Monday, 1 April 2013

Agostinho Fernandes - Cortejo Fúnebre (1955)

O sino da igreja chorava lugubremente. À minha frente passava um cortejo, um cotejo fúnebre... Uma égua, velha e raquítica, com uma capa negra e desbotada, no costado, puxava languidamente o carro mortuário. De quando em quando as suas narinas dilatavam-se, e o olhar brilhava cínico com que dissesse: “uma besta viva a carregar uma besta morta!...”

Quem iria no féretro? Um velhote, diabético, vergado sob o peso da maldade? Qualquer jovem roubado à vida desvairada? Alguma mulherzinha subtraída às dores do parto...?

Atrás seguia gente: parentes e amigos, admiradores e indiferentes... Todos, num pouco à vontade, pareciam condenados... Alguns derramavam lágrimas hipócritas... Outros pareciam fulminados pela dor que não sentiam. Ainda havia alguns, talvez os mais sinceros, os mais honestos, que se entretinham a conversar.

Sem querer, sem mesmo pensar nisso, meti-me no cortejo, fui seguindo a égua cínica... O sino continuava chorando, continuava derramando lágrimas.. Como nada tinha a fazer pus-me a ouvir os comentários: “Coitadinha, estava para se casar...” “Tinha apenas vinte anos, mas que jóia de rapariga!...” “... Moça a valer, lá isso era! Que formas!...” “... Foi o coração que se estalou. E de namorar muito!” Não pude conter uma gargalhada! Que comentos! E a égua a ouvir tudo isto e a julgar...

Mas afinal porque seguia eu o cortejo? Com que fim? Nem sequer conhecia o ilustre cadáver...! Se ao menos aquilo divertisse...!

Passava-se por um restaurante. Raspei-me, meti-me por aí dentro e enquanto o café fumegava na chávena, o meu pensamento acompanhou o cortejo e voou até a casa dos mortos: lá estava ela, rapariga de 20, moça a valer e a quem o coração estalara! E o coração estalara exactamente quando se ia casar! As suas vestias imaculadas, vestias de virgem salientavam-se na escuridão da cova fria, cova de primeira classe! Vestiam-na de virgem para ser hipócrita mesmo depois de morta: davam-na um poisio de primeira classe para continuar a ser “classista”! Mas lá estava ela... O seu rosto não me parecia desconhecido. Talvez já a tivesse visto, talvez a tivesse visto muitas vezes! Sabe-se lá?... Talvez ao passar por mim, toda perfumada, toda orgulhosa das suas formas a tivesse desejado secretamente... Talvez já a tivesse despido muitas vezes com o olhar! Poderia perguntar quem era ela. Mas, para quê? Que me interessava isso? Ela estava lá. Um montão de células podres!... Aquele coração que estalara já não bateria mais! O sangue estagnar-se-ia nas veias, o cérebro deixaria de pensar, os músculos não se moveriam, os nervos não conduziriam e o seio não arfaria outra vez! Ninguém mais a desejava, ninguém mais se importará com ela, pertencerá ao passado e, daqui a dias eu próprio me esquecerei dela e do cortejo fúnebre...

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