla compreensão das desgraças sociais.”

Se é necessário que o romancistas não evada do que o rondeia, a fim da sua obra ter a crédibilité como queria Bourget, para ela ser “uma coisa viva, um pedaço de carne palpitante arrancado ao corpo da realidade”, será ela pobre de fôlego e permanência, se for apenas mera pastiche da vida real.

Pois, a verdadeira arte romanesca consiste na transposição literária ou melhor na recriação, que é filha da imaginação e da sensibilidade, sendo a verosimilhança literária muito diferente da realidade em si.

“O romancista” – di-lo Joaquim Paço d’Arcos – “do mundo real leva, para o seu reminiscência das figuras que viu, dos seres que conheceu, das coisas com que lidou. Mas não as aproveita integralmente. Esmaga essas figuras, dilui esses seres, destrói essas coisas. Umas e outras comprime e amalgama, num esforço de trituração mental.”

Com essas lembranças de vultos que passaram, de lágrimas que tombaram, de vidas ou objectos perdidos, de pequenos nadas e de grandes coisas, de momentos banalíssimos e de horas altíssimas – com tudo isso romancista forma o barro donde em seguida, arranca novas figuras, por seu cérebro e suas mãos desenhadas, ergue novos cenários e cria novos sentimentos. E nessas figuras nada há, das que a sua observação fixou para que depois o cérebro as triturasse e ao vil barro as reduzisse. Nada há, porque não reproduzem uma única das figuras anteriormente enxergadas; e tudo há, porque foram erguidas com a carne e o sangue, os sentimentos e as baixezas destas, tal como do húmus igual do solo nasce a flor ou o canto disforme.”

E Fernando Namora assevera: “A verdade da literatura nada tem que ver com a veracidade dos acontecimentos, tal como a vida os forjou. A vida troça da coerência – mas nem por isso consegue impedir-nos que, ao recriá-la, lhe imponhamos uma disciplina.”

Por outro lado, nunca me seduziu transcrever fielmente a realidade. A realidade deve ser apenas uma sugestão. Daí em diante, quanto mais nos afastamos dela, maior será o nosso poder de autenticidade”

E Adolfo Casais Monteiro escreve:

“Os romancistas não são “exemplos”; só o homem inteiramente destituído de senso artístico e de “amor” de arte lê romances para saber como se deve comportar – ou até para saber como comportou o autor. Nem se deve buscar na sua leitura o “retrato” da sociedade. Talvez aquele que tenha lido todos os romances que jamais se escreveram tenha o direito de supor e só de supor, que ficou a conhecer a sociedade universal como um todo. Não, cada romance é uma “amostra”, não é padrão. Não é uma lição, é uma tentativa de penetrar no segredo do homem, de comunicar um dos muitos sentidos em que a vida e as coisas se nos podem manifestar.”

Três notáveis e profundos depoimentos, em longa citação, para esclarecer o problema, de criação literária.

E, para finalizar esses ligeiros considerações que nos acodem ao bico da pena, e que só agora trazemos dados os nossos afazeres do dia-a-dia cheio, abordemos, ao de leve, o problema do realismo, com atitude pictórica, de ex- (continua na 5a página) pressão físico-material do homem.

Um escritor pornográfico é aquele que descreve cruamente a realidade, demorando-se especificadamente no aspecto sexual, apenas com a finalidade de “especular com o vício.”

São os romances fotográficos do sórdido bas-fond, mesquinhas na intenção, tessitura e implicação humana, animados de um sopro de erotismo e animalidade, que em pocket-books andam espalhados aos milhares neste mundo.

O realismo tem outra intenção: transpor a realidade, na sua expressão psico-social, para o plano da criação literária, sem lhe desvirtuar o verdadeiro sentido: o homem tem de ser encarado, não apenas no seu aspecto religioso, nem somente como “Homem Político” de Aristóteles nem “Homem Económico” de Karl Marx, nem “Super Homem” de Nietzsche, mas como “Homem de Carne e Osso” de Unamuno.

Pergunta-se: poder-se-á criar uma arte real que apenas se cifre no aspecto psicológico e sociológico e esqueça o material?

Responde por nós, com a sua alta autoridade de romancista consagrado...[missing] zão; na prática, porém, exigem do romancista uma visão universal acautelada por tantos filtros mortais, que terminam por dar razão aos estetas.”

E depois de afirmar que não é possível evitar a “impureza irremediável” em “arte tão profana” como é a do romance, cuja matéria é “toda a massa humana”, cita os ossos de Bernanos que, da descrição “da diabólica Mouchette”, e de Graham Greene, ao descrever “a hipersexuada Sara”, não conseguiram “apresentar o mal sem o mostrar”.

E remata:

“O Pe. João Mendes, ao julgar possível o aprofundamento do mal sem descrição exterior, mantém-se na esfera dos princípios e fala da “empresa como tal.”

Mas eu, que me encontro na triste esfera, da coisa concreta a executar, atrevo-me a pensar que a “empresa como tal”, é, mais, uma vez, aquele “óptimo possível de que se ri o razoável existente”, como eu disse há tempo a universitários de Coimbra. E assim caímos, concretamente na tal “impureza irremediável” de toda a arte profana (...)

Perante esta conclusão prática, o romancista católico de duas uma: ou escreve o que tem para escrever por confiar na sua consciência e na misericórdia do seu Deus ou desconfia da consciência e portanto da misericórdia, e, doente de escrúpulo, deixa de escrever, pura e simplesmente, repetindo a renúncia de Racine. No século XVII, o facto podia não parecer grave; mas agora, quando todos procuram reparar as desastrosas consequências da demissão dos cristãos no plano do social, haverá ainda alguns que, por amor aos princípios, não queiram ver as tristes consequências práticas que resultariam de igual demissão no plano da literatura?”

Muito mais haveria a dizer do romance O Signo da Ira, se quiséssemos trazer à luz da análise muita sombra que paira agoirenta sobre o destino dos comparsas do romance.

Incontestavelmente, Orlando da Costa, senhor duma vigorosa voz e altivamente firme na estrada que trilha, desenvolve vertical e horizontalmente um problema de feição tipicamente local, mas com os olhos sem fronteira, enriquecendo o património cultural goês, feito mais de academismo e de conformismo intelectual (salvo honrosas excepções), com o poema em prosa do “canto comum”, que com os seus claros-escuros, ficará a pesar como o sinal dos tempos...

Thursday, 25 August 2011

José Rangel - Para ti, bebe (1977)

Abriste os olhitos à luz
Do mundo, em sombras,
Ao morrer dum ano e ao nascer doutro.
Quando te visitei, dormias,
Tranquilo, boquinha fechada,
Enquanto a tua mãezinha,
Rosas no rosto, sorriso róseo,
Te velava.
Debrucei-me para ti:
Tinhas as mãozinhas em murro,
Como a prevenir os importunos:
Não me chateiam, deixem-me em paz...

É a voz do sangue
Que te fala:
Terás as meiguices da mãe,
As carícias do pai,
As bênçãos dos avós.
Levas no teu sangue
Nobres tradições
Da inteligência e do carácter.
Mas, o mundo é mundo,
Há nele de tudo:
Do mel que adoça,
Ao fel que amarga;
Maná e lama.
E ele não te deixará em paz...

Vejo-te homem:
Espancando as sombras,
Abrindo-te à luz...
Lembra, então:
É o sorriso meigo e doce da mãezinha,
É o olhar firme e sereno do paizinho,
Que te foi cadinho,
Em que te caldeaste
Às lutas da Vida.

Criança!
Para ti, e para teus pais, anelo
As bênçãos daquele outro Menino,
Que te antecedeu uns dias,
Para te mostrar caminho...

Monday, 20 June 2011

José Rangel - Nave (1961)

Na amplitude que ressoa
Um homem sofre.
Na sua alma ecoa,
Qual dobre,
O gemido profundo
Do Mundo
Em quase agonia,
Na desesperança de ver pelo trágico dia
Raiar a bonança.

Uma voz se alevanta
Compungida, doce:
Orai meus irmãos,
Que se abeira a tormenta
Do martelo e foice.
Uni as vossas mãos,
Isoladas, trémulas,
Como do rosário as contas,
E então repelireis com ela
As temíveis afrontas.

E continua assim:
Ouvi e meditai bem:
Jamais se erguerão as defesas
Que reduzir-se logo não ameacem
A pó e cinzas
Se tiverdes um coração ruim.

Quando a voz se cala
E o silêncio impera,
Um grito estala
De peito que chora.

Senhor! Perdoai, Senhor
Este ser que pejo tem
De se confessar.
Aquela fé, cujo ardor
Dizia o infamar
Para a verdade, para o bem,
É mentira, é mentira!
Jamais procurou minorar
O sofrimento de outrem;
Só viveu de impostura,
Mais fome, mais dor
Pela terra semeando.

E o martelo vai batendo!
E a foice vai ceifando!
Céleres, sem luta,
É sempre vencendo,
Na sanguinária labuta!

Monday, 6 June 2011

José Rangel - Verme (1961)

Quatro paredes sem janelas,
Se mar nem luz,
O viver de gamelas,
A alma cheia de pus…,
A exalçar as algemas
Que (pior tormento),
Sufocam as mais belas gemas
Do pensamento.

Raquítica alma
De migalhas à cata,
A chafurdar na alma
Sob calcadora pata;
Não a aperta a fome,
Não a mata a sede,
Nada a abriga a ser o que é...
A beijar viveu o nome
De quem a traz na rede,
Não pode ter-se em pá...

Chora ó alma
A tua desonra;
Mataste a chama
Que do passado fora a honra.

Lembra-te bem
Que uma eterna voz
Chama sempre do além;
Honra os teus avós...

Wednesday, 16 February 2011

José Rangel - Afirmação (1980)

A cântaros, chove…
Cordas de água fustigam
A Natureza,
Encharcando
As ruas, os campos, os homens…

Um coro de recriminações
Se eleva ao céu:
O operário e o funcionário que vão
Ao trabalho;
O operário e o funcionário que vão
Ao negócio;
O advogado que tem
Uma causa a defender;
O medico que tem
Uma vítima a socorrer.
Chora o camponês de ver
A seara inundada.

Mas em sua morada
Ninguém se detem;
Pois todos têm
Algo a perfazer…

Haverá perdas e danos;
Haverá revolta pelos enganos
De um Deus
Que lá dos céus
Vela pelos seres humanos.

Mas eu sinto,
Talvez por instinto,
Que a Vida e a Natureza
Retomarão o seu sorriso:
No aloirar da seara,
No reviçar do arvoredo,
No alento esperançoso
Do operário ao medico.

Porque eu creio no Homem,
Que pelo seu tino
Se torna senhor
Do seu próprio destino
E penhor
Do futuro.