Thursday, 28 July 2011

Review of Canção da Alma (1962)

Dentre os diversos livros e opúsculos que repousam sobre a nossa mesa de trabalho, aguardando revista ou análise critica, chegou a vez de nos referirmos à “Canção da Alma”, livro de versos de Alfredo Bragança, poeta goês da Nova Geração.

Trata-se duma colecção de poesias dos mais diversos tipos que vão desde a quadra ao soneto e desde o poemeto ao verso livre, escritos em língua portuguesa e reunidos num volume de boa apresentação gráfica pelas edições “Alvorada”.

Adentro do tema proposto, a “Canção da Alma” exprime os anseios da alma do poeta que se manifestam logo nos seus primeiros versos como a “Prece do Natal” que, embora de contextura simples, põem bem à mostra as tendências do seu espírito educado no velho lar goês, onde o Natal e o Presépio são temas aliciantes da juventude.

Outros temas, outras poesias vêm depois, tais como “Os Finados”, e “Via Dolorosa”, “Aspiração”, “Mors Liberatrix”, “Templo dos Poetas”, “Sonho Desfeito”, e outras ainda, através das quais se sente um decidido esforço do autor de não se deter apenas nas líricas perfumadas que de resto duma maneira geral marcam quase sempre o inicio na vida literária

Esse manifesto esforço de tratar temas com mais largueza de visão, e os anseios da alma o destino das existências, a dor, a alegria ou o travo amargo da vida, adentro das formas da poética regular, sentem-se nos seus versos como a “Missão do Poeta”, “Anseio Alado”, “As duas vozes”, mas, particularmente, nos sonetos “Aspiração”, “Transcendentalismo”, “Infância”, “Horas Esbraseadas”, “Angústia”, “Ânsia do Intangível”, “Incêndio da Alma”. São versos de poeta que sente a natureza e a vida e escuta os estranhos murmúrios sobre os quais passa indiferente, o egoísta ou o mundano, ou aquele para quem só o que luz é oiro e que na “Mãe”, tributo à memória de quem lhe deu o ser, encontram a expressão mais apurada e perfeita.

Esses versos, particularmente, e a sua expressão poética dentro das formas tradicionais, levam-nos a pensar como deveria ter sido grande no espírito de Alfredo Bragança a influência dos poetas do Romantismo que, aliás, foi notável entre gerações de goeses que se dedicaram às Letras e às Artes.

Esse ponto de partida para o desenvolvimento da arte poética entre nós, é indiscutível. Ele demonstra ao mesmo tempo quão grande foi a influência que a literatura portuguesa exerceu no nosso meio através de todas as suas Escolas, desde a clássica, a romântica e realista, quer pelo ensino liceal, quer ainda pelo interesse que os mesmos estudod despertavam nas classes ilustradas do pais, através da leitura das obras do Padre Vieira e Bernardes e dos melhores escritores portugueses como Oliveira Martins, Herculano, Eça, Ramalho, e poetas, desde Eugénio de Castro e Teixeira de Pascoais a Fernando Pessoa e outros, sem falarmos ainda da leitura das obras dos melhores escritores franceses, ingleses e alemães que tinham cultores apaixonados no nosso meio de Goa.

Todavia é digno de registo o facto de que Alfredo Bragança, estando ausente de Goa durante o longo período de 15 anos na União Indiana onde fez os seus estudos de MA, entregando-se à absorvente actividade naquele meio, soubesse conservar fortes esses laços que o ligavam à língua portuguesa, embora tivesse completado em Goa os seus estudos do Liceu.

O seu livro “Canção da Alma”, embora em uma ou outra poesia se note a repetição do termo é uma prova específica de que a língua portuguesa constitui um belo veiculo na expressão do pensamento, mas só quando posta ao serviço de quem trabalha nela com particular devoção, na Ânsia do universal.

Bem afirmou o autor no proémio do seu livro ao referir-se aos escritores goeses que deixaram suas produções, tanto em prosa como em poesia, em língua portuguesa.
O mesmo afirma peremptoriamente Kaka Kalelkar, companheiro e colaborador de Gandhi como obreiro social quando escreve na “Mensagem” dirigida a Alfredo Bragança e arquivado no mesmo livro:
“O português não é falado apenas em Portugal, mas igualmente no Brasil, em Moçambique, Angola e noutras partes. E na nossa própria terra, muitos dos meus compatriotas não só apreciam a lginua portuguesa, mais ainda o amam, tal o seu ritmo e beleza; não admira, portanto, que muitos deles tenham querido exprimir os seus mais íntimos anseios e sentimentos nessa língua”
E com essas palavras, que exprimem uma das facetas mais simpáticas do livro “Canção da Alma”, desejamos a Alfredo Bragança os melhores trunfos na sua vida literária com votos pelo aparecimento de novos trabalhos da sua lavra.

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