Wednesday, 29 August 2012

JS de Almeida - Vento Levou (1953)

À sombra acolhedora da ramada que estendia os seus gigantes e hirsutos braços na espessura da noite, Luísa segredava, toda repassada de soluços:

“Prometo que casarei só contigo, Daniel. Embora meu pai não queira, serei só tua, senão morro!”

E Daniel, expandindo-se com romântico orgulho perante aquela promessa tão grave, tão cheia de alma, achegava ainda mais contra o que seu peito varonil a linda cabeça, perfumada e leve, de Luísa.

Não havia tréguas em casa para Luísa. O pai já a admoestara contra esse enfadonho namorico, pondo o rapaz em ridículo, alcunhando-o de vadio, doidivanas e outros termos mais impressionantes para desarraigar do peito inocente da filha aquela erva daninha que lá se aninhara, Deus sabe por que meios.

- Se ao menos ele ganhasse, tivesse uma posição, uma carreira, vá, podias casar-te com ele. Mas, assim, naquele pé de vagabundo em que se encontra, vivendo às sopas da pobre mãe viúva, ele, um rapagão ocioso, não é para marido da minha filha.”

- “Mas, meu pai, ele diz que vai a Bombaim ganhar. Sabe inglês, e depois de assegurar um emprego, vem pedir à minha mãe”, argumentava a pobre Luísa, avançando uma faúlha de esperança contra as arremetidas lampejantes do pai.

- “Pah!” ria o velho Sousa Carvalho, como naquele “Pah” se reunisse toda a filosofia duma vida eriçada de experiências. “Ele vai a Bombaim arranjar uma carreira? A ver vamos, minha filha, o resultado dessa epopeia. No entanto, tu perdes o tempo em acalentar ideais tão pueris que só te podem acarretar desgostos e vexames.”

Mas Luísa, embora curvasse a cabeça em silêncio filial sob o trovejar paterno, sentia que o seu coração voava ainda mais sôfrego para o pobre Daniel, contorcendo-se aos seus pés, bradando a sua jura para que ele nunca duvidasse da sua inabalável fidelidade.

E, no quarto, afundando o rosto entre almofadas rondadas, sob o olhar compassivo da Virgem do seu oratório, ela chorava a sua sina, a macabra sina de amar tanto e não poder ter o homem para si. – “Ai, que será de mim, meu Deus, se me não deixam casar com Daniel?” murmurava consigo própria, entre arrancos de lágrimas, na calada da noite, quando tudo dormia e ela revolvia-se no seu leito de amargura, sem pregar olho.

Na manhã seguinte, já o seu rosto exibia a palidez – bem visível duma noite inquieta de insónia e fundas olheiras sombreavam o seus belos olhos, trazendo a mãe em cuidados e o pai de sobrolho carregado.

- “Tu estás a arruinar a saúde, minha filha” prevenia-a a mãe, observando-a de relance por sobre os óculos reluzentes, entre suspiros compreensivos, onde parecia pairar a fina saudade dum remoto idílio.

- “Mas mãezinha, eu estoiro se não caso com Daniel. Não sei que mania a do pai em ser tão adverso, tão cruel.”

- “Teu pai só quer o teu bem, e Daniel não tem poiçá de seu. Pensa, bem, minha filha. Quando o rapaz tiver a sua carreira, pode ser então que o teu pai se convença.”, justificava a mãe em quem, como em todas as mães, o coração sempre se inclinava com ternura pelos filhos desditosos.

Mas, carreira ou não carreira, Luísa estava insistente em nunca se separar de Daniel, com seu pai queira, para a dar em casamento a um remoto parente de África, que tinha chegado de licença, todo fresco do sertão e pingando libras. Não, ela não venderia o seu coração nem pelo trono da França. Daniel era o seu ídolo, a sua vida, o seu primeiro e único amor. Sem Daniel o mundo não existia para ela, como não existia o dia sem a luz do sol.

E, encostada à janela que dava para a rua, ela ficava horas infindas a fitar a ala sombria de frondosas arvores que ladeavam a avenida do Campal por onde ela enxergaria o passo lento e firme do seu amado.

O grande relógio de chorão da sala badalava às seis. Era a hora em que o seu pai andava pelos clubes ou bares, a jogar o bridge ou discutir politica. Era essa a hora em que Daniel devia “parecer para o maior regalo do seu coração que, morto de ansiedade pelo resto do dia, parecia reviver apenas naquele instante em que os seus olhos poisavam nos deles. Seis e meia e Daniel sem aparecer! Ali, que sustos, que desespero, que desvario naqueles olhos que escrutinavam o caminho... Mas, bom Deus, ele aí vem, infalível e firme como o seu grande amor, parecendo cada dia mais triste, mais magro, mal preocupado.

O coração de Luísa parecia vibrar de doida alegria. Oh, como ele me ama! Pensava ela. E, debruçada sobre a janela entre os vasos de cravos floridos, ela mirava num ardor de paixão reprimida aquele “rapagão ocioso”, aquele “vagabundo sem ceitil”, por quem ela daria a sua vida, com orgulho e firmeza, banhada numa poça de sangue. Por Daniel era capaz de tudo!

Sentado sobre o parapeito que corria ao longo do Mandovi, Daniel ficava horas esquecidas voltado para a janela, contemplando o rosto ansioso de Luísa, que lhe sorria à distancia por entre uma moldura de flores. Daniel sacrificava tudo para não perder, uma tarde sequer, o encanto daquela doce visão – visão etérea – como se uma linda fada se tivesse apeado dum conto infantil e pestado ali à janela numa radiância de luz e flores. Luísa reunia para ele todas as delícias do seu viver. Era o sonho constante, a sublime consolação da sua existência rasa de pobre amoroso.

Daniel sentia já o peso daquele amor a esmagar-lhe a vida inteira, e cedo, pensava ele, a tumba se fecharia por cima dos seus rostos, se ele não possuísse Luísa como sua mulher. Mas era preciso adquirir uma carreira, uma profissão, para poder mostrar a Luísa que ele era homem capaz de pelejar com a sorte, ainda que fosse nas selvas virgens do Amazonas, por causa do seu amor, e se possível fosse, de erguer sobre os seus largos ombros o mundo inteiro como o lendário Atlas. Ah, como ela então se orgulharia da sua força protectora, do seu másculo vigor, do seu imenso sacrifício, capaz de abrir caminho de pólo a pólo para ela passar como a rainha do seu coração! E um impulso infrene agitava-lhe o robusto peito, atiçava um brilho raro nos seus olhos sonhadores.

E então, ele volvia-se para as águas serenas do Mandovi, correndo silenciosamente por entre a beleza irresistível das suas verdes margens; o olhar inquieto vagueava pela fileira elegante de esguios palmeiras, pelos ricos bosques e fraldas verdejantes que se erguiam dentro lado do rio, onde a vida parecia estagnada, suspensa entre os encantos da terra e a paz dos céus e pouco mais distantes, assomava a fortaleza secular e denegrida de Reis-Magos, mergulhando a franja das suas históricas muralhas no histórico rio; mais ao longe, por entre as majestosas silhuetas de Aguada e Cabo. Daniel via a imensidade do mar, e horizonte longínquo e fosco, donde parecia acenar-lhe um futuro vago, cheio de promessas e aventuras. E, depois, todo esse cenário parecia diluir-se no crepúsculo da tarde, e a figura esbelta, de Luísa resplandecia no espaço, dominando todos os encantos, todos os belos sonhos.

Sim, pensava ele, por causa dela, ele tinha de fazer aquela arrancada pela barra fora, mergulhar-se naquele horizonte remoto, abraçar o destino por terras de além – para vencer ou morrer.

Quando caía a noite e o sr. Sousa Carvalho demorava em recolher-se à casa, Daniel segredava a Luísa, à sombra dalguma copada árvore da avenida, as suas esperanças, o seu sonho de ir cavar a fortuna lá por fora, por Bombaim, donde ele voltaria com um rendoso emprego e levaria Luísa como sua legítima esposa. E ela sorria, meio triste, meio acalentada por aquela vontade férrea do seu pobre Daniel, tão pronto em se bater contra o mundo, em seu sacrifício.

- “É, Luísa, meu anjo”, afirmava ele num tom de grandes realizações, “ou eu morro como um herói vencido no campo da lide por amor de uma donzela, ou volto coberto de gloria em honesta peleja, para a fazer minha, e só minha!”

- “Ai, Daniel, se tu morres, morro eu também”, repetia ela, orgulhava daquele “pobre vagabundo” que ia remexer céus e terra por causa do seu tamanho amor! “Se eu não te pertencer, Daniel, ninguém me terá – só a sepultura!”

As estrelas observavam do alto os segredos da terra, piscando os seus olhitos maliciosos. Pelas ramagens do Campal uma doce brisa beijava as folhas num leve sussurro, e o Mandovi, enchendo-se, marulhava no silêncio da noite.

A véspera da partida de Daniel para Bombaim raio como o fim do mundo. A despedida foi tremenda, angustiosa, Luísa não cessava de chorar, enlaçando seu peito como se aquele fosse o ultimo momento da sua vida, e Daniel os olhos rasos de lágrimas, refreando os soluços como homem forte e destemido, consolava aquela frágil figura da desolação e desespero. Ela pedia-lhe para não se demorar, para voltar logo, noutro mês, não, noutra semana, logo que tivesse um pequeno emprego, e a levasse consigo, pois uma separação longa a mataria de certo; e ele afirmava que embora o seu corpo estivesse distante, ele deixava ali o seu coração despedaçado. Não, ele nunca se esqueceria dela, nem por um momento! Como seria possível, se ele ia daquela arrancada com a fé firme de fazer dela sua esposa!

Na manhã seguinte com os olhos inchados de chorar, despenteada, indiferente a tudo que a rodeava, Luísa viu da janela, através da neblina de lágrimas, o barco sulcar o Mandovi, atravessar a barra, diminuir-se à distância apagar-se por além daquele horizonte longínquo, levando Daniel, a sua alma, a sua própria vida. Não comeu naquele dia, e por algum tempo vagueava pela casa, sumida e silenciosa como uma sombra, que até seu pai, temperado em rígidos princípios, se amolecer; a mãe não a deixava, rodeando-a de cuidados e carinhos.

Pelas tardes, como por um doce e pungente hábito, ela quedava-se à janela, alongando a vista, não pela avenida por onde não soariam mais os passos de seu Daniel, mas por aquele remoto mar, impassível e cruel, que a separava agora do seu ídolo. À noite descia silenciosa e negra, as estrelas seguiam seu imutáveis cursos ao longe, no negrume, as ondas batiam nalguma desolada praia, e no peito de Luísa rugia o tumulto duma saudade infinda, dolorosa...

***

Dez anos depois.

Na gare da estação ferroviária de Margão, o comboio silvou, avançou roncando ao longo da plataforma e estacou num chiar de rodas e ranger de ferros. Do compartimento de 1a classe apeou-se um cavalheiro alto, possante, de ombros largos, bem trajado, acompanhado duma senhora elegante e duma ninhada de filhos. Na confusão de passageiros que se acotovelavam uns aos outros, ele estacou de súbito a pouca distancia dum perfil que lhe pareceu deveras familiar. O perfil voltou-se ligeiramente.

“Luísa!” balbuciou ele, adiantando-se para ela...

“Daniel...” correspondeu ela, abrindo os lábios num sorriso vago, indeciso. Estava mais gorda, mais rosada, mais linda.

As mãos tocaram-se timidamente, os olhares fixaram-se num relâmpago.

“Depois de quanto tempo!” titubeou Daniel, imperceptivelmente.

“É verdade” disse ela, baixando as pálpebras, num frémito fugaz duma fugaz saudade.

“Então, Luísa, já estás...”

Nesse instante, uma criança com dois laços prendendo as trancinhas, correu para ela, puxou-lhe pelo vestido:

“Mãezinha, o pai está a chamar, o comboio não demora.”

“Vamos, filha” respondeu Luísa; depois, voltando-se pressurosa para o cavalheiro à sua frente:

“Folguei muito em o ver, Daniel”

“Muito prazer...” murmurou ele, levando a mão à aba de chapéu.

O guarda apitou. O comboio arfou, partiu, deixando atrás densos novelos de fumo que o vento apanhou, desfez, levou...

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