Monday, 1 April 2013

Agostinho Fernandes - Tudo Voltará (1955)

…Ela morreu!... Morreu porque, coitada, lhe estalou o coração!

Mas terá morrido de facto? Teria deixado de existir? Sim! Aquele corpo de que ela ufanava de exibir as formas, já não existe! Desfez-se. Foi riscado o seu nome.

Para o diante, confundir-se-á com a terra, transformar-se-á nela, regressará à natureza de onde saíra para poucos dias.

Os seus órgãos despedaçar-se-ão em células, inúmeras células que perderão o poder de trabalhar, como unidades para uma unidade, destacar-se-ão egoisticamente, ganharão autonomia embora por pouco tempo e vir-se-ão libertas de escravidão do senhor – e todo – mas, por fim, degradar-se-ão também em compostos químicos cada vez mais simples até chegaram a elementos. O mesmo destino terá a brancura da roupa que lhe mascarou o corpo, as flores deliciosas que a acompanharam, as lágrimas que a molharam e o próprio palicete de pinho que lhe servira de lúgubre morada. Tudo se degradará, tudo se misturará entre si e com a terra, tudo o que foi votado à corrupção. Será uma massa anómala, idêntica a si mesma. Desaparecerão os antigos compostos químicos para se transformarem em neves, provenientes de mistura dos elementos daquelas diferentes unidades que a terra piedosamente recebeu no seu maternal seio.

Breve, tudo se dividirá em infinitas unidades químicas – os iões – que palatarão como bichos imundos presos a um corpo atirado à putrificação.

Terminações de raízes incautas obrigarão até lá. Absorverão sôfrega aquelas unidades de matéria e, a seiva fecunda correrá célere pelas veiazinhas da planta, ávida de distribuir pelos seus múltiplos órgãos aquele tóxico enverdecedor, vivificador!

Um botãozinho delgado, esquecido, banqueteará largamente naquela ceia fúnebre e daí uma flor policrómatica, viçosa, abrir-se-á impudica como uma mulher nua na cálamo nupcial.

Exalará aromas inebriantes... e as frescas brisas espalharão por toda a parte aquelas aromas fabricadas a partir de matérias pútridas... As abelhas não se demorarão em fecundar as flores sedentas de paixão, com o pólen fabricado enfim com a mesma matéria pútrida... E que deliciosas flores dali sairão?

E ninguém duvidará, ninguém pensará nisso. Deleitar-se-ão os olfactos com os magníficos aromas, galantear-se-ão as vistas com a harmonia das cores, muitos peitos se enfeitarão e se tornarão provocantes com aquelas flores, muitos paladares se saciarão com as frutas suculentas...?

Durará pouco! A natureza é pródiga e é avara ao mesmo tempo. Voltará tudo para ela. Os olfactos já não sentirão, as retinas não se admirarão, as flores murcharão e os frutos se transformar-se-ão em novas seivas e novos sangues.

Tudo voltará a natureza.. tudo, tudo o que de lá saiu. Não se perderá uma migalha, nem uma célula, nem um ião. Matematicamente tudo regressará a ela, para continuar a existir nela, eternamente. Nada se criará de novo, nem tão pouco se perderá, apenas se transformará largamente.

Sim. De facto. Embora se modifiquem integralmente os corpos e as suas formas, a natureza tem esse poder único: o de tornar imortal a sua matéria!

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